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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

dos feitos , que os portuguezes fizeram 

na conquista, e descubrimento das 

Terras, e mares do Oriente. 

DÉCADA QUINTA 

PARTE PRIMEIRA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 

anno mdcclxxix. 

Cem Vtcenga ia Real Mexa Cenforia , e Privilegio Real. 





mi 



Eí-7 



ÍNDICE 

dos capítulos, que se contém 

NESTA PAR.TE I. 

D A D E C A DA V. 

LIVRO I. 

CÁP. I. Dos grandes ódios , e guer- 
ras que houve entre os Reys de Ca- 
lecut y e Cochim : e de como faleceo o 
Çamorim : e das revoltas que houve em 
Cochim fobre o que fuccedeo fe querer ir 
coroar a Repelim : e de como Martim 
Ajfonfo de Soufa acudi o a ifjb. Pag. i. 
CAP. II. Que trata da viagem , que Diogo 
Botelho Pereira fez> pêra Portugal em bu- 
iria fufta : e da Falia , que Mejire Theojllo 
Napolitano , Eremita da Ordem de Santo 
Agoftinho , fe& ao Papa Paulo III , e ao 
Sagrado Collegio dos Car deães em louvor 
dos feitos , que fe fizeram na índia em 
tempo d'ElRey D.João o III, pelas no- 
vas que lhe mandou da fortaleza , que 
o Governador Nuno da Cunha fez em 
^ Dio. S. 

CAP. III. Da alteração que Manoel de 
Soufa Capitão de Dio fentio na gente da 
terra : e de como o Governador Nuno da 
Cunha acudio a ijfo , e defpedio Mar- 
* ii tini 



Índice 

thn Affonfo de Soufa pêra a cofia do Ma- 
lavar. 34. 

CAP. IV. Que trata da viagem , que Mar- 
tini Affonfo de Soufa Capitão mor do mar 
fez 5 quando o Governador Nuno da Cu- 
nha o mandou d cofia do Malavar : e de 
como dejiruio , e desbaratou os Príncipes 
Malavares na Ilha de Repelim , indo em 
Jua ajuda 'Jorge Cabral Capitão mór das 
nãos do Reyno , com os Capitães das 
nãos de Jua conferva 3 que ejlavam em 
Cochim peru tomar a carga da pimen- 
ta. 38. 

CÀP. V. Da antiguidade da povoação da 
Ilha de Ceilão ; do principio , e origem 
dos feus Reys : e de todos os que teve 
até Bonoega Bao F andar , que nefte anno 
de mil e quinhentos e trinta e fete rei- 
nava. 45. 

CAP. VI. De como o Madune Rey de Cei- 
tavaca tratou de tomar o Reyno ao ir- 
mão mais velho com o favor do Çamo- 
rim , que pêra ifjb lhe mandou huma grof- 
Ja Armada : e de como Mar tini Affonfo 
de Soufa teve avifo delia , e a foi bufe ar , 
e a dejiruio de todo , e pajfou a Ceilão. 59. 

CAP. VIL Das varias opiniões que houve 
entre os Geógrafos fobre qual Jeja a Ta- 
pobrana de Ptolomeu : e das razoes que 
damos pêra jer ejla Ilha de Ceilão 5 e dos 

no- 



dos Capítulos. 

nomes que fua canella tem entre todas as 
Na coes. 66. 

C AP. " VIII. Do que pajfu Diogo de Mef 
quita na Corte de Cambaya : e de como 
Soltao Badur foi a Dia \ e tratou de to- 
mar aquella fortaleza por engano : e da 
efpantofo cafo que aqui acònteceo a Ma- 
noel de Soufa Capitão da fortaleza. 81. 

CÀP. IX. De como o Governador Nuno da 
Cunha par tio pêra Dio , e no caminho en- 
controu com Diogo de Mefquita : e de co- 
mo EIRey Soltao Badur foi vi fitar o Go- 
vernador ao galeão , e de outras cou- 
fas. 89. 

CAP. X. Da defaflrada morte de Manoel 
de Soufa 3 ( apitão de Dio : e de como os 
noffos mataram EIRey : e da variedade 
que houve fohre o modo de fua morte : e 
da vida de João de Sant-Jago , e da cruel 
morte que aqui recebe o. 99. 

CAP. XI. De como foi trazido Coge Çofar 
ao Governador Nuno da Cunha : e da li- 
berdade que lhe deo : e cie como fe fevgffr 
tou por Rey cm Cambaya hum cunhado 
do Rey dos Magores : e da embaixada 
que mandou ao Governador. 10 8, 

CAP. XII. Que contém os contratos , que 
o Governador Nuno da Cunha fez com Mir 
Mahemede Zaman : e de como o Secre- 
tario os foi ver jurar por elle: e de co- 
mo 



Índice 

mo por morte de Manoel de Soufa deixou 
a António da Silveira por Capitão da for- 
taleza de Dio : e de hum homem , que trou- 
xeram ao Governador de trezentos trin- 
ta e finco annos : e de outras coufas. x 18. 
CAP. XIII. Que da conta de quem era o 
Mir Mahemede Zaman , que fe appelli- 
dava Rey de Cambaya , e de quem são 
os Usbeques : e de como fe fizeram fenho- 
res do Efiado de Camarcant : e dos no- 
mes que efia Provinda teve. 126. 

LIVRO II. 

CAP. I. De como os Governadores de 
Cambaya alevantàram por Rey Sol tão 
Mamud : e do exercito , que mandou cen- 
tra Mir Mahamede Zaman , que fe ap- 
pellidava Rey de Cambaya : e do recon- 
tro que tiveram com os Magores , em que 
ficaram desbaratados. Pag, 135Í 

CAP. II. Tias coufas , que efie anno acon- 
teceram em Maluco : e da chegada de An- 
tónio Galvão dquella fortaleza : e de co- 
mo foi bufear os Reys da Liga á Ilha de 
Tidore , onde lhes deo batalha , em que 
os desbaratou. 144. 

Cx\P. III. Da Armada que efie anno de 
1537 partio do Rey mo , de que era Capi- 
tão mor Jorge de Lima : e de como Mar~ 

tini 






dos Capítulos. 

tim Affonfo de Soufa foi ao Malavar , e 
o Governador Nuno da Cunha partio pe- 
ra Dio. 154. 

CAP. IV. Das guerras ? que em Ceilão hou- 
ve antre a que lies dous Reys irmãos : * 
do foccorro que o Camorim mandou ao 
Madune : e de como Martim Affonfo de 
Soufa desbaratou a Armada do Çamo~ 
rim em Beadald. 163. 

CAP. V. Das coufas , que mais acontece- 
ram a Martim Affonfo de Soufa em to- 
do o reflo do verão : e de como pajfou a 
Ceilão : e das pazes que aquelles Reys 
fizeram. 175% 

CAP. VI. De como o Governador Nuno da 
Cunha , por culpas que teve de D. Pedro 
de Caftello-branco , Capitão de Ormuz , 
o mandou defapojfar da fortaleza : e de 
como D. Fernando de Lima foi com hu- 
ina Armada ao Ejíreito : e das mais cou- 
fas que o Governador pajjou em Dio até 
fe recolher. 180. 

CAP. VIL Do que aconteceo a Cafarcan , 
que Soltao Badur tinha mandado nos ga- 
leões a Meca : e de como foi levado com 
todos os thefouros que levava ao Turco : 
e da Armada que elle mandou negociar 
pêra mandar d Índia centra os Portu- 
guezes : e do avifo que EIRey leve del- 
ia: e do foccorro que mandou. 1 85^ 

CAP. 



Índice 

CAP. VIII. De como o Doutor Fero Fer- 

- nandes chegou a Ormuz , e defapojfou 
D. Pedro de Caflello-branco da fortale- 
za-, e do que acontece o a D. Fernando de 
Lima na jornada do EJlreito até ir a 
Ormuz : e do que aconteceo ás nãos do 
Reyno na viagem. J91. 

CAP. IX, Das coufas que aconteceram em 
Dio , depois do Governador Nuno da Cu- 
nha partido pêra Goa : e de como Coge 
Çofar fe foi fecretamente da Cidade , e 
fe pajjbu a Cambaya , e perjuadio ãquelle 
Rey a fazer guerra aos Fortuguezes. 198. 

CAP. X. Das coufas que aconteceram em 
Ceilão : e de como o Madune por morte 
do irmão Reigao P andar fe apcderou de 
feu Reyno : e de como EIRey da Cota ca- 
fou fua filha coju hum Príncipe da cajla 
do Sol : e que cajla he efla : e porque fe 
chama ajfim. 206. 

LIVRO III. 

CAP. I. De hum maravilhofo prodígio 
das grandes vitorias , que os Portu- 
guezes houveram dos Turcos , que acon- 
teceo em Dio : e de como os Capitães d'El- 
Rey de Cambaya chegaram áquella Ilha 
com feus exércitos : e do defajire por que 
fe ateou o fogo na fortaleza. Pag. 212. 

CAP. 



dos Capítulos, 

CAP. II. De como CogeÇofar commetteo ® 
baluarte da Villa dos Rumes , e da gran- 
de refijiencia que achou nos Portuguezes : 
e de como fe recolheo ferido , e desbara- 
tado', e das coufas em que António da Sil- 
veira proveo. 218. 

CAP- III. Dos combates , que os Mouros de- 
ram aos pajjbs da Ilha : e de como Antó- 
nio da Silveira lhe parece o bem largai- 
los : e de como os inimigos entraram a 
Ilha , e tomaram os navios dospajjos. 227. 

CAP. IV. De como os Mouros entraram a 
Ilha , e António da Silveira largou a Ci- 
dade : e de como os Capitães prantdram 
fuás eftancias fobre a noffa fortaleza : c 
de alguns recontros , que os Portuguezes 
tiveram com elles > de que fempre leva- 
ram a melhor. 236. 

CAP. V. Da Armada , que o Grão Turco 
mandou pêra lançar os Portuguezes fo- 
ra da Índia : e da derrota que levou por 
todo o EJireito : e dos portos , Ilhas , e 
furgi douro s que tomou até chegar a Adem : 
e de como o Baxd houve aquelle Rey as 
mãos , e o mandou enforcar. 246. 

CAP. VI. Do que o Baxd fez em Adem , e 
do que lhe aconteceo até chegar a Dio : 
e de como hum galeão feu foi ter defgar- 
rado d cojla do Malavar 5 e foi tomado 
por António de Soto-maicr : ^ de como por 

elk 



Índice 

elle foube o Governador Nuno da Cunha 
as novas da Armada do Turco : e dosjoc- 
corros que de Goa partiram pêra Dio. 25 Ç. 

CAP. Vil. De como os Janizaros defemb ar- 
caram em terra , e fa que aram a Cidade : 
e da vifia que deram d noffa fortaleza : 
e de hum efpantofo cometa que fe vio no 
Ceo : e de como a Armada ejleve perdi- 
da naquelle poufo y e fe pajfou a Madre- 
faval. 263. 

CAP. VIII. De como E/Rey D. João tra- 
tou de mandar d índia o Infante Lom 
Luiz feu irmão , pelas novas que teve de 
Conjlant inópia , da Armada que o Turco 
mandava : e das revoltas que houve no 
Reyno , fohre EIRey querer obrigar os 
Morgados ao acompanharem : e de como 
o Infante defiftio da jornada , e foi elei- 
to D. Garcia de Noronha por Vifo-Rey : 
e da Armada , que levou no anno de 1538 : 
e de como EIRey houve Bulias do Fapa 
pêra fazer Bifpado a Igreja de Santa 
Catharina de Goa , e do primeiro Bifpa 
que fe f agrou. 26 c?. 

CAP. IX. Do que aconteceo na jornada a 
efta Armada até chegar a Moçambique : 
e de como fe perdeo o galeão de Bernal- 
dim da Silveira o Drago : e de como dal- 
li ãefpedio o Vifo-Rey Henrique de Sou- 
Ja Chichorro cem cartas a EIRey : e de 

CQ- 



dos Capítulos. 

co?no o Vifo-Rey chegou a Goa , edas cou- 
fas em que logo proveo. 281. 

CAP. X. De como os Turcos ajfentdram 
fuás eftancias febre o Cajlello da Villa. 
dos Rumes : e da grande , e efpantofa 
máquina que ordenaram pêra a commet- 
terem pela banda do mar : e de como An- 
tónio da Silveira lha mandou queimar : 
e dos nojfos navios y que chegaram dquel- 
la fortaleza. 289. 

LIVRO IV. 

CAP. I. De como os Turcos começaram 
a bater o baluarte de Gogald : e de 
como Lopo de Soufa Coutinho foi faber a 
eftado em que ejlava : e da vifta que a 
Armada inimiga deo d nojfa fortaleza : 
e do defaftre que aconteceo nos baluar- 
tes : e da conftancia , e grande fortaleza- 
que teve huma pobre mulher na morte de 
dous filhos que lhe mataram. Pag. 296. 
CAP. li. Do grande affalto , que os Turcos 
deram, ao baluarte de Francifco Pache- 
co : e do valor com que dous homens o 
defenderam : e de como hum foldado cha- 
mado António Falleiro foi d fortaleza com 
huma carta de Francifco Pacheco : e das 
ruins fufpeitas , que dejíe homem fe con- 
ceberam. 310. 

CAP. 



Índice 

CAP. 1IL De como os dú baluarte da V ti- 
la dos Rumes fe entregaram a partido 
aos Turcos : e de como João tires com 
Jinco companheiros foram mortos em de- 
fensão da bandeira de ( hrifto , e lança- 
dos no mar : e de comofeus corpos milagro- 
famente firam aportar d fortaleza. 320. 

CAP. IV. Que contém o theor de huma car- 
ta , que o Baxd ejcreveo a António da Sil- 
veira em nome de Vrancifco Pacheco : e 
do que pajjou na falia que teve com Antó- 
nio Foleiro : e da refpojla que lhe deo : e 
de como os Turcos ajjentáram fuás efian- 
cias, e começaram a bater a fortaleza. 3 2 8. 

CAP. V. Do primeiro ajfalto , que os Tur- 
cos deram ao baluarte de Gafpar de Scu- 
fa ? e do que nelle paffou. 339. 

CAP. VI. Do grande medo que deo no Ba- 
xd y tanto que.foube que o Vifo-Rey fica- 
va pêra o ir bufe ar : e da contagiofa en- 
fermidade 5 que deo em todos os da for- 
taleza : e do valor ? com que as mulhe- 
res acudiram aos trabalhos da fortifica- 
ção. 34v 

CAP. VIL De como os Turcos melhoraram 
Juas eftancias até as porem d borda da 
cava. 35'L 

CAP. VIII. Do grande ,e geral ajfalto , que 
os Turcos deram d fortaleza : e dos efpan- 
tofos cafos , que nella aconteceram. 357* 

CAP. 



r>os Capítulos. 

CkV. IX. De algumas cotifas notáveis, , 
que aconteceram aos que "vigiavam a ca- 
va : e de alguns affaltos , que os Mouros 
deram d fortaleza : e de como minaram 
o baluarte de Gafpar de Soufa. 365V 

CAP. X. De como Gafpar de Soufa commet- 
ieo os inimigos , e os nojfos reconheceram 
a mina : e do de f a (ire , porque Gafpar de 
Soufa foi morto : e de como hum foldado 
morreo de puro medo : e dos aj] altos , que 
os Turcos deram d fortaleza , e de ou- 
tras coufas. 372. 

CAP. XI. De hum novo , admirável , e nun- 
ca vijlo ardil de fogo , que os nojfos in- 
ventaram pêra fe defenderem : e dos af 
faltos que houve : e do foccorro que che-* 
gou de Goa. 381. 

CAP. XII. De como D. Duarte de Lima 
chegou com as novas de Dio ao Vifo-Rey 
D. Garcia de Noronha : e das Armadas 
que defpedio em feu foccorro : e do gran- 
de affalto que os Turcos deram ao baluar- 
te do mar. 390. 

CAP. XIII. Do grande , e perigofo affalto > 
que os Turcos deram ao baluarte do fo- 
go : e de hum honrofo , e efpantof? feito % 
que fez Fernão Penteado : e de outro mui- 
to notável , e graciofo , que fez huma da-* 
quellas mulheres : e da morte que os mo* 
ços da' fortaleza deram a hum ef crava, 

por 



Índice 

por huma palavra que dijfe em favor dos 
Mouros. 398. 

livro v. 

CAP. I. Do ardil de que os Turcos ufd- 
ram pêra verem fe podiam tomar os 
da fortaleza defcuidados : e do grande , 
e geral ajfalto que lhes deram : e dos ra- 
ros , e efpantofos cafs que nelle aconte- 
ceram. Pag. 409. 

CÀP. II. De como as outras duas batalhas 
commettêram o baluarte : e dos cafos , que 
aconteceram a alguns dos nojfos : e de co- 
mo os inimigos fe retiraram desbarata- 
dos. 421. 

CAP. III. De como o Baxd mandou reco- 
lher os [eus , e fe embarcaram : e dos a- 
percebímentos que António da Silveira 
fez pêra fe defender , cuidando fer ar- 
dil^ como da outra vez: e de como Fr a n- 
cifco de Siqueira o Ma lavar tornou com 
recado de António da Silva : e da defaf 
trada morte de António da Veiga. 431. 

CAP. IV. De como António da Silva che- 
gou á vi/la da Armada do Turco : e de 
como o Baxd , cuidando fer a Armada do 
Vifo-Rey , lhe foi fugindo : e de como a 
noffa Armada entrou em Dio : e do que 

- aconteceo ao Baxd na jornada. 439. 

CAP. V. Do que fez oVifo-Rey * tanto que 

lhe 



dos Capítulos. 

lhe deram novas da fugida dos Turcos : 
e de como Martirn Affonfo de Sou/a fe em- 
barcou pêra o Rey no : e do que fuccedeo 
na jornada a Nuno da Cunha , e faleceo 
no caminho : e de como EIRey o mandava* 
levar das Ilhas prezo em ferros. 448. 

Cx\P. VI. Das coujas , que nejle tempo fuc- 
cedêram em Ceilão : e de como o Madune 
tomou a fazer guerra a feu irmão Rey 
da Cota : e da Armada que o Vi f o- Rey 
D. Garcia de Noronha lhe mandou de 
foccorro , e elle partio pêra Dio. 4^4. 

CAP. VIL Das coufas , em que oVifo-Rey 
D. Garcia de Noronha proveo em Dio : 
e de como fe trataram pazes antre elle , 
e EIRey de Cambaya : e dos Capítulos, 
com que je concluíram. 462. 

CAP. VIII. Do que aconteceo a Miguel Fer- 
reira na jornada de Ceilão: e de como tomou 
toda a Armada do Çamorim : e dos tratos 
que teve com o Madune até matar Rachi 
Marca : e do que aconteceo a Manoel de 
Vafccmcellos na viagem do EJlreito. 471. 

CAP. IX. Do que aconteceo a Fernão de Mo- 
raes em Regú : e de como o Bramd entrou 
conquiftando aquelle Rey no : e de como Fer- 
não de Moraes por favorecer aquelle Rey 
foi morto em huma batalha : e do princi- 
pio , e origem dejles Reys dePegú: edef 
cripção daquellas Provindas. 478, 

DE- 



Carta delRey D. Filippey o I. defte nome, 

pêra Diogo do Couto , Chronifta", e 

Guarda Mor da Torre do Tombo 

do Eílado da índia. 



D 



logo do Couto. Eu EIRey vos envio 
muito fau dar. Vi vojfa Carta de Goa de 
iç. de Novembro de 93 ; e tive contenta- 
mento de me dizerdes que vos difpunheis 
a efcrever os feitos que neffas partes fe 
fizeram defdo dia que tomei pojfe deftes 
meus Reynos em diante : e que tinteis aca- 
bada a Hiftoria defde então até ao tempo 
do Governador Manoel de Soufa. E vos 
encommendo me envieis efie volume , pêra o 
mandar ver , e imprimir : e que vos ani- 
meis pêra continuardes ejia Obra dos jei- 
tos dejfas partes , defdo dia que os acabou 
ã? efcrever João de Barros : pêra que affim 
pojfam vir á luz os fervi ços , que os yneus 
vajfallos Portuguezes tem feitos aos Reys 
meus Predecejfores , e a mim. E pêra o 
melhor poderdes fazer , mandei pajfar a 
Provisão que me pedis : em que mando que 
** vos 



yosjejam dadas as Provisões , Cartas , è 
mais Papeis que vos forem neceffarios ; e 
de vos encarregar de Guarda Mor da Ca- 
já do Tombo , que mando ordenar em Goa , 
pêra nella je recolherem todos os Contra- 
tos , Provisões , Regiflos da Chancellaria , 
e todos os mais Papeis de importância , que 
eftiverem em poder do Secretario dejfas par- 
tes , e d? outras pe/foas , como fabereis do 
Vifo-Rey Mathias de Albuquerque. E vos 
encommendo muito que nifto me firvais co* 
mo de vós confio. Efcrita em Lisboa a 28* 
de Fevereiro de 595'. 

REY. 



Car- 



Carta delRey D* Filippe , o II. deite no* 

me, pêra o meímo Diogo do Couto, 

Chronifta, e Guarda Mor da Torre 

do Tombo do Eílado da índia. 



D 



logo de Couto. Eu EIRey vos envio 
muito fau dar. Vi vojja Carta , e aponta- 
mento , que com ella me enviajles , e as 
coufas de que me dais conta , tocantes d 
Cafa do Tombo , que hei por meu fervi ço 
que haja nejfe EJlado , que todas me pare- 
ceram bem. E conforme ao que fe contém 
em vojfos apontamentos , mandei pajfar Pro- 
. visões , que iram nejlas vias , que mando 
ao Vifo-Rey Aires de Saldanha que faça 
cumprir inteiramente. E vos encommendo 
muito que de vojfa parte procureis a exe- 
cução delias , e me avifeis de todas as mais 
coufas , que vos parecer que devo ter in- 
formação , pêra nellas mandar prover , co- 
mo houver por bem. 

Vi as Décadas da Wftoria da índia , 
que me mandajles , em que me hei por mui- 
to bem fervido de vós , e do bom modo , em 

que 



que nifto procedeis , que vos encommenâa 
vades continuando , e enviando-me tudo que 
fordes fazendo , pêra o mandar imprimir : 
porque de vojfos ferviços terei lembrança , 
pêra vos fazer a mercê que houver por bem. 
EJcrita em Lisboa a ig. de Fevereiro de 
602» 

REI 



DE- 



DÉCADA QUINTA. 
LIVRO L 

Da Hiítoria da índia. 



CAPITULO I. 

Dos grandes ódios , e guerras que houve 
entre os Reys de Calecut , e Cochim , e 
de como faleceo o Camorim : e das revol- 
tas que houve em 'Cochim f obre o quefuc- 
cedeo fe querer ir coroar a Repelim : e 
de como Martim Ajfonfo de Soufa acudio 
a i/Jv. 

A primeira Década de João de 
Barros fe conta largamente co- 
mo magoado o Camorim de 
EIRey de Cochim fe confede- 
rar com Pedralves Cabral, quan- 
do com eiie fez aquelles contratos de pa- 
zes , obrigando-fe a lhe dar carga de pimen- 
ta pêra as náos do Reyno , dando-lhe logo 
em terra Feitoria 5 onde deixou por Feitor 
Gonçalo Gil Barbofa , e com elle Lourenço 
Moreno, e Baflião Alvares por Efcrivães 
Couto. Tom. TL P, L A com 




i ÁSIA de Diogo de Couto 

c _pm outros três homens pêra o ferviço da 
Feitoria , e maneio da pimenta : deixando- 
ihes fazendas , e dinheiro pêra comprarem 
toda a que houvefle naquelle Reyno : o que 
íabido peloÇamorim , depois da Armada par- 
tida para o Reyno, dando-lhe os ciúmes da- 
quelle negocio, mandou dizer a EIRey de 
Cochim , que lhe mandafle entregar os Por- 
tuguezes que alli ficaram com toda fua fa- 
zenda. EIRey de Cochim pela palavra , e 
fé que delies deo a Pedralves Cabral , zom- 
bou diílò; do que tomado o Çamorim , foi 
com grande poder fobre aqueUe Rey , deí- 
truindo-o , e tomando-lhe o Reyno , matan- 
do-lhe o Príncipe Naramohim, que era her- 
deii*o do Reyno , com outros dous fobrinhos 
por traições de feus Nayres , que os defam- 
paráram peitados do Çamorim , ficando EI- 
Rey de Cochim perdido , e desbaratado , 
recolhido com os Poituguezes na Ilha de 
Vaipim , que fó lhe ficou , aífim por fer mais 
defenfavel , como por haver entre elles hum 
coítume, que ha entre osChriílaos, que lie 
haverem por religião ferem os lugares fagra- 
dos valhacouto dos que fe acolhem a elles ; 
e aífim ficarem feguros dos males que lhes 
podem acontecer , colhendo-os fora delies. 
Aífim alli ficou efte Rey até fer reftituido a 
feu Reyno pelos dous parentes Francifco , e 
Affonfo de Alboquerque. Daqui ficaram ef- 

tes 



Dec. V. Liv. I. Cap. t 3 

tès dous Reys em tamanho ódio , que nun- 
ca mais o perderam, nem o perderão, tra- 
vando- íè entre elles tão afperas , e cruéis 
guerras, como nas Décadas de João de Bar- 
ros fe conta , em que fuccedéram aquellas 
grandes façanhas , que fez Duarte Pacheco 
Pereira no palio de Cambalão. 

Por eíles ódios fe dividio todo Gentio 
do Malavar em dous bandos , lançando-fe 
todos os Reys , e Senhores á parte a que mais 
obrigação tinham : tomando appellidos pêra 
ferem conhecidos > e differençados huns dos 
outros , chamando-fe os da parte do Çamo- 
rim Paydaricuros , e os da d'ElRey de Co-- 
chim Logiricuros , como já em Itália vimos 
aquelles dous tão prejudiciaes bandos dos 
Guelfos , e Gibelinos. Os herdeiros deites 
dous Reys Gentios ficaram herdando com os 
Eftados efte ódio entranhavel , continuando 
fempre em guerras com bem de damno de 
ambos. Succedeo efte anno em que andamos 
falecer o Ça morim , e herdar aquelle Rey- 
no hum dos fobrinhos filhos de humas de 
fuás irmans , que fe achou prefente á fua 
morte j porque eíles Reys (como já muitas 
vezes diflemos) não os herdam os filhos pe- 
los haverem por fufpeitofos pela generali- 
dade das mulheres ; mas herdam os fobri- 
nhos filhos de fuás irmans, porque eftes (fe- 
jam feus pais quaes forem ) fempre ficam ferjç 
A ii dou 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

do do Tangue Real pela parte das mais. E 
deííes ainda não herda o mais velho , nem 
o filho das irmans mais velhas , fenao aquel- 
le , que for tão dito lo, que ac tempo do fa- 
lecimento do Çamorim fe achar com elle. 
Somente os Pveys de Cananor ficam fora dei- 
ta lei pelas razões que em outra parte dire- 
mos. Eíle coftume não fó fe guarda entre 
os Gentios doMalavar, mas ainda antre os 
Mouros , a quem também não herdão fenão 
os fobrinhos. 

E tornando ao fio da hiftoria, Eíle fo- 
brinho do Çamorim , que fuccedeo no Rey- 
no , efte inverno em que andamos , era obri- 
gado ir-fe coroar fobre aquella pedra que 
eílava em Repelim , de que João de Barros 
trata , que os Chins deixaram em Cochim ; 
que , fegundo algumas efcrituras muito anti- 
gas dos Malavares , foram já Senhores de to- 
da aquella fralda doMalavar, por onde fun- 
daram Cidades , e povoações , de que ainda 
hoje ha alguma memoria , como cm Cale- 
cut hum lugar chamado Chinacota , que quer 
dizer , fortaleza de Chins , e em outras mui- 
tas partes. Eííes como acharam aquellas gen- 
tes barbaras íem Rey , ordem , lei , nem po- 
licia alguma, ordenáram-lhes leis , fazendo 
em todo Malavar duas cabeças: huma com 
todo o poder fobre o temporal , com eíle ti- 
tulo de Çamorim , que quer dizer imperar 

lo- 



Dec. V. Liv. I. Cap. I. ? 

fobre todos ; e outro com toda a jurdiçao 
eípiritual , com titulo de Bramene mor , a 
quem aííentáram fua cadeira na Cidade de 
Cochim , deixando por Lei , que todos os Im- 
peradores, que íuccedefíem no Malavar , fof- 
fem tomar aenveílidura do Império da mão 
do Bramene mor , que eílava em Cochim. 
Affim como hoje ufam os Imperadores de 
Alemanha em a tomar da máo do Summo 
Pontífice ; que preíide na Igreja de Deos. E 
pêra ifto deixaram os Chins huma pedra em 
Cochim , fobre quem aquelles Imperadores 
eram obrigados a fe coroarem. 

A razão deita pedra não achámos eferi- 
to em algum Author , nem os Chins a fa- 
bem ; mas quanto a nós , devia aquillo de 
fer coílume ufado entre os antigos Reys da 
China; eaquella pedra devia de fer alguma 
coufa antre elles de grande religião , ' porque 
a trouxeram comíigo. Em fim como quer 
que foífe , eít^ lei fe foi guardando até o 
Çamorim Perimal , que recebeo alei de-Ma- 
famede ; e querendo ir acabar em Religião 
na caía de Meca, repartio feusReynos co- 
mo hoje eílam , deixando ao que deo a Ci- 
dade de Calecut o domínio fobre todos. E 
aílim como feus herdeiros fuecediam no Rey- 
no > hiam coroar- fe a Cochim fem impedi- 
mento algum : até que o Çamorim , de que 
atrás falíamos , deílruio , e tomou aquelle 

Rev- 



6 ÁSIA de Diogo de Couro 

Reyno, e levou a pedra a Repelim , aon- 
de efte que agora fuccedeo fe quiz ir co- 
roar, confederando- fe primeiro com o Prín- 
cipe de Repelim , que era Logiricuro do 
bando d'E!Rey de Cochim ; e porque não 
podia paffar áquella Ilha fem feu confenti- 
mento > ajuntou pêra iflb todo o poder de 
feuReyno. Difto foi logo avifadoElRey de 
Cochim ; e vendo que aquellns lianças , e 
amizades do Çamorim com o Príncipe de 
Repelim podiam kr deftruiçao lua 5 deo con- 
ta ao Doutor Pêro Vaz do Amaral Capitão , 
e Veador da Fazenda de Cochim , pedin- 
do-lhe ajuda pêra defender os paííos ; pêra 
o que lhe elle deo alguns navios de remo , 
que fe foram pôr naquelles rios pêra defen- 
derem a paflagem ao Çamorim. EiRey de 
Cochim também ajuntou todo o feu poder 
pêra acudir áquelie negocio em peífoa , con- 
vocando os do feu bando , que eram os Reys 
da Pimenta , de Porca , de Diamper , de Pa- 
lurte , os Manga tes Caimal , e o de caíla 
da Lua , e outros Mangates , e Aveis. O 
Doutor Pêro Vaz do Amaral defpedío logo 
recado mui apreflado ao Governador Nuno 
da Cunha com cartas fuás , e d'EiR.ey , em 
que lhe pediam acudiíTe áquelie negocio. 
Vendo o Governador quanto elle importa- 
va , defpedio logo Martim AíFonfo de Sou- 
fa Capitão mor do mar com três galés , c 

trin- 



r Dec. V. Liv. I. Gap- I. f; 

trinta navios de remo com que eílava pres- 
tes pêra ir pêra acoíla doMalavar. Os Ca- 
pitães que o acompanharam foram os feguin- 
tes : António da Silva de Campomaior , 
Manoel de Soufa de Sepúlveda , que hiam 
nas galés, Martim Corrêa da Silva , Fran- 
cifeo de Sá o dos ocolos , Francifco de Mel- 
lo Pereira, João de Soufa Rates, D. Dio- 
go de Almeida Freire , a que chamavam o 
Malavar , por fer muito curfado naquella 
coita , (que era irmão de D. João deSande, 
hum dos grandes ginetairos que nafcêram em 
Portugal , e elle b não era menos que feu 
irmão,) e outros Fidalgos, e Cavalleiros , 
que foram nefta jornada, a que não achámos 
os nomes. Dada efta Armada á vela , foram 
feu caminho , em que os deixaremos por 
continuarmos com outras coufas, que nefte 
tempo fuecedêram. 



CA- 



3 ÁSIA de Diogo de Couto 

C A PITULO II. 

Que trata ãa viagem , que Diogo Botelho 
Pereira fez pêra Portugal em huma fuf- 
ta: e da Falia que Mejlre Theqfilo Na- 
politano Eremita da Ordem de Santo 
JLgqfiinho , fez ao Papa Paulo III ', e ao 
Sagrado Collegio dos Car deães em louvor 
dos feitos , que fe fizeram na índia em 
tempo d'ElRey D. João o III , pelas no- 
vas que lhe mandou da Fortaleza , que 
o Governador Nuno ãa Cunha fez em 
Bio. 

HAvia hum Fidalgo na índia , que fe 
chamava Diogo Botelho Pereira, filho 
baítardo de António Real , que fora Capi- 
tão dç Cochim , fendo Viíò-Rey da índia 
D. Francifco de Almeida , e de huma mu» 
lher que trouxera do Reyno , que fe cha- 
mava Iria Pereira, que ficando rica, foicre- 
ando o filho em muita vaidade. E como eJU 
le era muito hábil , e tinha grande inclina- 
ção á Mathematica , deo-fe a fabella , e á 
arte de navegar , e á Esfera , em que foi 
douto , e aproveitou muito nella , e fazia 
mui bem cartas de marear. Crefcendo na ida- 
de , foram também crefcendo nelle os efpiri- 
tos, e penfamentos de maneira, que fendo 
mancebo foi levado a Portugal y onde EU 

Rey 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. 9 

Rey folgava de fallar com elle polo achar 
tão hábil , e efperto , e tão curiofo naquel- 
las coufas , em que praticava com elle. Con- 
fiado elle nas partes que tinha , e nos favo- 
res que lhe EIRey fazia , quando lhe fallava , 
pedio-lhe hum dia , que lhe fizefle mercê da 
Capitania da fortaleza deChaul; ao que lhe 
EIRey refpondeo forrindo-fe , que os Pi- 
lotos não eram Capitães de fortalezas. En- 
fadado Diogo Botelho Pereira da refpofta 
que lhe EIRey deo , fahio-fe pêra fora pê- 
ra a antecâmara , onde citava D. António 
de Noronha filho fegundo do Marquez de 
Viila Real , Efcrivão da Puridade , que já 
o tinha fido deEIRcy D.Manoel, que per- 
guntando-lhe fe o defpachára EJPvey bem , 
refpondeo Diogo Botelho Pereira: Senhor y 
o bom defpacho eu o bufe arei , onde mo da- 
rão a meu gofto. Tanto que chegou á no- 
ticia d'ElRey a refpofta que Diogo Botelho 
deo a D. António de Noronha , mandou-o 
EIRey prender no Cafteilo de Lisboa , e que 
o tiveífem a bom recado, porque arreceou 
que fe fofle pêra Caftella , e lá déííe de íi 
outro Magalhães. Alíi efteve prezo até ir 
por Viíb-Rey da índia D. Vafco da Gama 
Conde Almirante, que o pedio a EIRey pê- 
ra o levar comíigo por lho rogarem alguns 
Fidalgos feus amigos. Concedeo-lho EIRey 
ÇQva condição , que não tornafle Diogo Bo- 
te- 



io ÁSIA de Diogo de Couto 

telho Pereira a Portugal fem feu expreílò 
mandado. 

Com efte delgofto andou efte Fidalgo 
íbmpre na índia , vendo fe fe lhe offerecia 
alguma occafião honroia de poder tomar a 
Portugal. Aconteceo nefte tempo dar Soltão 
Badur Rey de Cambaya licença ao Gover- 
nador Nuno da Cunha pêra fazer fortaleza 
em Dio , coufa que tanto fe defcjava , e por 
tantas vias fe pertendia pêra mór fegurança 
do Eítado da índia. Vendo Diogo Botelho 
Pereira tão boa occafião pêra poder ir a Por- 
tugal , como era levar novas aElRey de hu- 
rna coufa , que elle tanto defejava , e por 
tal havia de feílejar muito, e fazer grandes 
mercês a quem lhas âéíTc , (corno vemos que 
fez a hum Judco , que o Governador Nuno 
da Cunha mandou por terra com cartas , cm 
que lhe dava novas , que o haviam de ale- 
grar muito por lhe dizer , que tinha forta- 
leza na Ilha de Dio , ) determinou fazer ef- 
te caminho n^uma embarcação tão pequena, 
e tão deíacoftumada em Portugal , que cau- 
faile grandiílimo efpanto ao Mundo ver que 
fe atrevera hum homem acommetter huma 
viagem tão longa , e de tão grande perigo 
rfuma embarcação tão pequena , que por tal 
havia de caufar grande admiração» 

E aífim fem dar conta a peífoa alguma 
de fua determinação ,• gaitou o inverno em 

ne- 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. ii 

negociar a fufta de todas as coufas necefía- 
rias , fazendo-lhe huma cuberta de popa a 
proa , e dous lemes , velas , rraquetes dobra*- 
dos , fateixas , e amarras de fobreceilente , e 
quatro formoícs tanques pêra agua : em fim 
tudo fez quanto lhe pareceo necefíario pêra 
poder paílar á jornada que determinava fa- 
zer. 

E como entrou o verão , embarcou-fe com 
alguns homens de fua obrigação , lançando 
fama ? que havia de ir a Melinde , pêra on- 
de comprou algumas roupas , e contas , e 
foi-fe a Baticalá , onde fez huma matalota- 
gem muito á fua vontade com efta voz de 
ir a Melinde , a que acudiram alguns mer- 
cadores Gentios, que mettêram na fufta al- 
gumas fazendas , o que elle diíllmulou por 
amor dos marinheiros , que realmente cui- 
davam que hiam pêra Melinde. E na entra- 
da de Outubro fe fez á veia com os Levan- 
tes , e foi feguindo fua viagem até Melinde , 
onde fe defembarcáram os mercadores que 
levava , e elle fez logo agua , lenha , e to- 
mou algum refrefco , tornando-fe a fahir com 
dizer aos marinheiros , que hia a Quiloa. 
Tanto que fe affaftou da terra , ferrolhou 
todos os marinheiros com cadêas , que pêra 
iffo levava , animando-os , e promettendo- 
Ihes muito dinheiro , fem todavia lhes dizer 
que hia para o Reyno , fomente lhes met- 

tia 



12 ÁSIA de Diogo de Cotff o 

tia em cabeça que hia a Çofala , e por aquel- 
fcs rios de íua cofia a relgatar ouro; e af- 
fim foi paliando por todos, tomando agua , 
e lenha , e fazendo mantimentos de carnei- 
ros , gallinhas , capados , arroz , milho , man- 
teiga , que tudo achou bem barato. 

De Çofala foi feguindo fua jornada de 
longo da cofia até paliar o Cabo das corren- 
tes \ e de longo da cofia , fem fe nunca alar- 
gar , nem apartar delia , foi tomando todos 
os rios até paliar o Cabo de Boa Efperança 
nefte Janeiro que vem de 15*37. Dalli fe foi 
engolfando com ventos bonanças , e foi de- 
mandar a Ilha de Santa Elena , onde varou 
a fufta pêra a alimpar , e concertar como 
fez , dando alguns dias de folga aos mari- 
nheiros , de que já levava alguns menos , 
que lhe morreram na terra fria , pofto que 
elíe levava vertidos feitos de panno pêra to- 
dos elles já pêra iífo. 

Partido daqui, atraveflbu aquelle grande 
golfo do mar , e tomou a derrota da Ilha 
de S. Thomé , onde fe refez de agua , le- 
nha, e mantimentos ; e dalli foi tomar abar- 
ia de Lisboa, em Maio, eftando EIRey em 
Almeyrim ; e entrou por aquelle grande , e 
formofo rio da Cidade de Lisboa dentro a 
remo , e embandeirado foi furgir na ponta 
da Goiva antes de Salvaterra por não poder 
a fufta paliar mais aílima. Cauíbu efta novi- 

da- 



t, Dec. V. Liv. I. Cap. II. 13 

dade ern toda a Cidade grande alvoroço ,. 
acudindo a ver a fufta tanta gente , que o 
Tejo era cheio de barcos. Diogo Botelho Pe- 
reira deíernbarcou em hum barél , e foi-fe a 
Almeyrim, e entrou com EIRey , a quem 
deo conta defua jornada, pcdindo-lhe ai vi- 
çaras , que já tinha hum a formo ia fortaleza 
feita na Ilha de Dio. Poílo que eftimou EI- 
Rey muito as boas novas que lhe levava da 
índia , vendo que lhe não levava cartas do 
Governador, não lhe fez gazalhados, antes 
fe carregou, epezou muito; eembarcando- 
íe em hum bargantim , foi ver a fufta em 
que entrou , e notou devagar, folgando de 
ver aquella feição de navio , mandando dar 
de veftir, e dinheiro aos marinheiros. E não 
deixou de ter a Diogo Botelho por homem 
de grande animo , e coração , e para fe lhe 
entregar , e encarregar qualquer grande fei- 
to , que fe offcreceíle. E mandou que fe 
varafíe o navio em Sacavém , onde eíteve 
muitos .annos até que acabou, indo-o ver a 
maior parte da Europa por efpanto. Dizem 
que depois delle chegou Ifac do Cayro Ju- 
deo com as cartas do Governador Nuno da 
Cunha , que elle defpedio de Dio pêra EI- 
Rey , que elle feftejou muito, e deo ao Ju- 
deo cento e quarenta mil reis de tença em 
fua vida , e outras mercês na mão. E Dio- 
go Botelho Pereira eíteve muitos annos fero 

lhe 



14 ÁSIA de Diogo de Couto 

lhe refponder , e depois lhe deo a Capita- 
nia de S. Thorné em Portugal polo ter fo- 
ra do Reyno , e depois o defpachou pêra a 
índia com a de Cananor , como em íeu lu- 
gar diremos. 

Tanto que EIRey teve as novas , mandou 
logo fazer grandes , e lblemnes procifsões , 
e devotos Officios em louvor deDeos Nof- 
fo Senhor pela mercê que lhe fizera. E def- 
pedio cartas ao Summo Pontífice de Roma > 
que era Paulo III , em que lhe fazia a fa- 
ber de como ficava tendo na Ilha de Dio 
huma formoía fortaleza , com que efperava 
de enfrear , e quebrar a foberba do Turco , 
por fer aquella a chave de toda a índia , e 
fobre que o Turco tinha mettido tanto ca- 
bedal , com o que ficava aquella fortaleza 
de Dio fazendo leguro o Eílado da índia j 
e efperava em Deos Noílb Senhor de trazer 
á obediência da Igreja Romana todo aquel- 
Ie Paganilmo , mandando-lhe huma muito lar- 
ga relação de todas as eoufas fuccedidas, de- 
pois que intentou tomar aquella fortaleza de 
Dio , até que íe lhe entregou. 

Chegadas as cartas ao Summo Pontífice , 
vendo nellas tão boas , tão felices , e alegres 
novas pêra toda a Chriftandade , mandou or- 
denar huma muito folemne procifsao , em que 
fe clle achou com todo o Sagrado Collegio 
dos Cardeaes , e diífe MiíTa em Pontifical 5 

e 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. 15 

e no cabo delia fez Meftre Theofilo Eremi- 
ta Napolitano da Ordem de Santo Agofti- 
nho , huma muito elegante falia em Latim 3 
encommendando-lha o Summo Pontífice por 
fer homem doutiffimo. E porque nella fe tra- 
ta huma breve relação de todas as couias ? 
que temos contado nefte negocio de Dio , e 
muitos louvores d'E!Rey D. João o III ? e 
da Nação Portugueza , nos pareceo bem por- 
mo-la aqui toda de verbo adverbum, afíim 
pêra authorizar com ella nolTa verdade , co- 
mo por moftrarmos que os louvores ditos 
por boca dos eftranhos ficam menos fufpei- 
tofos; pêra que veja o Mundo (como algu- 
mas vezes diíFemos ) que nós mefmos fo- 
mos os que menos cafo fazemos de noílas 
coufas , que os eftranhos. 

Falia , que Meftre Theofilo 'Napolitano Ere- 
mita fez ao Papa , e ao Collegio 
Sagrado dosCardeaes. 

» T) Adre Santiífímo , Cardcaes Príncipes 
y jl da terra : Se em algum tempo julgaftes 
» deverem-fe a alguns dos mortaes eftás fo- 
)> iemnes feitas , fantillimas ceremonias y e mui 
» claros pregões , com muita verdade , e ra- 
» zão fe deve julgar deverem-fe principal- 
» mente ao muito vitoriofo Rey de Portu- 
» gal D. João III , que com tão Angulares 



IÓ ÁSIA DE DlOGÓ DE CotJTO 

)> novas , e profperas vitorias dos inimigos de 
» Chrifto j e de nofía Santa Fé cada dia ac- 
); crefcenra , e ennobrece a Republica Chri- 
)) ílã , e íèmpre neila póe, e enthefoura no- 
» va gloria, como poucos dias ha que trou- 
))xe. 3 c fujeitou ao leu Senhorio a rorriflima 
)i Cidade de Dio , única defensão contra o 
» furor dos foberbos , e arrogantes Turcos , 
» e ao mefmo Senhor da dita Cidade , que 
» he o muito grande , e poderofo Rey de 
» Cambaya ; e defta maneira adquirio a li fa- 
» cil , e commodiílima entrada pêra fugigar 
» a Chrifto o muito grande Senhorio de to- 
» da a índia. Obras são cdãs a que fe de- 
» vem eftas grandes honras , pêra que os Au- 
)> thores delias pêra maiores coufas cada dia 
» mais fe animem. E pofto que por eftere- 
» fpeito as não fazem , entendem daqui que 
)> quando as executaram foram fuás obras a-*. 
» certadas. Mas primeiro que tudo confeíTc- 
)i mos , recebermos eíles tão Angulares bene- 
)) ficios da poderofa, e liberalinima mão do 
» Senhor Deos ; e também fe deve confef- 
J> lar , que os recebemos pela felicidade , e 
» fanfa religião de Paulo III Prefidente da 
} Republica Chriftã ; porque nunca Deos tem 
» tanta ira contra nós , nem eftá tão commo- 
»vido contra noífos peccados y que fe ef- 
» queça de lua bondade , e clemência. Nem 
»já mais eftá tão aparelhado pêra vingança „ 

)) quan- 



- Dec. V. Liv< I. Cap. II. 17 

» quando o ofFendemos , que não efteja mais 
» prompro pêra perdoar quando conhecer- 
»mos nofía culpa* 

» Ifto confeifam todos aquelles , que , pe- 
» la inclinação que tem de peccar , mediram 
» a facilidade do Senhor pêra perdoar ; e mui- 
» to mais o devemos confeílar os que vive-. 
)> mos até eíle tempo , em que como que e£* 
» tiveíTc tão provocado á ira por noíía mal- 
y> dade , que parecia tirar fua mão de nós : 
» E como por iíío éramos avexados com tan- 
» tos males , e poílos no fundo com tantas 
» perdas , que não havia já lugar pêra onde 
» fe pudeíTe fugir 3 nem nipdo pêra poder 
» efcapar ; então movido efle meimo Senhor 
» pelos regos , e lagrimas dos humildes , apla- 
» cou fua ira , e foccorreo noífas miferias f 
» pois deo por guia , rregedor da Republi- 
» ca Chriílã ao Religioíiílimo , e Santiífinio 
» Papa Paulo III 3 por cujos merecimentos 
» nos quiz antes perdoar , que caíligar por 
» noflas culpas. Porque tanto que foicreado 
» por noflbPaftor^ logo nas coufas refplen- 
» deceo nova figura , como que as da Fortu- 
» na 3 e Natureza fe mudaflem , e todas co- 
» meçáram fueceder profperamente. Antes 
»difto o crudeliffimo Rey dos Turcos mo- 
» via atrociílimas guerras contra Chriílaos , 
» fazia muitos eftragos , combatia , e tomava 
» muitas Cidades , e Reynos ; e por derra- 
Couto. Tonu IL P. L B » dei- 



i8 ÁSIA de Diogo í>-e Couto 

)> deíro o feu Barba Roxa . oufado Capitão, 
y> inimigo de Chrifto , com huma grande fro- 
» ta ameaçando , rodeou noíTos confins , e 
i) oceupou em Africa hum Reyno, e orde- 
» nou ahi aflento contra Itália , principalmen- 
» te contra eíta noíTa Cidade de Roma , e 
» ahi fe fez forte , e acerefeentou íeus exer- 
» eitos , e forças pêra que com mais facili- 
:» dade nos commettefle. Mas tanto que co- 
» meçou a governar a Igreja o Papa Paulo 
» II T ^ efte inimigo inchado com tantas viro* 
» rias tornou atrás , e a levantado com tan- 
)) tos triunfos, voltou as coftas , e foberbo com 
» tantos esbulhos, aprendeo a haver medo. 
)> Digo que começando a reinar Paulo III > 
» os inimigos de Chrifto mui poderolòs fo- 
» ram affugentados , e derramados , e luas 
)> Cidades , e munições tomadas , e fuás for- 
» ças abatidas : e das primeiras vitorias que 
y> delles fe houveram, he fem nenhuma dif- 
)> ferença aquella , que íe ganhou na índia por 
» EIRey de Portugal D, João o III. 

» Mas pêra que huma tão infignc vitoria 
â fe eíiime como ella merece fer eftimada de 
» todos os Chriftãos , peço que me ouçais > 
y> e que com todo voíTo animo atenteis , por- 
>> que hei de dizer coufas não fó dignas de 
» ferem ouvidas , mas merecedoras que de 
» neceílidade fe faibão :. ainda que a gran- 
tf deza deíle negocio me pedia mais tempo 

»do 



Dec. V- Liv. I. Cap. II. t$ 

» do que ine hedado, e pela brevidade dei- 
» le recufára com razão efte trabalho de di- 
» zer , fe me fora dado não obedecer a quem 
» mo manda; e fe me não parecera ferinais 
» feio a hum homem Religiofo calar em hum 
» triunfo , e prazer de Chriftãos tão com- 
» mum , quefallar o que pudeíle, ainda que 
» fallar não foubefíe. 

» O grande Rey D. Manoel pai defte vi- 
» dlorioío Rey D. João o III > fez muitas 
» guerras ; e ainda que deixo de fallar nos 
» outros Reys de Portugal atrás , claros , e 
» não de menos virtudes por fama , por quem 
» toda a Luíitania foi tirada do poder dos 
» Arábios , e ganhado o Reyno pêra feus 
» Succeffores , e os muitos Templos , e Ca- 
» ias fagradas que edificaram , podem dar tef- 
» ternunho de leu catholico animo pêra com 
» Deos. Mas efte grande Rey D. Manoel 
» conquiftou por armas a Ethiopia , Arábia , 
» Períia , e a índia citerior, e navegaram os 
» feus aquelle grande efpaço de mar Ocea-> 
» no , que nenhum dos mortaes antes delles 
» oufáram navegar , paliando de todo pelo 
» mar Roxo. E nas ditas partes teve muitas 
» guerras, e dco m.uitas batalhas , occupou 
» muitas , e diverfas regiões , fujeitando mui* 
» tos Rey nos , e Senhorios a feu poder. E 
» o que foi muito maior do que he todo o 
» louvor, levou o Nome , e Fé de Chriílo 
B ii » aos 



^o ASIÂ de Diogo de Couto 

»aos mais remotos fins da redondeza da ter- 
» ra. E em tão claros feitos , e vitorias fica- 
» va na índia inteiro , e Tem fer tentado dos 
» Portuguezes o Reyno de Cambava; prin- 
» cipalmente aqnclla muito fortificada Cida- 
» de , e fortaleza celebrada no dito Reyno , 
» jardim de todo o Oriente, a que chamam 
» Dio , que eílá poíh na entrada do mar In- 
»dico , e noeftremo promontório da encea- 
» da Cantincolpus , Cidade muito convenien- 
» te pêra os Portuguezes delia reíIíKrem ao 
» poder , e furor dos Turcos , que com gran- 
» de frota junta no mar da Arábia amea- 
içavam haverem de ir á dita Cidade polas 
» fozes do mar Pvoxo , e tomarem por for- 
» ça tudo o que os Chriftãos tinham oceu- 
» pado ; e que aííim feriam fenhores de to- 
» do o Império do mar Indico. 

»Era efta Cidade, aíTim pela condição, 
» e natureza do lugar , como por artificio 
» humano , inexpugnável j porque eílava edi- 
» ficada fobre huma rocha, cercada de mu- 
» ros , e de muitas torres , e valada toda 
» em roda com hum apparato de máquinas 
» de arame , que parecia fer mais própria 
» pêra fer guarda de mulheres , que pêra fe 
» nella exercitarem homens. Efta , pofto que 
» muitas vezes os Portuguezes a commettef- 
» fem com todas fuás forças , e nenhuma cou- 
» fa aproveitaífe , com tudo EIRey D. Ma^- 

» no* 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. 21 

» noel , que todas as mais coufas acabara 
»com facilidade , pêra que não fofíe vifto 
)>com alguma quebra > deíiftio defta empre- 
3»za, onde fizera tantos gaftos com perda de 
» homens , e náos , e nenhuma çoufa mais 
» defejava , e menos efperava; ; porque em 
)> pouco eítimava o nome , e fenhorio que 
» ganhava na índia 5 pois não tomava eíle 
» lugar. E como não viííe modo pêra pôr 
» por obra feu defejo , e defconfiafíe poder 
» alcançalía por faber humano , determinou 
» de a deixar , e dilatar eíla empreza pêra ou- 
» tro tempo , que lhe fuccedefle melhor , e fe 
» oíFerecefle occaíião demais profpero, efe- 
» lice fucceííb. 

» O' Rey vitoriofo , pêra iílo vos chama 
» voffa boa fortuna , e eíla vitoria fe guar- 
» da pêra vofía dita , e grande felicidade ! 
)> Ora armai-vos pêra obra , que he de tanto 
» trabalho. Que coufa haverá que vos pof- 
» fa mover d iílo ? Por ventura a difficulda- 
» de do lugar ? Como ! a prudência não ven- 
» ce tudo ? Não he ella mais poderofa que 
» a fortaleza ? Onde o leão não chega , tra- 
)> ga affim a pelle da rapofa. Pola ventura o 
» poder 5 e grande número dos inimigos põem 
» eíle medo ? Parece que não , porque lemos 
» ferem muitos quaíi íem número vencidos, 
» e desbaratados de poucos ; porque não he 
$ a multidão a que vence , fenão o valor., 

)) e 



22 ÁSIA de Diogo de Couto 

» e a prudência. Detem-vos pela ventura as 
» grandes fortalezas , e grandeza dos traba- 
alhos, e exércitos de foccorro ? Todas ef- 
» tas , e outras maiores difficuldades vence 
» a induftria , e faber da guerra. Haja von- 
» tade de commctter a obra j que não falta- 
» rá poder pêra a acabar. Se coníiderais a 
» difficuldade prefente , ponde os olhos na 
» gloria que fe efpera alcançar , e íer-vos-ha 
)> tudo fácil ; porque mais he o que fe efpe- 
» ra de premio-, do que he o que fe repre- 
» fenta de trabalho ; porque o perigo de pou- 
» co tempo fe reílaura , e fatisfaz com fe al- 
)> cançar huma glória perpétua , e fama que 
» fempre dura. E além diflb tanto mais de- 
»ce , e -goftofa foe fer a vitoria , quanto 
» com mor rifco , e perigo fe alcançou. 

» Cuidando comfigo EIRey D. João e£ 
» tas couías , ouçao-me o modo que teve 
» de alcançar a vitoria. Eíle valoroío Rey , 
)> verdadeiro imitador da gloria de feu pai , 
>parecendo-lhe que não ficara tanto herdei- 
» ro do Reyno , quanto da virtude ; e co- 
» mo tiveífe pêra íi , que não bailava pêra 
))feu Eftado defender fomente o que lhe fi- 
ncou de feu pai, Rey tão vi&oriofo , fe el- 
»le não fizefie outras coufas algumas dignas 
»de immortal memoria , e merecedoras de 
» feus Succeífores as imitarem. ( Porque os 
» Reys não' fe hão de entregar ao ócio , e 

ide- 



Dec. V.Liv. I. Cap.-II. 23, 

>í deleitações , mas hão fempre de traba- 
» lhar por coufas , que dem aos que depois 
)> vierem teftemunho de como viveram , e fo- 
» ram merecedores do Reyno , e de como 
» fizeram feitos , que os outros pudeíTem ef- 
»crever, e imitar.) Manda a feus Capitães 
» que rinha na índia , que não ceííem do ne- 
» gocio da guerra , nem menos trabalhem , 
» em quanto elle reinar , por fazerem cou- 
); fas novas , e ganharem novos Reynos , do 
» que trabalharam em tempo de feu pai ; 
» mas antes com mais promptos ânimos , e 
% esforçados corações infiílam na gloria da 
» guerra ; e que commetteflem outra vez a 
» Cidade de Dio , empreza que feu pai já 
» deixara , e em que elle não desfaleceria em 
» tão honrados começos , e que pêra toma- 
» rem aquelia fortaleza não perdoaífem a tra- 
» balhos , nem a defpezas; porque naquelle 
y> negocio coníiília toda a fumma , e perfei- 
)> ção das vitorias; e com aquelie feito aca- 
» bado fe ficava approvando fua fé, e con- 
» ftancia. 

» Os feus Capitães por obedecerem mais 
» á vontade , e mandamento do feu Rey , 
» que por terem confiança de aproveitarem 
)i alguma couía no que lhas mandava , co- 
» meçáram logo a renovar a guerra; põem 
» fua frota defronte da Cidade, lançam ge$- 
»te fora, e com diligencia alternam todos 

» os 



24 ASIÀ de Diogo de Corro 

» os lugares donde fe poíTa corametter: in- 
» íiftem na obra , commettendo-a muitas ver 
» zes com grande impeto , e furor \ ás ve- 
» zes fimulavam , e fingiam retrahir-fe pêra 
)) tomarem algumas guardas defcuidadas , não 
» deixando coufa que não tentaflem , com- 
» metteíTem , e experimentaíTem ; e por dcr- 
)) radeiro efcrevem a EIRey não terem ef- 
» perança de algum bom effeito , fem o foc- 
» corro Divino \ eque fe infiítiíTeni em com- 
ametterem a fortaleza , affirmavam que fe- 
» ria com grande damno dos feus, e perda 
» da frota. Ouvindo ifto EIRey, toma me* 
» lhor confelho por não pôr os feus a tan- 
» to perigo, e ordena levar-íè àquellenego- 
» cio por outra via , fazendo guerra continua 
» áquelle Rey , e ao Reyno , faqueando- 
» lhe Cidades , deítruindo-íhe os campos , e 
» impedindo-lhe por mar , e por terra os 
a mantimentos , até que cançado , e forçado 
;» da neceíTidade vicííe a concerto , e onere- 
s ceife fortaleza na Ilha de Dio, onde tan- 
)) to havia que fe defejava ; e o cafo fucce- 
)j deo conforme aos defejos d'ElRey, Por- 
» que Soltao Badur Rey de Cambava , per- 
» íeguido com tantas perdas , e damnos do 
» Reyno , que lhe não davam lugar pêra po- 
» der refpirar , efpantado do grande esfor* 
» ço dos Portuguezes , pêra que mereceífe 
» ília graça,, e amizade, entrega a Nuno da 

» Cu- 



Dec. V. Llv. li Cap. II. 25- 

» Cunha Governador da índia em nomç, 
)> d'EíRey de Portugal a Cidade de Baçaim 
» com todos os íeus termos , e rendas. 

*Eftá eíla Cidade junto do mar, aflen- 
» tada pêra a parte do Oriente , mui rica de 
» campos , lugares , aldeias , e ilhas , que 
» dão a EIRey cada anno de pensão cem 
» mil cruzados. E pela grande fertilidade da 
» terra he muito populofa , e abundante de 
» todas as coufas ? principalmente de matos , 
» que em muita abundância dão madeira 
» pêra edificação de todas as náos , e Ar- 
» madas. E não dahi a muito tempo , pc^ 
» ra que o Badur confirmaííe a paz , e a- 
» mizade com os Portuguezcs , fez a faber 
» a Nuno da Cunha , que determinava en- 
» tregar-fe a íi , e a Cidade de Dio com 
» alguns honeftos partidos ? e que pêra if- 
x fo fofle logo ver-íe com elle , pêra que fi- 
» zefle huma fortaleza no lugar que qui- 
)) zefle. Alvoroçado Nuno da Cunha com no- 
» vas de tanto gofto , e contentamento , par- 
» tio pêra a Cidade de Dio com fua frota 
» bem armada , que com muita diligencia 
)) ordenou edificar huma fortaleza na melhor 
» parte da Cidade fobre o porto , com ba- 
»luattes , e muros fobre o mar , e fez pa- 
» fto com EIRey de Cambaya , que não 
)) confentifíe entrarem os Turcos pelos ter- 
» mos de feus Reynos , nem os ajudaíle com 

» foc- 



2,6 ÁSIA de Diogo de Couto 

» íbccorro , nem mantimentos : e affim fez 
» outros concertos de muita honra aos Por*- 
» tuguezes , fobre o que Nuno da Cunha ef- 
)) creveo cartas a feu Rey , muito mais dií- 
» cretas , e copiofas , do que eu poderei em 
» breve dizer com palavras. 

» Mas eftando as coufas nefte eftado , íuc- 
» cedeo hum cafo muito opportuno pêra boa 
» felicidade , e dita d'ElRey de Portugal : 
lefte foi, que Hamau Paxá Rey deCarma- 
)> nia veio contra o Badur Rey deCarnbaya 
» (não fci porque caufa) com fe tenta mil fré- 
» cheiros de cavallo , fegundo os coílumes 
y> dos Parthos , e com elles duzentos mil de 
» pé : e EIRey de Cambaya bem pudera 
» cncontrallo no caminho não com menos 
» exercito que o feu , mas ufando de máos 
» confelheiros , pêra que nao paíIaíFem feus 
» foldados o perigo a arbítrio da Fortuna , 
» que principalmente tem domínio nas guer- 
» ras , retrahindo-fe de pelejar, fe recolheo 
»a parte fegura. Mas EIRey de Carmania 
» lhe tomou todos os mantimentos por fer 
y> mais esforçado com gente de cavallo. Ven- 
» do Soltao Badur perecer a fua gente á fo- 
» me , pêra que elle com os feus juntamen- 
» te nao fofle cativo do inimigo , tomou con- 
» felho fobre a fugida , que tanto que fe 
» publicou , não fe pode crer quão derriba- 
» dos , e portos por terra ficaram os cora- 

» coes , 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. 27 

» coes , e ânimos dos Toldados , e tanto eh- 
» fraquecêram cortados do medo , e temor , 
» que como os inimigos os commettêrarn , 
» faciliílimamente fe lhe rendiam , e entrega* 
» vam cruzando as mãos íem efperarem goí- 
» pe de efpada. Pelo que fahindo-fe Badur 
)> fecretamente do arraial com íua familia , 
» e riquezas , e com todo o movei de íua 
» Cala Real , fe foi acolher d Cidade de Dio , 
» fortaleza muito fegura , mais pêra íèr vif- 
» ta de longe, que pêra fe combater deper- 
» to , pêra que nella os Portuguezes foílem 
» a ília total defensão. 

» Efta fortaleza fe entregou com todas as 
)> fuás coufas a Nuno da Cunha Governador 
» da índia em nome d'EíR.ey de Portugal. 
» Deita maneira fuecedeo , que osPortugue- 
» zes não fomente tiveífem a Cidade de Dio 
» por tanto tempo defejada , mas ainda a de 
» Baçaim Cidade iníigne, cheia de muitas ri- 
» quezas , com o feu próprio Rey , e todo 
» o Reyno , que era terror da índia. Eíle vi- 
» ítorioliífimo Rey D.João fez vãos osvo- 
» tos de Alexandre , quando facrificou aos 
)> feus Deofes no mar Indico ; e depois de 
» feitos feus facrifícios , lhes rogou não per- 
» mittiífem a algum dos mortaes paílar além 
» daquelíes termos , que elle paliara ; mas El- 
»Rey D.João o 111 fez por mais largos 
% termos muito certo caminho aos feus. Ale- 

» xan- 



28 ÁSIA de Diogo de Couto 

»xandre Magno além do rio Gange cami- 
)) nhou por terra pêra a índia por caminhos 
» fabidos , e trilhados ; masElRey D.João , 
y> que abrio caminhos aos mortaes por onde 
» antes não era caminho , porque íenao cha- 
» mará Magno ? Entrou pelo mar Oceano 
» até chegar a regiões , e lugares mui deíco- 
)) nhecidos aos homens , onde nunca fe che- 
cou por navegação , e entrou pelos fins da 
)> redondeza da terra. Alexandre tem-fe por 
)> Magno , porque por onde paflava , trazia , 
»efujeitava a íeu jugo Reys , e feus Rey- 
)>nos ; pois porque por iífo mefmo não fe 
» terá affim por Magno EIRey D. João o 
» III , que todas as partes que conquiftou , 
y> trouxe a íeu poder , e fenhorio ? 

» Dizem de Alexandre Magno , que além 
» de outros feitos illuftres com que grande- 
)> mente floreceo ? foi edificar a Cidade de 
)> Dio nas partes da índia , que com nenhu- 
» mas forças fe pudeiíe vencer pelejando , e 
)) que foíTe fenhora da terra ? e do mar : por- 
» que nao fe terá por maior que elle EIRey 
» D. João , que por fua induftria tomou , e 
» fenhoreou a mefma Cidade , ainda que fof- 
» fe inexpugnável , ficando fenhor do mar , 
» e da terra? Porque fe affirma com razão, 
» que Alexandre fundou eíta Cidade, e lhe 
> chamou de íeu nome Dio ; porque elle dos 
» aduladores , e lifongeiros fe chamava D/- 

)) vus 






■Dec. V. Liv. L Cap. II. 29 

ipMS filho de Júpiter Àmon : efte vocábulo 
«Grego Divo, em língua Latina, quer di- 
)) zer Divino. E também edificou outra na 
» Aííyria do mefmo nome. 

» EIRey Badur não recufou pelejar com 
» Hamau por amoeítaçao humana ; mas o 
)> confelho Divino , que tudo difpoe fua- 
» vemente , o deteve , pêra que não experi- 
» mentafle fuás forças , nem oufaíle cominet- 
» ter as dos inimigos ; porque EIRey de Car- 
» mania , ainda que potentiífimo , não era 
» tão poderoíb , que puzefle em fugida a EI- 
» Rey de Cambaya : o poder de Deos o 
» compellio , e o fez fugir 3 e não o impero , 
» e forças de Hamau ; mas o poder da Di- 
» vina vontade o conílrangeo vir fugindo até 
»á Cidade de Dio , pêra que o fubmetcefle 
» ao arbítrio , e poder dos Chriílãos. E if- 
» to fe deve ter por muito certo argumento 
y> da Divina Providencia , fem o que devem 
» todos ter pêra fi , que nenhuma coufa acon- 
tece , nenhuma Fe faz nascoufas humanas^ 
» que Deos o não proveja y determine > e 
» declare. 

» O' Rey invencível , não vedes quanto 
» Deos eílima voíla religião , quanto favo- 
» rece vofla virtude ,- quão prefente eftá a 
» voíTos intentos , edefejos? mais tendes do 
» que defejaftes ; mais alcançaftes do que ef- 
y> peraveis } e mais do que Fe pode crer. > 

» ver- 



3o ÁSIA de Diogo de Couto 

» verdadeiro Rey D. João o Magno , que 
» pêra íi ganhou grande nome entre nações 
» ião cftranhas , eftranhas moftraítes voíTas for- 
» ças a povos indómitos , ferociílímos , e 
» pertinazes defeítimadores da vofla , e noí- 
» ia Santiflíma Fé! Enxiriftes a Religião Chri- 
»íla nos lugares y e corações das gentes re- 
» motiílímas , e ferozes : ganhaftes tãogran- 
»de numero dealrnas a Deos noflb Senhor ! 
)> Com verdade bemaventurado , que com 
» a proípera felicidade de Paulo III vencei- 
» tes a difficuidade da Natureza , e grandeza 
» das forças humanas i e o que voílbs anre- 
y> paflados não puderam , vós fó o acabaíles. 
» Com que louvores vos louvarei , que tão 
» longe eftendeftes , e tanto dilataíles o Im- 
»pcrio deChrifto? Que graças, que louvo- 
» res vos podemos dar por cerrardes o im- 
)> peto feroz dos Turcos , pêra não pode- 
» rem ter entrada nas terras dos Chriílãos ? 
» Que iníígnias , que eftatuas vos levantare- 
is mos por deftruirdes tantos exércitos de 
» Mouros , e vencerdes tantos , e tão pode- 
» rofos Reys ? Que triunfos vos ordenare- 
» mos por tantas vitorias , quantas alcançaf- 
»tes dos inimigos de Chriílo ? Que titulo 
)) vos daremos por ganhardes tantos Rey- 
» nos ? 

» Publio Cornelio Scipião r parque ven- 
.» ceo em Africa Anibal , le chanfra Africa- 

» no j 



Dec. V. Liv. I. Cap. II. 31 

» no ; Leucer feu irmão por vencer em Alia 
»ElRey Antioco, Aliatico ; Publio Corne- 
» Jio Scipião Emiliano , porque deftruio a Nu- 
» maneia , Numantino; e outros muitos me- 
» recêram nomes por gentes que venceram ; 
» mas EiRey D. João, que com loccorros 
» muito fortes , e gados immenfos fuílenta 
» nove Cidades fortiilimas em Africa , e com 
» fortaleza , e conftancia as defende dos en- 

,» contras , c combates dos inimigos de ca- 
» da dia , e ainda de cada hora ; e fegura 
» não fomente a Lufítania de que he Rey , 
»e muitos Reynos fez feus , e fempre com 
» felicidade pelejou, tendo a Deos por .lua 
» guia , náo fe chamará certo EIRey Dom 
))joao Africano, não Ethiopico , não Per- 
» fico,. não Arábico, não Indico , mas do- 
minador de todas eftas gentes, e fenhorios; 
» mas perfeguidor dos Mouros, e defenfor 
» da Religião Chrifta. Padre Beatiffimo ,. com 

. » razão vos deveis de alegrar muito , que 
» fendo Governador da barca deChriílo, ef- 
» te Rey tão vitoriofo haja paííado tão fera 
» medo tantos mares, e trazido á verdadei- 
»raFé as mais apartadas, e remotas partes 
)> da redondeza da terra ; porque as voífas 
» orações, e as noífas juntamente, fendo vós 
» o author, offerecidas diante de Deos , não 
» foram em vão , nem o Senhor Deos de to- 

- » do defeítixnou voífas 7 nem noífas lagrimas 9 

»e 



32 ÁSIA de Diogo de Gouto 

» c íuípiros. E pofto que Reys Chriftianif- 
» íimcs , e religiofiffimos contendam entre 
» íi com ódios , e perturbem a paz , e íoce- 
» go dos Chriftãos, e levantem muito gran- 
» des ondas na voíía barca , não falece com 
» tudo em outra parte Rey potentiílimo , Rey 
» poderoíiffimo , Rey religioílífímo , que não 
» peleja contra Chriftãos , mas contra os ini- 
)> migos de Chrifto : não faz entradas por ter- 
» ras de Carholicos , mas de Mouros : não 
» toma Cidades daquelles, queeftam conjun- 
» tos com a Fé , mas dos infiéis que são con- 
» tra ella : não perlègue aos Príncipes pios , 
# mas aos impiiíllmos : não derrama fangue 
)) de fieis , mas de infiéis. Efta fò empreza to- 
» mou á fua conta de deílruir o poder dos 
» Mouros , e tirar-lhes de todo o fenhorio. 
)>Efte fó caminho ordenou pêra acquirir lou- 
y> vor . debilitar-lhes as forças , porque nc- 
» nhuma coufa lhe parece melhor, que mof- 
)> trar-íe delles temido : nenhuma julga por 
» mais honefta , que fer-lhes contrario: no 
» nhuma por maior, que conftituir-le porfe- 
» nhor delles. Prouveíte a Deos , que os ou- 
» tros Príncipes Chriftãos fizcíTem ifto , e os 
» ódios , que íe tem huns contra os outros , 
» converteííem contra os inimigos de Chri- 
» fto. Senhor, fe vos aprouveíTe que eftes tra- 
)> balhaflèm por efte género de gloria , e que 
» âs forças que contra II experimentam íe 

»em- 



Dec. V. Liv. L Cap, IL 33 

* empregaíTem todas nos Turcos , e que de 
» taes feitos como eíles fe houveífem inveja 
))huns aos outros. 

» Padre Santiílimo , fe não trabalhais com 
» volTa prudência, faber , e authoridade de 
» concordar as difFerenças dos Príncipes Chri- 
» ílãos , e cortar toda a occalião de guerra ; 
)) (como na verdade fazeis ; ) fe os não exhor- 
» tais a que não fomente deixem as armas, 
)) que tomaram pêra fe deftruir , mas ainda 
» conformes nas vontades as tomem pêra apa- 
» garem os inimigos de Chrifto , e do feu 
)> Santiílimo , e glorioíiffimo Nome ; e fe os 
» não amoedais , que não fomente tornem 
)> em graça , e firme amizade , mas que fe 
)> unão pêra deftruição dos Turcos : fe algum 
» tempo não proverdes a noífas coufas, que 
)) aífím eílam affligidas , miferos de nós , com 
» que trabalhos não feremos avexados ? Que 
» invenção de males, e defa venturas não ex- 
» perimentaremos ? Por iflò, Santiílimo Padre, 
» não deíiítais de com continuas orações , e 
» piedofos votos pedir aDeos, que ajunte, 
)) e una em amor os corações , e vontades 
» deíles Príncipes , e os incite , e inflamme pe- 
)) ra opprimirem o furor dos Turcos ; e com 
» efta tal obra nos reftituam paz , e efpiri- 
» to , e clles fiquem mais gratos a Deos , e 
» dos homens mais encommendados , e por 
» taes merecimentos na Republica de Chri- 
Couto.Tom.II.P.L C ifto, 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

» fto , não huma vez , mas muitas fejam ce- 
» lebrados , como he agora o mui claro Rey 
)> de Portugal D.João III , com os mefmos 
» facrificios , e folemnes ceremonias , e iguaes 
» pregões de louvores. » 

CAPITULO III. 

Da alteração que Manoel de Soufa Capi- 
tão de uio fentio na gente da terra : e 
de como o Governador Nuno da Cunha 
acudio a ijjo , e defpedio Martirn Affon- 

\ fo de Soufa pêra a cojla do Malavar. 

D Efpedido Martirn AíFonfo de Soufa pê- 
ra Cochim , teve o Governador logo 
cartas de Manoel de Soufa Capitão de Dio , 
em que lhe pedia com muita inílancia fof- 
fe acudir ás coufas daquella fortaleza 5 por- 
que havia grandes movimentos , e alterações 
nos naturaes ; e que tinha por mui certo , 
que Soltão Badur defcarregaria fobre ella 
toda fua potencia , como de feito elle fe pre~ 
parava pêra iflb ; porque des que teve reca- 
do de ferem os Magores fahidos de feus 
Reynos , começou a resfolegar , e a tomar 
alento. E aílim logo lhe começaram a acu- 
dir alguns Rayas Resbutos feus valTallos , 
que fe fortificaram em ferras , e paflbs dif- 
ficultofos , onde efcapáram da fúria dos Ma- 
gores, E recrefcendo muita gente a ver o feu 

Rey, 



f 



Dec. V. Liv. I. Cap. III. 3? 

Rey , tornou a fazer hum potente exercito , 
com que foi viíitar feus Reynos , tornan- 
do-os a focegar, e quietar , no que gaitou 
o inverno ; e na entrada do verão tornou- 
fe pêra a Cidade de Amadahá. 

Vendo-fe efte bárbaro outra vez em fua. 
potencia , cuidando nos fucceflbs paílados, 
e de como por fua fraqueza eítivera arrifca- 
do a perder hum tamanho Império ; e que 
ella fora caufa de elle conceder fortaleza em 
Dio aos Portuguezes , (coufa que mais fen- 
tia que todas , ) de que andava tão trifle , e 
malenconizado , que não admittia confelho 
de ninguém; porque via que fuás náos, que 
daquella Ilha partiam pêra Meca , não po- 
diam já navegar com aquella liberdade que 
dantes , e que forçado haviam de tomar lai- 
vo conduíto dos Governadores da índia > 
do que fe havia por muito affrontado; por- 
que lhe ficavam tendo os Portuguezes com 
aquella fortaleza hum pé no pefcoço , co- 
mo em outro tempo a Cidade de Argos em 
Corintho em poder de Eftrangeiros a to- 
da a Grécia , que pelo muito que fubjugavam 
aquelle Império , lhe chamavam grilhões de 
Grécia. Affim , na verdade ? efta fortaleza de 
Dio o ficava fendo a todo o Reyno de Cam- 
baya. Do que o Badur andava tão apaixo- 
nado , que não havia poderem-no confolar, 
com lhe affirmarem os Grandes ? que todas 

C ii as 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

as vezes que quizeíTem izentaria a íua Ilha ; 
o que podia fazer pola fraqueza daquella 
fortaleza ? e da falta da agua , e lenha , e 
de todas as mais coufas de que fe provia 
da Ilha- que como fe lhe defendeífem , fem 
golpe de efpada lha tornariam osPortugue- 
zes a entregar. Com iílo fe moderava elle 
alguma coufa em fua paixão , mas não pê- 
ra deixarem de lha entender todos , tratan- 
do de pôr logo as mãos áquelle negocio» 

E como todos entendiam a vontade de 
feu Rey , começaram os noíTos em Dio a fen- 
tir alguma alteração na gente da Cidade , 
onde hiam comprar as coufas neceíTarias , 
porque lhes faziam os Mouros algumas fo- 
brançarias , que muitos foífriam tão mal , que 
lançavam mão ás efpadas pêra logo fe fatis- 
fazeremj e aílim fe altercavam algumas bri- 
gas , em que houve damno de parte a parte , 
o que Manoel de Soufa Capitão da forta- 
leza fentia muito , mas diífimulava por lhe 
fer aílim neceíTario , porque não tinha outra 
agua fenão a que lhe levavam da Ilha, De 
todas eftas coufas avifou logo ao Governa- 
dor , e lhe pedio que acudiíFe com muita 
preíTa a ellas. Vendo Nuno da Cunha tan- 
tos mares alevantados pola proa , encommen- 
dou tudo a Deos ; e pondo em confelho 
aquelle negocio , aífentou-fe fer neceíTario 
largar tudo , e acudir a Dio , que era o mais 

im- 



Dec. V. Liv. I. Cap, IIL 37 

importante da índia. Com eíla refolução def- 
pedio logo Diogo de Mefquita em catur mui- 
to ligeiro pêra ir a Cambaya viíitar Soltãp 
Badur como de fi , porque era muito feu 
amigo do tempo que lá cfteve cativo ; por- 
que como fabia muito bem a lingua Guza- 
rata , e era Fidalgo de muito bom entendi- 
mento , podia notar tudo , e faber por fuás 
intelligencias a determinação de Soltao Ba- 
dur; encommendando-lhe muito aquelle ne- 
gocio , e que o fofie efperar a Madre Fa- 
val , pêra que quando elle atraveíTaíle a Dio , 
o achafíe já alli pêra o avifar do que lá hia. 
Partido Diogo de Mefquita, defpachou 
o Governador as náos do Reyno , de que 
era Capitão mor Jorge Cabral , pêra irem 
tomar a carga a Cochim , efcrevendo aEl- 
Rey o eftado em que a índia ficava. Edef- 
embaraçando-fe de todos os negócios , em- 
barcou-fe pêra Dio no primeiro de Janeiro 
de 1^3 1 com fó quatro galeões , e doze na- 
vios de remo, e foi tomar Chaul, onde o 
deixaremos, porque he razão que continue- 
mos com Martim Affonfo de Soufa , que 
deixámos defpedido do Governador Nuno 
da Cunha pêra fe partir pêra Cochim. 



CA. 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IV. 

Que trata da viagem que Martim Affon- 
Jo de Soufa Capitão mor do mar fez 

- quando o Governador Nuno da Cunha o 
mandou d cofia do Malavar : e de como 
deftruio , e desbaratou os Príncipes Ma- 
lavar es na Ilha de Repelim , indo emfua 
ajuda Jorge Cabral Capitão mor das nãos 
do Reyno , com os Capitães das nãos de 
fua conferva \ que efiavam em Cochim pê- 
ra tomar a carga da pimenta. 

COmoventavam os Levantes, que eram 
profperos pêra a jornada que Martim 
Affonfo deSouía havia de fazer pêra acoi- 
ta do Malavar , em poucos dias a foi to- 
mar, por onde foi dando , deftruindo, e af- 
folando todos os lugares marítimos do Rey- 
no do Çamorim , que eftava já com todos 
os Príncipes do feu bando na Ilha de Re- 
pelim ; pofto que fua peflba não tinha ain- 
da paífado a elJa , por lho defenderem os 
noíTos navios , que já lá andavam nos paf- 
fos ; e os Príncipes da fua liga , primeiro que 
elle chegaffe. > fe tinham já mettido dentro 
com quarenta mil homens ; e o Çamorim 
eítava da outra banda com outra maior có- 
pia. EIRey de Cochim , e o Doutor Pêro 
Vaz do Amaral Veador da Fazenda , e Ca- 

pi- 



Dec. V. Liv. I. Cap. IV. 39 

pitão de Cochim , eítavam também com to- 
do o poder nos paíiòs , porque o Çamorim 
não paflaíle á Ilha , tendo com a fua gen- 
te muitas efcaramuças , em que os Portugue- 
zes , que eram feiscentos , tinham fempre o 
melhor quinhão , porque lbbre elles defcar- 
regava EIRey aquelle negocio. Depois que 
Martim Affonfo deSoufa deo aquelle gran- 
de , e foberbo caftigo pela cofta do Malavar , 
deixando-a quaíí toda mettida aferro, e fo- 
go, foi paliando a Cochim aonde chegou, 
e foube eílar EIRey de Cochim com o Ca- 
pitão fobre os paíTos de Repelim , e ajun- 
tando-fe com Jorge Cabral Capitão mor das 
náos , e com os Capitães delias , e da Ar- 
mada , poz em confelho o que faria naquel- 
le negocio , e aílentou-fe que era neceífario 
metter-fe todo o refto , e trabalhar-fe por 
deitarem fora aquelles Principes ; porque fe 
fe diffimulafle com elles , podia fer deítrui- 
ção do Reyno de Cochim, e de toda a ín- 
dia 5 pêra o que Jorge Cabral fe oífereceo 
com toda a gente de fuás náos. 

AíTentado iílo , negociou-fe o Capitão 
mór , e Jorge Cabral com todos os Capitães 
das fuás náos nos feus batéis , em que man- 
dou metter falcões , e berços , e a mór par- 
te da gente das náos , e preíles tudo , fòram- 
fe pelos rios dentro , e chegaram aos pál- 
ios, em que EIRey de Cochim com o Ca- 

pi- 



4o ÁSIA de Diogo de Couto 

pitão eftavam , de quem foi muito feftejado; 
E praticando fobre aquelle negocio , orde*» 
náram de paíTarem logo á Ilha de Repelim , 
e não confumirem o tempo em faltos , e ef- 
caramuças. Martim Affonfo de Soufa fez a- 
lardo de todos os Portuguezes ? e achou mil 
e duzentos, de que fez duas batalhas ; eelle, 
que havia de levar a dianteira , huma de to- 
da a foidadefca ; e o Doutor Pêro Vaz do 
Amaral Capitão com toda a gente das náos ; 
e a de Cochim a outra , que havia de acom- 
panhar EIRey de Cochim , que tinha com 
os do feu bando perto de quinze mil homens , 
querendo Jorge Cabral com os feus Capi- 
tães achar-fe na dianteira com Martim Af- 
fonfo de Soufa. 

Negociados todos , hum dia de madruga- 
da , faltaram em terra , onde acharam os Prín- 
cipes com groífo poder , que acudiram a 
lhes defender a defembarcaçao, travando-íe 
entre todos huma muito afpera , e cruel ba- 
talha, em que começou haver muito damno 
diambas as partes. Das particularidades def- 
ta batalha não trataremos , porque não achá- 
mos já homens dos que nella fe acharam , 
nem lembranças algumas ; fomente fabemos 3 
que eftiveram os noíTos de todo perdidos > 
tanto , que lhes foi necelfario a todos pele- 
jarem polas vidas , que todos tiveram bem 
arrifcadas. Efoi a coufa de feição , que co- 
me- 



Dec. V. Liv. I. Cap. IV. 41 

meçou a haver defmando nos noíTos em al- 
gumas partes. EIRey de Cochim , e o Dou- 
tor Pêro Vaz do Amaral também eíliveram 
em grande perigo ; mas Martim Affonfo de 
Souía foi oqueeíleve de todo desbaratado, 
por carregar fobre elle todo o poder. Aqui 
fizeram elle , Jorge Cabral , António da Sil- 
va , e outros Capitães, eCavalleiros coufas 
muito notáveis , fuftentando elles o pezo dos 
inimigos , que como defefperados remettiam 
com os noíTos , mettendo-fe por fuás armas 
fem receio , nem temor da morte. E aflim 
apertaram tanto com os noíTos, que fe vio 
Martim Affonfo de Soufa perdido , e reco- 
lherem-fe os feus como desbaratados. 

E vendo-fe naquelle tranfe , olhou pêra 
António da Silva , que eítava mais perto del- 
]e, e perguntou-lhe o que fariam ? Ao que 
lhe elle refpondeo , que já não havia outro 
confelho mais , que fe encommendar a Deos , 
e ao valor do braço. 

E acudindo-lhe á memoria hum reme^ 
dio mui apreílado , (que foi a total falvação 
de todos , ) mandou-o pôr por obra : Que 
foi mandar a hum daquelles Capitães , que 
fe embarcaíTe em alguns navios , e foífe dar 
por outra parte da Ilha pcra divertir es ini- 
migos , o que elle logo fez , (e quem foi 
não achámos em lembrança, fomente fabe- 
mos que fe embarcou, ) e com alguns na- 
vios 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

vios cheios de moços , e muitos com mui- 
tas lanças , tocando trombetas , e tambores , 
foi demandar outro paffo , fazendo tamanho 
eftrondo com os gritos , vofarias , e bom- 
bardadas , que fendo ouvidas dos inimigos , 
que andavam já como vidtoriofos , embara- 
çados com aquelle negocio, pararam , levan- 
do já Martim AfFonlb de Soufa de arran- 
cada. Eelle, como bom Cavalleiro que era, 
e de grande acordo , entendeo aquelle ter- 
mo que os inimigos fizeram , e ouvindo lá 
os eftrondos dos navios , appellidando rija- 
mente Sant-Iago , foi carregando fobre el- 
les acompanhado de Jorge Cabral , de An- 
tónio da Silva , e dos mais Fidalgos , e Ca- 
pitães : levando com aquelle impeto os ini- 
migos de arrancada y os começou a pôr em 
desbarato. 

Aífim lemos que aconteceo a Minucio 
Rufo naquella grande batalha que teve com 
os Scordifes , e Dacios ; mas efte primeiro 
que déíTe a batalha , tinha mandado a feu ir- 
mão, que com os efcravos , e outra gente 
inútil arrebentaífe por outra parte , como que 
hia de refrefco , com o que desbaratou os 
inimigos. Mas Martim Affõnfo de Soufa não 
tinha dado ordem a efte negocio , antes alli 
fe lhe offereceo de repente , e foi de tanto 
proveito , que logo os inimigos fe puzeram 
em fugida. Viítaaquella fupita mudança pe- 
los 



Dec. V. Liv. I. Cap. IV. 43 

losnoíTos, tornaram a voltar bradando Vito- 
ria , vitoria. EIRey de Cochím , e o Dou^ 
tor Pêro Vaz do Amaral Capitão de Co- 
chim , que também eftiveram em grande ba- 
lanço , ouvindo a voz , arrebentaram fobre 
os inimigos , em quem foram matando cruel- 
mente. O Príncipe de Repelim vendo-fe per- 
dido , e a deítruição que os noflbs hiam fa- 
zendo nos feus , tratou de falvar fua peflòa , 
e logo fe paflbu á outra banda por outro 
paflb, por onde fe paliaram a mor parte dos 
léus. Martim AíFonfo de Soufa foi feguin- 
do os inimigos até osenfacar, e ficar fenhor 
de toda a Ilha , que foi faqueada , e rouba- 
da ; e alli a entregou a EIRey de Cochim , 
que a mandou fortificar muito bem pelos 
paífos. 

E porque já alli não havia que fazer, por 
fer o Çamorim recolhido , deo o Capitão 
mor ordem á guarda dos rios com navios , 
e manchuas , que para iflb deixou ordena- 
dos. EIRey recolheo aquella pedra, em que 
os Çamorins fe coílumavam a coroar , que 
elle eílimou fobre todos os thefouros da vi- 
da , e com iffo . fe foram pêra Cochim , dei- 
xando EIRey alguns Caimais feus na Ilha 
com gente de guarnição. 

Jorge Cabral tratou logo da carga das 
■nãos , pêra o que começou a correr a pi- 
menta muito bem por ordem daquelles Prin- 

ci- 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

cipes , e Caimais do bando d'EIRey de Co- 
chim. E pelo ferviço que nifto fizeram a El- 
Rey de Portugal , lhes ordenou o Veador 
da Fazenda de Cochim , com parecer do 
Capitão mor , fetenta mil reis de tença cada 
anno a cada hum , pagos na Feitoria de Co- 
chim. Eftas tenças fe lhe pagaram fempre 
mui bem até o mefmo Martim Affonfo de 
Soufa tornar por Governador da índia , que 
lhas mandou tirar por poupar a fazenda 
d'ElRey ; o que fe logo começou a fentir 
na falta que começou haver de pimenta pê- 
ra as náos , fobre o que fe gaitou depois in- 
finito dinheiro em Armadas por aquelles rios , 
como em feu lugar mais largamente dire- 
mos. 

Ifto foi fempre muito ordinário , poupa- 
rem (como diz o adagio velho) os farelos, 
e derramarem a farinha ; porque eftas cou- 
fas, nem outras defta forte , não empobre- 
cem o Rey y antes o enriquecem mais. E fem- 
pre foi muito antigo enganarem-fe os Reys 
com lhes efcreverem , que lhes accrefcentam a 
fazenda , encubrindo-lhes as perdas , e da- 
mnos , que por eífa caufa , e por outras lhes 
dam. E deixando efta matéria , primeiro que 
tratemos das coufas de Dio , nos pareceo 
bem darmos relação das de Ceilão , por 
não largarmos das mãos Martim Affonfo de 
Soufa j ejá que eftá viítoriofo, ligamos íua 

for- 



Dec. V. Liv. I. Cap. V. 45 

fortuna até o cabo , e depois tornaremos ás 
coulas, que trataremos de por ii polas não 
mifturarmos. 

CAPITULO V. 

Da antiguidade da povoação da Ilha de Cei~ 
lao : do principio , e origem dos [eus Reys : 
e de todos os que teve até Bonoega Baa 
P andar , que nejle anno de mil e qui- 
nhentos e trinta e fete reinava. 

JA? que nos cabe aqui entrar com as guer- 
ras de Ceilão , ( que des que defeubrimos 
aquelJa Ilha foi fempre ao Eílado da índia 
outra Carthago a Roma; porque pouco , e 
pouco a foi confumindo em defpezas , gen- 
te, eartilheria, tanto, que ella fó tem gai- 
tado com fuás guerras mais , que todas as 
outras conquiftas defte Oriente , ) fera bem 
darmos razão do principio de fua povoa- 
ção , e da origem dos feus Reys , coufa de 
que até agora ninguém efereveo fenão nós , 
o que nos euftou muito averiguar por fuás 
próprias eferituras , que achámos em mãos 
de alguns Príncipes daquella Ilha , que vie* 
ram a efta Cidade de Goa. 

Pelo que fe ha de faber ? que perto de 
quinhentos annos antes da vinda de Chriílo , 
reinando no Reyno de Ajota (a que hoje 
chamamos Tanaçarim) hum Rey Gentio , 

que 



j\G ÁSIA de Diogo de Couto 

que então poífuia o maior Império do Ori- 
ente, porque tinha debaixo do feu fceptro 
tudo o que jaz da ribeira do Gange até Co- 
chin-China , e pelo Sertão até quaíi quaren- 
ta gráos do Norte. Efte Rey tinha hum fi- 
lho chamado Vigia Raya herdeiro do Rey- 
no, tão aveflb , e de tão eftragada nature- 
za , que em todos os fenhorios do pai lhe 
não efcapava mulher cafada , ou donzella 
que defejafle , que lhe não folie logo trazi- 
da, affrontando-as , e deshonrando-as , ma- 
tando , e efpedaçando a todos os que lho 
queriam defender , ufando outras deshuma- 
nidades brutaes ; com o que efcandalizou tan- 
to a todos , que de já o não poderem fof- 
frer fe ajuntaram os povos , e foram clamar 
ao pai, e apedir-lhe juíliça de tantas aífron- 
tas , e cruezas. E como elle eftava efcanda- 
lizado do filho por lhe não ver emenda , 
nem fentir inclinação pêra o bem , tendo-o 
já muitas vezes amoeftado , mandou em fe- 
gredo negociar muitas embarcações , e met- 
ter-lhes dentro mantimentos , e coufas ne- 
ceíTarias ; e tendo tudo preítes , tomou o fi- 
lho de fobrefalto , e o embarcou com fete- 
centos mancebos de fua idade , e dç fua crea- 
ção , que nas luas torpezas todos lhe foram 
lemprè companheiros ; porque era coftume 
naquelle Reyno o dia que nafcia o filho her- 
deiro , mandar EIRey por todos os Reynos 

que 



Dec.V. Liv. I. Cap. V. 47 

que tinha ,efcrever, e matricular todos os 
filhos machos , que no mefmo dia nafcêram , 
que traziam a Corte de fete annos por dian- 
te pêra ferem creados em companhia do 
Príncipe ; e o dia em que eíte nafceo , fe 
achou huma grande fomma delles , de que 
fetecentos eram ainda vivos. 

Depois de EIRey embarcar o filho , lhe 
difíe , que fe fofle pelo Mundo bufcar ter- 
ras que povoaífe , e que não tornaíle a feu 
Reyno , porque o havia de matar a elle , e 
a todos os mais. Partido eíte Príncipe 5 deo 
á vela , e foi á vontade dos ventos fem fa- 
ber por onde hia , e em poucos dias foi ha- 
ver vifta de huma Ilha deferta , que he ef- 
ta de Ceilão , que tomou pela banda de den- 
tro em hum porto , que fe chama Preaturé , 
que eílá entre Triquillimalé , e a ponta de 
Jafanapatao ; e defembarcando em terra , fi- 
caram muito fatisfeitos da fuavidade de feus 
cheiros , da brandura de feus ares , da fref- 
quidáo das fuás ribeiras , e da formofura de 
feus arvoredos ; pelo que determinaram de 
fe deixar alli ficar , e começaram afazer fuás 
povoações, A primeira Cidade que fun- 
daram , foi naquella parte da Mantota de- 
fronte a Manar. Aqui fe ficaram fuftentan- 
do alguns tempos do muito pefeado do mar , 
e dos rios, e das muitas, e muito excellen- 
tes frutas dos matos , que todos eram de Ia- 
ra n- 



4$ AS1A de Diogo de Couto 

ranjas , limas , e limões , e de outras diíFe- 
rentes fortes mui íuaves ao cheiro ., e mui 
faborofas aogoílo. E pela grande fertilida- 
de que acharam de tudo , puzeram nome 
áquella Ilha Lancao , que he vocábulo que 
vem a refponder ao Paraifo Terreal. Efte foi 
o primeiro nome que teve, e o feu verda- 
deiro , que ainda conferva. 

Havendo alguns mezes que cftes eftran- 
geiros alli eílavam , foram ter áquella Ilha 
humas embarcações da outra cofta á pefcaria 
dos aljofres , ( de que alli ha grande quan- 
tidade,)^ vindo á falia com os que nellas 
hiam , íouberam ferem de hum Reyno , que 
ficava da outra banda da terra firme hum 
dia de caminho , em que reinava hum Se- 
nhor chamado Cholca Raya j e tomando a 
informação do feu Eílado , e poder , tratou 
o Príncipe de fe aparentar com elle. Pelo 
que defpedio nas mefmas embarcações alguns 
Embaixadores , por quem lhe mandou pedir , 
que pois ficavam tão vizinhos , houveífe por 
bem , que fe communicaíTem , e fe ajuntai- 
fem em parentefeo , dando-lhe huma filha 
em cafamento , e algumas outras de peílbas 
nobres de feus Reynos pêra mulheres da- 
quelles homens , que trazia em fua compa- 
nhia. Eítes Embaixadores chegaram á ou- 
tra cofia , e foram levados a EIRey , que 
os recebeo bem> e fabendo do Príncipe, e 

cu- 



Dec. V- Liv. I. Cap. V. 49 

cujo filho era , (por fer o pai muito conhe- 
eido por todo o Oriente,) houve-le pordi- 
tofo em fe querer aparentar com elle , re- 
fpondendo-lhe a propofito, e mandando-lhe 
fazer muitos cumprimentos. E depois depaí- 
farem viíítas de parte a parte , lhe mandou 
huma filha pêra elle , muito bem acompanha- 
da de donas , e donzellas , e huma lòmma 
de outras filhas de homens nobres pêra os 
da fua companhia , celebrando-fe as vodas 
entre todos com grandes folemnidades : dal- 
li por diante continuaram , e communicáram 
de huma parte á outra , paflando-fe muitas 
peflbas a viver áquella Ilha, principalmen- 
te os officiaes de toda a mecânica , e agri- 
cultores , com feus arados , fementes , gados , 
e todas as mais coufas neceflarias pêra a vi- 
da humana. Com ifto fe começou aquella 
Ilha a engrandecer , e a povoar pelo lertão 
de maneira , que fizeram grandes , e formo- 
fas Cidades, e povoações. 

E porque aqucllas gentes alli foram de- 
gradadas , lhes chamaram os da outra cof- 
ta Gailás , que he o mefmo que deíterradas. 
Vendo aquelle Principe como as coufas da- 
quella Ilha crefeiam tanto, fe intitulou por 
Imperador da Ilha Lancao ; pofto que tam- 
bém os eftranhos lhe chamaram illenáre , 
que em lingua Malavar quer dizer o Rey* 
no da Ilha , que he o fegundo nome que 
Couto.Tom.ILPJ* D te- 



£0 ÁSIA de Diogo de Couto 

teve. E como eítes deíterrados falia vam a 
lingua Tanaçarim , que era íua própria , de- 
pois que fe ajuntaram por cafamentos com 
as mulheres da outra coíla , que fallavam 
Malavar, (que he a mais ufada que ha na- 
quella cofta do Canará , ) miílurando-fe ef- 
tas línguas ambas , vieram a formar a que 
hoje ufam , poílo que os mais faliam Mala- 
var eftreme. Viveo eíle Rey vinte e cinco 
annos , e por não ter filhos deixou o Rey- 
no a hum feu irmão, que emfua vida man- 
dou pedir ao pai ; porque logo , tanto que 
aflentou vivenda naquella terra, fe commu- 
nicáram , e commerciáram huns c'os outros. 

Efte irmão , que lhe íucccdeo , teve mui- 
tos filhos , em cujos defcendcntes andou a- 
quelle Reyno novecentos annos fem fahir 
da linha. Paífados elles , foi ter a poder de 
hum chamado Dambadine Pandar Pracura 
Mabago , ou Bao , de quem logo trataremos. 
Daqui por diante começou eíla Ilha a fer fa- 
mofa no Mundo pela muita , e muito fina 
canella que feus matos dão. 

E como os Ghins foram os primeiros, 
que navegaram pelo Oriente , tendo noticia 
da canella , acudiram muitos juncos áquella 
Ilha a carregar delia, e dalli a levaram aos 
portos de Perfia , e da Arábia, donde paf- 
fou á Europa , como adiante melhor dire- 
mos. AÍIim ficou eíla Ilha tão continuada 

dos 



Dec. V. Liv. L Cap. V- fi 

dos juncos Chins, que todos osannos hiam 
a eJla grande cópia dclles , de que fe deixa- 
ram ficar muitos Chins na terra , e fe mif- 
turáram por cafamentos com os naturaes ; 
dantre quem nafcêram huns miftiços , que 
fe ficaram chamando Cim Gallás , ajuntan^ 
do o nome dos naturaes , que eram Gallás , 
aos dos Chins, cujo próprio nome heCim, 

| e formaram aquelle , que hoje corruptamen- 
te chamamos Chingallás , que vieram por 

! tempos a fer tão famofos , que deram o feu 
nome a todos os da Ilha. 

E allim como procedem dos Chins , que 

! fam os mais falfos Gentios do Oriente , e 

| dos degradados , que foram lançados de fuás 
próprias terras por máos y e cruéis ; aílim 

; iam todos os defta Ilha os mais fracos j fal- 
fos , e enganofos que ha em toda a índia , 

! porque nunca até hoje em Chingallá fe achou 
fé , nem verdade. E como os Chins ficaram 
continuando o commercio deita Ilha , e Iam 
máos (como diííèmos) foi alli terhumaAr- 

|mada fua, fendo Rey Dambadine Pandar, 

ique affima nomeámos ; e não fe receando 
delles os da terra , o dia que fe quizeram 
embarcar , cativaram o Rey , e faqueáram- 

ilhe a Cidade ; e levando delia muito grof» 

1 fos theíburos , fe foram pêra a China , e apre- 
ifentáram o Rey cativo ao feu* Ifto fentio el- 
le muito pela traição } que feus vaflalloã íize- 

D ii ram 



52 ÁSIA de Diogo de Cúvto 

râcn a hum Rey , que os agazalhava na fua 
terra : e logo lhes mandou , oue fob pena de 
morte otornalTem apor em íeuRcyno, pê- 
ra o que mandou ordenar huma Armada em- 
que o embarcou muito honradamente : e dei- 
xallo-hemos por ora até tornar a elle. 

Tinha eíte Rey cativo huma filha viuva , 
que com dous filhos meninos que tinha, quiz 
lua ventura que efeapaíle aos Chins o dia 
do facco , e com elles fe foi recolhendo pê- 
ra eíTe Sertão. Embarcados os Chins y como 
não ficou filho ao Rey ., lançou mão do Rey- 
no hum Gentio chamado Alagexere , a quem 
o mefmo Rey tinha dado o governo do Rsy- 
no. Eíte vendo-fe naquelle eftado ,. fazendo 
a cubica de reinar feu officio , trabalhou mui- 
to por haver a Princeza com os Príncipes ás 
mãos pêra os matar, e ficar feguro noRey- 
no. Efta Senhora foi avifada deite negocio ; 
e querendo fegurar os filhos , paííou-fe com 
elles ás partes de Ceita-vaea em trajos mu- 
dados, e em tanto fegredo, que fenão fiou 
de peííba alguma : alli fe deixou eftar fuf- 
tentando os filhos pobremente. O traidor ha- 
vendo os moços por mortos , coroou- fe por 
Imperador de toda a Ilha j e havendo pou- 
co mais de dous annos que governava , che- 
gou a Armada da China , que trazia o feu 
Rey, e foi tomar o porto de Columbo. O 
tyranno o foi receber coxn moftras mui ei*- ' 






D ec. V. Líti I. C ap. V. -y j 

gnnofas j e levando-o pêra a Cidade aquel- 
ía noite , o matou , ficando elle Rey , em que 
viveo dez annos. Defte tyranno não ficaram 
filhos , e ficou o governo do Reyno a htun 
Chagatar , homem fabio , e moralmente vh> 
tuofo. Efte a primeira coufa que fez , foi 
mandar bufcar os Príncipes, que andavam des- 
terrados , já fem mai ; e fendo trazidos diante 
delle , os recebeo como Senhores 9 jurando lo- 
go por Imperador o mais velho , que fe cha- 
mava Mana Pracura Mabago , que já feria 
de dezefeis annos , e o cafou com huma fi* 
lha do Senhor de Cândia feu valTallo , e pa- 
rente : e ao outro irmão , que fe chamava 
Madune Pracura Mabago , deo EIRey o Ef- 
tado das quatro Corlas. Efte Maha Pracura 
mudou fua Corte pêra a Cidade da Cota , 
que fundou de novo pela mefma maneira , 
e occafiao que os Reys do Decan tanto de- 
pois fundaram a Cidade de Xarbedar, co- 
mo diífemos no quarto Capitulo do livro 
decimo da quarta Década , do tempo em que 
( os Mouros conquiftáram o Decan , e orde- 
nou que todos os feus herdeiros fe coroaf- 
fem nella pela engrandecer. Efte Rey não 
teve filho macho , mas teve huma filha , que 
foi cafada com Cholca Raya da geração dos 
antigos Reys, de que teve hum filho, que o 
avô jurou por herdeiro do Reyno. No tem- 
po defte foi ter á Cidade da Cota hum Pa- 



5*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nical da outra cofta da cafta daquelles Reys , 
homem de grande esforço , e conlèlho , que 
EIRey agazalhou , e o cafou com huma mu- 
lher principal , de que houve dous filhos , e 
huma filha : eftes moços fe foram creando 
em companhia do Príncipe , com quem tam- 
bém andava hum primo com irmão deites 
moços , filho de huma irmã de fua mai. Ef- 
tes três moços vieram a crefcer , e a ter tan- 
ta pofle no Reyno , que fentio EIRey nel- 
les huma alteração de animo , de quem re- 
ceou que por fua morte lhe mataíTem o ne- 
to. E diííimulando com ifto , tratou de os di- 
vidir , como fez , mandando aos dous irmãos 
que lhe foflern fujeitar o Reyno dejafana- 
patão , que lhe eftava rebellado , dando ao 
mais velho , que fe chamava Québa Permal , 
titulo de Rey daquelle Eílado com obriga- 
ção de vaíTallagem. Efte homem , que era 
muito grande Cavalleiro, e do mor corpo, 
e forças que havia naquelle feu tempo , em 
poucos dias fe fenhoreou daquelle Eftado. 

O Imperador Maha Pracura Mabago 
Pandar fuecedendo no Eftado , havendo anno 
e meio que efte reinava , faleceo o tio fe- 
nhor das Corlas. EIRey deo aquelle Eftado 
ao irmão do Rey de Jafanapatão. Efte Im- 
perador Javirá cafou com huma Princeza das 
fete Corlas , que era do fangue Real já viu- 
va , de quem houve hum filho, que nafceo 

dou- 



Dec. V. Liv. L Cap. IL yy 

doudo , e luima filha , de que as fuás Chro- 
nicas não faliam , porque devia de falecer 
menina. Eíte Rey viveo poucos atinas; ehu- 
ma fua irmã chamada Maníca Pandar , to- 
mando o fobrinho doudo nos braços , o fez 
jurar por Rey , e a eíla por Tutora , e Go- 
vernadora do Reyno , que era muito. pru- 
dente, e varonil Havendo dous annos que 
eíla Senhora governava o Reyno , vendo que 
era neceílario Rey varão , porque havia já 
algumas alterações , e o fobrinho era inca- 
paz do Reyno , mandou com muita prefla 
chamar Quebá Permal Rey de Jafanapatao 
pêra lhe dar o Reyno , por fer o mais va- 
Jórofo de todos os Príncipes da Ilha. Iíto 
foi ter ás orelhas do irmão Rey das Corlas , 
que acudio logo a eíte negocio , pertendendo 
o Reyno pêra fi ; mas como o irmão che- 
gou , poíto que tiveram muitas differenças, 
ficou Quebá Permal Rey , e mudando o no- 
me , fe chamou dalli por diante Boenegabao 
Pandar , que quer dizer Rey por força de 
braço. Eíte cafou com huma mulher Fidal- 
ga, que lheElRey de Cândia deo por mu- 
lher , dizendo que era fua filha , não o fen- 
do ; mas nomeava-a por efía pela crear de 
menina. Deita houve hum filho chamado Cai- 
pura Pandar , que por morte do pai ficou 
herdando o Reyno, Eíte não foi coroado 
mais de quatro vezes, (porque coítumavam 

aquel- 



Çó ÁSIA de Diogo de Couto 

aquelles Rcys coroar-fe cada anno huma vez 
no próprio dia , em que a primeira foram co- 
roados ; e por aqui fe contam os annos do 
feu governo pelas vezes que foram coroa- 
dos. ) Aílim efte fendo já coroado quatro ve- 
zes , o matou o Rey dasCorlas, e fe levan- 
tou por força por Imperador , e mudou o 
nome , chamando-fe Javira Pracura Mabagó 
Pandar. Efte tinha já quatro filhos , e não 
foi coroado mais que três vezes. Por fua 
morte fuccedeo no Império o filho mais ve- 
lho chamado Drama Pracura Magabó , que 
cafou com huma Senhora da cafta dos an- 
tigos Reys 5 de quem houve três filhos. 

Nefte tempo faleceo hum dos irmãos 
d'ElRey , a que ficaram quatro filhos , e duas 
filhas , e a mãi fe cafou com outro irmão do 
marido chamado Boenegabo Pandar , que era 
Senhor de Reigao. Efte Rey , depois de fer 
coroado oito vezes, faleceo , deixando três fi- 
lhos meninos, de que o tio lançou mão, e 
ém fegredo os matou , ficando-lhe a elle fó 
o direito do Reyno , coroando- fe logo por 
Imperador , creando em fua cafa os três en- 
teados que diflemos , que também eram feus 
fobrinhos filhos de feu irmão , que fe cha- 
mavam Boenegabo Pandar, que era ornais 
velho , e o fegundo Reigão Pandar , e o 
terceiro Madune Pandar. 

Em tempo defte Rey Boenegabo Pandar 

foi 



Dec. V. Liv. I. Cap. V. 57 

foi D. Lourenço de Almeida filho do Vifo- 
Rey D. FYancilco de Almeida nos annos do 
Senhor de i^o? ter áquella Ilha, e mandan- 
do a terra fazer agua , e lenha , lha quize- 
ram defender; pelo que mandou atirar dos 
galeões algumas bombardadas , com o que 
os efpamou de maneira , que fe mettêram pe- 
lo íertão por não ferem aquelles naturaes 
coftumados a ouvir aquelle novo eítrondo 
pêra elles , porque neíte tempo nem huma 
fó efpingarda havia em toda a Ilha ; e. de- 
pois que nós entrámos nella , com o contí- 
nuo ufo da guerra cjue lhe fizemos, fe fize- 
ram tão déflros como hoje eflam , e a fun- 
direm a melhor , e mais formofa artilheria 
do Mundo 5 e a fazerem as mais formofas 
efpingardas , e melhores que as ncífas , de 
que hoje ha na Ilha de vantagem de vinte 
mil. Eíta era a razão , por que Scipião era de 
parecer que fe não Azeite fempre guerra a hu- 
ma mefma nação , porque fe não fizeífem déf- 
tros, como o nós temos feito aos Chingal- 
lás , e Malavares , que pelo continuo ufo o 
eílam hoje mais que todas as nações do Ori- 
ente , e aílim nos tem dado mais trabalho ao 
Eftado que todas. 

E tornando á noífa ordem , tanto que 
efteRey foube da Armada Portugucza que 
eílava em feu porto , foi o feu medo tama- 
nho P que mandou commetter pazes a Dom 

Lou- 



5*8 ÁSIA de Diogo.de Couto 

Lourenço , e a offerecer vaíTallagem , que 
fe lhe acceitou com quatrocentos bares de 
canella , que fam mil e duzentos quintaes de 
páreas cada anno. Foram eítes três Infantes 
ibbrinhos, e enteados deite Rey crefcendo, 
e fazendo-fe homens , começando-fe o tio , 
. e padraílo a pejar tanto com elles , que tra- 
tou de os matar, como já fizera a outros três 
ibbrinhos primos com irmãos deites ; mas 
não faltou quem avifaííe os moços , pelo que 
fugiram á ira do tio pêra o Reyno de Cân- 
dia. Dalli com o favor daquelle Rey , e de 
outros Senhores , fahíram com grandes exér- 
citos , e deram na Cota , matando o tio , e 
tomando-lhe o Reyno. E como neítes ain- 
da a inveja , e cubica não tinha lugar por 
jfer ainda aquelíe negocio em frefco , repar- 
tiram entre íi o Império, ficando ao mais ve- 
lho, que fe chamava Boenegabágo Pandar, 
o Reyno de Cota , que era a cabeça -, e ao 
do meio , que fe chamava Reigão Pandar y 
lhe coube o Reyno de Reigão com aquel- 
la Cidade , onde primeiro foi cabeça do Im- 
pério. Ao mais moço chamado Madune Pan- 
dar lhe ficou a Cidade de Ceitavaca com feus 
termos , jurando-fe todos três porReys da- 
quillo que lhes coube. O da Cota cafou com 
huma bifneta d'ElRey Javirá Pracura Ma- 
gabo. Depois que fuccedeo a repartição dei- 
tes Reynos > foi ter a eíta Ilha o Governa- 
dor 



Dec. V. Liv. I. Cap. V. eVI. $9 

dor Lopo Soares nos annos do Senhor de 
15:17, e fez a fortaleza de Columbo, fican- 
do aquelleRey da Cota renovado á vafíal- 
lagem , com obrigação de trezentos bares 
de canella , e doze anneis de robis , e fafi- 
ras , e féis alifantes pêra o ferviço da ribei- 
ra de Cochim. Eftas páreas fe pagaram al- 
guns annos até de todo fe perderem , co- 
mo em feu lugar mais largamente diremos. 

CAPITULO VI. 

De como o Madume Rey de Ceitavaca tra- 
tou de tomar o Rey no ao, irmão mais ve- 
lho com o favor do Çamorim , que pêra 
ijfo lhe mandou huma grojja Armada : e 
de como Mar tini Affbnfo de Soufa teve 
avifo delia , e a foi bufe ar , e a defiruio 
de todo , e pajfou a Ceilão. 

Ficaram eftes três irmãos em feus Efta- 
dos alguns annos ; mas o Madune mais 
moço aífim como foi crefeendo em idade , 
aílím o foi fazendo em cubica , defejando 
fummamente de fubir á Monarquia daquel- 
la Ilha , intentando modos , e ardis pêra if- 
fo. E o melhor que lhepareceo foi petten- 
der matar o irmão mais velho , porque com 
o outro tinha pouco que fazer. Andando com 
cftas imaginações , fuecedeo irem eíie Agoíto 
paliado huns fete paraos de Malavares a 

tem- 



t>ò ÁSIA de Diogo de Couto 

tempo que Nuno Freire de Andrade Al- 
caide mor , e Feitor daquelle porto efíava 
na Cota com EIRey , tendo em fua compa- 
nhia fete , ou oito Portuguezes , que EIRey 
tinha muito mimofos , porque era muito ami- 
go de todos. Os Mouros dos paráos como 
eram foberbos , mandaram pedir a EIRey , 
que logo lhes mandaíTe todos aquelles Por- 
tuguezes. Tomado EIRey difto , diíle que íi ; 
e dando conta do negocio a Nuno Freire 
de Andrade , lhe diíTe , que elle queria man- 
dar alguns Capitães , a que elles chamam 
Modeliares , a dar nos Malavares , e cafti- 
gallos por aquelle atrevimento. Nuno Frei- 
je lhe pedio de mercê aquella jornada, pe- 
jo que também lhe tocava a elle : elle lha 
deo , dando-lhe Sam lupur Arache com feis- 
centos homens. Nuno Freire com efles pou- 
cos Portuguezes que tinha partio no quar- 
to d^alva , e foi amanhecer fobre Columbo : 
tomando os Malavares em terra defcuidados y 
e dando nelles , fez huma grande matança \ 
e os que puderam efcapar , huns fe lançaram 
ao mar , e fe recolheram aos navios ; outros 
fe mettêram por eíTe fertão , e foram parar 
em Ceitavaca. Os do mar fe recolheram a 
três dos navios , e fe foram , ficando os qua- 
tro em poder dos noífos com todo o feti 
recheio. Deite cafo fe efcandalizou tanto ò 
Madune Rey de Ceitavaca contra o irmão , 

que 



D kg. V. Liv. L Cap. VI. 6t 

que depois de recolher os Malavares , dan- 
do-lhes conta de como determinava de fazer 
guerra ao irmão Rey da Cota , lhe diííerani 
elles , que mandaííe pedir foccorro ao Ça- 
morim, eque como elle lho mandaííe, Ha- 
veria pouco que fazer naquelle negocio, o£- 
ferecendo-fe-lhes elles pêra lhe encaminharem 
feus Embaixadores. O Madune com ifto os 
defpedio logo com pefíbas principaes , que 
pêra iíTo efcolheo , por quem mandou pe- 
ças ricas ao Çamorim , e pêra os feus Re- 
gedores , pedindo-lhe huma boa Armada , 
pêra o que pagaria os gaítos muito a feu 
gofto. 

Eftes Embaixadores recebeo o Çamorin* 
bem ; e perfuadido dos Mouros , e vencido 
do intereífe , mandou recolher os navios quç 
andavam fora , e armar outros com muita 
preíTa , e perfez o número de quarenta e 
íinco , em que mandou embarcar dons mil 
homens , e fez Capitão defta Armada a Ali 
Abrahem Marca , Mouro grande colTairo , 
e muito Cavalleiro. Efta Armada chegou a 
Columbo na entrada de Outubro paliado ; e 
como o Madune eílava já preíles com gran- 
des exércitos , ajuntando-fe os Mouros com 
elle , abalaram contra a Cidade da Cota , pon- 
do-lhe cerco á roda, 



Def- 



6z ÁSIA de Diogo de Couto 

Defcripção da Cidade da Cota. 

ESta Cidade eftá lituada em meio de hu- 
i ma formofa aíagôa , e tem hum fó paf- 
fo eftreito ■ por onde fe ferve , que por or- 
dem de Nuno Freire tinha fortificado com 
hum baluarte, e tranqueiras , em que fepoz 
a artilheria , que tomaram dos paráos ; e por 
derredor da Cidade ordenaram muitas em- 
barcações pêra defenderem os inimigos , fe 
quizeííem paliar a ella , ou em outras , ou 
em jangadas. E a primeira coufa queElRey 
fez , foi defpedir recado mui apreflado ao Go- 
vernador , em que lhe dava conta do rifco , 
e perigo em que ficava , pedindo-lhe o man- 
daíle foccorrer , pois era vaíFalIo d'EIRey de 
Portugal; e outro pêra Martim AíFonfo de 
Soufa , que fabia eíiava em Cochim 3 cm que 
lhe pedia , pois eíiava com a Armada á mão , 
o foííe livrar do poder daquelles inimigos. 
O Madune continuou o cerco , dando gran- 
diffimos aífaltos , e commettendo os paflbs 
muitas vezes , que lhe foram valorofamente 
defendidos , fendo os poucos Portuguezes 
que havia os que fe aprefentáram a todos 
os perigos , onde fizeram efpantofas cavalle- 
rias , fendo todos feridos muitas vezes , a 
que EIRey logo acudia , e fnandava curar 
como fua própria pcíToa , por ter nelles o 
principal remédio de fua defensão : e aífim 

fe 



Dec. V. Lrv. I. Gap- VI. 63 

fe foi o cerco dilatando por efpaço de três 
mezcs , em que houve caíòs dignos de me- 
moria. 

O Enviado d'ElRey , que hia com o re- 
cado ao Governador , chegou a Cochim , on- 
de achou o Gapitao mor do mar Martim 
Affonfo de Soufa , a quem deo as cartas d'El- 
Rey , e de Nuno Freire , prefentando-ihe o 
aperto em que EIRey ficava. Vendo o Ca- 
pitão mor que era obrigação forçada foc- 
correr áquelle Rey , e mais eílando com a 
mão folgada da grande vitoria de Repelim , 
negociou-fe com muita preíTa 5 e deixando 
as galés na coíla do Malavar. com as fuf- 
tas fe fez na volta do Cabo de Çamorim 
já em Fevereiro. Dalli foi correndo a coíla 
até os baixos de Manar, (que também fe 
chamam de Chilao , ) e atravefíòu á outra 
banda ; e tomando a coíla de Ceilão na mão , 
foi demandar Columbo. Os Malavares tan- 
to que a noíTa Armada partio de Cochim , 
logo foram avifados , e receando- fe perde- 
rem os navios , defpedíram-fe do Madune , 
e embarcando-ie nelles , atraveílaram Jogo á 
outra coíla. O Madune alevantou também o 
cerco , e mandou reconciliar-fe com o ir- 
mão , primeiro que a Armada chegafle. Quan- 
do Martim Affonfo de Soufa chegou a Co- 
lumbo , havia quafi dez dias que os Mala- 
vares eram partidos , e alli foube citarem já 

os 



64 ÁSIA de Diogo de Couto 

os irmãos concertados, e amigos; e já que 
eíhva alli , quiz ver-fe com EIRey , e par- 
tio pêra a Cota , onde elle o recebeo mui 
bem; e Martim Affoníb o animou, e esfor- 
çou contra o irmão , dizendo-lhe , que a to- 
do o tempo que lhe fofle neceílario , teria 
o foccorro dos Portuguezes mui certo, El- 
Rey eftimou muito ver aquelle amor, e di- 
ligencia com que os Portuguezes acudiam a 
fuás coufas , tendo com o Capitão mor gran- 
des palavras , e cumprimentos , dando-lhcs 
peças , e brincos , aílim a elle , como aos 
Capitães da fua companhia. Martim AíFon- 
fo de Soufa vendo que não tinha alli mais 
que fazer , fe defpedio d'ElRey, e paílbu- 
fe á outra coíla , e em breves dias chegou 
ao Malavar , onde teve por novas que não 
eram os paraos ainda recolhidos , pelo que 
os andou efperando ao recolher, lançando- 
Ihes fuás efpias. 

Poucos dias depois de fua chegada fuc- 
cedeo andarem apartadas duas fuftas de fua 
companhia , de que eram Capitães Francif- 
co de Mello Pereira , e João de Soufa Ra- 
tes, irmão de Thomé de Soufa Veador que 
foi d^ElRey D.João. Eftes tanto avante co- 
mo Monte Deli houveram vifla de hum pa- 
rao de Malavares , e correndo-o , o alcança- 
ram , e tomaram; e dos Mouros delle fou- 
beram que a Armada de Ali Abrahem Mar- 
ca 



Dec. V. Liv. I. Gap. VI. 6$ 

cá eílava em Mangaior , e com aquellas no- 
vas foram bufcar o Capitão mor, e lhas de- 
ram. Tanto que Martim AíFonfo de Soufa 
o foube , ajuntou logo fua Armada , e vol- 
tou em bufca do inimigo. Indo com ella 
hum pouco aíFaílado da terra tanto avante 
como Coulete , houveram vifta da Armada 
do inimigo , que vinha á vela com o No- 
roeíle defpregada , e tomando as armas , fa- 
zendo fua Armada em dons batalhões , os foi 
demandar. Os inimigos tanto que conhece- 
ram a nofla Armada Portugueza , voltaram 
pêra a terra com tenção de fe falvarem nel- 
Ja ; mas os noífos navios ligeiros apertando 
o remo , os atalharam , e ferrando com alguns, 
os embaraçaram até chegar toda a Armada , 
que defparou nos inimigos fua munição •, met- 
tendo-lhes logo alguns no fundo, edefappa- 
relh ando outros , baralhando-fe todos .os 
mais , travando-fe huma formofa batalha , 
que durou pouco , porque logo todos le des- 
barataram , rendendo huns , e varando os 
outros em terra, perdendo-fe mais de mil e 
duzentos Mouros , com muito pouca perda 
da noífa parte , com que a vitoria ficou fen- 
do mais formofa. O Çamorin^ ficou com a 
perda defta Armada mui desbaratado , e que- 
brantado , e os Mouros de Calecut mui po- 
bres , porque elles foram os armadores dos 
mais dos navios. Todo o mais refto do ve- 
Gouto. Tom. II. P. /. E ião 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

rao andotrMartim Affonfo de Soufa na cof- 
ta até fer tempo de fe recolher : e por aqui 
Concluímos com as coufas deite verão, que 
nos pareceo melhor contar as do Malavar 
juntas', por nos ficar todo o mais tempo pê- 
ra as de Cambaya pelas não miíturarrnos. 

CAPITULO VIL 

Das varias opiniões que houve entre osGeo~ 
■ grafos f obre qualfeja a Tapobrana de Pto- 
lomeu : e das razoes que damos pêra fer 
efta Ilha de Ceilão : e dos nomes que fua 
canella tem entre todas as Nações. 

PRimeiro que entremos em outras maté- 
rias , já que citamos com as mãos nas 
coufas de Ceilão , e moítrámos o principio 
de fua povoação, e origem de feus Reys , 
e nomes que os naturaes lhe deram , fera ra- 
zão que digamos também os que teve entre 
os eítrangeiros , e qiie moítremos como he 
efta a verdadeira Tapobrana de Ptolomeu ? 
febre* o que houve tanta confusão entre os 
Geógrafos , e as razões por que todos cuida- 
ram fer efta a Ilha de Camatra. Plinio fat- 
iando da Taprobana diz , que he de féis mil 
éftadios de comprido , e finco mil de largo , 
e que quaíí era tida pôr hum novo Mundo , 
e que erti tempo do Imperador Cláudio fe 
áeícubrírá 7 *e que Jium Rey daquella Ilha 

lhe 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIL èj 

lhe mandara Embaixadores , e que as náos 
que a hiam demandar náo fe região , nem 
governavam porEílrella, porque não viam 
os Pólos. 

j Eftrabão fallando dá Tapobraná â faz 
do tamanho que a faz Plinio. Oneíicrito Ca* 
pitão de Alexandre Magno , que navegou 
eíla coíla da índia , diz que a Tapobraná he 
de íinco mil eíladios , fem dizer fe he de lar- 
gura j fe de comprido , e que eílava aparta- 
da dos povos Prafis fobre o Ganges , nave- 
gação de vinte iornadas ; e que entre a ín- 
dia , e elía havia outras muitas Ilhas > mas 
que eíla mais que todas eílava pêra o Meio 
dia. 

Arriano Author Grego , no Tratado que 
fez da navegação da índia , diz, que quem 
partir da coíla de Compra , e Poduca, iria 
ter a huma Ilha , que eílava ao Ponente cha- 
mada Palleilmonda , e dos antigos Tapobra- 
ná, que todos tinham por hum novo Mun- 
do , e em íeu tempo fora muito conhecida , 
e que nella íè creavam os maiores , e me* 
lliores Alifantes de todos os da índia* 

Eraílothenes Author Grego diz , que a 
Ilha Tapobraná eílá lio mar deEoo entre o 
Oriente , e Occidente aò encontro da índia 
por vinte jornadas de navegação da Perfia* 
Ptolomeu nas fuás taboas mette a Ilha Tá* 
pobrana m coíla da índia defronte ao Cd* 
1 E ii TÚQ* 



62 ÁSIA de Diogo de Couto 

mori Promontório 5 que íítua em treze gráos 
e meio do Norte. E PJinio lhe chama Co- 
laicum Promontorium , e que antes delJe ,fe 
chamava Simonda ; mas que no íeu tempo 
ie nomeava por Salica 3 e léus naturaes por 
Salim 3 e que tinha de comprido novecentas 
e trinta milhas , que fam duzentas, e dez lé- 
guas das noíTas ; e que nella nafcia muito ar- 
roz y mel , gengivre , berílio 3 jacintho , e 
outras muitas fortes de pedras , e metaes , 
que fó ha na Ilha de Ceilão. 

Vamos aos Geógrafos , que fazem fer ef- 
ta Tapobrana a Ilha de Camatra. Micer Po- 
gio Florentino Secretario do Papa , homem 
douto , que efcreveo por mandado do San- 
to Pontífice a viagem , que Nicoláo de Con- 
ti Veneziano fez por terra por toda a índia 
até o Cathayo , diz nella r que fora ter eíle 
Veneziano a Camatra antigamente Tapo- 
brana. 

Maximiliano Transíílvano , varão tam- 
bém douto , e Secretario de hum Imperador , 
em huma carta que efcreveo ao Cardeal Sau- 
leburgenfc , em que lhe dava conta das pri- 
meiras viagens y que os Portuguezes fizeram 
á índia , diz , que foram ter ás praias de Ca- 
lecut, e dalli a Camatra , que antigamente 
íè chamava Tapobrana. 

Benedeto Bordone no feu Infulario diz , 
que a Ilha de Madagafcar /(que lie a de 

o* 



Dec. V. Liv. li Cap. VIL 69 

S. Lourenço , ) eftava ao Ponente de Ceilão 
mil e trezentas milhas, e ao Sul da Tapo- 
brana mil e oitenta ; e outros muitos Geó- 
grafos , que tem o meímo , que deixamos 
por eícufar prolixidades. 

Só o noflb grande João de Barros , ho- 
mem doutiíTimo na Geografia , fallando nas 
fuás Décadas na Ilha de Ceilão , diz , que lie 
a Tapobrana de Ptolomeu , como mais lar- 
gamente provava nas fuás taboas da Geogra- 
fia , que depois de fua morte defapparecêram , 
que foi perda muito notável. E poílo que 
bailava eíla fiia authoridade pêra prova baf- 
tante de fer Ceilão Tapobrana , e mettella 
Ptolomeu do Gange pêra dentro na coita da 
índia, (o que fe não pode entender deCa- 
matra , que eílá do Gange tanto pêra fóra , ) 
todavia examinaremos os Geógrafos antigos 
que nomeamos , e moftraremos como todos 
faliam de Ceilão, e não de Camatra. 

Plinio diz , que a Tapobrana he de féis 
mn eftadios de comprido , que fam duzen- 
tas e de2 léguas , e que no tempo do Impe- 
rador Cláudio fora defcuberta por hum Li- 
berto de Anio Poclanio , que andando ao 
longo de Arábia em hum navio , fora arre- 
batado dos Ponentes , e em quinze dias paf- 
fára além da Carmania , e chegara a Tapo- 
brana, e que aquelIeRey oagazalhára mui 
bem, e elle lhe dera algumas moedas, que 

le- 



jo ÁSIA de Diogo de Couto 

levava das que em Roma corriam , que ti- 
nham a imagem do Imperador efculpida ; e 
que EIRey mandara com elle léus Embai- 
xadores a viíitar aquelle Imperador. 

Por todas eftas coufas havemos de pro- 
var fer efta a Ilha de Ceilão. Quanto á gran- 
deza da Ilha he a mefma que Ptolomeu lhe 
dá , porque em fuás taboas lança até paliar 
a Equinoccial , dous gráos da banda do Sul ; 
porque parece que em leu tempo teve a mef- 
ma grandura ; e os naturaes affirmam , e tem 
por muiro averiguado por fuás eícrituras , 
que já efta Ilha fora tamanha , que pegara 
com as Ilhas de Maldiva , e que por tem- 
pos a gaitara o mar por aquella parte, cu- 
brindo-a da maneira que fe hoje vê; e que 
as partes mais altas ficaram feparadas em 
muitas Ilhas, como hoje eftam lançadas to- 
das em huma corda pelo rumo , a que os 
mareantes chamam Noroefle , Suefte , em que 
affirma haver mais de treze mil Ilhas. E já 
em tempo do mefmo Ptolomeu , que con- 
correo nos annos do Senhor cento e quaren- 
ta e três, parece que o mar começava afa- 
zer eíle eílrago ; porque diz , que derredor 
da Tapobrana havia mil trezentas fetenta e 
oito Ilhas. E fer levado o Liberto deAnio 
dos ventos defde Arábia em quinze dias até 
Tapobrana , mui claramente fe vê fallar de 
Ceilão, que eftá quinhentas léguas da coíía 

de 



Dec. V. Liv. LCap. VIL 71 

de Arábia , que he .0 mais que em quinze 
dias podiam navegar. E eíta liha eftá na cof- 
ta da índia além da Carmania ; e Camatra 
eftá feira de toda, a índia , e além do,Gan- 
ge muitas léguas; e io pêra ir de. Ceilão a 
Camatra 5 ha miíter outros quinze dias de ven«^ 
tos em popa. E fobre todas eílas razões , 
achamos hoje em Ceilão íinaes de edifícios 
Romanos , que parece que já tiveram com- 
municação naquella Ilha. Ê ainda dizemos 
mais, que fe acharam nella as mefmas moe- 
das , que eíle Liberto levou , fendo Capitão 
de Manar em Ceilão João de Mello.de Sam- 
paio nos annos do Senhor de fetenta e qua- 
tro , ou fetenta e finco., abrindo-fe huns edi- 
fícios , que eítam.da outra banda nas terras 
que chamam Matota , aonde ainda hoje appa- 
recem muito grandes minas a partes de obra 
Romana de cantaria : e andando huns tra- 
balhadores tirando pedra , deram em o fun- 
do de hum pedaço de alicefíe, e revoíven- 
do-o , acharam huma cadêa de ferro de tão 
eftranha feição , que não houve em toda a 
índia official , que fe atrpveíTe a fazer outra 
comoella. Eaílim acharam duas moedas de 
cobre, huma toda gaitada, e outra de ouro 
baixo também gaitada de huma banda, e da 
outra fe enxergava ainda hum. .vulto de hum 
homem dos peitos pêra fim a , com hum pe- 
daço de letreiro. á,r.oda gaitado em algumas 

par- 



72 AS1A de Diogo de Couto 

partes , mas ainda fe enxergava claramente 
no começo efta letra C, e as continentes gaf- 
tadas , e voltava á roda o letreiro , em que 
fe viam eftoutras letras R. M. N. #. Efta ca- 
dêa , e medalhas foram levadas a João de 
Mello 3 que as eftimou muito , e as levava 
pêra o Reyno pêra as dar a EÍRey , e per- 
deo-fe no mar o anno de noventa , que hia 
na náo S. Bernardo em comganhia de Ma- 
noel de Souía Coutinho , que acabara de fer 
Governador da índia na náo Bom Jeíus. E 
coufa he poílivel que foflem eftas moedas 
das que alli levou o Liberto de Anio, e que 
nos féis mezes que efteve naquella Ilha da- 
ria ordem áquelles edifícios ao ufo Romano , 
e que lançaria nos fundamentos aquellas moe- 
das , (coufa mui ordinária em toda a Euro- 
pa. ) E coníiderando nós as letras da moe- 
da , e tendo lido muitos letreiros antigos , 
nos parece que efta letra C he a primeira 
do nome de Cláudio ; e que nas continentes , 
eque efta vam já gaitadas, havia de dizer Im- 
perator , porque as outras R. M. N. #. cla- 
ramente fe vê dizej Romanorum. 

Outra moeda fe achou como efta nas ín- 
dias de Caftella , que defeubrio Pedro Có- 
lon , (fegundo refere Lúcio Marineo Siculo 
no livro das coufas memoráveis de Hefpa- 
nha-na vida dos Reys Catholicos , ) andan- 
do-fe abrindo outros aliceífes como eftes , 

que 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIL 73 

que tinha a imagem de Cefar Augufto. Ef- 
ta moeda houve D. João Rufo Arcebifpo de 
Cuenca , e a mandou ao Summo Pontífice , 
do que Lúcio Marineo infirio que os Ro- 
manos navegaram já pêra aquelJas partes. 

E tornando á noíía ordem , íe he verda- 
de o que diz Heytor de Laguna y que em 
tempo do Papa Paulo fora achado hum páo 
de canella , (que eítava em Roma guardado 
como coufa preciofa , ) o que por hum le- 
treiro que tinha fe via que ficara do tem- 
po do Imperador Arcádio , filho de Theo- 
dolio , que fuccedeo no Império os annos do 
Senhor de trezentos noventa e fete, que foi 
cento e vinte e féis annos depois de Cláu- 
dio , que imperou nos de duzentos fetenta 
e hum, bem podia fer foíTe levada de pre- 
fente por aquelles Embaixadores , que foram 
com o Liberto. 

E deixando Plinio , vamos a Onifecrito. 
Diz eíle , que a Tapobrana era de linco mil 
eíladios ? e que eftava apartada Brafis fobre 
o Gange por navegação de vinte jornadas ; 
e que entre a índia , e elle havia muitas Ilhas , 
mas que eflava eíla mais que todas pêra o 
Meio dia. Quanto ao tamanho conforma 
com Ptolomeu a fer apartada do Gange por 
elpaço de vinte jornadas ; e a haver antre 
ella , e a índia muitas Ilhas , claramente mof- 
tra f aliar de Ceilão , porque eílá do Gange 

as 



74 ÁSIA de Diogo de Couto 

as mefmas jornadas , e eftá ao Sul de toda 
a cofta da índia , e as muitas Ilhas que diz , 
fam as de Mamale , e outras todas , de que 
Ptolomeu faz menção , e Camatra eftá ao 
Levante da índia muito affaftada delia. 

Ariano Author Grego , em dizer que 
quem partir da cofta de Cornara , e Podu- 
ca ao Ponente , iria tomar Tapobrana , bem 
claro fe vê faliar de Ceilão; porque Corna- 
ra , e Poduca mette Ptolomeu nas fuás ta- 
boas em quatorze gráos e meio na contra- 
cofta da índia do Promontório Comori pê- 
ra dentro , que parece fer S. Thomé , ou 
Nagapatão ; porque quem partir daquella 
cofta pêra ir bufcar Ceilão , ha de navegar 
ao Ponente , e pêra Camatra ao Levante; e 
a Ilha de Ceilão fabido he que cria os ma- 
iores , e melhores Alifantes de todos os da 
índia , como o mefmo Ariano diz. E tan- 
to he a/Tim , que todos os outros lhe conhe- 
cem tanta fuperioridade , que vendo qual- 
quer delles hum de Ceilão., aílím lhe vai fu- 
gindo como doudo , o que cad# dia expe- 
rimentamos nefta Cidade de Goa , nos que 
EIRey traz na fua ribeira de differentes ter- 
ras. 

Eraftothenes Author Grego diz , que a 
Tapobrana eftá no mar deEoo antre o Ori- 
ente, e Occidente , apartada por vinte jor- 
nadas de navegação da Perlia ao encontro 

da 



Dec. V. Liv. L Cap. VIL 75? 

da índia. Efte ainda falia mais claro de Cei- 
lão , que eftá em oito gráos do Norte antre 
Levante, e Ponente ; e por muito vento que 
huma náoleve, não fará mais, partindo dá 
boca do Eftreito Perfico , que chegar nos vin- 
te dias a Ceilão , que fam quinhentas léguas : 
e Camatra não eftá no mar Eoo , fenao de- 
baixo da Equinoccial , e por aqui temos pro- 
vado Ceilão fer a Tapobrana. 

Vamos agora aos Geógrafos modernos , 
que a fazem Camatra. Eftes todos bufcando 
efta Ilha Tapobrana debaixo da Equinoccial , 
onde Ptolomeu a põe , (porque em feu tem- 
po , como diflemos , lançava dous gráos da 
banda do Sul, ) e dJfcorrendo por toda a 
cofta da índia até além do Gange , não a- 
chando outra fenao Camatra , fem outra con- 
ílderação a fizeram Tapobrana ; como tam- 
bém fem ella lançaram o rio Indo na encea- 
da de Cambaya , que he erro , que adiante 
com o favor Divino moftraremos donde nafí 
ceo. E affim confiderando Bencdeto Bordo- 
ne áquelle lugar dePlinio, fallando da Ta- 
pobrana a onde diz Sèptentrion non cerni* 
tur na annotação que fobre iflb, faz , re- 
prehende Plinio por dizer , que nella fe não 
via a Eftrella do Pólo Arélico ; porque diz", 
que os que vivem na Tapobrana pêra a par- 
te do Promontório Colaicu , vem efte Polo 
alevantado por treze gráos 3 e que aílim con* 

for- 



j6 ÁSIA de Diogo de Couto 

forme as alturas , em que os daquella Ilha 
vivem, aílim veram fua elevação; mas que 
os que viviam debaixo da Equinoccial nem 
hum Pólo , nem outro podiam ver , no que 
fe encontra , porque faz Camatra a Tapo- 
brana; c efta Ilha de Camatra corta a Equi- 
noccial pelo meio , e não lança de huma par- 
te , e da outra pêra os Pólos mais de finco 
gráos ; porque os que vivem na ponta de 
Daya , que he a mais Septentrional , nem 
vem aquella Eftreila alevantada mais que por 
iinco gráos ; e pela meíma maneira os que 
vivem na outra pêra a banda do Ardlico , 
efcaífamente a enxergam - y o que he ao con- 
trario em Ceilão , porque os que vivem na 
ponta de Jafanapatão vem o Pólo Ardtico 
levantado por oito gráos e meio ; e os que 
habitam a ponta de Gale ( que he a mais 
Meridional) a vem alevantada por finco ; 
por onde claramente fe vê fer efta aTapo- 
brana , que naquelle tempo fe eílendia até 
dous gráos do Sul ; e que o Colaicu Pro- 
montório de Plinio , e o Comorim de Pto- 
lomeu chegue ao Cabo Comorim , por fem 
dúvida o havemos ; porque naquelle tempo , 
e muitos annos depois o Reyno de Coulao 
foi o maior de todo o Malavar , e fe ef- 
tendia até quaíl os baixos deChilão; e co- 
mo aquelle Cabo Conrorím ficava daquelle 
Reyno , e he hum - dos famofos do Mundo , 

foi 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIL jy 

foi nomeado de Plinio por Colaicum Promon* 
torium 5 como dizer , o Promontório de Cou- 
Ião j ou do Reyno de Coulão. E chamar- 
lhe Ptolomeu Cori Promontório , pôde bem 
fer feja pelo lugar de Titi Cori , que eftá 
adiante delle , que naquelle tempo feria cou- 
fa grande , e continuada dos Efirangeiros , 
pelo que lhe daria Ptolomeu áquelle Cabo 
o feu nome. E por efta razão 5 e por ou- 
tras que deixamos , nos parece que também 
efta Ilha de Ceilão he aquella dejambolo, 
de que Diodoro Siculo faz menção no fim 
do íegundo livro da brcviacão de ftia hifto- 
ria j que Baptifta Ramnuíio , e outros fazem 
Camatra. E não nos tem dado pouco traba- 
lho querermos faber eíle nome de Tapobra- 
na donde teve principio , e origem , fobre 
o que temos dado bem de voltas ; porque 
em toda a Ilha de Ceilão não ha porto , 
Bahia , Cidade , Villa , Promontório , fonte , 
nem rio, que tenha alguma femelhança com 
eíle nome , nem em fuás Chronicas , nem 
nas dos Canarás 5 nem emlingua alguma da 
índia tem íigmficação alguma , nem le co- 
nhece , por onde nos parece que he nome 
Grego impofto por Ptolomeu, que quererá 
íígnificar alguma grandeza , ou propriedade 
daquella Ilha \ porque também o nome de 
Ceilão foi impofto daquelles baixos , em que 
os Chins fe perderam junto daquella Ilha % 



que 



78 ASÍA de- Diogo de Couto 

que 'ficaram' tão famofos de entáo pêra cá, 
que já fe não conhecia a Ilha por feu no- 
me próprio , lenão pelos dos baixos ; por- 
que como os Perlas, e Arábios navegavam 
pêra aquella Ilha , e hiam temoroíbs dos bai- 
xos y fempre os traziam na imaginação , di- 
zendo que hiam pêra Cinlaó , ou que vinham 
de Cinlaó , que quer dizer que hiam , ou 
vinham dos baixos dos Chins \ e aílim mu- 
dando-fe por tempos as letras , fe ficou cha- 
mando aquella Ilha Ceilão. 

E porque cada vez que fe nos offerccer , 
pertendemos moftrar a grande corrupção , 
que o tempo tem feito em todos os nomes 
próprios de Cidades 5 Reynos , rios 5 mon- 
tes , fimples , drogas , e mais coufas deftas 
partes , queremos logo começar por aqui > 
já que eílamos neíla Ilha, e dizermos todos 
os nomes de fua canella , aílim os que lhe 
deram os Gregos , Latinos , Pa ricos ", e Ará- 
bios , como os que tem entre todas as na- 
ções do Oriente ] e moílraremos a corrupção 
que o tempo nelle fez , do que nafceo ha- 
ver entre todos ôs Médicos grande confu- 
são. 

A canella nefta Ilha 3 onde nafce a me- 
lhor de todo o Oriente , fe chama Corundo 
Potra, que quer dizer Arvore de cafca. Os 
Mala vares ,. aonde fe cria a mais ruim , e 
mais gvoiía, lhe chamam Caroa Potu, que 

he 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIL 79 

he o mefmo que arvore de cafca ; porque 
a cafca , a que os Chingallás chamam Co- 
rundo , dizem os Malavares Caróa ; os Ará- 
bios lhe chamam Carfa. Efte nome anda cor- 
rupto antre os noflbs Médicos , porque huns 
lhe chamam Quirfe , outros Quirfa. Os Par- 
feos a nomeam por Darcin , que quer dizer 
Pão da China ; porque como os Chins fo- 
ram os primeiros , que levaram ao Eílreito 
da Perfia as drogas , roupas , e louçainhas 
do Oriente , e dalli por mãos dos Perlas pal- 
iou tudo á Europa , com os nomes que lhes 
elles deram , por onde eftas coufas eram co- 
nhecidas , e não pelos feus próprios , que 
em fuás terras tinham. Sarapio interpreta ef- 
te Darcin , e diz que quer dizer Arvore 
da China ; porque cuidou havellas naquella 
Província , por fe achar a canella em mãos 
dos Chins , como diffemos. Da mefma ma- 
neira fe enganou Ariano em dizer , que a 
Caíia , eZinguir, que eram certas fortes de 
canella , que nafciam em alguns lugares da 
Troglodita , e que dalli as levavam os mer- 
cadores á Grécia. 

No mefmo erro cahio Plinio , que diz , 
que o Cinamomo nafcia na Ethiopia vizi- 
nha a Troglodita, e que aquella parte , por 
que corria a Equ jnoccial , era chamada dos 
Authores antigos Cinamomi fera , que quer 
dizer Terra , que produz o Cinamomo ; o 

que 



8o ÁSIA de Diogo de Gouto 

que havia dcnafcer de efta canella lhe ir ter 
ás mãos por via do Mar Roxo pela dos 
mercadores Arábios , que viviam naquella 
parte da Troglodita , e não perguntando 
na Grécia onde nafcia efta droga , havia que 
fe dava na terra dos Arábios , que lha le- 
vavam ; como também alguns Eícritores an- 
tigos , porque viam ir a canella por via de 
Alepo , lhe chamaram Cinamomo Alipitino : 
e por efta confusão não fabemos hoje que 
fortes de efpeciarias , e cheiros fam , duaca , 
mocroto, magia , e afiplij , de que Ariano 
faz menção, que diz nafcerem em Arábia, 
e em Ethiopia ; nem o nicato , gabalio , e 
tarro , que Plinio nomea por cheiros de Ará- 
bia , onde nunca foubemos mais , que incen- 
fo , eftoraque , e myrrha , que poífivel he fe- 
jam eftas de Plinio ; nem em todas as Ethio- 
pias houve nunca outra droga fenão gengi- 
vre , e eíle bem ruim > e fó no Reyno de 
Damute. 

E tornando aos nomes da canella , os 
Malayos lhe chamam Caio manis , que em 
fua lingua quer dizer Pdo doce , que he o 
caifman , ou caefmanis dos Gregos ; porque 
parece que também foi ter a elles com efte 
nome Malayo , e lho corromperam , chaman- 
do-lhe também os Gregos Cafia lignea , no- 
me , que em nenhuma Nação deftas do Orien- 
te achámos , inquirindo nós bem por todos 

os 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIL e VIII. 8x 

Os Médicos. E lançando noífojuizo, nos pa- 
rece que ha de dizer Cais lignea , que he 
o meímo que páo de cais ; porque antiga- 
mente antes do Reyno de Ormuz fe paliar 
pêra a Ilha Gerum , onde hoje eftá , era ca- 
beça , e empório de todo aquelle Eftreito a 
Ilha de Cais, que eftá adiante de Ormuz pelo 
Eftreito dentro. E como naquelle tempo con- 
tinuavam os mercadores da Europa naquel* 
la Ilha , como hoje fazem na de Ormuz , 
levando a canella que os Chins lhe traziam > 
parece que em Grécia diziam , que a leva- 
vam da Ilha de Cais , equeporiífo lhe cha- 
mariam Cais lignea. Ifto tudo dizemos de- 
baixo da correição dos Doutores da Medi- 
cina , por tocarmos em coufa de lua proíil- 
são; porque noíla tenção não foi mais que 
moftrar a corrupção 3 que o tempo fez nos 
nomes da canella. 

CAPITULO VIII. 
Do que pajjòu Diogo de Mefquita na Cor* 
te de Cambaya : e de como Soltao Badur 
foi a Dio , e tratou de tomar aquellafor- 
talezapor engano : e do efpantofo cafo que 
aqui aconteceo a Manoel de Soufa Capi- 
tão da fortaleza. 

NO fim da quarta Década , capitulo no- 
no, livro decimo dêmos conta de co- 
mo o Governador Nuno da Cunha fe par- 
CúutOsTom.ILP.L F tio 



82 ÁSIA de Diogo de Couto 

tio pêra Dio , por fer avifado que Solrão 
Badur andava com ruim animo contra aquel- 
la fortaleza , e como defpedíra Diogo de 
Meíquita pcra ir á Corte de Cambaya vifi- 
tar aquellcllcy, pcra diílimuladamcnte lan- 
çar o olho ás coufas, e ver fe podia alcan- 
çar ília determinação. Agora continuaremos 
com clle , e com as coufas de Cambaya , que 
guardámos pêra eiie tempo. 

Partido Diogo de Mefquita 3 em breves 
dias foi em Cambaya , e chegou á Corte \ on- 
de EIRcy o recebeo bem , por fer muito feu 
amigo. Elle o viíitou da parte do Governa- 
dor , dizendo-lhe como ficava em Baçaim fa- 
zendo alguns negócios pêra dahi paliar a 
Dio ; e que a primeira coufa que fizera fo- 
ra defpedilio pêra oirviíitar, elaber de fua 
faude, pela obrigação que tinha de o fazer 
aílim a hum Rey tão grande amigo dos Por- 
tuguezes , e de quem elle era tamanho íer- 
vidor. O Badur moílrou folgar muito de o 
ver, e da lembrança do Governador , ten- 
do com elle palavras muito honradas. Dio* 
go de Meíquita deixou-fe ficar alguns dias 
na Corte ; e como tinha muitos amigos , e 
fabia muito bem a língua 3 em práticas que 
teve aílim comElRey , como comfeus pri- 
vados , entendeo feu máo coração , e o pejo 
que tinha com aquella fortaleza , que era ta- 
manho, que o alcançou Diogo de Mefqui- 
ta 



Dec. V. Liv. L Cap. VIII. §3 

ta claramente em palavras. E ainda fe affir- 
ma , que Xacoez ( que da jornada que fez 
por Embaixador a Goa duas vezes , ficou 
muito affeiçoado aos Portuguezes ) lhe def- 
cubrio o ódio com que EIRey andava , e 
que nenhuma coufa tratava em feu animo, 
íenão de como poderia tornar a tomar aquel- 
la fortaleza. 

Depois deter alcançado tudo oqueper- 
tendia , querendoíe partir , o deteve EIRey , 
porque o quiz levar comfigo até Dio , pê- 
ra onde logo partio afforrado , e entrou na- 
quella Ilha, e fe apofentou nos feus Paços. 
Manoel de Souía Capitão da Fortaleza, fa- 
bendo que era chegado, o foi logo vilitar, 
porque poíto que eflava já avifado da incli- 
nação com que hia , era-lhe neceíTario diíli- 
mular pela neceflidade em que eílava. EIRey 
o recebeo bem, e depois de paliarem as pa- 
lavras de viiítação , fe defpedio delle , e fe 
tornou pêra a fortaleza. O Badur como e£ 
perava cada dia polo Governador, queren- 
do ver fe podia primeiro que elle chegaífe 
tomar a fortaleza , poz em parecer dos feus 
Capitães o modo que fe niflo teria j e todos 
aííentáram , que viílem fe havia algum def- 
cuido na fortaleza , e que dando-lhe o tem- 
po alguma occaíião , a não perdeffem , e que 
trabalhaflem pala entrar. Mas o Capitão Ma- 
noel de Soufa andava tão recatado , e com 
F ii tan- 



84 ÁSIA de Diogo de Couto 

tanta vigilância, que em todo aquelle tem- 
po não deixou ir Portuguez algum á Cida- 
de , dando a entender , que o fazia por evi- 
tar defavenças antre elles , e os d'E!Rey , 
mandando fomente os fervidores , que car- 
retavam a agua , e lenha , a que dava pref- 
fa por lhe não faltarem eftas coufas , fe fuc- 
cedeííc alguma novidade. 

Vendo oBadur o grande refguardo que 
havia na fortaleza ., e que o tempo lhe não 
dava lugar pêra elperar tanto , mandou cha- 
mar os Capitães , e lhes diífe , que eftiveP 
fem preftes , porque ao outro dia havia de 
mandar chamar o Capitão Portuguez , e o 
havia de matar, e logo havia de comrnetter 
a fortaleza • e mandou fazer preftes as cou- 
fas neceífarias pêra iífo. Manoel de Soufa ef- 
tava bem defcuidado de tamanha traição , 
de que elle fe não podia livrar fe Deos não 
acudira. E fendo o quarto da rnadorra ren- 
dido , chegou huma peífoa muito encuber- 
ta , e da ponte chamou pelos da vigia, que 
logo acudiram , e IhesdilTe, que chamaíTera 
o Capitão á varanda de feus apofentos 3 por- 
que era coufa que lhe importava muito. AP 
fomando o Capitão a cila , lhe diífe efta pef- 
foa : » Não eftejas , Capitão , defcuidado , vi- 
» gia-te muito bem , e fabe que pela manhã 
» feras chamado d'E!Rey pêra te matar : diP: 
»fimula 3 e faze-te mal difpoílo, porque te 

» re- 1 



Dec. V. Liv. I. Cap. VIII. 8? 

» reláva aífím. E porque te não pareça que 
» te digo ifto por te lifonjear , ou por que- 
» rer de ti alguma couía , não faberásquem 
» fou , porque me não moveo a ifto fenao 
)> hum não fei que , que te não fei declarar, 
»E pêra certeza de fer ifto que te digo ver- 
» dade , em amanhecendo terás logo recado 
» d'EIRey , e fica-te embora. » E voltando 
as coftas , fe foi de longo da praia , fem nin- 
guém faber delle mais. Não deixou o Ca- 
pitão de fufpeitar que efte era Medinarrão 
Capitão, e Governador da Cidade, porque 
já o tinha avifado da tenção , e ódio do Ba- 
dur, porque fempre foi muito feu affeiçoa- 
do , e corriam cm muita amizade. Mas quan- 
to a nós não foi fenão Xacoez , que fem- 
pre foi muito amigo dos Portugueses j eel- 
le também foi o que avifou o Governador, 
que o Badur o queria matar , como logo di- 
remos. 

Manoel deSoufa paíTou toda aquella noi- 
te em difcurfos fobre aquelle negocio , h li- 
mas vezes lhe parecia que poderia fer men- 
tira , outras também que poderia fer verda- 
de , vendo-fe na mor confusão , que fe po- 
dia imaginar , porque aquelle negocio não 
confiftia nem em prudencias , nem em cau- 
tellas de Capitão ; porque fe o Badur o man- 
dafle chamar, enão foífe, feria declarar-fe, 
e dar-lhe a entender que fora avifado , pê- 
ra 



86 ÁSIA de Diogo de Couto 

ra o que eftava defapercebido fcm lenha f 
agua, nem mantimentos, de que fe provia 
da Cidade , que fe lhe logo havia de tolher , 
e não havia outro remédio mais que entre- 
gar-fe , porque contra fome , e fede não ha- 
via forças , nem armas que baítaíTcm. Por 
outra parte via , que fe foíle a feu chama- 
do , o havia de matar. Sobre eítas confídera- 
çóes fe determinou em ir fe o chamaflem , 
porque antes queria arrifcar a vida , que a 
honra ; porque depois delle morto , toman- 
do-fe , ou entregando-fe a fortaleza , não fe- 
ria aíFronta fua, fenão do Alcaide mór, a 
quem havia de ficar entregue. 

Com eíla refolução efperou a manhã , em 
que chegou o recado doBadur, que o man- 
dava chamar , mandando-lhe dizer , que ti- 
nha algumas coufas que tratar com elle. Ma- 
noel de Soufa muito feguro , e fem altera- 
ção alguma , vendo que o avifo começava 
a ter mofíras da verdade , refpondeo , que 
logo iria. E encommendado-le a Deos em 
feu coração , pedindo-lhe que o guiaílè, e 
encaminhaííe naquelle negocio , fupitamente 
lhe veio huma nova coníideraçao (parece que 
infpirado delle ) e foi efta : Que fendo cof- 
tumado cada vez que hia a EIRey , fer por 
terra , e a cavallo , com feíTenta efpingar- 
deiros de fua guarda, com pifaro , tambor, 
c outras iníiguias de Capitão , agora deter- 

mi- 



Dec. V- Li v/L Cap. VIII. 87 

minou de ir por mar com hum fó pagem; 
porque na fegurança com que fe aprefentaf- 
fe aoBadur, lhcdéfle a entender, queeflava 
innocente de fuás malícias , e que poderia 
fer , que vendo fua confiança , mudaria a von^ 
tade , ou lha moveria Deos , a quem deixou 
todo aquelle negocio, E entregando a for- 
taleza ao Alcaide mor , lhe diíTe , que por ne- 
nhum cafo fe movefle a nada , poíto que ou- 
viífe dizer que o mataram ; e que trabalhai- 
fe por defender a fortaleza até chegar o Go- 
vernador , que não podia tardar muito. E 
embarcando-fe muito feguro , e com mof- 
tras de alegria , foi defembarcar á porta d'El- 
Rey, e fubio por fuás efeadas aííima fócom 
hum pagem , e entrou na camará d'ElR,ey a- 
companhado já de muitos que oefperavam , 
e fez fuás cortezias com tanta confiança , que 
pafmou EIRey ; e vendo a fegurança com 
que hia a leu chamado , fupitamente lhe ti- 
rou Deos do coração a tenção com que ef- 
tava , e o agazalhou muito bem , com o rof- 
to rizonho , dizendo-lhe , que o mandam 
chamar pêra faber delle fe o Governador 
feria cedo naquella Ilha , porque já defejava 
de o ver pêra o agazalhar , e feílcjar. Ma- 
noel de Soufa lhe refpondeo , que ficava em 
Baçaim fazendo alguns negócios , e que lhe 
parecia que não tardaria muitos dias. E 
praticando em outras couías bem diferentes 

de 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

de fuás tenções , o defpedio graciofamente. 
Manoel de Sou ia fe tornou pêra a fortale- 
za , dando muitas graças a Deos por ellefer 
o Author daquellas coufas , e o livrar das 
xnaos daquelle bárbaro. 

Se Valério Máximo, Tito Livío , e to- 
dos os mais Efcritores louvam, e engrande- 
cem aquelles Decios Romanos , que fe lan- 
çaram em meio das hoftes dos inimigos por 
ialvarem fua pátria , que menos fama mere- 
ce efte valorofo Capitão ? ou que menos fez 
que elles ? Porque fe fe lançaram em meio 
dos inimigos , efte também fe entregou a 
hum o mais cruel, e tyranno, que fe fabia 
no Mundo , falvando com iífo a vida de mui- 
tos , e a fortaleza de feu Rev. E não faltou 
a efte (e a outros muitos Portuguezes pêra 
avantajarem em tudo aos Romanos) mais 
que outro Tito Livio , que lhe engrandece- 
ra feus feitos ; pofto que fam elles taes , que 
nem por meu fraco eftilo , nem pelos def- 
cuidos que ha nefta noífa Nação de procu- 
rarem gloria , e fama por efcritura , deixa- 
ram os famofos de confeguilla, porque bem 
fe fabe que nenhuma virtude merece tantos 
louvores , como a fortaleza. 



CA- 



Dec. V. Liv. I. 89 

CAPITULO IX. 

De como o Governador Nuno da Cunha par- 
tio pêra Dio , e no caminho encontrou com 
Diogo de Mefquita : e de como EIRey Sol- 
tão Badur foi vijitar o Governador ao 
galeão, e de outras coufas. 

ESteve o Governador Nuno da Cunha 
todo o mez de Janeiro em Baçaim ef- 
perando por Diogo de Mefquita pêra delle 
faber a certeza do que o Badur determina- 
va ; e vendo que hia tardando, deo á vela 
pêra Dio, levando cornfigo António da Sil- 
veira feu cunhado Capitão de Baçaim ; e a- 
traveíTando o Golfo , encontrou Diogo de 
Mefquita , que EIRey defpcdio da Cidade 
deGoga, de quem foube o máo animo com 
que EIRey Soltao Badur andava , e que já 
ficava na Ilha de Dio , e que fem dúvida 
trabalharia todo o poííivel por tornar a ha- 
ver aquella fortaleza ás mãos por todo o en- 
gano, e trairão que pudeíle. O Governador 
fentio muito aquillo pelo defapercebimento 
com que a fortaleza eftava , principalmente 
de agua , por não ter ainda ciílerna. E bem 
entendeo que Deos o levava lá para evitar 
algum damno. E apreífando-fe o mais que 
pode, foi haver vifta da terra aMadrefaval 
íinco léguas de Dio P donde defpedio hum 

ca- 



90 ÁSIA de Diogo de Couto 

catur ligeiro a Manoel de Soufa , pêra que 
fe foííe ver com elle, e elle fe deixou ir de 
longo da terra até anoitecer , que furgio hu- 
ma légua de Dio. Aqui foi ter com elle Ma- 
noel de Soufa Capitão da fortaleza , e re- 
colhidos na fua camará lhe deo conta de to- 
das as coufas , que lhe tinham fuccedido com 
o Badur , aílim como já as temos contado. 
Bem entendeo o Governador que fe lhe of- 
fereciam trabalhos , e que lhe era neceíTario 
declarar-fe com o Badur , porque todas as 
diílimulações , que naquclle negocio tiveífe , 
lhe poderiam fer muito perigofas. E depois 
de pairarem a mór parte da noite em práti- 
cas fobre eíla matéria , defpedio o Governa- 
dor ao Capitão Manoel de Soufa , que fe 
tornou pêra a fortaleza. Ao outro dia tan- 
ro que ventou a viração , deo a Armada á 
vela com vento profpero , e galerno , c foi- 
fe de longo da terra pêra demandar o por- 
to. Andava neíle tempo o Badur da outra 
banda da terra firme á caça das gazellas , e 
tanto que vio a Armada , foi-fe chegando á 
praia , e de longo delia foi vendo a formo- 
fura daquella frota , que foi a mais formo- 
la que nunca vira , que era mais de quatro- 
centas velas de toda forte, ifto he , finco jun- 
cos grandes de Malaca carregados de man- 
timentos , oito náos do Reyno , quatorze ga- 
leões 3 duas galeaças , doze galés reaes , dez- 

cieis 



Dec. V. Liv. I. Càp. IX. pi 

efeis galeotas, e as mais eram furtas, catu- 
res , bargantins , que paíTavam de duzentas 
€ vinte e tantas veias. Hiam mais a fóra ef- 
tas náos , zambucos , e cotias de taverneiros 
da gente da terra , que faziam huma muito 
grande povoação. E avilta delia foi fempre 
até furgir na bahia de fóra, junto ao balu- 
arte do mar, e por fer já tarde ferecolheo 
EIRey a feus Paços. 

Aquella noite chamou todos os feus Gran- 
des a confelho, ecom elles tratotl o modo 
de como poderia matar o Governador , pêra 
lhe ficar mais fácil o poder tomar a forta- 
leza ; e antre todos fe aílcntou , que corref- 
fe com elle com grandes cumprimentos , e 
diílimulações , fingindo-fe-lhe grande amigo , 
e que o mandafle convidar pêra lhe dar hum 
banquete em terra , em huma quinta que ti- 
nha na Ilha ao longo de hum formofo tan- 
que , e que alli o matariam a elle , e a to- 
dos os que com elle foíTem, Com eíla refo- 
luçao fe recolheram. Ao outro dia tanto que 
amanheceo ( que era vefpera de entrudo ) 
chegou a bordo do galeão do Governador 
hum navio com hum criado d'E!Rey , que 
o mandava vifitar com hum prefente. ( O Go- 
vernador dizem , que aquella noite fora avi- 
lado da parte de Xacoez , que em nenhum 
cafofoíTe aterra, fe EIRey o mandafle con- 
vidar. ) Pelo que tanto que foube eílar alli 

re- 



92 ÁSIA de Diogo de Couto 

recado cTElRey , lançou-fe em camá~fingin- 
do-fe doente. O criado do Badur foi leva- 
do ao Governador*, que eílava acompanha- 
do de muitos Fidalgos , e Capitães , e elle 
lhe deo os parabéns de fua vinda da parte 
d'ElRey , dizendo-lhe , que eftava mui al- 
voroçado pêra o ver pela grande obrigação 
que lhe tinha , que ao outro dia que era do 
entrudo , que fabia que os Portuguczes fes- 
tejavam , o havia por convidado com todos 
os íeus Capitães pêra lhe dar hum banque- 
te em huma quinta fua , e que entre tanto 
partia com elle da caça , que aquelie dia fi- 
zera da outra banda , (que logo foi trazida 
á tolda , ) que era huma quantidade de ga- 
zeílas mortas com fuás pélles , mas todas com 
alguma parte menos , pé , perna , ou cabe- 
ça, e outra fomma de gallinhas todas com 
as cabeças cortadas. O Governador muito fe- 
guro refpondeo á vifita , dando-lhe os agra- 
decimentos daquella mercê ; e que quanto a 
fer leu hofpede ao outro dia , não podia fer y 
de que ficava muito pezarofo , porque eílava 
em cama de humas febres , e pofto em die- 
ta , que tanto que melhorafle, lhe iria beijar 
as mãos > e acceitar aquellas mercês, e hon- 
ras , e com iílo defpedio o criado. 

O Governador alevantou-fe da cama , c 
fahio~4 tolda a ver o prefente dasgazellas, 
c gallinhas, e conííderando em todas as par- 
tes 



Dec. V. Liv. I. Cap. IX. 93 

tes que lhes faltavam , bem entendeo o ani- 
mo crElRey , porque todos os Mouros fam 
mui dados a parábolas , e figuras : aífim el- 
le defejava deípedaçar os Portuguezes da ma- 
neira que as gazellas , e gallinhas hiam , e 
parece que as partes que lhes faltavam, as 
tinha mandado facrificar ao diabo , pêra que 
elle ofavoreceíTe naquillo; ou também lhas 
tiraria pêra fazer feus feitiços , porque era 
grande feiticeiro , e dado a agouros. João 
Rodrigues Fyfico mor da índia, que eílava 
prefente , notando aquellas partes cortadas , 
diífè ao Governador , que tudo aquilio hia 
empeçonhentado ; pelo que mandou Jogo 
metter tudo em hum navio , pêra que fe foi- 
íe lançar no mar largo com a vafante da ma- 
ré, EiRey foube do feu criado como acha- 
ra o Governador em cama , e que por cau- 
fa defua enfermidade deixara de acceitar o 
feu convite; e determinou pêra maior diíli- 
mulaçao illo vifitar ao galeão, pêra comif- 
fo o obrigar a lho acceitar, quando pêra el- 
le o convidaííe. 

E a outro dia , que foi quarta feira de 
Cinza , mandou recado a Manoel de Soufa , 
que fobre a tarde fe foííe pêra elle pêra o 
acompanhar , porque queria ir viíitar o Go- 
vernador. Manoel de Soufa o mandou lo- 
go avifar , o que o poz em confusão ; porque 
por huma parte via que lhe era neceílario 

pren- 



94 ASIÀ de Díogo de Couto 

prender, ou matar EIRey , pois o elle per- 
tendia fazer a elle; e por outra parte, que 
feria coufa muito fora de toda a lealdade Por- 
tugueza matar homem , inda que inimigo , 
que com côr de amizade , e confiado uella 
hia feguramente metter-fe em feu poder. E 
cuidando no que faria , affentou de o man- 
dar prender tanto que íahiíTe do galeão , e 
mettello na fortaleza. E preparando-fe pêra 
o receber , mandou negociar o galeão , e ar- 
mar muito ricamente cubrindo-íe a tolda to- 
da , camará , e varanda de pannos de ouro , 
e de alcatifas ricas , e deo recado a todos 
os Capitães , e Fidalgos da Armada , que 
aquelle tempo fe foliem pêra elle o mais cui- 
tofamente veltidos que pudeíTem ? e que to- 
da a Armada fe embandeirafle, e preparaf- 
le a artilheria pêra íalvar Ellley , mandan- 
do , e encommendando , que le lhe fizeílem 
todas as moíiras de alegria que pudeílem. 

O Badur tanto que Manoel deSoufa fe 
foi pêra elle, que feria a horas devcfpera, 
logo fe embarcou com elle no feu navio 3 
que levou muito ricamente toldado , e alca- 
tifado , levando comíigo treze Capitães dos 
feus principaes y de que não achámos os no* 
mes , mais que a finco : Langarcan , homem 
mancebo , de nação Guzarate , Senhor de 
grande Eílâdo : Aminacem , também Guza- 
rate y e homem de muito preço , e grande 

Ef- 



Dec. V. Liv. I. Cap. IX. p? 

Eílado: Coge Çofar, Italiano arrenegado, 
a quem EIRey fe moítrava affeiçoado por 
amor de hum leu filho , moço de muitas par- 
tes , e lhe tinha dado a Villa deSurrate com 
todas luas rendas , e mando abfoluto : Cara- 
fen , eAfetcan genro de Coge Çofar, a que 
chamavam o Tygre do Mundo , por fer hum 
Janizaro muito grande de corpo , homem 
muito esforçado , que foi o que não quiz fa- 
hir ao defafio a Manoel de Macedo > como 
na quarta Década , Capitulo oitavo , Livro 
oitavo diííemos. Hiam mais com EIRey dous 
pagens feus mimofos, hum com hum arco, 
e coldre muito rico , outro com hum terça- 
do de ouro , e com hum cofo ; hia veílido 
em trajos do monte , de panno de Portugal 
verde fino , porque faziam terrenhos frios , 
na cabeça touca de muitas voltas negra , e 
hum punhal de ouro mettido em hum rico 
camarabando , com que hia cingido. E co- 
mo hia com ruim tenção , (que era matar o 
Governador 3 fe vide tempo pêra iíTo , ) dei- 
xou negociados alguns navios com gente , 
e recado a feus Capitães pêra que eftivef- 
fcm a ponto , e que vendo defpedir huma 
frecha pêra o ar, acudiíTem com muita pref- 
fa, porque çra -final de guerra. 

Partido EIRey do cais , foi demandar a 
Armada , e ao entrar por antre ella , come- 
çaram afalvallo com toda a artilhem , e de* 

pois 



96 ÁSIA be Diogo de Couto 

pois com muitos inftrumentos de charamel- 
las , trombetas , folias , e outras muitas mof- 
trás de alegria* Os navios de remo , que eram 
muitos, abríram-fe pelo meio pêra elle paf- 
far , fazendo-lhe todos fuás fainas , e o fo- 
ram acompanhando até o galeão. Hia EIRey 
praticando com Manoel de Soufa mui rizo- 
nho , e alegre, e chegando ao galeão, fubio 
por elle affima mui defembaraçadamente , in- 
do fempre pegado com elle Manoel de Sou- 
fa , eJoãodeSant-Iago, lingua , que já era 
mais Mouro que elle. Subido EIRey no ga- 
leão , foi pondo os olhos por todo elle , que 
eftava cheio de todos aquelles Fidalgos , e 
Capitães , portos em fileiras pelos bordos , e 
entrando na tolda, achou outros fetenta dos 
mais velhos , mui bem concertados , e rica- 
mente veftidos , e com armas fecretas por 
baixo. Dalli foi levado acamara, onde en- 
trou com hum pagem , e com três dos feus 
Capitães , Langarcan , Aminacem , e o Ty- 
gre do Mundo. O Governador eftava deita- 
do em huma camilha muito rica , armado 
por baixo , c com huma efpada por dentro 
de longo de íi. Tinha comíigo António da 
Silveira, Gonçalo Vaz Coutinho, António 
de Sá o Rume, João Juzarte Tição, eDom 
Manoel de Lima. 

Tanto que EIRey entrou dentro , elle 
fe fufpendeo na cama > íingindo-fe muito fra* 

co. 



Dec, V. Liv. L Cap. IX. 97 

co. EIRey fe aflentou em huma rica cádei* 
ra de brocado, que para elle eftava pofta íb- 
bre ricas alcatifas ; e depois de affentado , poz 
os olhos no Governador , e efteve hum pe- 
queno efpaço , em que pola ventura paliaria 
pela memoria o erro , que tinha feito em fe 
metter em poder de homens , a que elle que- 
ria tamanho mal. Paííado aquelle pequeno 
termo , lhe mandou perguntar por João de 
Sant-Iago como eftava 5 dizendo-lhe , que 
lhe pezava muito de íua enfermidade. O Go- 
vernador lhe refpondeo , que agora que via 
S. A. efperava de farar cedo, que eftava fra- 
co , mas que já fe hia achando, melhor das 
febres, EIRey tinha os olhos na porta da va- 
randa , que eftava amparada com hum pan- 
no de ouro, porque fufpeitava , que eftava 
dentro gente efcondida ; e dizem , que pelo 
Parfeo diíTera a João de Sant-Iago, que diJP- 
iimuladamente foííe ver o que eftava dentro* 
Mas hum pagem do Governador , (que efta- 
va na camará avanando-o , quenefta era de 
noventa e féis ainda vive , e fe chama Vi- 
cente Paes ) nos diííe , que o mefmo Rey , 
como homem defejofo dever tudo o do ga- 
leão , fe aíevantára , e entrara na varanda , e 
que não vendo gente ficara algum tanto def- 
alivado b mas não pouco arrependido do que 
tinha feito; edefpedindo- fedo Governador, 
lè foi embarcar. 
Couto. Tom JLP.L G O 



98 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Governador mandou metter na mão 
a Manoel de Souía hum efcrito , em que 
lhe mandava , que tanto que EIRey fe fa- 
hiífe do galeão o prendeíTe , e levaíle á for- 
taleza. EIRey como hia apreííado , lançou- 
fe em hum dos feus navios 5 e foi-fe logo 
aíFaílando. Manoel de Soufa deteve-fe com 
o efcrito, e quando chegou a bordo já EI- 
Rey fe affaítava 5 pelo que fe embarcou no 
feu navio , e com elle Diogo de Mefquita , 
Pcdralves de Almeida , António Corrêa , e 
alguns da obrigação deftes homens , e foife- 
guindo EIRey. O Governador tanto que fe 
elle fahio do galeão , logo fe levantou , e 
diffe áquelles Fidalgos , que eftavam na tol- 
da , que fe embarcafíem muito depreífa , e 
foífem favorecer Manoel de Soufa em hum 
negocio a que hia ; o que elles fizeram , lan- 
cando-fe aos navios que puderam alcançar. 

Nefta vifitação d'ElRey achamos algu- 
ma differença nos que efcrevêrafti eílas cou- 
fas , do que geralmente fe conta antre os 
Mouros , e Gentios antigos de Dio , e ao 
que em fuás cantigas cantão ; porque todo 
efte fucceíTo puzeram em verfo , e o cantão 
o dia de hoje por todo o Reyno de Cam- 
baya. Dizem alguns dos noífos , que EIRey 
enrrára no galeão , e que o Governador o 
fora receber a bordo , no que fe encontram 
com a diífimulação que teve de fe fazer en- 

fer- 



Dèc. V. Liv. I. Cap. IX. eX. 99 

fermo , por não ir ao banquete. E dizem 
mais , que o Badtir , depois de entrar na ca- 
mará do Governador com o defatino que 
tinha feito naquella viíitaçao , e o Governa- 
dor com o ter diante de íi, vendo que lhe 
era necefTario pfcndello , ou matallo , que 
com eftas conliderações ficaram ambos como 
mudos ? com os olhos hum no outro mais 
<3e meia hora ,■ fem haver antre elles cópia 
de palavras ; e que o Badur fe levantara , e 
fe fora fem dizer coufa alguma. Tudo ifto 
he contra a obrigação de humRey tão po- 
derofo , e de hum Capitão tão valoroíò co- 
mo Nuno da Cunha , que tanto trabalhavam 
por fe fingirem hum ao outro , o que não 
podia fcr fem haver palavras , como na ver- 
dade houve, da maneira que temos dito. 

CAPITULO X. 

Da defajiraãa morte de Manoel de Soufa \ 
Capitão de Dio : e de como os noffòs ma- 
taram EIRey , e da variedade que houve 
fobre o modo defua morte : e da vida de 
João de Sant-Iago > e da cruel morte que 
aqui recebeo. 

EMbarcado Manoel de Soufa íiõ tiavio, 
como diííernos, foi feguindo EIRey , 
que fe hia hum pouco alongando $ haveíído 
que efcapára de huma , e boa , em que fe 
G ii met- 



ioo ÁSIA de Diogo de Couto 

mettêra fem confideração y mas não fe hou- 
ve ainda de todo por feguro até chegar a 
terra i pêra onde mandou remar com muita 
preíTa , levando Manoel de Soufa a mefma 
por chegar a elle. João de Sant-Iago ven- 
do a que levavam aquelles navios apôs EI- 
Rey , lhe difle , que lhe não parecia aquil- 
lo bem. EIRey embaraçado com o negocio, 
tomou o arco , e defpedio hunia frecha pê- 
ra o ar, ( que era o final que tinha dado a 
feus Capitães pêra que lhe acudiílem) man- 
dando aos marinheiros , que remaíTem mui- 
to rijo , promettendo-lhes grandes mercês- 
Manoel de Soufa chegando perto do navio 
d'ElRey , chamou por João de Sant-Iago , 
dizendo-lhe , que diíTeííe a EIRey que fe 
detiveífe, porque lhe queria dar hum recado 
do Governador , que importava muito. João 
de Sant-Iago bem entendeo que aquillo não 
era pêra bem , e aínm o diííe a EIRey , que 
fe levantou em pé , e mandou remar depref- 
fa. O navio de Manoel de Soufa como era 
muito ligeiro alcançou o d'ElRey , e lhe 
poz a proa , com o que fe embaraçaram os 
remos, ficando os navios abordados. Manoel 
de Soufa faltou logo dentro \ e com elle os 
companheiros , e chegando a EIRey liou-íe 
com elle pêra o prender. Os feus , tanto que 
aquillo viram , remettêram com Manoel de 
Soufa pêra o matarem , dando-lhe algumas 

cu- 



Dec. V. Liv. I. Cap. X. ioi 

cutiladas , que lhe não fizeram damno por 
ir armado fecretamente. EIRey , que era ho- 
mem forçofo , também fe liou com Manoel 
de Soufa tão rijamente , que o teve fufpen- 
dido. Diogo de Mefquita, que eftava mais 
perto delie , deo hum a cutilada a EIRey por 
íima da touca , que lhe cortou todas as vol- 
tas , e o ferio na cabeça , ficando a coufa 
baralhada antre todos ás cutiladas \ os nof- 
íòs quatro (que não achámos mais , ao me- 
nos de nome) com os quatorze d'ElRey , 
fazendo todos maravilhas nas armas. EIRey , 
e o Capitão andavam liados , bracejando > 
e lutando , e de volta em volta fe foram en*~ 
coitando fobre a percha do navio , e por li- 
ma delia foram ambos ao mar. E como EI- 
Rey era leve , e hia defarmado , defapegou- 
fe logo ; mas Manoel de Soufa com o pe- 
zo das armas fe foi ao fundo fem nunca mais 
apparecer. E aqui acabou hum Fidalgo de 
grande valor , ,e esforço , e dos mais primo- 
rofos penfamentos daquelles tempos. Era fi- 
lho de Gonçalo de Soufa 5 o Lavrador dtf 
alcunha , era primo com-irmao do primei- 
ro Conde daCaftanheira, filhos de dpus ir- 
mãos , convém a faber , Gonçalo de Soufa , 
e Dona Violante de Távora. EIRey como 
íè vio livre , não fe quiz recolher a fufta , 
porque houve por melhor partido nadar pê- 
ra a terra, que foi demandar ? trabalhando 

tu- 



102 ÁSIA de Diogo de Couto 

tudo o que podia por chegar a ella ; mas 
quiz fua ventura , que começaíTe a deícabe- 
çar a maré pêra baixo , que o foi levando 
pêra o mar , já tão cançado , que fe houve 
por perdido. E porque áquelle tempo che- 
gava perto delle hum navio , de que era Ca- 
pitão Triftao de Paiva , houve por menos 
mal entregai-fe , que morrer afFogado , e af- 
íim lhe capeou , e bradou , nomeando-fe Ba- 
dur , Badur. Triftão de Paiva em ouvindo 
appellidar, acudio pêra o ialvar , dizendo- 
lhe , que não temeííe , porque nenhum mal 
receberia. EiRey já muito cançado ferrou 
dos remos de proa , onde eftava hum homem 
de baixa forte , e alguns dizem , que alabar- 
deiro do Governador , que vendo chegar 
aquelle Mouro , fem faber quem era , em- 
bebeo huma chuça ferrugenta , e lhe deo duas 
chuçadas , de que o matou , fem lhe poder 
valer Triftão de Paiva, que hia faltando os 
bancos da fufta pêra o falvar. 

Os noííos , que ficaram na fufta pelejan- 
do com osd'E!Rey, receberam todos mui- 
to grandes feridas , porque tinham muito af- 
peros , e duros inimigos , tendo já delies 
mortos fete , fendo-o já Pedralves de Abreu 
de muitas , e grandes feridas. Os navios que 
Iiiam em favor de Manoel de Soufa aper- 
taram o remo pêra chegarem ; mas o pagem 
do Soltao Badur , que eftava na proa do feu 

com 



Dec. V.Xiv. I. Cap. X. 103 

com o arco , defpedio nelles tantas frechas, 
que ferindo-lhes muitos marinheiros , os fez 
deter por algumas vezes , até que chegou hum 
navio , huns dizem que de Gonçalo Vaz Cou- 
tinho , outros que de hum catureiro , que íè 
chamava o Pantafaful , que lhe poz a proa , 
e faltando dentro , acabou-fe de averiguar 
aquelle negocio com morte de todos os 
Mouros. Caracen, Coge Çofar, e João de 
Sant-Iago fomente , que fe tinham lançados 
ao mar apôs EIRey , hiam bufcando fua ven- 
tura. Os noífos ficaram todos ataíial liados , 
falvo António Corrêa , que levou mais de 
vinte feridas , e algumas pelas pernas , de que 
depois viveo aleijado muitos annos. Cara- 
cen, Coce Çofar , e João de Sant-Iago in- 
do nadando apôs EIRey, deo-lhes também 
avafante, que os foi levando pêra fora, fo- 
mente Caracen ferrou a terra já tão cança- 
do , que não podia comiigo. Coge Çofar foi 
dar com hum navio, em que hiam António 
de Soto Maior , c Diogo de Reynofo feu 
irmão; eindo já tal que não podia remar, 
o foi demandar , pedindo que o recolheífem. 
António de Soto-Maior , e feu irmão acu- 
diram pêra o falvar das mãos dos foldados , 
que fizeram muito pelo matar, ecom gran- 
de trabalho o recolheram com algumas cu- 
tiladas grandes pela cabeça, apiadando-fe de 
fua miferia , e defaventura ; porque os âni- 
mos 



104 AS1A bE Diogo de Couto 

mos grandes , e valorofos até da de feus ini- 
migos fe compadecem. Na meíma conjun- 
ção chegaram alguns navios, que hiam em 
favor d'E!Rey , e os três delles íuccedeo che- 
garem aquella hora de Mangalor cheios de 
muita , e luftrofa gente ; e como os noíTos 
navios andavam já todos baralhados , ferran- 
do nos dos inimigos , em breve eípaço os 
axoráram a todos , cuftando efta trifca a vi- 
da de oito dos noílbs , e muito fangue a 
mais de quarenta , ficando efte negocio de 
todo concluído já Sol pofto. Em todo aquel- 
le tempo eíliveram do galeão do Governa- 
dor vendo a revolta , lèm faber o que era 
pafíado , do que elle eítava bem enfadado. 

João de Sant-Iago , com quem ainda não 
temos continuado , foi-o a maré lançando 
pêra fóra , fem poder ferrar terra , fenão ao 
pé do baluarte, que eftá fobre o cães, que 
fe chama hoje de S. Martinho ; e como era 
já efcuro , bradou aos de Uma , que o man- 
daífem tomar , nomeando-fe ( porque era mui 
conhecido de todos , e havido por muito mão 
homem.) Os da vigia tanto que o ouviram , 
fabendo fer elle , ajuntarám-fe todos , e lan- 
çaram fobre elle tantas pedras , páos , e ou- 
tras coufas que acharam á mão , que o ma- 
taram , fem fe elle poder aífaftar de fraco , 
e canfado ; e affim onde cuidou que achaf- 
fç o remédio da vida , achou } e padeceo o 

mais 



Dec. V. Liv. I. Cap. X. io? 

mais cruel género de morte , que podia fer. 
A vida deite horriem foi monftruoía , e mui- 
to pêra notar nella a variedade , e inconftan- 
cia da fortuna. Era natural de Africa , em 
moço foi cativo dos Portuguezes em huma 
cavalgada: em Lisboa o fizeram Cbriftao, e 
foi vendido a hum calafate, que lhe enfinou 
o feu officio , que aprendeo mui bem , em 
que o fervio alguns annos , ajudando a fuf- 
tentar o amo. Era de tão agudo , e fubtil 
engenho , que pafmavam todos. Embarcou- 
fe algumas vezes com feu fenhor pêra a ín- 
dia , que foi por calafate daquellas primei- 
ras náos, que a ella paliaram, ou naquelles 
primeiros annos ; e falecendo em Goa o amo , 
o deixou forro, tendo elle já adquirido al- 
guma fubílancia , e vendo-fe livre ajuntou 
tudo o que pode, epaííbu-fe aoReyno do 
Canará a comprar pedraria pêra tornar a 
vender ás náos, (porque naquelle tempo com 
pouco enriquecia hum homem depreíTa. ) Al- 
li fe deixou andar , e em breves dias apren- 
deo a lingua Canará ; e como era homem 
de engenho, íbube-le entremetter de manei- 
ra , que pela grande prudência que nelle en- 
tendeo EIRey (algumas vezes que com elle 
praticou) o recoiheo a íi , e o teve em feu 
ierviço , em que o fatisfez tanto , affim por 
fua habilidade , como pela veneração com 
que adorava feus Ídolos , quando hia com 

elle 



io6 ÁSIA de Diogo be Couto 

elle a feus pagodes , que o veio a governar 
todo abfolutamente , do que os Grandes do 
Reyno andavam mui affrontados. E fazen- 
do a inveja feu officio , lá lhe ordíram cou- 
fas , que não fó o fizeram defcahir da graça , 
mas julgallo á morte , lendo levado do ma- 
ior , e mais alto lugar do Reyno pêra o 
mais vil , infame , e baixo delle , que era a 
forca , donde foi livre pelos mefmos que o 
chegaram áquelle efíado , que o pediram de 
mercê a EIRey ; e ordenou-o Deos afllm , 
porque não tinha ainda alli feu termo limi- 
tado. Vendo-fe efte homem livre , e que ef- 
capara dehuma morte tão infame , não pa- 
rou alli mais , e voltou pêra Goa mui apre£ 
fado , donde fe paífou a Ormuz , e fe poz 
no ferviço daquelle Rey , e nelle o agradou 
tanto, que o fez dos principaes diante del- 
le, dando-lhe rendas , dinheiro , e cafa. E 
como era homem mui cubiçofo , evio apof- 
fe que no Reyno tinha , afllm tyrannizou os 
eílrangeiros mercadores , que por amor del- 
le deixavam já de vir áquella Cidade ; o 
que fabido por EIRey o quizera mandar ma- 
tar , fe o Capitão daquella fortaleza , que era 
Diogo de Mello , lho não pedira por fer 
Chriftão, tendo elle todo o tempo que fer- 
vio áquelle Rey dado moftras de hum fino 
Mouro , viíltando as mefquitas , e fazendo 
todas ás ceremonias Mahometicas. 

Li- 



Dec. . V. Liv. I. Cap. X. 107 

Livre deite perigo , tornou-fe pêra Goa , 
aonde relidio , até que o Governador Nuno 
da Cunha mandou o Secretario Simão Fer- 
reira jurar as pazes com Soltao Badur , quanr 
do deo Baçaim , que o levou por lingua > 
por fer tão perito em todas as do Oriente , 
como fe fe creára em cada huma delias. Ne£ 
te negocio de Simão Ferreira , as vezes que 
tratou com o Badur , o achou tão experto - y 
e de tanta viveza , que o pedio a Simão Fer- 
reira que Ihodeixaííe, como deixou, quan- 
do fe tornou pêra Goa , ficando tão mimo- 
fo 5 e valido cfElRey , que lhe veio a dar 
perto de vinte mil cruzados de renda cada 
anno em aldeias ; pelo que teve grande ca- 
ía, e riqueza , fendo elle hum dos que go-* 
vernavam , o que lhe durou tão pouco co- 
mo fe vio, porque em menos de três annos. 
veio acabar de huma morte tão miferaveK 
Era homem muito pequeno de corpo , e com 
finaes de mal de S. Lazaro , que o faziam 
nojento. 

E tornando á nofla hiftoria. Alguns Ef- 
critores contao eíla morte d'ElRey , e de 
Manoel de Soufa por differente maneira ; 
porque dizem que Manoel de Soufa indo 
apôs EIRey chegando á fua fuílá , dera hu- 
ma na outra tamanha pancada , que cahíra 
da percha ao mar , indo em firna delia em pé ? 
£ que em cahindo lhe acudira EIRey , e o 

re- 



io8 ÁSIA de Diogo de Couto 

recolhera na fuíta , onde o Tygre do Mun- 
do lhe dera huma eílocada pelos peitos de 
que o matara , no que fe encontram bem cla- 
ro com o que paílòu ; porque como João 
de Sant-Iago tinha avifado EIRey , que lhe 
parecia mal a prefla com que Manoel de Sou- 
ia hia após elle , parece que fe não havia 
de deter pêra o tomar, antes havia de fol- 
gar com aquelle eítorvo pêra lhe ficar mais 
tempo de fe falvar. E quanto á morte de 
Manoel de Soufa fer de eílocada ? não hou- 
ve tal , porque hia armado , e as efpadas dos 
Mouros fam largas , e fem ponta , e não lhe 
podiam pa{Tar as armas ; e fe tal fora , feu 
corpo ficara na fuíta , e alli fe achara , mas 
elle defappareceo no mar , porque o pezo 
das armas quando cahio o levou logo ao 
fundo. E aílim o contavam os Mouros da- 
quelle tempo a quem o nós ouvimos. 

CAPITULO XI. 

De como foi trazido Coge Çofar ao Gover- 
nador Nuno da Cunha : e da liberdade que 
lhe deo : e de como fe levantou por Rey 
em Cambaya hum cunhado do Rey dos Ma- 
■ gores : e da embaixada que mandou ao 
Governador. 

COncluido o negocio , ou de huma ma- 
neira , ou da outra , recolhêram-fe os 
noífos ao galeão do Governador , que em 

ex- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XI. 109 

extremo fentio a morte de Manoel de Sou-< 
fa, e também a d 5 ElRey, porque defejava 
de o haver ás mãos vivo , porque montara 
muito ao Eftado da índia , e mandou com 
muita preíla bufear eftes corpos , que le não 
acharam , e o de Manoel de Soufa não era 
de efpantar , porque o pezo das armas o ha- 
via de levar ao fundo ; mas Soltao Badur 
fem ellas não appareceo mais , nem no mar y 
nem na terra , onde he natural irem ter os 
corpos mortos pelos o mar lançar de li. E 
como EIRey era grande feiticeiro , e Má- 
gico ( pelos muitos annos que antes de fer 
Rey tinha andado pelo Mundo em trajos de 
Jogue fugido ao pai , ) tem os Guzarates pê- 
ra íi ainda hoje, que não podia morrer, c 
que eftá vivo, eque anda em figura de pei- 
xe naquelle rio , que ainda por tempos ha 
de tornar a reinar, qual outro Artur em In- 
glaterra em figura de corvo. António de So- 
to-Maior , e Diogo de Reynofo entregaram 
ao Governador Coge Çofar , que elle rece- 
beo humanamente , mandando-o levar á for- 
taleza , e encarregallo ao Alcaide mor , pê- 
ra que o curaiTe com grande refguardo , e 
o mefmo aPedralves de Almada, Diogo de 
Mefquita , e António Corrêa. 

Ao outro dia pela manhã foi o Gover- 
nador avifado , que a gente da Cidade ame- 
drontada com a morte d'E!Rey fe paliava 

á 



no ÁSIA t>E Diogo de Couto 

á outra banda ; e querendo prover niílb , man* 
dou levar Coge Çofar diante de fi , e lhe dif- 
fe, que cumpria a ferviço d'ElRey de Por- 
tugal ir quietar aquella gente , porque deter- 
minava de favorecer a todos , e fuítentallos 
em paz , e juftiça , e que por aquelle íervi- 
ço promettia de lhe fazer honras , e mercês , 
e de lhe dar liberdade. E que entre tanto 
mandaíTe Jevar a fortaleza feu filho , que fe 
chamava Marran 5 aonde eílaria honrada* 
mente em reféns , até ver como ellenaquel- 
le negocio fervia EIRey de Portugal, e que 
então lhes daria liberdade a ambos. Coge 
Çofar fe lhe lançou aos pés , agradecendo- 
lhe a mercê que lhe fazia , promettendo-lbe 
de o fervir muito bem naquelle negocio , e 
em todos ; e logo mandou levar feu filho á 
fortaleza , que fe entregou ao Alcaide mor , 
que lhe deo cafas pêra elle , e para alguns 
criados que levou. E elle fe foi á Cidade, 
levando feguro geral, que lhe o Governador 
paífou , pêra todos os moradores delia vive- 
rem na liberdade em que eílavam 5 e que fe 
lhes não faria aggravo algum , fenao muitos 
favores. Ifto he o que achamos por mais a- 
veriguado , que aquillo que alguns eferevem , 
que o Governador foltára Coge Çofar, to* 
mando-lhe a menagem de fe não fahir da Ci- 
dade fem fua licença ; porque parece que fe 
não havia o Governador de fiar tanto daquel- 

le 



Dec. V. Liv. L Ca*.. XI. ni 

Je homem , que cuidafle que lhe havia de 
guardar palavra , porque bem fabia a pou- 
ca fé de todos os Mouros ; mas tomou-lhe 
os reféns que diílèmos , pêra que com mais 
vigilância , e cuidado trataífe de ter mão na 
gente da Cidade , porque fe não defpovoaf- 
fe de todo , e pêra outras muitas coufas de 
que tinha neceffidade pêra a fortificação da 
fortaleza ? e de huma ciflerna que determi- 
nou logo fazer , que pertendia de haver por 
ordem 3 e induííria de Coge Çofar , que com 
o intereífe da liberdade do filho fe havia de 
difvelar no ferviço d^ElRey de Portugal. 

Partido Coge Çofar pêra a Cidade , co- 
mo tinha muita poíTe , e antre todos os na- 
turaes grande authotidade , e era naturalmen- 
te fagaz, e prudente , tal ordem tevenaquel- 
le negocio , que não fó quietou a todos os 
que achou ainda na Cidade , mas fez tor- 
nar a ella , os que já eram paíTados a outra 
banda , tornando a ficar a Cidade em fua an- 
tiga profperidade. O Governador defem- 
barcou aquelle dia á tarde, e fe agazalhou 
na fortaleza , mandando António da Silvei- 
ra , Fernão de Soufa de Távora , e o Secre- 
tario , com cada hum levar fua companhia 
de Toldados , pêra fe metterem nos PaíTos 
d 5 E!Rey , como fizeram , fem haver contra- 
dicção alguma , e puzeram em arrecadação 
tudo o que fe achou de ouro ? prata ç pe- 
dra- 



H2 ÁSIA de Diogo de Couto 

draria , arreios , cavallos , couías de recama- 
ra do Badur, cuja quantidade não achamos 
em lembrança ; mas devia de fer coufa pou- 
ca , porque EIRey tinha mandado todos os 
feus theíouros pêra Meca ; e antre elles foi 
o que tinha tomado a Madre Maluco , que 
mandou á ferra , onde tinha fuás mulheres , 
c as dos feus Capitães poios ter a elles mais 
feguros , e não fe lançarem ao Magor , e 
mandou-os por leu fobrinho o Mirao , que 
por fer homem de valor faria aquelle nego- 
cio bem. O thefouro que Soltão Badur to- 
mou a Madre Maluco , eram cento e vinte 
cofres , que cada hum tinha trezentos mil 
pagodes de ouro , e duzentos e quarenta che- 
ios de moedas de prata , de que quaíí não 
fazia cafo. Hia mais hum cofre , que pezava 
quatro quintaes , que nenhuma outra coufa 
levava mais que pérolas , e aljôfar. Hia ou- 
tro cofre , que levava mil adagas de ouro , e 
de pedraria ; e affirmáram-nos por coufa mui- 
to certa fer efte o fomenos thefouro dos 
que tinham os antigos Reys de Cambaya , 
que os tinham tão íoterrados , e encubertos , 
que fó a peífoa do Rey , e o Regedor do 
Reyno fabiam delle. 

Defte bárbaro foube huma coufa , que 
rooftra bem claro quão grandes eram os 
thefouros que tinha. Depois de fe ver des- 
baratado do Magor 7 e eílar em Dio forta- 

lé- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XI. 113 

leza inexpugnável , não fe havendo nella por 
íeguro por quão lenhoreado , e apoderado 
eftava o medo do feu coração , mandou hum 
recado ao Grão Turco , em que lhe pedia 
pêra íegurança de fua peííoa dous mil Ru- 
mes , que querja trazer a foldo em fua com- 
panhia. E para que o Turco lhe concedei- 
íe o que lhe pedia com facilidade , hia o re- 
cado acompanhado de hum muito rico pre- 
fente , pedindo-lhe muitos perdões de lhe 
mandar aquella pouquidade , fendo o prefen- 
te tal , que a valia delle pudera fazer rico 
a qualquer Rey a que fe dera ; porque era 
huma cabaia de fio de ouro de martelo , 
lavrada toda de pérolas de muito preço , e 
os botões que a abotoavam eram todos de 
diamantes engaftados em ouro , muito jun- 
tos , e de grande valia , tamanhos como gran- 
des tremoços. Mandava-lhe mais huma cin- 
ta de ouro , e pedraria muito rica , com hum 
terçado , e adaga do mefmo feitio , e rique- 
za , pêra não defdizer da obra da cabaia. 
Mandava-lhe mais huma coroa ferrada, co- 
mo coroa de Imperador, de ouro , e mui- 
to rica pedraria ; e diziam alguns mercado- 
res que a viram, que fó ella valia mais de 
dons contos de ouro ; e a cabaia era de mui- 
to mor preço, pela muita quantidade de pé- 
rolas que levava , de muito preço , de que 
a fomenos delia valia quinhentos pardáos de 
Couto.Tõm.ILP.L H ou- 



ii4 ÁSIA de Diogo de Couto 

ouro ; e a mor parte do que EIRey trazia 
pêra feu lèrviço fe paflou aquella noite pê- 
ra a outra banda com iiias mulheres. Nos 
armazéns acharam huma grande cópia de ar- 
tilheria , e armas de todas as fortes , pólvo- 
ra , pelouros , e muitos materiaes pêra ella ; 
e na ribeira muita madeira , e navios de to- 
da a forte , e tantos mantimentos , aílim na 
Ilha, como naVilla do Rumes, que depois 
de fe encherem os armazéns da fortaleza , 
e fe prover toda a Armada muito baftante- 
mente , fe vendeo huma grande cópia por 
fe não haver mifter. 

Feitas cilas coufas , entendco o Gover- 
nador no governo da Cidade , pondo nella 
os Officiaes á vontade do povo; e proveo 
os officios da Alfandega , Juiz , Feitor , e 
Thefoureiro a António da Veiga , e na de 
Gogalá poz Francifco Pacheco com feus Ef- 
crivães , e Contadores , mandando que ufaf- 
fem nellas do coílume antigo, não queren- 
do innovar coufa alguma, por não elcanda- 
lizar o povo ; o que tudo fez com confe- 
Jho , e parecer de Ccge Çofar, que por fe 
moftrar agradecido ás honras, e mercês do 
Governador , o fervia em tudo mui prom- 
ptamente , do que elle eílava tão fatisfeko, 
que lhe deo o governo da Cidade, porque 
Medinarrao já fe tinha ido delia, moftran- 
doÇofar.fua prudência na quietação, e fo- 
ce- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XI. iiy 

cego , com que viviam todos os moradores , 
correndo fempre em grande amizade com 
António de Soto-Maior , e Diogo de Rey- 
nofo , que o livraram da morte 5 pelo que 
lhes ficou tão aífeiçoado , que em quanto vi- 
veo os nomeou por filhos , provendo-os 
fempre de dinheiro , e peças muito abafta- 
damente. E chegou a tanto efta obrigação, 
que commetteo a António de Soto-Maior 
pêra calar com (iia filha , que viuvara do Ty- 
gre do Mundo , que depois cafou com hum 
Efclavonez arrenegado , que também veio 
em companhia do mefmo Coge Çofar , cha- 
mado Zinguircan , por outro nome Caracen , 
que he o que íe faívou da fufta d'E!Rey a 
nado, Efte veio depois a ter tanta authori- 
dade no Reyno de Cambaya , que lhe deo 
Soltão Mahamud o titulo de Caracen, que 
he como Condeftabre do Reyno. 

. Era efte homem muito grave, honrado, 
mui grande amigo de Portuguezes , a quem 
nós o anno de íeflenta e três, que fomos á 
Cidade de Baroche , communicámos , eftan- 
do elle alli por Capitão , e liamos Ariofto , 
Petrarcha , Dante , Petro Bembo , e outros 
Poetas Italianos , a que elle era muito aífei- 
çoado , e goftava muito de o nós entender- 
mos. Efte nos contou algumas vezes muito 
particularmente da jornada deRax Solcimao, 
em que fe elle achou ; e defta do Governa^ 
H ii dor, 



u6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dor, e morte do Soltão Badur , cftando nós 
ainda bem fora de imaginar que a havía- 
mos deefcrever, porque então não tratáva- 
mos livros , fenao a efpingarda. 

E tornando a nolta ordem. Eílava na 
quinta do Melique hum Príncipe chamado 
Mir Mahamede Zaman , cunhado d'ElRey 
dos Magores , irmão de fua mulher , que , co- 
mo diíTemos , fempre andou efperahdo algu- 
ma occaíião pêra ver fe podia metter pé 
em algum daquelles Reynos , tecendo antre 
aquelles dous bárbaros os ódios pa fiados y 
cuidando que delles lhe refultaíTe o que per- 
tendia , que era ver , fe desbaratado algum 
delles, lhe ficava a fortuna, abrindo cami- 
nho pêra ler Rey , o que então não houve 
effeito. E vendo agora que com a morte de 
Soltão Badur lhe oíferecia o tempo tama- 
nha occaíião pêra fer Rey daquelle Reyno , 
por não ficarem filhos ao Rey morto, ajun- 
tando dous mil Magores , que comíigo tra- 
zia , metteo-fe na Cidade de Novanager duas 
léguas de Dio , e começou-fe a appellidar 
Rey do Guzarate. E vendo que pêra fegu- 
ramente fe poder fuílentar naquclle Efiado 
lhe era necellario favor do Governador da 
índia , defpedio logo hum dos principaes 
de fua companhia , chamado Coge Afizamo , 
per Embaixador ao Governador , com apon- 
tamentos das coufas ? que havia de tratar com 

cl- 1 



Dec. V. Liv. I. Cap. XI. 117 

elle. Efte homem chegou á Villa dos Ru- 
mes com grande acompanhamento , onde o 
Governador o mandou bufcar pelas fuílas da 
Armada muito embandeiradas , e o recebeo 
em fala acompanhado de todos os Capitães. 
O Embaixador , depois de paíTadas as pala- 
vras formaes , propoz lua embaixada na for- 
ma íeguinte : 

» Que EIRey Mahamede Zaman feu Se- 
» nhor lhe fazia a faber , que ao tempo da 
» morte de Soltao Badur fe achara no Rey- 
» no de Cambava, eque por não haver her- 
» deiro a que por direito aquelle Reyno vief- 
»fe, vendo que lhe cabia a elle melhor, que 
» a nenhum outro Capitão delle , fe appel- 
» lidara porRey, eque folgava deeftar tão 
» perto delle pêra tratar fobre fuás coufas , 
)) e fazer novos contratos de pazes ? e ami- 
)) zades. Que lhe pedia , que pois não havia 
» Príncipe, que herdaífe aquelle Reyno , que 
»lhe pareceíle bem que ofofle elle, por fi- 
»lho d'ElRey dos Coraçones, e do antigo 
» fangue do GrãoTamorlão ; e que lhedél- 
» fe toda ajuda , e favor , que lhe fofle pe- 
»ra iílb neceflario , porque também elle ef- 
» tava preftes pêra conceder todos os parti- 
» dos , que fofiem juftos , e honeftos. » O Go- 
vernador muito graciofamente lhe refpon- 
deo, que lhe parecia muito jufto o que de- 
terminava , porque por todas as vias o Rey- 
no 



n8 ÁSIA de Diogo de Couto 

no lhe citava mui bem : que elle eítava pref- 
tes pêra o favorecer em tudo como pedia. 
E que quanto aos apontamentos , e contra- 
tos das pazes , elle Embaixador com os Of- 
ficiaes d'E!Rey de Portugal os determinaf- 
fem , entregando-o logo ao Secretario , Vea- 
dor da Fazenda , e Ouvidor Geral , que o 
agazalháram em cafas na fortaleza , que pê- 
ra iffo fe defpejáram , onde felhe deo todo 
o neceífario em abaftanç*. 

CAPITULO XII. 

Que contém os contratos , que o Governador 
Nuno da Cunha fez com Mir Mabemede 
Zaman : e de como o Secretario os foi ver 
jurar por elle : e de como por morte de 
Manoel de Soufa deixou a António da Sil- 
veira por Capitão da fortaleza de Dio : 
e de hum homem , que trouxeram ao Go- 
vernador , de trezentos trinta e Jinco an- 
nos : e de outras coufas. 

AO outro dia ajumando-fe os Officiaes 
d'E!Rey com o Embaixador pêra af- 
fentarem os contratos das pazes , dando-fe 
huns aos outros fcus apontamentos , que fe 
examinaram de parte a parte , e por fim fe 
vieram a concluir pela maneira feguinte : 

» Que tanto que elle Mir MahamedeZa- 
» man foíle pacificamente Rey de Cambaya , 

» da- 



Dec. V. Liv. L Cap. XII. 119 

» daria aElRey de Portugal pêra todo fem- 
» pre o porto , e Cidade de Mangalor , com 
» todos os direitos , rendas, ejurdiçao, com 
» dous coces e meio (que he huma légua , e 
» hum quarto) de huma , e da outra banda , 
»com todos os portos , e lugares ào mar; 
» com outros dous coces e meio pêra o fer- 
)) tão , com todas as Aldeias , Villas , e Lu- 
» gares , que naquella diítancia houvefíe , a£- 
» fim , e da maneira que Sol tão Badur o poí- 
» fuia. 

» Que outro íi lhe daria a Cidade de Da- 
» mão com rodas as fuás Tanadarias , e al- 
» deias que tivelfe até ás terras de Baçaim , 
» aílim como dantes eram do Eftado de Cam- 
» baya. 

); Que todos os navios de guerra , e nãos , 
» que foram de Soltão Badur , com todas as 
» fazendas , que nellas vieíTem de fora to- 
» mar os portos de Cambaya , feria obriga- 
» do a mandar entregar em Dio. 

)) Que em nenhum de feus portos pode- 
»ria elleMirMahemedeZaman mandar fa- 
» zer , nem confentir fazerem-fe navios de 
» guerra ; e que fomente poderiam fazer náos 
» de carga pêra mercadores. 

» Que os cavallos que foíTemter a Dio, 
»pagaíTem os direitos aElRey de Portugal , 
» aííim como fe pagavam em Goa. » 

Eíles fam os apontamentos ; que o Em- 
bai- 



i2o ÁSIA de Diogo de Couto 

baixador concedeo. Os que Jhe concederam 
a elle , fam os feguintes : 

» Que as moedas todas , que correíTem nas 
» Cidades , que foram do Reyno de Cam- 
» baya , que fofle da jurdiçao d'ElRcy de 
» Portugal , e na Ilha deDio, foflem cunba- 
)> das com os cunhos , e marca delle Mir Ma- 
» hamede Zaman. 

» Que nas fuás mefquitas , e alcorões de 
)> todas as ditas Cidades, e lugares fofle el- 
» le Mir Mahamede Zaman acclamado por 
» Rey do Guzarate 5 como o era Soltão Ba- 
» dur. 

» Que os contratos , que eftavam feitos an- 
» tre elle Governador, e Soltão Badur, fo- 
» bre as náos , e cavallos irem áquella Ilha 
)> de Dio , ficaflem correndo , e nelles fe não 
» innovaííe coufa alguma : fomente que as 
» armas , que vieífem nas náos , lhas não to- 
» maífem por virem pêra aquelle Reyno. 

» Que toda a gente de guerra de Soltão 
» Badur , que cftivefle em qualquer porto de 
» Cambaya , que fequizefle ir pêra elle Mir 
» Mahamede , o pudefle fazer livremente , 
» fem ninguém lho impedir : » com outros 
apontamentos , que não fam eflenciaes. 

Concluídos eftes Capitulos, fe paflaram 
dous inftrumentos em Parfeo , e Portuguez , 
hum pêra darem ao Embaixador , e outro 
pêra ficar no Eílado. E logo o Governador , 

pre- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XII. 121 

prefente o Embaixador , e António da Sil- 
veira , Vafco Pires de Sampaio , B.uy Dias 
Pereira, Gafpar de Soufa, Garcia de Sá , e 
outros Fidalgos , e Capitães , jurou nos San- 
tos Evangelhos de os cumprir , e guardar 
em nome d'ElRey de Portugal feu Senhor , 
muito inteiramente , e de lhe ferem guarda- 
dos por todos os Governadores da índia. Dei- 
te juramento fe fizeram outros dous autos 
em Parfeo , e Portuguez pêra fe darem ao 
Embaixador , em que o Governador fe a£* 
lignou , com todos os que prefentes eííavam. 
Acabado ifto , fez o Embaixador logo alli 
o mefmo juramento , que lhe foi dado no 
feu moçafo pelo lingua ? obrigando-fe a fa- 
zer com EIRey a jurar os mefmos contra- 
tos 5 prefentes as peííoas que o Governador a 
iífo mandaíle. O que tudo fe fez com a ma- 
ior lòlemnidade que podia ler, defparando- 
fe toda a artiíheria , aífim da Armada , co- 
mo da fortaleza 5 em final de fefta \ e ale- 
gria, Eítas pazes, e contratos fe apregoaram 
logo pela Cidade ao fom de muitas chara- 
melas , e trombetas. 

O Governador mandou logo fazer pref- 
tes o Secretario pêra ir em companhia do 
Embaixador á Cidade de Novanager a ver 
jurar os contratos aoMir Mahamede ; e ao 
outro dia o defpedio , indo o Embaixador 
muito fatisfeito das honras , e mercês que 

lhe 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

lhe o Governador fez , levando o Secreta- 
rio por lingua Marcos Fernandes , e perto 
de vinte peflbas de cavalio pêra feu acom- 
panhamento, levando peças , e brincos cu- 
riofos pêra dar ao novo Rey. O Mir Ma- 
hamede Zaman teve avifo da lua ida , e o 
foi eíperar á quinta do Mclique , .mandan- 
do-o bufcar ao caminho pelas pelToas prin- 
cipaes de fua cafa, por quem foi' levado ao 
novo Rey , que o recebeo muito bem. E 
depois de faber da faude do Governador , 
o mandou agazalhar 3 e banquetear mui bem. 
Ao outro dia jurou as pazes publicamente 
em feu moçafo nas mãos de Cadiçahat , juí- 
tiça da Cidade de Dio , que o Governador 
pêra iílo mandou , o que fe fez com gran- 
des folemnidades , e feílas ao feu modo , 
mandando-as logo apregoar por todo o ex- 
ercito , e na Cidade deNovanager. Difto tu- 
do fe paliaram inílrumentos em lingua Per- 
fa , aflínados por Mir Mahamede , e pelo 
Cadi , lingua, e mais peííoas principaes. 

Acabado eíte negocio , em que fe gaita- 
ram finco dias , defoedio-fe o Secretario d 5 El- 
Rey , que lhe deo muitas peças , aílim pêra 
o Governador, como pêra eile , e o man- 
dou acompanhar até áVilla dos Rumes. Dal- 
]i fe pafibu á outra banda , e deo conta ao 
Governador do que ficava feito , o que ei- 
le eítimou muito - 7 porque fe aquelle homem 

fe 



Dec. V. Liv. I. Cap. XII. 123 

fe fonbefle coníèrvar naquelle Reyno, fica- 
va o Eftado da índia muito profpero , epo- 
derofo em terras , e rendas. O Governador 
foi dando preíía ás coufas de Dio , porque 
fe hia gaitando o verão , mandando reformar 
a fortaleza 5 e prover os paífos da Ilha , pê- 
ra que não pudeífem entrar nella , deixando 
no rio muitos navios , dando regimentos ás 
Alfandegas. 

E porque a Capitania daquella fortale- 
za vagara por morte de Manoel deSouía, 
a deo a António da Silveira feu cunhado , 
que era irmão do Conde de Sortelha Dom 
Luiz da Silveira , Guarda mor d^ElRey Dom 
João , a quem deo oitocentos homens pêra 
com elle ficarem , ordenando-lhe Capitães pê- 
ra lhes darem mezas , deixando-lhe dinheiro 
pêra pagas, e muitos mantimentos, e muni- 
ções. Na Villa dos Rumes pozjoão deMen- 
doça com ííncoenta foldados. Efta Villa feu 
próprio nome he Gogalá j mas depois que 
a Armada de Mirocen , que o Viío-Rey 
D. Franciíco de Almeida desbaratou naqucl- 
le porto , foi ter áquella Ilha , porque a gen- 
te delia , que era a mor parte Rumes , fe 
agazalhou da outra banda , fe ficou chaman- 
do do feu nome a Villa dos Rumes : e por- 
que não he razão que paliemos por huma 
monftruoíidade de natureza ; a contaremos 
brevemente. 

An- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

Andando o Governador já pêra fe em- 
barcar, lhe trouxeram da outra banda hum 
homem , que fe affirmava fer de trezentos 
trinta e finco annos , que era de meã eílatu- 
ra , as pernas muito arcadas , bem aíTombra- 
do , de cana Bengala , Gentio de nação , mas 
feguia a feita de Mafamede: tinha naquel- 
Ja idade huma fimplicidade efpantofa , ecom 
ella dava razão de muitas antiguidades , e 
alcançou ainda aquelle Reyno em poder de 
Gentios , peia conta que dava dos Reys Mou- 
ros , que todos nomeava com os annos que 
cada hum reinou. Tinha dous filhos, hum 
de noventa annos , e outro de doze ; e te- 
ria outros muitos que lhe morreriam. Affir- 
mava , que finco vezes mudara os dentes ve- 
lhos , e lhe nafcêram novos ; e que outras 
tantas lhe encanecera a barba, e felhe tor- 
nara a fazer preta. Efta renovação da natu- 
reza não lemos em efcritura alguma, que el- 
la fizefle em algum outro homem j porque 
Adão, que viveo novecentos e trinta annos, 
e feu filho Sech novecentos e doze ; Cão no- 
vecentos e dez ; Noé , e outros Patriarcas 
fetecentos , feiscentos , mais , e menos , co- 
mo temos na Efcritura Divina , não achamos 
que viveíTem fenao via ordinária da nature- 
za , fem aquella renovação , e reformação. 

O Governador folgou muito de ver a- 
quelle homem , e lhe perguntou por muitas 

cou- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XII. 12? 

coufas , de que lhe elle deo razão ; e antre 
"dias lhe diííe , que todos os Reys antigos 
que alcançara lhe davam cada mez hum 
cruzado e meio de tença ; que lhe pedia , 
que pois aquella Ilha viera a feu poder , on- 
de elle tinha quebrada a pobre comedia, lhe 
fizefle mercê de lha conceder , porque lua 
idade já não era pêra bufcar o neceíTario pê- 
ra a vida. O Governador lho outorgou de 
muito boa vontade , mandando-lhe aííentar 
aquelle cruzado e meio por mez por ordi- 
nária no Regimento daquelia fortaleza , com 
o que o velho ficou muito contente ; porque 
naquelle tempo pela baratcza das coufas , 
montava aquelle cruzado e meio mais de oi- 
to de hoje ; porque o arroz valia a medida 
a dous bazarucos e meio , e a três quando 
caro : o arrátel de vaca a quatro : o pão de 
quatro bazarucos era muito maior que o de 
dez de hoje ; e aífim todas as mais couías. 
Viveo efte homem até o anno de quarenta 
e fete , porque ainda em tempo do Gover- 
nador D. João de Caítro , depois do cerco 
de Dio , de feu tempo o viram naquella Ilha , 
€ não foubemos de fua morte , nem pude- 
mos achar peífoas que nos diíTelTem delia. O 
Governador Nuno da Cunha defpachou as 
coufas de Dio com muita preíTa , e em Mar- 
ço fe embarcou, e foi tomar Baçaim , aon- 
de deixou Garcia de Sá por Capitão , que o 

aca- 



n6 ÁSIA de Diogo de Couto 

acabara de fer de Malaca por vir delia mui- 
to pobre. E provendo Baçaim , e Chaul de 
munições , e mantimentos , dco á vela pêra 
Goa , aonde depois que chegou deipedio 
os provimentos ordinários pêra Malaca , e 
Maluco : e com ifto fe cerrou o inverno. 

CAPITULO XIII. 

Que da conta de quem era o Mir Maha- 
mede Zaman , que fe appellidava Rey de 
Cambaya , e de quem fam os Usbeques : e 
de como fe fizeram fenhores do E/Ia do de 
Camarcant : e dos nomes que efla Provín- 
cia teve. 

Uando tratámos da origem , e princi- 
pio dos Magores , demos larga conta 
daquelle grande Chinguiícan > que con- 
quifíou as Províncias Sogdiana , Baótriana , 
rarthea , Períia , e outras, que repartio com 
feus filhos , dando a de Camarcant a hum 
chamado Chacatá , e parte da Província Tur- 
cheftan a outro chamado Usbeque , com quem 
continuaremos. Efte Príncipe teve alguns fa- 
lhos , com quem por fua morte repartio feus 
Eftados; e os fucceíTores pelo tempo em di- 
ante os dividiram ainda mais , partindo com 
filhos , e netos ; e de hum fó Reyno que era > 
conftituíram muitos , como o de Hircan , Ba- 
daxan, Taxcan , Condux , e outros ; prezan- 
do- 



Dec. V. Liv. I. Cap. XIII. 127 

do-fe todos os defccndenres até hoje deite 
appellido Usbeque. EíiesEílados conquiftou 
depois o Gião Tamorlão, e por lua morte 
es herdeiros dos Reys , a quem os tomou , 
lançaram mão do que cada hum lhe perten- 
cia , ficando tudo o mais que poffuia repar- 
tido com dous filhos , e hum neto , por ef- 
ta maneira. O Império de Camarcant com 
tudo o que ha dentro dos famofos rios Oxo , 
e Jazartes , ficou a feu filho mais velho , cha- 
mado Mir Mirúxa. A Província Coraçone 
ao filho fegundo chamado Miraxaroc , que 
feu irmão mais velho depois prendeo , e o 
foltou , dando-lhe o mefmo Eílado. O Rey- 
no de Bale, e Bochará ficou a feu neto, fi- 
lho de Janguir feu filho mais velho chama- 
do Pirmahomad , como muito bem o decla- 
ra Ruy Gonçalves de Clavijo no feu Itine- 
rário. Agora continuemos com eftes três fuc- 
ceífores do Tamorlão. 

Na Província Coraçone fuecedeo hum fi- 
lho de Mirunxá , por cuja morte em defei- 
to de filhos , fuecedeo naquelle Eflado Ba- 
dur Paxá , por parente mais chegado , que 
era pai deHamau Paxá , de quem agora tra- 
tamos , que contendeo com Cambaya. Efte 
reinou alli poucos annos , porque levantan- 
do-fe-lhe os Patanes com os Eftados , que 
tinha derredor do Indo , e Hidafpes , que 
feus avôs tinham ganhado > como temos di- 
to, 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

to , acudindo lá , deixou em Camarcant hum 
parente íeu , que era feu Veador da Fazen- 
da , e Can Cahaná de feus Reynos (que he 
hum titulo fupremo , como Condeftabre ) 
que fe lhe alevantou com aquelle Eftado , 
que nunca mais o BadurPaxá pode cobrar. 
E por morte do alevantado fuccedeo hum 
filho feu chamado Babu Soltan ; e por mor- 
te deíle herdou aquelle Reyno hum filho que 
tinha , chamado por fbbrenome Bofa Cor- 
na , que quer dizer Bebedor de cerveja , (por- 
que parece que era amigo de vinho , ) em cujo 
poder íe acabou efte Eftado, como logo di- 
remos, porque he ncceílario continuar com 
•os outros principados. Por morte de Pirma- 
homad , nero de Tamur Langar , fuccedeo no 
Reyno de Bale , Xaroc feu tio ; e não fabe- 
mos fe em defeito de filhos, fe por lho to- 
mar. E por morte de Xaroc ficou o Efta- 
do do Coraçone a feu filho mais velho cha- 
mado Soltan Hocé ; e no de Bale , hum fi- 
lho fegundo por nome Xabeq Can , aquém 
os Efcritores erradamente chamam Xabafcan. 
Efte foi tão valorofo , e esforçado Cavallei- 
ro , que determinou de conquiftar todos os 
Eftados , que foram do Tamur Langar íeu 
bifavô , e ajuntando hum grande exercito , 
entrou pela Província Coraçone , em que 
reinava já Bedeat Hocen , filho de Soltão 
Hocen, de.queaíTima falíamos j ecomo ef- 
te 



Dec. V. LivíiL Cap. XIII. 129 

te Bedeat não era menos valorofo que o Xa~ 
beq > fabendo que lhe entrava por feu Rey- 
110, o foi cfperar, e lhe aprefentou batalha , 
em que o Bedeat foi morto com três irmãos 
feus , e o Xabeq fe apoderou do Reyno. Foi 
efte perto dosannos do Senhor de 1$ 10, e 
a mulher do Rey morto fugio com hum fi- 
lho , ehuma filha, (que ambos eram meni- 
nos,) e fe paflbu a Camarcant , onde ain- 
da reinava Badur Paxá , que também era ne- 
to de Tamur Langar , que o recebeo mui 
bem , e creou os filhos como fe foram feus , 
e a filha , como teve idade , a cafou com feu 
filho Hamau Paxá , e o moço , que era efte 
Mir Mahamede Zaman , foi-fe fazendo ho- 
mem , e de muito grandes penfamentos , e 
bom cavalleiro. 

Morrendo o Badur , fuccedeo nos Rcy- 
nos do pai feu filho Hamau , que não fez 
conta do cunhado ; e vendo-fe elle desfavo^ 
recido delle , paflbu-fe a Cambaya a Soltão 
Badur , onde lhe fuccedeo o que temos con- 
tado. Daqui começou Hamau a ter ódio a 
Soltão Badur, porque lhe recolheo o cunha- 
do , e lho não mandou , mandando-lho ellé 
pedir. E tornando ao Xebeq. Depois que 
fe viofenhor doCoraçone, iabendoque na 
Perfia era novamente alevantado Xá Ifmael , 
lhe enviou Embaixadores a pedir-lhe , que 
lhe largaífe aquelle Reyno , que fora de feus 
Couto.TomJIP.L I avôs. 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

avos. Xá Ifmael como andava favorecido da 
fortuna, mandou-lhe dizer, que eJle lhe le- 
varia a refpoíia. E ajuntando logo hum po- 
derofo exercito , foibufquar oXabeq, aílim 
por lhe quebrar fuafoberba, como por vin- 
gar a morte d'ElRey Bedeat, pelas obriga- 
ções que tinha afeu pai SoltãoHocen, que 
fempre o amou como filho, e lhedeo mui- 
to grande ajuda pêra fubir á Monarquia da 
Perfia. O Xabeq labendo de fua ida o foi 
efperar , e encontrando-fe nos campos de 
Maron , vindo a batalha , que foi aíperiííi- 
ma , por fim delia ficou oXabeq morto, e 
o feu exercito desbarado ; e o Xá Ifmael (fe- 
gundo alguns Efcritores) mandou fazer do 
caí co da cabeça de Xabeq hum vafo guar- 
necido de ouro , por onde bebia , como já 
os Boios fizeram da cabeça do Conful Poít- 
humio , quando o desbarataram em Triana 
de Franca. Defta vez ficou o Xá Ifmael fe- 

s 

nhor da Província Coraçone , que de então 
pêra cá fe ajuntou á da Perfia. 

Foi efta batalha , fegundo a conta de João 
Maria Angelo ( que naquelle tempo vivia , 
e efereveo as coufas da Perfia ) junto dos an- 
nos do Senhor de 151 1 ; mas pela do nof- 
ío João de Barros, na de 1513. Micer Ca- 
therino Zeno , que concorreo no mefmo tem- 
po , e efereveo efta batalha , diz , que o Xa- 
beq não morreo, mas que fe recolhera pe-> 

ra 



Dec. V. Liv. I. Cap. .XIII. 13Í 

ra feusReynos. As Chronicas Perfias todas 
affirmam que morreo ; mas ou fofle ago- 
ra, ou depois, por fua morte fuccedeo na- 
quelle Eftado Efcander Can , que as efcri- 
turas náo declarao fe era filho , iè tio , fe 
irmão. Efte homem foi muito valorofo , e 
ganhou os Eftados de Hiarcan , Badaxan , 
Taxcan , Condux , e outros pêra a parte do 
Turcheftan , e começou a conquiftar o de Ca- 
marcant , onde reinava Bofa Corna : e an- 
dando nefta emprcza , faleceo na entrada 
deíle anno de 1537, em que andamos. Suo 
cedeo-lhe feu filho, chamado AbdulaCan, 
que acabou aquella empreza , e fe fenhoreou 
de todo o Eftado de Camarcant , e de ou- 
tros muitos, que ha derredor doOxo, eja- 
fartes , com o que ficou hum dos mores Se- 
nhores do Mundo. 

E como era ambiciofo de lionra , e fa- 
ma , mudou o nome áquella Província (que 
até então fe chamava Zagatai ) em Usbequia , 
e mandou que todos os feus naturaes fe cha- 
maíTem Usbeques : por efte nome iam hoje 
tão conhecidos , e temidos em todo o Ori- 
ente , que até os Magores , que Iam os mais 
foberbos homens delle , lhe reconhecem fu- , 
perioridade. Com ifto fica bem conhecida a 
Província Usbequia , e confundido o erro 
dos que fizeram o Xabeq Tártaro , fendo na 
verdade Chaquatai. 

I ii Ef- 



1^ AS I A de Diogo de Couto 

Eíla Província Coraçone, de que falía- 
mos , affirma-fe que foi a antiga Parthia , e 
feus naturaes os famofos Parthos , tão no- 
meados de Plutarco , Apiano Alexandrino , 
e de todos os Efcritores Romanos. Eíles fo- 
ram os que desbarataram o grande exercito 
de Marco CraíTo , matando a elle , e a dez 
mil Romanos , e cativando-lhe outros tan- 
tos , cuja morte exclama aquelle grande Poe- 
ta Mena , dizendo : 

E vimos a CraJJò fangrienta la efpada , 
De las bat alias que bizo en Oriente , 
Aquel de quien vido la Romana gente y 
Su muerte plaíiida > mas nunca vengada. 

Tomou eíla Província o nome deHoracan- 
ja , que lie o feu verdadeiro , ( e não Cora- 
çone , como vulgarmente fe chama ) de Ho- 
racan Soltão , neto de Mafamede , que os 
Perlas affirmam eílar enterrado na Cidade de 
Maxet , principal daquelle Reyno. 

São os Usbeques homens robuílos , ef- 
paduados , roílos largos barbaçudos , olhos | 
íbgofos , encarniçados , e tão déítros archei- 
ros , que indo correndo a cavallo , aílim pê- 
ra trás , como pêra diante , vam derribando 
as aves nos ares : quando caminham não le- 1 
vám mais que fuás armas , e cevadeiras com 
farinha de trigo , e onde chegam matam va- 
cas , bufaras , e outras alimárias 7 que comem 

tão 



I. I 



Dec. V- Liv. I. Cap. XIII. 133 

tão malaífadas, que ofangue lhes corre pe- 
ias ilhargas das bocas , e das farinhas fazem 
feus bolos. E fe não acham gado , fangrão 
os cavallos , e o fangue miíturado com a fa- 
rinha , fazem humas papas cozidas com que 
fefuítentam, e com que engordao. Pelo que 
parece ferem eítes os antigos Mafagettas , de 
quem Lucano no terceiro da Pharfalia diz : 
( Os Mafagettas , que de fua longa abftinen- 
cia na guerra matam a fome com o fangue 
de feus cavallos. ) E porque eftes homens 
não ufam outro mantimento , pode aquelle 
Rey , cada vez que quer , caminhar com cem 
mil cavallos , porque eítes fe fuílentam das 
hervas dos campos , e das aguas dos rios , 
com que andam gordos j e iam tão atura- 
dores do trabalho , que antre dia , e noite 
andam vinte , e mais iegnas. Seguem eítes 
homens os Arábios em fua feita , fobre o 
que tem com os Perfas grandes contendas , 
€ fam inimigos mortaes por haverem huns 
aos outros por hereges , e tem tomado di- 
vifas de fuás opiniões : os Perfas turbantes 
vermelhos , a que os Turcos chamam Qui- 
zilbax , que quer dizer os das cabeças ver- 
melhas : e os Usbeques toucas verdes , a 
que chamam Ifilbax , a quem o douto Va- 
rão Paulo Jovio chama Cufelbas , e Cafel- 
bas , porque lhe não fouberam dizer a ver- 
dadeira etymologia deites nomes , ou ap- 

pel- 



Í34 ÁSIA de Diogo de Couto 

pellidos , que he o em que confiíle o ver- 
dadeiro entendimento das coufas , e no fa- 
ber inquirillas vai tudo. 




DE* 



*35r 

<§ tytytyfyty , js? 0% ^ „ t f^f^ % 

DÉCADA QUINTA. 
LIVRO II. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO I. 

Dé* aw# 0J* Grandes de Cambaya alevan- 
taram por Rey Soltao Mamud , £ *fo ex- 
ercito , ^ mandou contra Mir Mahame- 
de Zaman , que fe appellidava Rey de 
Cambaya : e do recontro que tiveram com 
os Magores > em que ficaram desbarata- 
dos. 

SAbidas as novas da morte de Soltao Ba- 
dur por todo o Rey no , e depois da 
morte do Mirão feu fobrinho , que lo- 
go lhe fuccedeo no Reyno , em que não vi- 
veo hum anno ; e que o Mir Mahamede Za- 
man fe appellidava Rey , e eílava em No- 
vanager com hum exercito de Magores , a 
que em Cambaya tinham ódio mortaliílimo , 
ajuntando-fe todos os Grandes a confelho af- 
fentáram , que era necellario atalhar-fe aquel- 

'' le 



136 AS1A de Diogo de Couto 

le negocio logo em frcfco, primeiro que o 
novo Rey alevanrado vieíTe a cobrar maior 
poder, porque nãovieíTem todos a ficar de- 
baixo de jugo alheio. EpaíTando-fe á Cida- 
de de Amadabá , onde eftava Soltão Mamu- 
de, fobrinho de Soltão Badur , filho de hum 
fcu irmão , que era moço de quinze annos , 
e pondo-o na cadeira Real, o juraram por 
Rey com grande folemnidade. Feito iíto , ele- 
geram Jogo três Tutores pêra lhe ajudarem 
a governar o Reyno : eíles foram Madre Ma- 
luco , genro de Coge Çofar, Driarcan , e 
Alucan , todos homens eílrangeiros , Tur- 
cos , e Rumes , que então eram as maiores 
peflbas do Reyno. A primeira coufa que ci- 
tes fizeram , foi , quietarem alguns tumultos 
que havia, ecaftigarem alguns alevantados, 
que não quizeram acudir ao feu Rey, dei- 
xando as coufas de Mir Mahamede pêra de- 
30Ís que o Governador Nuno da Cunha le 
3artiíTe de Dio, (porque iíto foi pouco de- 
pois da morte de Soltão Badur, ) porque fou- 
: Deram elles os contratos, que elle tinha fei- 
to com o Governador ; que fe não podia de- 
ter muito , por caufa do inverno que fe vi- 
nha chegando. Eílas novas teve logo o Mir 
Mahamede Zaman , que as enviou ao Go- 
vernador , mandando-lhe pedir confelho fo- 
bre o que faria naquelle negocio. O Gover- 
nador Nuno da Cunha lhe mandou dizer 3 

que 



Dec. V. Liv. II. Cap. I. 137 

que lhe convinha com efla pouca gente que 
tinha acudir logo á Cidade deAmadabá, e 
faltear o novo Rey , primeiro que lhe acu- 
diífe o poder ; porque elle fabia de certo , 
que havia divisões , e muitos defeontentes 
da eleição dos Turcos , que começavam a 
caítigar alguns , que haviam por culpados ; 
que eftava certo acudirem-lhe , e ajuntarem- 
iè com elle ; e que fempre nos Reynos ha- 
via homens amigos de novidades , que ha- 
viam de folgar de o fervirem , com quem 
lhe era neceflario moftrar-fe no principio li- 
beral , porque niílo eftava virem-fe todos pê- 
ra elle; e que fe não defcuidaílem naquelie 
negocio , porque depois que os Tutores ajun- 
taflem poder, não lhe fentia remédio. 

Efte confelho pareceo mui bem ao Mir 
Mahamede Zaman ; e fem dúvida que fe o 
tomara ficara Rey de Cambaya , porque a 
genre que tinha bailava pêra faltear o novo 
Rey , e apoderar-fe da Cidade de Amada- 
bá; mas elle defcuiclou-fe , e deixou-fe ef- 
tar em Novanager em paífatempos , como 
outro Anibal em Capua , pelo que deixou 
de fer Senhor de Roma, como efte do Im- 
pério do Guzarate. Os Tutores , e Gover- 
nadores do Reyno , depois que deram or- 
dem a muitas coufas delle , e de faberem fer 
o Governador partido pêra Goa , e que não 
havia de tornar por então a ajudar com gen- 
te 



138 ÁSIA de Diogo de Couto 

te Portugueza a Mir Mahamede Zaman , 
com quem fe tinha concertado , quando fe 
alevantou porRey de Cambaya, ajuntando 
dez mil cavallos ,' e quinze mil de pé , os 
dous Regedores Madre Maluco, e Alucan, 
fe partiram com elles muiapreíTadamenteem 
bulca do Mir Mahamede Zaman , e em pou- 
cos dias chegaram aos campos de Novana- 
ger , de que logo teve avifo o Magor , e 
houve-fe por perdido, conhecendo então o 
grande erro que tinha feito em não feguir 
o confelho que lhe dera o Governador Nu- 
no da Cunha. E preparando fua gente , af- 
fentou de efperar os Capitães em campo , 
porque na Cidade facilmente fe podia per- 
der , por fer toda aberta , e não ter com- 
modo pêra fe defender nelia. E querendo 
fahir-fe , acharam-íè alli já cercados dos ini- 
migos. Mir Mahamede Zaman , que era ho- 
mem muito animofo , diíFe aos feus , que 
não havia já que fazer, fenão commetterem 
os inimigos , e trabalharem por daquelle pri- 
meiro encontro os romper , e que os que 
eicapaiíem íè fofíem recolhendo pêra a ban- 
da do Cinde pêra aquelle Rey , que tam- 
bém era Magor , e muito feu parente , e que 
dalli fariam o que a fortuna lhes ordenafle. 
Com efta refolução fepuzeram a cavai- 
lo, e de dous mil que eram, fez Mir Maha- 
mede Zaman duas batalhas , huma que elle 

to- 



Dec. V. Liv. II. Cap. I. 139 

tomou , que era de mil e duzentos , e a ou- 
tra de oitocentos deo a outro Capitão. E fa- 
hindo ao campo, levando MirMahamede Za- 
man a dianteira , remetteo com os inimigos 
como hum leão bravo , e pondo-lhes as lan- 
ças com grandes gritas , e alaridos , foi rom- 
pendo por elles*, partindo-os pelo meio , der- 
ribando-lhes daquelle encontro mais de du- 
zentos , fahindo-fe ao campo largo com per- 
da de fó três homens ; e aífim como foram 
varando, foram caminhando adiante.O fegun- 
do efquadrão vendo Mir Mahamede Zaman 
mifturado com os inimigos , que aílim como 
fe abriram, fe tornaram logo a fechar , ha- 
vendo-os a todos por perdidos , porque os 
não viram arrebentar fora ao campo , e to- 
mando outro coníèlho , voltaram , e foram fu- 
gindo pêra a banda deDio. Os inimigos os 
foram feguindo , matando , e derribando nel- 
les fem piedade , acerefeentando-lhes o es- 
forço o medo que viam levar a homens , a que 
todos os deCambaya tiveram tamanho me- 
do. O Mir Mahamede Zaman , tanto que 
fe vio em falvo, e alongado dos inimigos , 
parou por efperar pelo fegundo efquadrão , 
p que fez muitas horas fem chegar , pelo que 
o houve por perdido , e de mágoa parecia 
querer arrebentar , e ajuntando os feus , af- 
iim lhes diíTe : 

» Não me confente o animo , e amor , que 

»a 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

»a todos os meus naturaes tenho ,. valoro- 
» fos , e esforçados companheirQs meus , que 
» os veja a elles em perigo , ficando eu fó- 
» ra delle , antes defejo fer o primeiro em 
» todos os trabalhos , c rifeos : pelo que he 
» neceflario que tornemos a voltar em bufea 
» do outro efquadrão , que pois tarda , deve de 
» eftar em perigo. Vamos , e corramos com 
» elles a mefma fortuna , e não vos aflbmbre 
» a multidão dos inimigos , que eftes fam os 
» mefmos , que muitas vezes fugiram fó de 
» nos ouvir nomear , e ninguém os pode hoje 
» fazer esforçados , fenao noíla covardia : e 
» eu confio que em nos vendo outra vez com 
)> elles, percao o furor, fe o tiverem, por- 
» que bem hão de entender de noífa volta , 
» que he pêra livrarmos os noífos á cuíla de 
)> noílas vidas , que a elles hão de fer bem 
» caras ; e não os tenho por taes , que quei- 
» ram eíperar eíla determinação. » A nenhum 
dos feus pareceo bem aquillo , dando-lhe ra- 
zoes taes , e tão frias , que entendeo de feu 
temor, que não fariam coufa alguma, eaf- 
ílm trifte , e malenconizado foi feguindo feu 
caminho pêra o Cinde , lembrando-lhe no- 
vamente pêra mor mágoa fua , que deixara 
de fer fenhor de hum tamanho Império por 
feu próprio defeuido , e negligencia. E ef- 
tes deixallos-hemos , porque não fabemos 
mais que irem ao Cinde. 

Os 



Dec. V. Liv. II. Cap. L 141 

Os do outro efquadrão , que taiafn pêra 
Dio , foram fempre fugindo íèm fazerem vol- 
ta , perdendo-fe na jornada perto de quatro- 
centos. Os outros que efcapáram , chegaram 
á Vil Ia dos Rumes, onde eítava por Capi- 
tão João deMendoça, queacudio com mui- 
ta preíla ás portas da Villa ; e vendo aquel- 
la revolta , e os Magores ao longo dos mu- 
ros pedindo-lhe favor, c ajuda, (porque já 
vinha entrando com ellcs a gente de Cam- 
baya, que começava a encher os campos,) 
mandou defperar nelles algumas peças de ar- 
tilhem com que os deteve. Os Magores ef- 
tavam rccoihidos ao longo dos muros , e fer- 
rados ás portas , pedindo que os recolheíTem , 
o que os porteiros fizeram a alguns por hum 
muito pequeno poftigo , porque lhes enche- 
ram as mãos de dinheiro. 

Aqui aconteceo hum raro exemplo de 
amor, que por tal o contaremos, efoi, que 
trazendo hum deites Magores fua mulher nas 
ancas do cavallo, moça, e formofa , ven- 
do que por dinheiro recolhiam alguns den- 
tfo na fortaleza, chegou-fe ao porteiro, e 
lhe dilíe , que tudo o que trazia comíigo lhe 
dava , e que lhe recolhefle dentro fua mu- 
lher, porque como aviffelivre, não lhe da- 
ria coufa alguma do perigo que elle correi- 
fe : o que diíTe com mofíras de tanto amor , 
quevenceo aos da porta aquerella recolher; 



14- ÁSIA de Diogo de Couto 

e entregando-Iha elle , e apartando- fe delia 
com palavras de muitas faudades , íèntio ci- 
la ifto tanto , que indo já entrando tornou 
a voitar pêra fora, dizendo: 

» Nunca Deos queira que te deixe de a- 
» companhar na morte , aífim como o fiz fem- 
» pre na vida ; o meímo rifeo que tu corre- 
ia res , quero eu correr , porque em quanto 
»te vir, todos haverei por pequenos, efem 
» ti não quero vida, nem liberdade ; » e af- 
íim fe deixou ficar de fora fem fe querer re- 
colher, por muito que lho elle rogou. 

João de Mendoça tinha mandado reca- 
do a António da Silveira Capitão da forta- 
leza , fobre aquelle negocio : elle lhe man- 
dou dizer , que recolheíTe na Villa todos os 
Magorcs , eque não deixaíle chegar ao cam- 
po a gente de Cambaya. Elle o fez aífim , a- 
brindo as portas a todos. E na entrada hou- 
ve tamanha revolta com o medo que leva- 
vam , que huns por íima dos outros fe ar- 
reineííavam tão defatinadamente , como fc 
es inimigos foílem alcançando-os , citando 
elles bem apartados , porque a noíía artilhe- 
ria os fez aífugentar ; mas o medo da mor- 
te lhes fazia parecer que lhes hiam elles dan- 
do nas coitas. João de Mendoça os recolheo , 
e agazalhou com muita humanidade, man- 
dando curar a muitos que hiam feridos. 

Elles mandaram pedir a António da Sil- 
vei- 



Dec. V. Liv. II. Cap. I. 143 

veira embarcações pêra fe paíTarem a Da- 
bul , que lhes eílelogodeo, eforam-fe mui- 
to fatisfeitos do gazalhado , e favor que acha- 
ram em os Portuguezes. Madre Maluco , e A- 
lucan vendo os Magores recolhidos, conten- 
tando-fe com os damnos que lhes tinham fei- 
to , tornaram-fe pêra Amadabá , onde EIRey 
eftava, ecom elle andaram todo eíte inver- 
no vifitando feus Reynos , amoftrando-fe a 
feus vaíTallos > que todos lhe acudiram. 

António da Silveira vendo o negocio ba- 
ralhado , lançou mão da Alfandega de Dio , 
e de todas as rendas da Ilha , que começou 
a arrecadar pêra EIRey , fem achar inconve- 
niente algum, porque EIRey Soltão Mamu- 
de andava occupado em outras coufas , que 
lhe mais importavam , que era quietar feus 
Reynos, caftigar, e reduzir á obediência al- 
guns vaíTallos rebeldes , que nas guerras dos 
Magores não acudiram aElRey Soltão Ba- 
durfeu tio. António da Silveira avifou lo- 
go ao Governador do que paliava , o que 
já não pode fazer fenao por terra , por fer 
o inverno de todo entrado ; pelo que deixa- 
remos agora eftas coufas por continuarmos 
com as de Maluco , por guardarmos em tu- 
do a ordem da hiíloria. 



CA- 



144 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO II. 

Das coufas , que ejle anno aconteceram em 
Maluco : e da chegada de António Gal- 
vão dquella fortaleza : e de como foi buf- 
car os Reys da Liga d Ilha de Tidore , 
onde lhes de o batalha , em que os des- 
baratou. 

EStando as coufas da fortaleza de Ter- 
nate no peior eftado que fe podiam ima- 
ginar, pelo grande aperto em que os Reys 
conjurados tinham podo os noilbs , dcfen- 
dendo-fe-lhes por todas as partes os provi- 
mentos , de que totalmente eílavam muito 
faltos , e fem dúvida fe perderam , fe Deos 
naquelle derradeiro eílremo não trouxera An- 
tónio Galvão , que fempre teve muito boa 
viagem , até lançar ferro diante daquella for- 
taleza , que pêra todos os que nella eílavam 
foi hum novo refufcitar , porque realmente 
fe haviam por acabados. António Galvão 
tomou poíTe da fortaleza, onde foi recebi- 
do com Cruz alçada ; e tomando informa- 
ção do miferavel citado em que aquellas cou- 
fas eílavam , e de como todos os Reys da 
Liga eílavam na Ilha de Tidore com tão 
grande poder, que feaffirmava terem perto 
de vinte mil homens , e que eílavam conju- 
rados pêra commetterem , eefcalarem afor- 

ta- 



Dec. V. Liv. II. Cap. II. 14? 

taleza, pêra o que tinham já preíles muitas 
embarcações pêra paflarem a Ternate com 
muito alvoroço de todos , que dos bens dos 
noílos tinham já feito grandes repartições. 
Informado António Galvão de tudo, como 
era Fidalgo virtuofo, e em extremo devoto 
de NoíTa Senhora , encommendou-lhe mui- 
to todas aquellas coulas com mui devoto 
coração. E tomando confeiho fobre o que 
faria , foram todos de parecer , que tentaf- 
fem os inimigos com pazes , commettendo- 
lhes algum modo de fatisfação - y e que quan- 
do elles a não quizeíTem acceitar , era necef- 
fario arrifear-fe tudo , porque com guerra 
lenta não fe podiam desfazer aquelles inimi- 
gos ; e que quando elles não oufaflem a vir 
cercar a fortaleza , por fer chegado foccor- 
ro da índia , com fó fe efpalharem por an- 
tre aquellas Ilhas , e lhes impedirem os man- 
timentos , era a maior guerra que fe podia 
recear. António Galvão deípedio logo hum 
Embaixador aElRey deTidore , que oou- 
vio diante de todos os Reys da Liga, eel- 
le lhe difíe : Que António Galvão era che- 
gado áquella fortaleza por mandado d'EI- 
Rey de Portugal , e que defejava muito de 
correr com todos os Senhores daquelle Ar- 
chipelago em paz , e amizade , porque sf- 
íim o trazia muito encommendado por re- 
gimento dofcuRey: Que lhe pedia por mer- 
Couto. Tom, II. P. L K cé % 



146 ÁSIA de Diogo de Couto 

cê ,. que deixados os aggravos á parte , (que 
elle eftava prefics pêra fatisfazer , e emendar, ) 
tornalíem a antiga paz, e amizade, porque 
íe nao perdeíle aquelle tão antigo commcr- 
cio , de que a todos tinham refultado tão 
grandes proveitos. Os inimigos como efta- 
vam foberbos , e confiscos no grande poder 
que tinham , refpondêram defpropoíitos , 
zombando, cícarnecei do , e dizendo gran- 
des opprobrios , e affrontas contra o nome 
Portuguez tão avorrecido a todos. O Em- 
baixador fe recolheo fem conclusão alguma y 
e quafi que efteve arrifcado. 

Sabido por António Galvão o que paf- 
fava 3 relòlveo-fe em pôr todo o remédio nas 
armas , enccmrnendando aquellas coufas a 
Deos com verdadeiro coração , ordenando 
Jogo todas as coufas, que pêra iíío lhe eram 
neccílarias ; porque aííentou de ir bufcar os 
inimigos, edar-lhes batalha, E as primeiras 
achegas que ajuntou foram procifsóes , ora-; 
coes , efmolas , e outras obras pias , tudo á 
cufta de fua fazenda , (que eftas eram as mer-j 
cadorias , que cfc Fidalgo foi fazer á fua for-' 
taleza , de que os de hoje bem íe rirão.) El 
pondo toda a Armada no mar , embarcan- 
do as munições que havia , ultimamente fel 
embarcou , entregando a fortaleza a Triti 
tão de Taíde , e fez-fe á vela. A Armada 
que levava eram quatro galeões , que efía- 

vam j 






Dec. V. Liv. II. Cap. II, 147 

vam no porto , e algumas corocoras : nef- 
ras vazilhas hiam embarcados cento e feten- 
ta Portuguezes , e duzentos e trinta da ter- 
ra , em que entravam alguns efcravos dos ca- 
iados. Com toda efta frota foi furgir defron- 
te da Cidade de Tidore , falvando-a com 
lua artilheria , que não deixou de pôr ef- 
panto nos inimigos , cuja multidão acuclio 
á praia a dar vifta aos noffos com tama- 
nhos alaridos , que puderam pôr medo a 
qualquer outro Capitão 3 que não fora tão 
confiado. no favor Divino. Surta a Armada , 
metteo-fe António Galvão em huma coro- 
cora ligeira , e foi-íe chegando á terra pe- 
ia reconhecer a Cidade , que eílava efíendi- 
da de longo da praia , cercada por detrás 
de muros 5 e cem huma cava á roda; Na fa- 
ce da praia tinha alguns baluartes muito for- 
tes , e mui bem guarnecidos de gente , e 
artilheria. Da banda doiertao, hum pouco 
affaíhdo da Cidade , tinha hum monte, que 
lhe ficava como padrafto , em lima de quem 
eftava humCaftello roqueiro arrezoado. An- 
tónio Galvão foi notando a Cidade mui- 
to devagar, e rodeando a Ilha por toda a- 
quella parte por ver onde acharia melhor 
diipoíição pêra deíèmbarcar com menos rif- 
co , e notou hum lugar commodo pêra ife 
ío, hum pouco affaftado cia Cidade. E to- 
mando parecer com os que levava comilão 
K ii fo- 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

fobre o modo de como fe commetteria a Ci- 
dade , affentou-fe , que fe defembarcalfe na- 
quella parte de madrugada , e que foíícm 
pot- detrás ganhar o Caftello , c que depois 
fe commetteífe a Cidade , porque já então 
eftariam os inimigos amedrontados com a 
perda do Caftello. 

AíTentado ifto , preparou-fe António Gal- 
vão pêra o outro dia , que era do Apofto- 
lo S. Thomé , Padroeiro da índia, em cu- 
jo dia por feus merecimentos fez Deos rol- 
fo Senhor muitas mercês aos Portuguezes, 
(como pelo decurfo da hiftoria apontaremos,) 
Tanto que o quarto dante alva fe rendeo, 
embarcou-fe António Galvão nas corocoras , 
com cento e vinte Portuguezes , e cento e 
oitenta Chriftãos da terra , deixando a mais 
gente na Armada pêra guarda delia, que fi- 
cou encarregada a huma peííoa de confian- 
ça , com ordem do que havia de fazer ; e 
elle em muito íilencio foi defembarcar no lu- 
gar determinado , levando muito boas guias 
pêra o encaminharem ao Caftello. Ao mel- 
mo tempo fe levou toda a Armada , e com 
os traquetes fe foi chegando á Cidade, fa- 
zendo moftras de quererem defembarcar em 
esbateis, difparando toda fua artiiheria. Os 
inimigos tanto queaquillo viram, acudiram 
todos á praia pêra defenderem a defembar- 
cação, dcfcuidando-fe de todas as mais par- 
tes ; 



Dec. V. Liv. II. Cap. II. 149 

tes , de feição , que teve António Galvão 
tempo de chegar aííima ao Caftello fem fe- 
rem fentidos. Era ifto já a tempo , que a 
manhã começava a defcubrir. 

Os noíTos tanto que chegaram aífima , 
commettêram o Caílello com muiro animo , 
trabalhando pelo entrar ; os de dentro em 
fentindo que eram Portuguezes , fizeram fi- 
nal pêra que na Cidade fe foubeíTe, e elles 
fepuzeram á defensão mui determinadamen- 
te. EIRey Ayalo deTernate, que lá anda- 
va fugido , ouvindo o final , ajuntou hum cor- 
po de gente , e acudio aííima a ver o que 
era , porque não fabiam do que era paílado ; 
e chegando ao monte i deo de rofio com os 
noííbs 3 que eftavam mui accezos na briga , 
e alguns tratavam de quebrar as portas , com 
quem remetteo Ayalo com grande furor ; 
mas António Galvão acudio alli , pondo-fe 
diante dos feus , e como hum leão pelejava 
por huma parte, e como prudente Capitão 
trazia os olhos nos fcus , animando-os , e es- 
forçando-os, porque não tiveífem tempo al- 
guns de fe efcoarem , porque a todos via, 
e notava. EIRey Ayalo andava diante dos 
feus armado em huma faia de malha, c hum 
capacete , e com huma efpada de ambas as 
mãos pelejava valorofamente. António Gal- 
vão em o vendo , remetteo a elle com huma 
efpada > e rodeila , começando-o a ferir de- 

no- 



150 ÁSIA de Diogo de Couto 

nodadamente. Os de Ayalo acudiram alli 
pêra o ajudarem. Os Portuguezes também o 
fizeram ao feu Capitão , trava ndo-íe anrre 
todos huma muito afpera batalha, e muito 
arrifcada da parte de António Galvão , por- 
que os inimigos eram muitos ; mas quiz Deos 
que deflem huma efpingardada em EIRey, 
de que cahio , eítando já ferido das mãos 
de António Galvão , e com a raiva da mor- 
te fe tornou a levantar logo ; mas como a fe- 
rida era mortal , tornou a cahir , bradando 
pelos feus , que o recolheflem primeiro , que 
os cães ( que aílim chamava aos Portugue- 
zes) efpedaçaíTem feu corpo como defeja- 
vam. Os feus vendo-o daquella maneira \ o 
tomaram nos braços , em que lhes logo mor- 
reo , e recolheram-fe. Os feus em o faben- 
do & começaram a desbaratar , e largando 
as armas foram fugindo pêra a Cidade , aon- 
de já fe fentia o reboliço , e vinha outro cor- 
po de gente em feu foccorro ; e encontran- 
do-fe com biles , que hiara desbaratados , e 
os Portuguezes matando , e ferindo nelles , 
voltaram todos , fem verem quão poucos os 
noíTos eram. António Galvão vendo a vito- 
ria por íi , a foi feguindo com grande eftra- 
go dos inimigos ; e alguns delles , que não i 
puderam fugir pêra baixo , foram- le reco- 
lhendo pêra o Caftello , indo apertados de 
alguns dos noíTos. Qs de dentro acudiram ao 
^f re- 



Dec. V. Liv. II. Cap. II. 15-1 

recolher , abrindo-lhes as portas ; mas foi ta* 
manho o medo , e embaraço , que entraram 
os Portuguezes de envolta com eiies , ma- 
tando , e derribando muitos. Os inimigos lar- 
gando as portas , e vendo- fe perdidos, lan- 
çáram-fe dos muros abaixo , efpedaçando-fe 
huns , e outros cahindo nas maõs dos nof- 
fos , que não pairavam melhor, porque lhes 
abriam as entranhas de feição , que poucos 
efcapáram. António Galvão acudio áquella 
parte , e vendo tamanha mercê de Deos , to- 
mou logo huma muito prudente refoluçao , 
que foi mandar dar fogo ao Caftello , por- 
que os feus nãotiveíTem efperança de fe fal- 
var nelle. E ajuntando todos, lhes diííe : 

» Ora fus , meus cavaíleiros de Chriílo , 
» pois nos elle fez tantas mercês , não arre- 
» feçamos , faibamo-nos aproveitar do tem- 
» po , e vamos commetter em freíeo a Ci- 
» dade , porque os inimigos eííam com o me- 
» do nas entranhas ; e agora vendo eíte in- 
» cendio hão de acabar de defcoraçoar , e 
» não hão de efperar noffa fúria , por ilío fe- 
» gui-me , que Deos he comnoíco. » E to- 
mando a bandeira deChrifto a par de íí , ar- 
remeçou-fe pelo monte abaixo como hum 
trovão , e foi demandar a Cidade ao fom 
de muitas caixas , e trombetas , com gran- 
des gritas de todos os noíTos , que com hum 
novo animo hiam feguindo íbu Capitão. E 

en- 



1^2 ÁSIA de Dio^o de Couto 

entrando por huma parte , foi tamanho o 
medo dos inimigos , que largaram a Cida- 
de, recolhendo fe pêra ofertão, ficando el- 
la com todo o feu recheio em mãos dos nof- 
fos. António Galvão como teve avifo , que 
tudo eradefpejado , receando-fe de algumas 
dcfordens dos íeus íbldados , mandou-lhe fe- 
cretamente dar fogo , e como toda era de 
madeira , e palha , começou a arder com 
grande eftrondo , queimando-fe dentro nas 
cafas muitas mulheres, e meninos , que não 
puderam fugir. E porque foi avifado de huns 
armazéns de mantimentos , e munições , man- 
dou ter nelles grande refguardo , pela ne- 
ceífídade que de tudo ifto tinha. 

Os batéis , e bantins acudiram logo á 
praia , onde o Capitão mandou recolher tu- 
do , o que fe fez com muita preíía , por ha- 
ver muitos marinheiros , e fervidores. Re- 
colhido tudo , e a Cidade feita em cinza, 
fe começou a embarcar , não deixando de 
haver antre os foldados alguns defmandos , 
porque muitos fe efpalháram pela Cidade a 
roubar , cativando muitas pertbas , que pelas 
cafas eftavam efcondidas. Embarcado Antó- 
nio Galvão , mandou pôr o fogo a algumas 
corocoras, que eftavam varadas, e a outras 
embarcações , e a hum junco que eftava na 
Bahia , mandando recolher algumas : o que 
tudo fez muito á fua vontade, fem ter íb- 

bre- 



Deg. V. Liv. II. Cap. II. ij| 

brefalto dos inimigos. Aílim fe recolheo 
com huma tão grande vitoria , qual nunca 
lemos , nem ouvimos , desbaratando com cen- 
to e vinte Portuguezes quatro Reys com vin- 
te mil homens , e em fua própria terra ; por 
onde podemos dizer , que Deos foi o que 
pelejou em favor deite Capitão , que por fua 
virtude mereceo alcançar delie tamanha mer- 
cê. Chegou António Galvão a Ternate , on- 
de foi recebido com procifsão folemne. Os 
Reys inimigos ficaram tão desbaratados , 
perdidos, e amedrontados , que em nenhu- 
ma parte fe tinham por feguros ; tratando 
os da Liga de fe irem para feus Reynos , o 
que não puderam fazer , porque António Gal- 
vão mandou logo huma Armada de coroco- 
ras , que rodearam aquella Ilha , por fe el- 
les não fahirem delia , porque determinava 
de confumir a todos dentro , mandando ter 
grande refguardo , e vigia nos mantimentos 
pêra que lhes não foílem ; e aíiim os poz 
em tanta neceffidade , que mettidos nos ma- 
tos comiao todas as hervas , e cevandilhas 
da terra. Mas todavia como a neceffidade 
era grande , iá tiveram maneira com que fe 
arrifcáram aquelles Reys a embarcarem em 
embarcações pequenas , porque os noífos não 
puderam ter tanto refguardo , que fe lhes 
não fahiíTem da Ilha muitos, ficando EIRey 
deTidore fó , eafíbmbrado, defejando oc- 

ca- 



i^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

caíiao pcra commetter pazes por fe não aca- 
bar de perder de todo. Nefte eftado ficam 
as coufas de Maluco até. tornarmos a ellas, 

CAPITULO III. 

Da Armada que efte anno de 1Ç37 par th 
*- do Reyno ,' de que era Capitão mor Jor- 
ge de Lima : e de como Martim Affonfo 
de Soufa foi ao Ma lavar \ e o Governa- 
dor Nuno da Cunha partio pêra D/o. 

PEíos correios ( que na índia chamam 
Patamares ) que António da Silveira man- 
dou ao Governador , foube elie o fucceíTo 
das coufas daquella fortaleza de Dio , e de 
como Soltáo Mamudc eíiava pacificamente 
obedecido por Rey em Cambaya. E enten- 
dendo bem y que não havia de querer per- 
der huma tamanha coufa , tão rica , e tão 
importante , como era a Ilha de Dio , e que 
eílava muito certo querer-fe fenhorear del- 
ia , houve que lhe era neceíTario acudir lá, 
e prover em muitas coufas de que tinha ne- 
ceííidade , porque por delcuido não vieííe a 
acontecer algum defaílre ; pelo que mandou 
dar logo preíTa a toda a Armada , pêra tan- 
to que asnáos do Reyno chegaíTem , fe em- 
barcar. Eílas não tardaram muito , que na 
entrada de Setembro não furgilTem na barra 
de Goa três , de finco que de Portugal ti- 
nham 



Dec. V. Lxv. II. Cap. III. 15T 

nham partido , de que era Capitão móv Joiv 
ge de Lima , c os outros eram D. Fernan- 
do de Lima 5 e Lopo Vaz Vogado. Das ou- 
tras duas , que eram a Rainha, era Capitão 
D.Pedro da Silya da Gama, filho do Con- 
de Almirante , e da Gailega , Martim de 
Freitas , que ambos partiram de Portugal 
com regimento , que foíTem demandar a Ilha 
de Dio , e iançaíTem gente , e munições na- 
quella fortaleza ; porque tanto que EÍRey 
foube , affim por Diogo Botelho , (que foi 
na fufta , comojádiflemos no legundo Capi- 
tulo do primeiro Livro , ) como pelas cartas 
que ííaac do Cairo levou, que ficava já ai- 
li feira , a mandou prover mui bem de gen- 
te, artilheria, munições , e armas , de que 
neftas duas náos mandou huma grande quan- 
tidade ; e ambas quaíi em hum me Imo tem- 
po foram tomar aquella fortaleza , e deitan- 
do nella tudo o que levavam, fe fizeram na 
volta de Goa , aonde chegou D. .Pedro da 
Silva da Gama por fim de Setembro. 

Depois de Martim de Freitas dar á veia 
em Dio, foi demandar a cofta de Damão, 
a cuja vifta furgio, e fe embarcou no batel 
com huma fomma de veludos , e demafeos 
que levava , pêra os ir vender a Surra te , por 
fer huma muito grande efcala. Eíle homem 
defappareceo nefte caminho , fem fe faber del- 
le coufa alguma. Muitas peíToas quizeram 

di- 



15*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dizer , que em Surrate o mataram pelo rou- 
bar; mas fe a/fím fora, forçado fe houvera 
de faber. Os da náo efperáram todo o mez 
de Setembro; e vendo que não vinha, nem 
recado feu , elegeram Bernaldim de Soufa , 
irmão de Diogo Lopes de Soufa , o Diabo, 
que alli hia embarcado por paíTageiro. E dan- 
do á vela , chegaram á barra de Goa , eftan- 
do já o Governador Nuno da Cunha pref- 
tes pêra fe embarcar. Eftas náos tiveram mui- 
to boa viagem , e chegaram com toda fua 
gente sã, o que o Governador eílimou mui- 
to , porque a havia miíler. E porque eftava 
já ordenado ir Martim AfFonfo de Soufa a 
Cochim a favorecer aquelle Rey , porque 
lhe fazia a Çamorim guerra , e pêra fazer 
correr a pimenta pêra a carga das náos , o 
defpedio logo com quatro galés, e vinte na- 
vios ; e não achámos de toda eíla Armada 
os nomes , mais que dos Capitães das ga- 
lés , que a fora Martim Affonib, eram Ma- 
jnoel de Soufa de Sepúlveda , Fernão de Sou- 
fa de Távora , e Martim Corrêa da Silva. 

Efta Armada fe fez á vela de vinte de 
Outubro por diante. No mefmo tempo def- 
pachou também o Governador as náos do 
Reyno pêra irem tomar a carga a Cochim. 
E porque a Gallega , de que era Capitão 
Martim de Freitas , eftava vaga , deo o Go- 
vernador a Capitania delia a Ruy Dias Pe- 

rei- 



Dec. V. Liv. II. Cap. III. i?7 

reira , que aquelles dous invernos paíTados 
tinha andado por Capitão nos rios de Goa , 
fazendo guerra ao Accedecan. Neftas náos 
mandou EIRey huns apontamentos ao Go- 
vernador , em que JJie mandava , que neilas 
lhe envialTe Garcia de Sá prezo em ferros , 
e lhe focreftaífe fua fazenda , porque fendo 
Capitão de Malaca , batera moeda fua fem 
licença , em prejuízo do povo , coufa tanto 
contra feu ferviço : e ainda diziam , que em 
Portugal o mandara rifcar dos feus livros. O 
Governador vendo a afpereza dos aponta- 
mentos , entendendo que foram más infor- 
mações , que mandaram a EIRey , e como 
era grande amigo daquelle Fidalgo , quiz 
remediallo , porque fe não perdeííe , por ef- 
tar pobre, e com filhas, e era velho, e de 
muitos merecimentos. E porque EIRey lhe 
mandava tirar nova devaíla fobre o calo , a 
encommendou ao Doutor Pêro Fernandes , 
Ouvidor Geral da índia , que a tirou por 
homens que em Goa havia de Malaca , do 
feu tempo , em que todos teftemunháram , 
que fendo Garcia de Sá Capitão de Malaca , 
não mandara bater mais que huma moeda 
miúda , pêra o meneio da praça , a requeri- 
mento do mefmo povo , porque não havia 
naquella Cidade íenao cruzados , com que 
fe não podiam remediar nas coufas miúdas , 
pelo que viviam com opprefsão. 

Ef- 



158 ÁSIA de Diogo de Couto 

Efta devaffa folgou muito dever o Go- 
vernador , e defpedio o Ouvidor Gerai di- 
ante , pêra que foffe a Baçaim íufpender Gar- 
cia de Sá da fortaleza, e eferever-lhe a fa- 
zenda como EiRey mandava, e depofitalla 
em mãos de pefloas abonadas , e que a dic 
o emprazaííe pêra Goa. Defpedido o Ouvi- 
dor Geral 5 logo o Governador fe defemba- 
raçou de todos os negócios , e ie embarcou 
pêra acudir ás coufas de Dio , levando oi- 
tenta navios antre grandes , e pequenos , e 
não fe deteve em coufa alguma , atravefían- 
do logo a Dio , porque daquella fortaleza 
determinava eferever a EIRey , c defpedir 
as vias pêra Cochim. Chegado o Governa- 
dor a Dio , começou a entender nas couías, 
que cumpriam á defensão daquella fortale- 
za ; e a primeira , e principal foi, mandar 
fazer huma formofa cifterna pêra recolher 
agua, porque nenhuma havia dentro na for- 
taleza. Efta cifterna fe começou a fazer de 
três naves de efteios formofiífimos, a maior, 
e mais formofa que hoje fe fabe no Mun- 
do : he de vinte e finco palmos de alto , e 
cada palmo recolhe mil pipas de agua. 

Poucos dias depois do Governador , che- 
gou a Dio o Doutor Pêro Fernandes com 
a diligencia de Garcia de Sá feita ; porque 
logo em chegando a Baçaim o fufpendeo da 
fortaleza , e o mandou prezo pêra Goa , fa- 

zen- 



Dec. V- Liv. IL Cap. III. íçp 

zendo inventario de fua fazenda , e nenhu- 
ma outra coufa fe lhe achou , fenao huma 
fomma de caldeirões , tachos , gsmellas , fa- 
cas, garfos, elcudelas , toalhas , e em fim 
toda a coufa deita forte do meneio dos ga- 
leões , em que fempre andara no ferviço d ? El- 
Rey, e das mezas em que em terra dava de 
comer aos foldados : e com iílo lhe achou 
mais fuás armas, ecama, e quatro efcravos 
de feu ferviço , fem outra fazenda de que 
fe pudeffe lançar mão : do que confufo o 
Ouvidor Geral, ]he tornou a entregar tudo. 
O Governador vendo o inventario , fi- 
cou embaraçado, e attonito da pobreza da- 
quelle Fidalgo ; e mandando-o trasladar por 
três vias , e aflita mefmo a devaíla , que fe 
delle tirou , enviou tudo aElRey , efcreven- 
do-ihe muito particularmente febre eíle ne- 
gocio , moílrando-lhe como fora mal in- 
formado das coufas de Garcia de Sá, e que 
pelo inventario veria feu cabedal , que não 
era outro mais que petrechos de cozinha , 
e do ferviço de muitos foldados , a que fem- 
pre dava de comer : e que o fufpendéra da 
fortaleza por S. A. o mandar , mas que o 
deixara ficar na índia , porque entendia que 
cumpria aflim a íèu ferviço ; porque aquel- 
le Fidalgo era velho , de grandes mereci- 
mentos , e confelho ; e que era neceíTario an- 
elar fempre junto dos Governadores da ín- 
dia 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

dia pêra acertarem no governo delia: eque 
entendia , que não fó não era digno de cul- 
pa , mas de muita mercê. Eíla carta , e os 
traslados que mandou , foram dados a EIRey , 
que efíimou muito o que o Governador fizera 
naquelJe negocio , efcrevendo-lhe em refpof- 
ta diflb , que fe houvera por muito bem fer- 
vido delle , e lhe agradecia o que tinha fei- 
to naquelle particular : e a Garcia de Sá ef- 
creveo cartas honradas , e teve dalli por di- 
ante tanto mais conta com elle , que o mét- 
teo logo na terceira luccefsão da Governan- 
ça da índia , como adiante fe verá. 

E certo , que efcrevendo nós eftas cou- 
ías , e vendo a mudança que o tempo de- 
pois fez nos Fidalgos , c Capitães, pafma- 
rnos , e nos parece que eftá o Mundo em ar- 
tigo de morte , pelo recolher da roupa que 
todos fazem , porque não vemos foldados 
agazalhados fenao peles alpendres dos Mo f- 
teiros , comendo da pobre ração dos Frades , 
que quaíi o não tem pêra li. E as cafas dos 
Capitães , que eram fuás antigas moradas , e 
enfermarias, e em aue coflumava a haver os 
petrechos de feu ferviço , (como fe acharam 
a eftc Fidalgo, ) fam já agora tornadas cafis 
de contratações , onde tudo fam fardos , cai- 
xas , comprar, vender, etyrannizar em fuás 
fortalezas aos pobres dos Portuguezes cafa- 
dos nellas y como fe o Mundo fe fizera fó 

pc- 



Dec. V- Liv. II. Cap. III. 161 

pêra clles ; pois crn alguns Governadores , 
e Vifo-Reys não acharam os pobres Tolda- 
dos depois melhor amparo , como fe não fo- 
ram naturaes, e próximos , e não cuííáram 
a EIRey muito de fua fazenda em os pôr 
na índia ,. onde os mais deJles acabam a min- 
goa , pedindo efmolas pelas portas. Defejo 
de bradar neíta matéria , e de gritar aos pés 
do Rey , que ou remedee ifío , ou não man- 
de feus vaflallos , que lhe tanto cuftam a 
morrerem á mingoa , a vifta dos Mouros , 
e Gentios , que já fe compadecem delles mais 
que nós. Aqui nos cabe muito a propofito 
(vendo o eftado em que hoje a índia eílá ) 
aqueJla exclamação de Lucano no primeiro 
da Pharfalia , onde diz : » Mas a caufa de 
» eítarem em noflb tempo pelas Cidades de 
» Itália as cafas meio derribadas , evadas, e 
» as pedras dos muros cahidas , .e efpalha- 
» das , e muitas cafas fem moradores, mui- 
atas, e mui populofas Cidades quaíl defer-^ 
)>tas, Itália toda montuofa , e tantos annos 
» por lavrar \ dando vozes os campos fera 
» haver quem os cultive 3 não es tu , Pirro fe- 
;>> roz ? nem es Africano Anibal , authores de 

> tantas perdas, cdamnos, que nenhum de 
» vós-outros teve poder pêra fuás armas atà- 
» lharem a tanto : antes a mão Cidadã he a 
>> que vos deo tão penetrante ferida ., e a que 

> foi a caufa de tantos males.» 
'CQtitQ.Tom.il. P.L L Af- 



J 

i6z ÁSIA de Diogo de Couto 

Affim o eftado a que hoje a índia tem 
chegado , não foi caufa delle poder de ai* 
guin inimigo , porque até hoje nenhum per- 
manece© contra elle. Cubica 5 e tyrannia fo- 
ram as que lhe deram tão penetrantes feri- 
das ; porque também ifto foi o que deftruio 
o Império Romano , ( como diz o niefmo Lu- 
cano , ) que depois que conquiílou o Mun- 
do todo 3 começando a goílar das riquezas , 
e adquirillas , logo as boas fortunas deixa- 
ram feu lugar ás profpcridades. E já fc não 
conheciam aquellas herdades, que foram la- 
vradas com a rexa do forte Camillo , e que 
foram abertas com os arados daquelles an- 
tigos Curiós. Afíim tudo iíto he já efqueci- 
do na índia , e aquellas artes com que fe ci- 
la defcubrio , e ganhou , que foram verda- 
de , e liberalidade , tudo he já mudado ao 
contrario : tanto , que até as náos , que na- 
quelle tempo vinham á índia carregadas de 
foldados , e armas , agora vem cheias de mer- 
cadores , e refpondentes , que trouxeram a 
ella delicias , logros , ufuras , de que toda 
a terra eílá mais cheia que de armas. Deixe- 
mos efta matéria que magoa , e tornemos a 
noíTò fio. 

O Governador foi continuando com as 
obras da fortaleza com muita preíía , man- 
dando fazer da outra banda daVilla dos Ru- 
mes hum formofo baluarte á borda da agua 

pe* 



Dec. V. Liv. II. Ca?. III. e IV. 163 

pêra recolhimento dos Officiaes daquella Al- 
fandega , e huma cafa mui grande , e formo- 
fa , que enteílava no baluarte , pêra o dd- 
pacho das fazendas , correndo Coge Çofar 
com tudo mui pontualmente. E porque he 
ncceííario continuarmos com outras coufas, 
deixaremos eftas por hum pouco. 

CAPITULO IV. 

Das guerras , que em Ceilão houve antre 
aquelles dous Reys irmãos : e do foc cor- 
ro que o Camarim mandou ao Madune : 
e de como Martim Affenfo de Soufa des- 
baratou a Armada do Camorim em Bea- 
dald. 

ERa tamanha a ambição do Madune Pan^ 
dar Rey de Ceita vaca , e aflim Jhe era 
máo de foffrer ver feu irmão , ainda que 
mais velho , igual com elle em Eftado , que 
não fe quietava em cuidar, e tratar modos 
de como lhe daria a morte , e lhe tomaria 
o Reyno , pêra ficar com a Monarquia de 
toda aquella Iiha. E aflim tratou por mui- 
tas vezes dar-lhe peçonha , que não veio a 
effeito , porque tomaram com ella alguns, 
que pêra iílb peitou grandemente , que no 
tormento confeílàram a verdade ; pelo que 
dalli por diante trouxe EIRéy da Corta gran- 
de refguardo em íi y não comendo fenão cou* 

L ii fas 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

fas guizadas por lua mão. Vendo o Madu- 
ne que eram defcubertas fuás traças , deter- 
minou de lhe tomar o Réyno por guerra , e 
valer- fe outra vez do Çamorim , defpedin- 
do em Agoílo paífado Embaixadores com 
liuma íòmma de dinheiro, e muitas jóias de 
prefente pêra o Çamorim , mandando-lhe pe- 
dir huma groíFa Armada ; pêra o que man- 
dava as defpezas pêra o ajudar naquella em- 
preza , offerecendo-lhe alguns portos de mar 
naquella Ilha. O Çamorim recebeo bem ei- 
íes Embaixadores , e mandou logo por to- 
dos os portos do feu Reyno negociar todos 
os navios que houveiTe ; e elegeo pêra efta 
jornada três Mouros principaes , chamados 
Paichimarca , a que alguns chamam errada- 
mente Patemarca , c feu irmão Cunhale mar- 
ca , ambos naturaes de Ccchim , nafcidos , e 
creados antre os Portuguezes ; e o outro era 
Aly Abrahem. O Çamorim mandou pagar 
gente pelo Reyno , e fez oito mil homens 
pêra irem nefta jornada , dando ordem qué 
todos os navios fe foliem ajuntar em Pana- 
ne , onde vivia o Paichimarca. A Armada 
foi-fe fazendo preíles pelos rios , e aífim co-. 
mo os navios, eítavam pêra partir , fe.hiam 
pêra Penane. O Aly Abrahem , que vivia no 
rio dePudepatao , faliio delle com dez na-' 
vios na entrada de Novembro , e fendo tan- 
íe avante como Panane , houve vifta da náo 

' Gal- 1 



Dec. V. Liv. II. Cap. IV. i6$ 

Gallega , que hia pêra Cochim ; e queren- 
do provar a mão ? a foi demandar muito créf- 
po , e com todos os navios poítos em armas , 
rodeando-a por todas as partes , começan- 
do-a a bater rijamente. Ruy Dias Pereira y 
que era Capitão , negoceou a lua náo mui 
bem , deféndendo-fe delles com muito va- 
lor , e aílim os efcandalizáram com fua ar- 
tilheria , que os fizeram affaftar com alguns 
defaparelhados ; o que não foi fem damno, 
porque de huma pelourada que deram pelo 
pefcoço a Ruy Dias Pereira o mataram , 
(ainda que alguns dizem , que huma racha 
de huma taboa, que o pelouro levou , lhe 
deo pelas guellas que o dcgollou. ) Aífafta- 
dos os parós , a náo foi feu caminho pêra 
Cochim, levando alguns feridos. A Capita- 
nia deita náo deo o Governador ajurdao de 
Freitas. Recolhido o Aly Abrahem em Pa- 
nane , ficaram efperando pelos mais navios 
que fe hiam ajuntando. 

Poucos dias depois deite negocio da náo , 
indo outros nove parós de hum deíles rios 
pêra Panane , deram com huma fuíta , que hia 
deCananor pêra Cochim, ç commettendo-a 
a abordarão , e axorárao , matando quantos 
nella hiam ; fomente hum moço de idade de 
dez , annos , (que nella hia com feu pai,) 
chamado Marcos ficou cativo. Junta toda a 
Armada em Panane /tanto quepaífou a Lua 

de 



i66 ASIÀ de Diogo de Couto 

de Novembro (em que elles fazem fuás gran- 
des feitas) fahíramdaqueilerio, Eram os na- 
vios por todos llncoenta e hum , em que en- 
travam íinco galeotas latinas de coxia , que 
jogavam por proa meias efperas. Hia toda 
efta Armada cheia de muita gente , cfpingar- 
das , arcos , lanças , e com mais de quatro- 
centas peças de artilheria , e a mor parte del- 
ia de bronze. E além da gente de armas , 
que eram oito mil , todos os remeiros leva- 
vam arcos ■, e frechas debaixo dos bancos 
em que hiarn , pcra pelejarem quando foílc 
neceííario. 

Efta Armada toda foi paííando de lon- 
go das náos do Reyno , que efta vam na bar- 
ra de Cochim á carga , e foi viíta da Cida- 
de , que íc metteo em alvoroço , cuidando 
que quizeílè pelejar com ellas , mas foi paf- 
íando adiante. E chegando á barra deCou- 
lao , acharam rrella huma náo á carga , que 
tinha íahido de Cochim , onde fefcz aqueí- 
]e anno pêra ir pêra o Reyno , e chamava- 
fe S.Pedro, que foi a mais bem efcanlada 
náo, que houve na carreira da índia, e du- 
rou vinte edousannos nella; porque no de I 
íincoenta enove, que nós partimos doRey- i 
no, tinha ella ido á índia, e ficava no rioj 
de Lisboa fer vindo de cábrea pêra einmaf-i I 
tear as outras. Paichimarca vendo a náofó,j>) 
a foi commetíer , havendo que nella tinha i 

pou- ! 



Dec. V. Liv. II. Cap. IV. 167 

pouco que fazer, e rodeando-a a começou 
a bater. Nicoláo Juzarte , que era Capitão 
delia , fe poz á defensão , rendo a náo mui 
bem negociada , defendendo-fe com muito 
valor; e de tal maneira tratou os inimigos, 
(por ter muita , e groíTa artilheria , ) que lhes 
defaparelhou muitos dos navios , matando- 
lhes dentro muita gente. Vendo Paichimar- 
ca o damno que recebia , e que a náo era 
muito forte , sffaftou-fe delia , dando-lhe a 
derradeira falva : e quiz a fortuna , que hu- 
ma racha de hum páo, que levou hum pe- 
louro , tomaíTe o Capitão pela fola de hum 
pé , (que tinha alevantado , e poíto no pé do 
carneiro , na tolda onde eftava aífentado em 
huma cadeira mal difpoíto , donde manda- 
va , e governava tudo , ) e abrindo-lho to- 
do, o derribou morta!. 

Apartada a Armada , foi Nicoláo Juzar- 
te a Cochim , levado dos feus pêra o cura- 
rem , mas durou poucos dias. O Doutor Pê- 
ro Vaz do Amaral , Capitão , e Veador da 
Fazenda de Cochim , tanto que a Armada 
paíTou pelas náos , defpedio logo recado a 
Martim Affonfo de Soufa , que fabia que 
era partido de Goa , pêra que fe apreíTaile. 
Efte recado o tomou em Chalé , e dando-fe 
preíla chegou a Cochim , onde delembarcou 
pêra negociar algumas coufas pêra paífar a 
Ceilão embufea dos inimigos, que já tinha 

ayi- 



i68 ÁSIA de Diogo de Couto 

aviíb da derrota que levava. E indo pela 
rua direita em huma faca , lhe fahio de hu- 
ma cafa huma mulher viuva Portugueza car- 
regada de dó 5 (que era mãi daquelle moço 
Marcos , que pouco atrás difíemos , que os 
Mala vares levavam cativo , que o tinha el- 
la fabido por alguns marinheiros , que fe 
íàlváram daquelle navio a nado. ) Echegan- 
do-le a Martim Aífbnfo , lhe lançou as mãos 
ás redeias do quartáo , tão defconfolada , e 
com tão vivas, e accezas lagrimas, efufpi- 
íos , que parecia que tinha perdido o íizo , 
e clamando alto , lhe diíle : » Senhor, valei- 
»me , que me mataram os Malavares meu 
» marido , eme levam meu filho Marcos ca- 
»tivo: e pois ides após os inimigos, peço- 
» vos pelas Chagas do Filho de Deos , que 
)> mo livreis , e tragais. » Martim Aífbnfo 
a confolou , dizendo-lhe , que rogaífe ella 
a noflb Senhor , que lhe déífe vitoria delles. 
Ella lhe refpondeo : » A vitoria, Senhor , 
)> Dcos vo-la dará j mas vós me haveis de 
» prometter de me trazer meu filho, porque 
)> vos não hei de largar até me dardes diífo 
y> vofla palavra , pêra eu ficar alguma couíà 
» coníblada. 

Vendo Martim AíFonfo a confiança que 
aquella mulher tinha de lhe elle trazer leu 
filho, houve o por muito bom prognoílico , 
e diffe-lhe > que fe confolaífe , que. elle lhe 

pro- 



Deg. V. Liv, II. Cap. IV: * 169 

promettia de trabalhar todo o poíTivel por 
lhe trazer feu filho : que roga iTe ella a Deos, 
que o encaminhaíTe , e lhe déíle vitoria dos. 
inimigos. Ella então o largou com grandes 
bênçãos , e com muitas lagrimas. Martim 
Affoisíò fe embarcou logo , e foi apôs a Ar- 
mada do Çamorim , e chegando a Coulão , 
achou a náo S. Pedro defaparelhada de al- 
gumas coufas da batalha paífada , e dos da 
náo foube o que lhe tinha acontecido , ç a- 
prefíando-fe chegou ao Cabo do Comori , 
onde teve folia de algumas embarcações que 
achou, e foube que os inimigos faziam feu 
caminho por dentro pêra paífarem os baixos? 
de Manar. Martim AfFonfo de Souía , porque 
levava galés, e navios muito pejados, que 
eram perigofos pêra os baixos , com confe- 
Iho de rocios tornou a voltar pêra Cochim , 
pêra fe negociar em navios pequenos: eef- 
ta volta lhe deo a vitoria , porque como 
Paichimarca tinha já avifo da Armada Por- 
tugueza , e trazia efpias fobre ella, chegan- 
do aBeadalá, foiavifado que fe tornara do 
Cabo do Comori ; e parecendo-lhe que fo- 
ra com receio delle , defembarcou alli , ç 
varou os navios pêra os concertar , e alim- 
par , deixando-fe eílar devagar. 

Martim AfFonfo de Sou ia chegou aGo- 
ehim , e deixando alli as galés , tomou alguns 
navios de remo que achou , c com os que 

le- 



ijo AS1A de Diogo de Couto 

levava perfez vinte e dous , pêra onde fe mu- 
daram os Capitães das galés, e toda a gen- 
te da Armada , que por toda feriam quatro- 
centos eíincoenta homens. Os Capitães que 
o acompanharam ( aos que achámos os no- 
mes ) fam os feguintes : 

Fernão de Soufa de Távora, Manoel de 
Soufa de Sepúlveda, Martim Corrêa da Sil- 
va , D.Diogo de Almeida Freire , irmão de* 
D. João deSande,.(a quem na índia cha- 
mavam o Malavar , por faber muito bem 
aquella coita , e fallar a lingua , ) Miguel de 
Ayala , João de Soufa Rates , Francifco de 
Mello Pereira , Francifco Fernandes o Mo- 
ricale , e o Siqueira, ambos Malavares, na- 
turaes de Cochim , grandes coffairos , e va- 
lentes homens , e outros. 

Partido Martim Àffoníb de Soufa com 
eíla Armada ligeira, paífou o Cabo do Co- 
mori , e foi tomando falia dos inimigos , que 
foube eftarem em Beadalá com os parós va- 
rados , e tendas poílas em terra ; pelo que 
fe apreíTou , e foi huma tarde apparecer fo- 
bre a barra de Beadalá , onde furgio. Os Ca- 
pitães Mouros vendo, a Armada, e notando 
a pouquidade delia , mandaram lançar ao mar 
trinta navios pêra a irem commetter , deixan- 
do os outros varados , começando-fe a em- 
barcar a gente ; e como ifto era tarde , anoi- 
teceo logo. Martim AíFonfo de Soufa teve 

• aquel- 



Dec. V. Lrv. II. Cap. .-IV. 171 

aquella noite coníèlho com os Capitães , e 
a (Tentaram , que commetteíTem os inimigos 
por mar , e por terra , porque affim alcan- 
çariam deiíes mais depreíTa vitoria , pelo deft 
cuido com que haviam de eftar em terra. E 
aíllni ordenou Marti m Affònfo de Soufa fi- 
carem na Armada cento e fincoenta homens 
com hum daquelles Fidalgos , (e fegundo 
nos parece foi Fernão de Soufa de Távora , ) 
a quem deo por regimento , que tanto que 
ouviíle deípararhuma camará de falcão , que 
pêra iflb levava, commerteífe a barra , e pe- 
lejaíTe com os navios que eftavam no mar; 
e elle foi defembarcar em hum a ponta abai- 
xo de Beadalá pêra os baixos , efpaço de meia 
légua , onde íe poz em terra com trezentos 
homens no quarto d\alva , começando logo 
a marchar pêra a povoação em muito boa 
ordem. A Armada tanto que o lançou em 
terra , tornou-fe a pôr febre a barra , aon- 
de fe deixou eílar efperando pelo final ; e 
entolhando-fc que Jho fizeram , mandou o 
Capitão mor delia levar ancora : epoftosem 
armas commettêram a barra ao fom de mui- 
tos inítrumentos , e bombardadas. E endirei- 
tando com os parós , que eftavam no mar 
com alguma gente , os inveílíram , iançando- 
lhes dentro muitas panellas de pólvora com 
que os abrazáram. Os Capitães Mouros , que 
citavam em terra, ouvindo a revolta acudi* 

ram 



lf%- ÁSIA de Diogo de Couto 

ram á praia a mandar gente aos navios pc- 
râ eJlcs os íòccofrerem. 

Eftando aftim nefta preíTa , chegou Mar-* 
tim AfFonfo de Soufa ao lugar , e com gran- 
des cftrondos , gritas , e alaridos commetteo ' 
os inimigos, dando-ihes a primeira furriada 
de arcabuzaria , com que lhes derribaram * 
muitos , enveftindo logo com elles ás cuti- 
ladas , ficando todos baralhados , e como os % 
tomaram de iupito , fizeram nelles grande ' 
deítruição. Os Capitães Mouros vendo aquii- ' 
Io , cuidando que era outro poder , e outra 
Armada, começaram a defamparar tudo. O 
Siqueira pedio licença a Martim Affcnfo de ' 
Soufa pêra ir pôr fogo aos parós , que ef- 
tavam varados , (porque em quanto não ar- 
deíTern , os Mouros os não haviam de defam- 
parar , e haviam de trabalhar pelos defen- * 
der. ) E dando-lha Martim Aífonío de Sou- 
fa , lhes foi pôr fogo por algumas partes, 
que começou a atear nelles com grande bra- 
veza. Neíte tempo andava a batalha , aífim 
no mar , como na terra i mui acceza ; e ven- 
do os Mouros arder os navios, lego defa- 
corocoáram , e fe começaram a retirar. 

Eftava na tenda de Paichimarca , ( que 
•elle mandou armar em hum palmar affaíla- 
do da praia ) o moço Marcos , e ouvindo 
a revolta , e entendendo que eram Portugue- 
ses 5 poz-fe na porta a eíperar o fim da çon- 

ten- 



Dec. V. Liv. II. Cap. IV. 173 

tenda , porque ainda era efcuro , e não Í£ 
ouíava de fahir, e ir pêra es Portuguezes, 
porque receava que o matafíein , cuidando 
que era Mouro ; porque tudo quanto via., 
e ouvia era fogo , efpingardadas , e gritas 
muito pêra recear hum homem muito ani- 
mofo , quanto mais hum menino. 

Os Mouros começáram~fe a desbaratar, 
c a fugir , e alguns chegaram atenda, onde 
o moço eílava , e perguntaram por Paichi- 
marca , e fabendo não eftar alli foram paf- 
fando. Alguns Mouros moços, que ferviam 
o Paichimarca , que eftavam na tenda , ven- 
do o desbarato ferraram do moço Marcos 
pêra o levarem comligo , porque já fe que- 
riam também pôr em falvo ; mas elle lhes 
efeapulio das mãos, e por fe temer que al<- 
guns Mouros o quizeífem levar , determinou- 
ih a fe arrifear a huma efpingardada , dei- 
tando a correr pêra onde os Portuguezes an- 
davam , porque já começava a efclarecer, e 
foi gritando que era Portuguez ; e aílim foi 
dar com huns poucos de fokiados , que en- 
cararam pêra o matarem ; mas como elle hia 
bradando Portuguez, Portuguez, quiz Deos, 
movido das orações das triile mãi , que o 
ouvifle hum , .que foi á mão aos demais 9 
dizendo-lhes , que aquelle era o moço , que 
^Capitão mórencommendára a todos; por- 
que teve elle tanta lembrança das lagrimas 

da 



174 ÁSIA dè Diogo de Couto 

da mãi , que antes de entrar a povoação , dif- 
fe a todos , que lhes enceinmendava muito 
o filho da viuva de Cochim. E lembrando- 
lhes a eftes íòldados , o tomaram nos braços , 
e o levaram a Martim AfFoníb de Soufa , 
que em o vendo foi íua alegria tamanha , 
que houve que porellc lhe dera Deos aquei-t 
la vitoria , que fe acabou de arrematar ma- 
nha clara , aílim no mar , como na terra , fi- 
cando todos os navios em poder dos nolTos* 
Paichimarca , e leu irmão , e Aly Abra- 
hem vendo tudo perdido , fe recolheram a 
dous navios ligeiros , em que fe acolheram. 
Os noflbs andavam em terra feguindo a vi- 
toria ; e depois dos da Armada renderem a 
dos inimigos , dcfembarcáram , e todos em 
hum corpo já depois da manhã clara deram 
na Cidade , pondo-lhe o fogo por muitas ; 
partes , em que fé confumio toda, fazendo : 
todo o mais damno que puderam pejo fa«> 
vor , e ajuda que deram aos Mouros. Ha- 
vida efta vitoria , que foi huma das famo- j 
ias da índia , mandou Martim AfFoníb de ! 
Soufa faquear as eílancias dos inimigos , on^ \ 
de acharam grandes defpojos , principalmen- 
te de armas, porque tomaram trezentas ef-l 
pingardas , e mais de duzentas peças de ar*| 
tilheria ,• muitas munições, e outras coufas*; 
E antre ifto fe tomou hum fombreiro , que 
o Çamorim mandava- ao Madune;e de to- 
dos 



Deg. V. Liv. II. Cap. IV.êV. iTf 

dos os fincoenta e hum navios , fó os dous 
fe falváram , em que foram Paichimarca 5 e 
ieu irmão j e os mais delies foram queima- 
dos , e os outros recolheo Martim AíFonfo 
de Soufa , e os levou comíigo y ajuntando-os 
á fua Armada. 

CAPITULO V, 

Das coufas > que mais aconteceram a Mar* 

tim Affonfo de Souja em todo o rejlo do 

verão : e de como p afifou a Ceilão : e das 

pazes que aquelles Reys fizeram. 

POrque temos muitas coufas que tratar , 
primeiro que fe nos acabe o verão y 
pareceo-nos bem concluirmos com as de 
Manim AíFonfo de Soufa polas contarmos 
juntas , já que eítamos com as mãos nellas. 
Havida tamanha vitoria , armou alli muitos 
Cavalleiros , e antre elles foi hum Simão 
Rangel de Caftello-branco, irmão do Dou- 
tor Fernão Rodrigues de Cafiello-branco , 
homem Fidalgo , cujo Alvará de Cavallei- 
ro, (que lhe alli paííbu , ) eítá em noflb po- 
der o próprio , de quem nós tirámos as for- 
ças piincipaes deite lUcceííb. E parecendo a 
Manim AíFonfo de Soufa que era obriga- 
ção avifar ao Governador deita vitoria , def- 
pedio Miguel de Ayala , Capitão de hum 
catur, por quem eíçreveo ao Governador > 



iy6 ÁSIA de Diogo de Couto 

e ao Capitão de Cochim , a mercê que lhe 
Deos fizera: e a EIRey de Cochim mandou 
o fombreiro -, que o Çamorim mandava ao 
Madune. Nefte catur mandou embarcar o 
moço Marcos, entregue a Miguel deAya- 
la , a quem encommendou muito o entregaf- 
fe da lua parte a fua mai. E nefta era de no- 
venta e féis , em que efcrevemos ifto , vive 
efte homem ainda , e chama-fe Marcos Ro- 
drigues , e he caiado em Baçaim com hu- 
ma mulher Fidalga do appellido dos Mira n- 
das , de que tem filhas, que vivem hoje ca- 
ladas com Fidalgos muito honrados , e bem 
defpachados, 

Defpedido efte catur, logo Martim Af- 
fonfo de Soufa ie negociou , e embarcou pê- 
ra, ir, a Ceilão ver-íè com aquelle Rey, le- 
vando dos navios dos inimigos os melho- 
res , com que reformou a fua Armada , e 
os mais mandou pêra Cochim , e aíílm foi 
demandar os baixos já em fim de Fevereiro , 
que paliou muito bem até Manar , e dalli 
de longo da -coita foi demandar Columbo. 
E deixallo-hemos hum pouco , porque he 
jnecelfario continuarmos com Miguel de Aya* 
]a ., que hia com o recado pêra Goa. 

Efte homem chegou a Cochim , e deo ao 
Capitão as cartas, e a EIRey o fombreiro., 
que o eftimou muito ; eaílim levou o mo- 
ço' Marcos , e o entregou a fua mái dapar^ 

te 



Dec. V. Liv. II. Cap. V. 177 

te do Capitão mór , dizcndo-Ihcs , que alli 
lhe mandava fcu filho, eque ficava defobri- 
gado da promeíTa que lhe fizera. A triíle viu- 
va foi o feu alvoroço tamanho , que não cria 
o que via , abraçando-fe com o filho , tor- 
nando com elle a renovar a dor da morte 
do pai. 

As novas de tamanha vitoria fe feítejá- 
ram em Cochim o melhor que pode fer , que 
logo fe efpalháram por todo o Malavar , 
onde houve hum geral pranto , porque mor- 
reram na batalha mais de três mil Mouros 
dos principaes , ficando aííim o Çamorim r 
como os armadores , mui quebrados , porque 
naquella Armada mettêram todo o cabedal. 
O Miguel de Ayala , tanto que deo as novas 
em Cochim, tomando cartas do Capitão, e 
d'ElRey pêra o Governador , partio-fe com 
muita prefTa , porque o havia de ir tomar 
em Dio. E fendo tanto avante como Cha- 
lé , encontraram huma galeota de Malava- 
res mui formofa , e cheia de muita , e boa 
gente , e pondo a proa no catur do Miguel 
de Ayala , o enveíiio , lançando-lhe logo gen- 
te dentro. O Miguel de Ayala não levava 
mais de quinze foldados , que hiam com ani- 
mo mui alegre da vitoria de Beadalá ; e ven- 
do- fe entrados dos Mouros , fe puzeram com 
elles ás cutiladas com tanto valor, e esfor- 
ço , que lhes moftráram logo por obra, que 
Couto. Tom. II P. L M na- 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

naquelles quinze homens eftavam muitos , 
porque começaram a ataííalhar nos Mouros 
braviííimamcnte , rendo já o catur coalhado 
de corpos mortos ; mas como os Mouros 
eram mais de duzentos , liuns de dentro , e 
outros de fora , perfeguiam os noílbs com 
todos os tiros que podiam , de que derriba- 
ram alguns mortos. Em fim por não recitar- 
mos golpes , a briga durou todo o dia , que 
houve tamanho eítrago de ambas as partes, 
que não ficou nos navios quem os pudefle 
mandar , por todos eílarem cftirados , ou mor- 
tos , ou feridos. Os marinheiros vendo-os 
daqueila maneira , ventando o vento bem pê- 
ra Goa , deram á vela , e tomaram Cananor, 
onde defembarcáram ao outro dia os mortos 
pêra lhes darem fepultura, e os vivos ? que 
não eram mais de finco , (em que entrava o 
Miguel de Ayala ) pêra os curarem : e quiz 
noílo Senhor , que não perigaíTe o Ayala , 
que não pode paliar dalli , e o Capitão de 
Cananor defpedio o catur com as cartas ao 
Governador, eferevendo-lhe aquelle fuecef- 
íò. Efte catur chegou a Dio , e deo as car- 
tas ao Governador Nuno da Cunha , que 
mandou feftejar as novas da vitoria com to- 
da a artiiheria , e o tornou a defpedir com 
cartas pêra Martim Affonfo de Soufa, e pê- 
ra os Fidalgos de fua companhia, de louvo- 
res daquelle negocio, 

E 



* 



Dec. V. Liv. TL Cap. V. 179 

E tornando a Martim AfFonfo de Sou- 
fa , ' que hia fua jornada pêra Ceilão ,- em 
poucos dias chegou ao porto de Columbo 
com toda fua Armada 3 e alli defembarcou , 
e com toda a gente poíla em ordem mar- 
chou pêra a Cora , pêra fe ver com aquel- 
Je Rey , que o recebeo muito honradamen- 
te , achando-o já defapreflado , e em pazes 
com o irmão j porque tanto que foube do 
desbarato de Paichimarca , e da chegada da 
noíFa Armada a Columbo , mandou pedir 
pazes ao irmão , que lhas concedeo , porque 
naturalmente era bom homem. Pelo que El- 
Rey da Cota deo os agradecimentos a Mar- 
tim AfFonfo de Soufa , eftimando muito a 
conta que com elle tinham os Portuguezes , 
e de como acudiam a feus trabalhos. Mar- 
fim AfFonfo de Soufa, vendo que não havia 
alli que fazer , tratou com EIRey de fua 
ida , e lhe pedio algum empreílimo pêra as 
defpezas da Armada , e paga de foldados , 
(porque tinha elle mandado oíFerecer tudo 
ifto. ) EIRey lho concedeo com muito gof- 
to , mandando-lhe dar quarenta e finco mil 
cruzados , que fe carregaram por empreíli- 
mo fobre o Feitor de Columbo , em cuja 
receita fomos ver efte dinheiro : e aílim ef- 
te , como outro muito que depois emprek 
tou , lhe foi muito mal pago, e ainda hoje 
fe lhe deve amor parte delle, (encommen- 

M ii dan- 



i8o ÁSIA de Diogo de Couto 

dando EIRey de Portugal muito a feus Go* 
vernadores , que lhe fizeífcm muito bom pa- 
gamento. ) Martim AfFonfo de Soufa fe def- 
pedio d'ElRey , que lhe deo peças , e brin- 
cos , aííim a elle , como a todos os Capitães , 
e fazendo-fe á veia , fe tornou pêra Cochim , 
aonde achou as galés , e com toda a lua Ar- 
mada formada andou o refto do verão na 
cofta do Malavar , fazendo toda a guerra 
que pode ao Çamorim , tomando ainda ou- 
tros muitos parós , com que acabou de def- 
truir os armadores; e como foi tempo , fe re- 
colheo a invernar a Goa. 

CAPITULO VI. 

De como o Governador Nuno da Cunha , por 
culpas que teve de D. Pedro de Caftello- 
Iranco , Capitão de Ormuz , o mandou 
defapojjar da fortaleza : e de como Dom 
Fernando de Lima foi com huma Arma- 
da ao Ejlreito : e das mais ccufas que o 
Governador paj/òu em Dio até Je recolher. 

PElas náos , que vieram em Novembro de 
Ormuz a Dio, teve o Governador Nu- 
no da Cunha muitos capítulos de grandes 
culpas , e queixas contra D. Pedro de Caf- 
telle-branco , que eram de qualidade , que 
lhe pareceo neceííario pêra quietação da ter- 
ra , (por não haver outro alevantamento co- 
mo 



Dec. V. Liv. IL Cap. VI. .181 

tno em tempo de Diogo de Mello,) man- 
dallo tirar da fortaleza ; porque naturalmen- 
te era hum Fidalgo muito forte de condi- 
ção , e tão vingativo , que não perdoava cou- 
fa alguma. E aífim eílava toda a terra tão 
efcandalizada delle , que foi neceflario ao 
Governador acudir áquelle negocio , e de- 
terminou de mandar lá o Doutor Pêro Fer- 
nandes Ouvidor Geral pêra o fufpender do 
cargo de Capitão da fortaleza , e mandalio 
prezo á índia, 

E porque por então não havia nenhum 
provido daquella fortaleza , e o Governador 
eílava muito afeiçoado ao avifo , arte , e 
primor de D. Fernando de Lima , que nas 
náos pa{Tadas tinha vindo do Reyno por Ca- 
pitão de huma delias , como diííemos no Ca- 
pitulo III. do IL Livro , defpachado com Goa, 
determinou de lhe dar aquella fortaleza , de 
que poderia tirar aquelle anno coufa com 
que fepudeíTe ir pêra o Reyno. Era efte Fi- 
dalgo da creaçao d'ElRey*D. João, fendo 
Principe , e foi fempre tão limpo , tão gra- 
ve , e tão cortezão , que era hum dos-Fi» 
dalgos , em que naquelle tempo fe trazia o 
olho. Cafou-fe por amores com huma Da- 
ma do Paço , que fe chamava Dona Fran- 
cifcà de Vilhena , filha do Grande Ruy Bar- 
reto , Fronteiro mor do Algarve , e de Dona 
Branca de Vilhena, irmã de Francifco Bar- 
ro 



182 ÁSIA de Diogo de Couto 

reto , que foi Governador da índia , que era 
pobre , e tinha pouco dote : e como EIRey 
lhe era aíFeiçoado , defpachou-o o anno paf- 
fado pêra a índia com a Capitania de Goa , 
por fer couía que lhe entrava logo, e com 
a Capitania de huma náo. Chegou á índia 
com grande cafa , e ler viço de fua peflba , 
porque era muito concertado no tratamento 
delia. Embarcou-fe logo com o Governador 
pêra Dio , econverfando-o na jornada, ven- 
do fua arte , avifo , e mais partes , aílim fe 
lhe afFeiçoou , que o governava todo. (E cof- 
tumava dizer em fua aufencia nas converfa- 
çoes dos Fidalgos , que fe náo converfára 
D. Fernando de Lima , fora ao Inferno.) 

E vendo que fe abria caminho pêra mof- 
-trar quão grande feu amigo era , quiz-lhe 
dar a vantagem deíla fortaleza de Ormuz ; 
porque ainda que náo acabaffe três annos , 
fempre havia de tirar mais que de Goa , por- 
que defejava de o ver tornar pêra o Reyno 
remediado. E eftando com elle em conver- 
làção , lhe diíle > que viera enganado de Por- 
tugal , porque a Capitania de Goa não era 
coufa pêra elle , aílim porque dava de fi pou- 
co , como por eftar nella fempre o Gover- 
nador da índia , e o Capitão ficar com elle 
muito acanhado , que defejava de o melho- 
rar , pêra que fe pudeífc tornar pêra o Rey- 
no mais cedo, e com mais remédio. 

Que 



Dec. V- Liv. IL Cap. VI, 183 

Que elle mandava defapoíTar D. Pedro 
de Caftello-branco da fortaleza de Ormuz , 
e que não havia nenhum provido : que elle 
em nome d'ElR.ey lhe fazia mercê delia , e 
que poderia fer ficaíTe fervindo três annos 
por em cheio, D.Fernando de Lima lhe te- 
ve em mercê aquella vontade , dizendo-lhe 
que a não acceitava , porque não lhe convi- 
nha ir defapoíTar de fua. fortaleza hum Fi- 
dalgo tão honrado. O Governador parecen- 
do-lhe muito bem aquelle primor , lhe dif- 
fe : Que elle daria a iílb hum talho muito 
bom , eíle era , que iria ao Eftreito cm hu- 
ina Armada , porque havia novas de galés , 
e que entre tanto iria o Ouvidor Gerai 
fazer aquella execução em D. Pedro , e o 
mandaria pêra Goa ; e que como foííe tem- 
po de fe elle recolher doEftreito, foffe in- 
vernar a Ormuz , aonde acharia Provisão pê- 
ra tomar pofle daquella fortaleza. D. Fer- 
nando lhe diíTe , que por aquelle modo ac- 
ceitava. O Governador Nuno da Cunha man- 
dou logo preparar dous galeões , e algumas 
fuftas , com que D. Fernando de Lima fe fez 
á vela entrada de Fevereiro ; e de fua jorna- 
da adiante daremos razão. 

O Governador ficou em Dio dando mui- 
ta preíTa ás obras da ciílerna , e renovando 
muitas coufas da fortaleza , e mandou cor- 
rer com as obras do baluarte da Villa dos 

Ru- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

Rumes , dando Coge Çofar aviamento pê- 
ra tudo ; no que correo tão pontual , que 
diíle o Governador a António da Silveira , 
que a feu filho ( que eftava na fortaleza re- 
teudo) de quando em quando lhe déíTe li- 
cença pêra ir á Cidade viíitar fua mai com 
alguns homens de fua guarda. E porque en- 
trava já o rnez de Março , tempo de fe re- 
colher pêra Goa , pêra prover nas coufas de 
Malaca , e Maluco , proveo nas da forta- 
leza , dando a Capitania do baluarte daVil- 
la dos Rumes a Francifco Pacheco , com o 
cargo de Juiz de Alfandega , provendo to- 
dos os Officiaes delia. E o baluarte domar 
proveo de artilheria , e munições, cuja Ca- 
pitania deo a António de Soufa Coutinho , 
(hum Fidalgo de Lamego , ) dando-lhe trin- 
ta íbldados. E aílinou pêra ficarem na forta- 
leza grande , íeiscentos homens , com Ca- 
pitães pêra lhes darem mezas , que foram, 
Lopo de Soufa Coutinho de Santarém , Gon- 
çalo Falcão , Luiz Rodrigues de Carvalho , 
Gafpar de Soufa , Manoel de Vafconcellos , 
Rodrigo de Proença , da obrigação do Go- 
vernador. E a Capitania da Armada , que dei- 
xava no rio , deo a Francifco de Gouvea , 
e a Alcadaria mor da fortaleza a Paio Ro- 
drigues de Araújo, e a Feitoria a António 
da Veiga. Provido tudo muito bem , defpe- 
dio-fe o Governador de todos , e foi-fe pê- 
ra 



Dec. V. Liv. II. CakVIL 1.8? 

ra Goa , aonde proveo nas coufas de Ma- 
laca , e Maluco, e em todas as mais ; ecom 
ifto íe ferrou o inverno. 

CAPITULO VII. 

Do que aconteceo a Cafarcan , que Soltao 
Badur tinha mandado nos galeões a Me- 
ca \ e de como foi levado com todos os 
thef ouros que levava ao Turco : e da Ar- 
mada que elle mandou negociar pêra man- 
dar d índia contra os Portugueses : e 
do avifo que EIRey teve delia : e do foc- 
corro que mandou. 

NO Capitulo fetimo do Livro nono da 
quarta Década temos dado larga con- 
ta de como Soltao Badur mandou pêra Me- 
ca fua mulher , e feus theíburos , entregues 
a Cafarcan 3 porque não tinha ainda de to- 
do perdido o medo ao Magores. Agora he 
neceífario continuarmos com Cafarcan , por- 
que convém aílim ao fio de nofla hiftoria. 
Partido efte Mouro com fuás náos, foi fc- 
guindo fua viagem até á Cidade de Meca , 
onde defembarcou tudo o que levava , e o 
Xarife dalli os recebeo bem , dando apofen- 
tos á Rainha muito á fua vontade. Alli fe 
deixaram ficar fem receberem aggravo , nem 
efcandalo de pelToa alguma , eíperando por 
recado d'ElRey Soltao Badur até efte Abril 

paf- 



i86 ASIÀ de Diogo de Couto 

paíTado , que chegaram as náos deSurrate, 
por quem tiveram novas da morte de Sol- 
tão Badur , efcrevendo Coge Çofar a Naco- 
dá Amet, Rey de Zebit , com quem tinha 
muita razão de amizade , e creaçao , pedin- 
do-lhe encarecidamente , que perfuadifle aos 
Baxás doConfelho do Turco , que mandaf- 
fe luas Armadas á índia contra os Portugue- 
zes , e que foíTem demandar aquella Iiha de 
Dio , aonde lhe feria muito fácil tomar a- 
quella fortaleza , e onde elle efperaria com 
muita gente , mantimentos , e todos os mais 
petrechos de guerra pêra os ajudar : e que 
dalli ficavam a balravento de toda a índia, 
pêra onde a todo o tempo que quizefle po- 
deriam partir, e fazer guerra ás mais forta- 
lezas dos Portuguczes , que lhes não haviam 
de poder reíiftir , e alfim os lançariam fora 
da índia , e ficaria outra vez o commercio 
antigo em fua liberdade como dantes , e a 
romagem da cafa de Mafamede defimpedi- 
da aos romeiros delia , cuja devoção eftava 
perdida, pela potencia das Armadas Portu- 
guezas , que tanto em oífenfa de fua reli- 
gião tinham tapadas as bocas daquelle Es- 
treito. Por eftas cartas fe efpalhou logo a no- 
va da morte do Badur , tão nomeado por 
todo o Oriente , até chegar ao Cairo , aon- 
de eftava por Governador Soleimão Baxá 
Eunuco y homem muito velho , que muitos 

an- 



Deo V. Liv. II. Cap. VIL 187 

annos fervio ao Grão Turco Soleimão de 
fuá camará pêra dentro. E quando deo a Go- 
vernança do Cairo ao outro Soleimão Baxá y 
General da Armada , que mataram , que era 
Guarda da fua poria da Gamara , lhe deo a 
cfte o mefrao officio , e por morte do ou- 
tro também o paífou á Governança do Cairo. 
Efte Eunuco tanto que lhe chegaram as 
novas da morte do Badur , defpedio logo 
recado ao Xarife da caía de Meca , que lhe 
mandaffe a mulher , e thefouros daquelle 
Rey , que eftavam naquella Cidade , porque 
era aííim ferviço do Turco: o que tudo lhe 
foi levado, indoCafarcan acompanhando a 
Rainha. Outros dizem , que o mefmo Ca- 
farcan em fabendo da morte do Senhor , to- 
mara tudo com figo , e fe fora ao Cairo , e 
dahi á Corte do Turco. Ou fofle de huma 
maneira , ou da outra , tudo foi levado ao 
Turco , que já era Celim , por haver pou- 
co que feu pai era morto. Vendo efte bár- 
baro tanta pedraria , c ouro , maravilhou-le , 
e houve , que Reyno donde hum Rey íb de 
fua recamara tirara aquelles thefouros pêra 
mandar a Meca , havia de fer riquiílimo da- 
quellas coufas : com o que lhe crefceo a cu-* 
bica de o conquiftar , acere fcentando-1 ha mais 
o Eunuco com as coufas que lhe diíTe , e 
com a carta de Coge Çofar que lhe mof- 
trou , que EIRey de Zebk mandou , dizen- 

do- 



1S8 ÁSIA de Diogo de Couto 

do-lhe , que não ío feria fácil , mandando fuás 
Armadas , fazer- fe fenhor de hum Império tão 
rico comoaquclle, mas ainda lançar fora da 
índia os Portuguezes , e tornar a cafa de Me- 
ca á fua antiga devoção. 

E como o Eunuco tratava eíla matéria 
com tamanha cubica como o Turco , e de- 
fejava de Jè achar naquella jornada , tratou 
aqueiles negócios com amai do Turco , que 
elle em moço fervio , mettendo-a por ter- 
ceira pêra lha dar , dizendo que não queria 
pêra ella mais que as vaíilhas , artilheria , e 
gente, e que todas as mais defpczas elle as 
faria á fua cufta. Ifto folicitou com tanta in- 
fância , que lhe concedeo o Turco a jorna- 
da , defpachando-o logo pêra ir a Suez fa- 
zer preftes a Armada que havia de levar , 
dando-lhe mil e quinhentos Janizaros de fua 
guarda , e a artilheria que lhe pareceo ne- 
ceíTaria. O Baxá fe foi ao Cairo , onde man- 
dou ajuntar muita madeira , e cordoalha , e 
dalli cm camellos fe paífou tudo a Suez. O 
Turco mandou com elle pêra feu confelhei- 
ro oCafarcan, por homem prático nascou- 
fas deCambaya. E porque eram neccífarios 
muitos officiaes pêra concerto das galés , e 
gente pêra fua chufma , fuccedendo no mef- 
mo tempo quebrarem-fe as trégoas , que ef- 
tavam feitas antre o Turco , e a Senhoria 
de Veneza , que fe tinham celebrado com 

Ba- 



Dec. V. Liv. II. Ca p. VIL 189 

Bajazeto os annos de 1500, de cjue foiau- 
íhor André Griti , Provedor dos Venezianos. 
E eíla quebra das pazes foi efte Setembro 
paflado , eftando já o Baxá no Cairo , fazen- 
do preftes as coufas pêra a jornada ; e che- 
gando-lhe as novas a tempo , que eííavam 
algumas galés de Veneza em Alexandria , de 
que era Capitão Miííer António Barbarigo, 
mandou o Baxá logo a Chiqlierqui , Baxá da- 
quella Cidade , que lançaíle mão de toda a 
coufa de Veneza , que aíli eílivefle ; o que 
elle fez . lançando mão do Conful dos Ve- 
nezianos quealliaífiftia , que era Miííer Al i- 
naro Bárbaro , e de todas as galés , e gente 
delias , e todos mandou metter na Torre das 
Lanças , donde poucos , e poucos mandou le- 
var a Suez todos os que eram Officiaes , in- 
do em fua guarda Icuf Amede , Capitão moí- 
do mar de Alexandria , que o havia de a- 
companhar naquella jornada. Antre eíla gen- 
te fe acharam muitos carpinteiros , calafates , 
e comitres, que foi todo o apparelho pêra 
aquella jornada, porque fem elles mal fe pu- 
dera negociar tamanha Armada. Hum comi- 
tre deftes Venezianos fez hum roteiro de to- 
da efla viagem , dia por dia , a quem nós 
em muitas coufas feguimos , porque efere- 
veo como teftemunha de vifta. 

Deitas coufas que paflaram na Corte da 
Turco, teve logo EIRey D. João avifo pe- 
las- 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

las muitas intelligencias que nella trazia; pe- 
lo que afíentou em feu confelho mandar 
em Outubro algumas náos á índia , com avi- 
ío ás fortalezas de Ormuz , e Dio , e com 
gente , e provimentos pêra ellas. E com mui- 
ta brevidade mandou negociar finco náos , 
que nos primeiros dias de Outubro fez á ve- 
la , de que eram Capitães Diogo Lopes de 
Soufa , o Traquinas de Santarém , que hia 
provido da Capitania de Dio, elevava por 
regimento , que foíle tomar Goa , e Fernão 
de Caílro pêra ir a Ormuz , e Fernão de 
Moraes pêra Dio , pêra todos deitarem na- 
quellas fortalezas gente , mumçoes , e arti- 
lheria. Das outras duas náos eram Capitães 
Aleixos de Soufa, e Henrique de Soufa Chi- 
chorro , filhos de Garcia de Soufa , que foi 
muitos annos Provedor do Hofpital de Lis- 
boa , e por fua vagante fe deo aos Padres 
Lóios , em cujo poder andou muitos annos. 
Eítes dous Capitães hiam pêra Moçambique, 
de cuja Capitania hia provido Aleixos de 
Soufa , que era mais velho , porque fe re* 
ceou ElPvey. que foíTem ter a cila algumas 
galés , e quiz ter provido a tudo. E com fe- 
rem osReys de Portugal pobres, proviao a 
índia com tão groflas , e amiudadas Arma- 
das, como fe vê pelo decurfo denoíía his- 
toria , porque traziam no coração ( primei- 
ro que o intereíle ) o zelo do ferviço de 

Deos, 



Deg. V. Liv. II. Cap. VIIL 191 

Deos , e da propagação de íua Santa Fé, 
elle lhes dava forjas, poder, e cabedal pê- 
ra tudo. 

CAPITULO VIIL 

De como o Doutor Pêro Fernandes chegou 
a Ormuz , e defapojjbu D. Pedro de Cap- 
tello-branco da fortaleza : e do que acou- 
te ceo a D. Fernando de Lima na jorna- 
da do EJlreito até ir a Ormuz : e do que 
aconteceo ás nãos do Rejno na 'viagem. 

PArtido o Doutor Pêro Fernandes de 
Gca , foi feguindo fua jornada até che- 
gar a Ormuz , e defembarcando em terra , o 
recebeo D. Pedro de Caftello-branco mui 
bem , fazendo-lhe muitos gazalhados. O Dou- 
tor lhe diíTe : » Não me façais , Senhor 5 tan- 
» ta fefta , porque não venho aqui a coufas 
» de voflb goílo. O Governador por culpas 
» que de vós tem , vos manda defapoíTar deC- 
» ta fortaleza , como vereis por eftas Provi- 
» soes que aqui eflam : por cuja virtude vos 
n notifico da parte d'ElRey noífo Senhor , 
» que dentro em vinte e quatro horas vos 
afahais defta fortaleza , e vos embarqueis 
» em huma náo , que alli eftá no porto de ver- 
» ga dalto pêra fe partir pêra Goa. » Dom 
Pedro ficou fobrefaltado com diligencia tão 
apreíTada; mas todavia diíTe , que eítava pref- 

tes 



'i'9'2 ÁSIA de Diogo de Couto 

tes pêra obedecer ás Provisões do Governa- 
dor. O Ouvidor Geral mandou fazer hum 
auto da notificação delias , em que D. Pe- 
dro fe aflinou com elle. Feito ifto , mandou 
D. Pedro logo tirar o feu fato , c embarcai- 
lo na náo , e elle no mefmo dia o fez tam- 
bém , ficando a fortaleza entregue ao Ouvi- 
dor Geral , que ficou devaífando , e tirando 
lba reíidencia , com que como foi tempo fe 
embarcou pcra a índia , deixando na forta- 
leza o Alcaide mor , com regimento pêra a 
entregar a D. Fernando de Lima, com quem 
he neceflario que continuemos. 

Partido efte Fidalgo pêra o Eftreito , pê- 
ra onde o Governador Nuno da Cunha o 
mandou com hurna Armada , foi feguindo 
íua derrota até haver vifta de Monte de Fé- 
lix na coita da Arábia , aonde fe deixou an- 
dar efperando as náos de Cambaya , e A- 
chem , mandando hum navio de remo até 
ás portas do Eftreito a tomar falia da ter- 
ra , e a faber das galés. Efte navio tomou 
humas gelvas , em que cativou algumas pef- 
foas , de quem fouberam que em Suez fe 
faziam p refles galés pêra em Setembro paf- 
farem a índia. Com eftas novas defpedio 
D. Fernando de Lima hum navio ligeiro ao 
Governador , que chegou a Goa já em Maio , 
caufando com cilas grande alvoroço np ter- 
ra. O Governador "mandou com muita prek 

fa 



Dec.V. Liv. II. Cap. VIIL 193 

fa negociar a Armada groíTa , pêra que tan- 
to que delias tivefle recado as ir buícar. 
D.Fernando de Lima andou por aquella pa- 
ragem até meado Abril , íem lhe ir cahir 
nada nas mãos ; e fendo já tempo, fefez na 
volta de Ormuz. E paliando porXael, íur- 
gio fobre aquella barra , c mandou tratar 
com aquelle Rey fobre o refgate de trinta 
Portuguezes , que alli eílavam cativos , de hu- 
ma embarcação que deo á coíla , que lhe 
EIRey deo a troco de roupas , e fazendas , 
que já pêra iíTo levava. E dando dalli ave- 
la chegou a Ormuz em fim de Maio , e to- 
mou poífe daquella fortaleza pelas Provisões 
que achou. Qiiali no mefmo tempo chegou 
a náo do Reyno , de que era Capitão Fer- 
não de Caftro , que D. Fernando de Lima 
recebeo bem , defembarcando os provimen- 
tos , munições , e artilheria que levava ; e 
aos foldados fe ordenaram rnezas , e paga- 
ram feus quartéis. D.Fernando de Lima ía- 
bcndo da certeza das galés , aífim pelo re- 
cado do Reyno , como do avifo que teve 
pela fufta que mandou ao Eftreito , mandou 
recolher todos os mantimentos , agua , e le- 
nha que pode , renovando , e fortificando a 
fortaleza com muita preíía , achando por to- 
dos os Portuguezes que podiam pelejar fcis- 
centos , que recolheo dentro na fortaleza , 
.def pedindo navios ligeiros com recado aos 
Couto.TonuII.P.L N Xe- 



194 AS1A de Diogo de Couto 

Xeques de Mafcate , Calayate , Curiate, e 
por roda aquelia coíla até o cabo deRoíal- 
gate , pêra queeíliveflem fobreavifo, fe as 
galés foííem pêra aquelia fortaleza ; dando 
por regimento aos Capitães dos navios, que 
fe deixaflem andar naquellc cabo até teclo 
o mez de Agofto , efperando-as , pêra que fe 
entraflem naquelle Eítreito , lhe levarem di- 
ante aviíb , ficando mui alvoroçado efperan- 
do por ellas , havendo que feria grande boa 
ventura a fua , fe em feu tempo foííem ter 
aquelia fortaleza ; mas a morte invejofá de 
todos os peniamentos honrofos lhe atalhou 
os feus ; porque nao havendo três mezes que 
eílava naquella fortaleza , veio a falecer de 
hurnas febres, com grande dor, efentimen- 
to de todos , pelas boas partes , e qualida- 
des de fua peíiòa , polo que era muito ama- 
do , e refpeitado. Seu corpo foi enterrado 
antre as portas da fortaleza , e feus oílbs de- 
pois foram póííos na parede antre as mef- 
mas portas , onde hoje eftam com humas 
grades de ferro. Ficaram a efte Fidalgo hum 
filho , eduas filhas. O filho fe chamou Dom 
Diogo Lopes de Lima Pereira , que foiVe?.- i 
dor d'E.lRey D. Sebaftião ; e as filhas, hu- 
ma fe chamava Dona Ifabel de Vilhena , que I 
cafou com Jorge de Lima ; e a outra Dona 
Maria Manoel , que foicafada com Manoel 
de Souía, Apofentador mor d'ElRey. Sue- I 

ce- 



Dec. V. Liv. II. Cap, VIII. iff 

cedeo por fua morte na fortaleza Fernando 
Alvres Sarnache , que andava por Capitão 
rnór naquelle Eftreito , por ter huma Provi- 
são do Governador Nuno da Cunha peraif- 
fo. Fernão de Caftro Capitão da náo do Rey- 
no ficou a!ii invernando, e em Outubro fe 
partio pêra Goa. As outras náos do Reyno 
tiveram todas muito boa viagem. Fernão de 
Moraes foi tomar Dio conforme a feu regi- 
mento em Abril ; e dando as cartas a An- 
tónio da Silveira , e deitando a gente , e pro- 
vimentos que levava em terra , voltou pêra 
Goa , onde chegou já em Maio com Dio- 
go Lopes de Soula o Traquinas , que o Go- 
vernador recebeo muito bem. 

Neítas na'os diziam , que tivera o Gover- 
nador cartas de alguns amigos do Confelho , 
que fem dúvida no Setembro feguinte lhe 
mandaria EIRey fucceíTor , o que elle fen- 
tio tanto , que logo fe moftrou triíte , e ma- 
lenconizado , havendo-fe por muito offendi- 
do 5 e aggravado d^EIRey , e dos do feu 
Confelho , tendo elle fervido quafi dez an- 
nos , com tanta fatisfação $ e com tamanhas 
vitorias alcançadas; e agora havendo certe- 
za de galés 5 quererern-lhe tirar das mãos ta- 
manha honra , e huma occafiao , que elle ef- 
timava fobre todas as da vida , efa-lhe cou- 
fa muito, pezada , e má de foffrer. E todavia 
com feu defcontentamento começou a pro-* 
N ii v^r 



i(?6 ÁSIA de Diogo de Couto 

ver os almazcns de tudo mui baila n temen- 
te, mandando fazer muitas munições , e pre- 
parar a Armada , repartindo o trabalho def- 
tas coufas pelos Fidalgos , e Capitães , en- 
tregando-lhes as náos , e galeões , de que ha- 
viam de fer Capitães , pêra correrem com 
feu concerto ; mandando que nos almazens , 
ferrarias , cordoarias fe déííe tudo o que por 
feus aíTinados fe pediíle pêra correr tudo com 
mais preíía ; viilrando elle em peííba todos 
os dias as ribeiras , e almazens ; e defpedio 
cartas por terra ao Capitão , e Veador da 
Fazenda de Cochim , pêra que lá lhe nego- 
ciafle com a mor brevidade que foífe poíTi- 
vel toda a Armada , e náos que houvefle, 
pêra que até vinte de Setembro foífem ter 
com elle , porque efperava de ir bufcar os 
Rumes , e pelejar com elles. As outras duas 
náos, de que eram Capitães Aleixos de Sou- 
fa Chichorro , e Henrique de Soufa Chi- 
chorro feu irmão , foram tomar Moçambi- 
que, entregando Vicente Pegado aquella for- 
taleza a Aleixos de Soufa , por huma Pro- 
visão (TElRey que levava í que mandou lo- 
go reedificar a fortaleza , e recolher nella 
mantimentos, e lenha. E porque chegou com 
muitos doentes , lhes mandou fazer Hofpi- 
taes , que os não havia , onde os recolheo , 
curando-os , e provendo-os muito bem , e 
exercitando o officio da caridade em todos 

os 



Dec. V. Liv. II. Cap. VIII. 197 

os annos que naquella fortaleza efíeve : cie 
feição, que quando fahio delia, foi em ci- 
tado, que eftava pêra fe recolher no Hofpi- 
tal por pobre , porque tudo gaílou naquel- 
las obras de caridade , e hofpitalidades. E£- 
tas eram as veniagas , e mercadorias dos Fi- 
dalgos daquelle tempo , de que os deíle fe 
rim bem ; mas nós não lhes vemos Morga- 
dos , nem contos de juro de tantos milhões 
de cruzados , como tiram de fuás fortale- 
zas , nem labemos por onde fe lhes con fu- 
mem todos , porque elles não fe logram , % 
muitos na mor cubica , e fede de ajuntar na 
fua fazenda , vem huma dor de cabeça , c 
leva-os primeiro que acabem feu tempo. Por 
iífo veja cada hum o como fenegocea, que 
Deos não dorme , e os brados dos pobres y 
que não deixam viver em fuás fortalezas , 
chegam aos Ceos. Mas deixemos eíla ma- 
téria , pois he pregar no defeito , e conti- 
nuemos com as coufas de Dio. 



CA- 



198 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IX. 

Das coufas que aconteceram em Dio , de- 
pois do Governador Nuno da Cunha par* 

tido pêra Goa : e de como Coge Çofar fe 
foi fecretamente da Cidade , e fe pajjòu 

a Lambaya , e perjuadio dquelle Rey a 
fazer guerra aos tortuguezes. 

EM quanto o Governador Nuno da Cu- 
nha eíleve em Dio , com tanta prudên- 
cia , arte , e manha fe houve Coge Çofar em 
todas as coufas que fe lhe encommendáram , 
(de que o Governador ficou tão íatisfeito , ) 
que lhe deixou licença pêra mandar huma 
jiáo fua pêra Meca , pagando naquella Al- 
fandega os direitos , e com obrigação que 
tornaífe áquella fortaleza. Eíla náo poz elle 
logo á carga. O filho de Coge Çofar fem- 
pre eíleve na fortaleza em reféns , e algu- 
mas vezes hia á Cidade vifitar fua mãi , co- 
mo o Governador tinha dado licença a An- 
tónio da Silveira. Poucos dias depois delle 
partido pêra Goa , pedio licença pêra a ir 
ver , e lhe trouxeram de fua cafa hum for- 
moíiffitno cavallo , que devia de ter experi- 
mentado naquelle negocio pêra que o que- 
ria , indo com elle alguns homens da guar- 
da. E chegando ao cais da Alfandega , pon- 
do-fe á borda da agua , como queeítava ven- 
^ do 



Dec. V. Liv. II. Cap. IX. 199 

cio as embarcações , apertou as pernas ao 
cavallo , dando-lhe com o chabuco , (que 
he hum açoute , que todos trazem na mão , 
com que os açoutam rijamente,) com o que 
arrancou o cavallo como hum trovão, e ar- 
remeffando-fe ao mar , em breve efpaço'paf- 
fou aqueile traniiro até Gogalá. E como fe 
vio da outra banda , foi-fe pcra Novanager , 
e dahi fe paliou a Cambaya , e foi muito 
bem recebido d'ElRey , que lhe deo o ti- 
tulo deRumecan, que he o maior doRey- 
no. António da Silveira foi logo avifado de 
fua fugida, e mandou porhuma companhia 
de Toldados levar diante de íi GogeÇofar, 
que foi muito confiado , e lhe deo fuás ra- 
zoes , dizendo , que fe elle fora em confen- 
timento da fugida de feu filho , não Havia 
de ficar na Cidade com fua mulher , e fa- 
zenda , que era muita , nem havia de pôr 
fua náo a carga com tamanha íègu rança : 
que feu filho era homem , e não lhe dava 
couía alguma de o deixar a elle em traba- 
lhos , que alli o tinha , e podia fazer delle 
tudo o que quizeífe. Vendo António da Sil- 
veira fua fegurança , e parecendo-! he pelas 
razões que ííie deo , que eftava fem culpa , 
o deixou , pedindo-lhe que correífe com o 
ferviço d'ElRey de Portugal , como tinha 
por obrigação. Iílo fez também António da 
Silveira por não caufar alguma alteração na 

Ci- 



2oo ÁSIA de Diogo de Couto 

Cidade , que eftava quieta , porque fe o pren- 
dera eftava certo tornar-fe logo a defpovoar. 
Coge Çofar era tão fagaz , e aílim fe íòu- 
be fingir , que andando negociando fugir da- 
quelia Ilha , faia todos os dias á fortaleza 
aprefenrar-fe ao Capitão , e hia carregando 
a não de toda fua fazenda pouco , e pou- 
co , fem jfiar fua determinação mais que de 
íi próprio ; pelo que nunca o Capitão lhe 
pode alcançar coufa alguma de feus defe- 
nhos , por muitas intelJigencias que fobre el- 
le trazia. Coge Çofar foi correndo com a 
carga da não , e o dia em que tinha deter- 
minado fua fugida , embarcou fuás mulhe- 
res com tanto fegredo , e refguardo , que 
nunca fe foube. 

E o dia que fe havia de fazer á vela , pe- 
dio licença ao Capitão pêra ir com o Alcai- 
de do mar defamarralla 9 que lhe elle deo* 
De madrugada fe embarcou no navio do 
Guarda, e Alcaide do mar, e entrando na 
náo recolheo-fc com elie pêra acamara, on- 
de o fechou, e largando a amarra por mão 
diferio á vela com vento profpero , e em 
pouco efpaço fe alongou da terra. O navio 
do Alcaide do mar (a que os Mouros cha- 
mam Miraba) quiz chegar a bordo , mas 
nao o deixaram , pelo que voltou apreífa- 
da mente pêra a terra , e deo rebate ao Ca- 
pitão > que em extremo, fentio aquelle nego- 
cio, 



Dec. V. Liv. II. Cap. IX. 201 

cio , e logo com muita brevidade mandou 
dar nas cafas de Coge Çofar, aonde não acha- 
ram fenao coufas que elle não quiz levar. O 
Capitão mandou tirar grandes devaílas , pê- 
ra faber fe ficara na Cidade fazenda fua , 
mas nao achou raíto de coufa alguma , de 
que ficou magoado ; ebem entendeo que ha- 
via aquelle homem de dar ainda grande tra- 
balho áquella fortaleza , por fua grande in- 
duftria, faber, e artificio , como fe vio nef- 
ta fua fugida , que vendo que fe não podia 
fahir da Ilha , nem paliar á outra banda , pe- 
las grandes vigias que nos pafíbs havia , or- 
denou de íè ir por mar , pêra o que poz 
aquella náo a carga pêra Meca , pagando di- 
reitos das fazendas que nelia embarcava pê- 
ra maior diffimuiação. 

E tornando a Coge Çofar , tanto que deo 
á vela foi demandar Surrate , aonde defem- 
barcou fua cafa , edefpedio a náo pêra Me- 
ca. E como foi em terra largou o Alcaide 
do-mar com quem teve fatisfaçoes , e lhe 
deo peças de ouro , e brincos , e embarca* 
ção pêra fe tornar pêra Dio , como fez , e 
deo ao Capitão conta de tudo o que pafíava. 
O Capitão defpedio logo hum navio ligei- 
ro com cartas ao Governador Nuno da Cu- 
nha de tudo o que era fuccedido , affírman- 
do-lhe que Coge Çofar havia de perfuadir 
aElRey a fazer guerra áquella fortaleza, e 

que 



202 ÀSIÀ de Diogo de Couto 

que fem dúvida aquelle inverno a teria. E 
aííim foi , porque Coge Çofar fe paflbu lo- 
go á Cidade de Amadabá , e lançou-fe aos 
pés d'ElRey , que o recebeo bem , e o cf- 
timou muito. Coge Çofar depois de fe aga- 
2alhar pedío a EIRey , que o ouviífe hum 
dia perante os do feu Confelho, porque ti- 
nha algumas coulas de feu ferviço que lhe 
dizer y o que EIRey fez , tendo comfigo to- 
dos os feus Capitães. E Coge Çofar levan- 
tando-fe empe, e tomando fuás falvas, fez 
a EIRey efta prática. 

Falia y que Coge Çofar fez a Soltao Mamu- 
de Rey de Caynbaya , em que o perfuadia 
a que mandaffe pôr cerco á fortaleza de 
Dio , ajudando-fe de huma grojfa Armada , 
que lhe o Turco mandou em feu favor. 

» \ Ntre as partes que. o bom vaflallo ha 
» Jl\ de ter , muito poderofo Senhor , a 
» principal ha de fer lealdade , e fidelidade 
»a feu Rey; e como nelle houver efra vir- 
» tude , logo fe feguem a ella , amor , zelo 
» de feu ferviço , esforço , prudência , fegu- 
-» rança , e todas as mais coufas femelhantes 
»aeftas; o que tudo falece ao que falta hu- 
» ma virtude tão principal , porque logo tem 
» ódio , e aborrecimento ao ferviço do feu 
)> Rey , logo fica timido , e acovardado , pou- 

»co 



Dec. V. L iv. II. Cap. IX. 203 

)) co feguro , malenconizado , e fobre tudo 
» imprudente. E como eu pelas muitas , e 
» grandes mercês que tenho recebidas d'El- 
)> Rey voílb tio , (cujo fangue efta diante de 
» Mafamede , pedindo vingança dos Portu- 
» guezes , que debaixo de fé , e amizade o 
» mataram , ) defejo de fe me nao enxergar 
» ingratidão a ellas , e não fer tachado de 
» desleal , como pertendo moftrar nos gran- 
» des ferviços que efpero fazer a V. A. até 
» facrificar efta vida, e a de minha mulher, 
» e filhos , fendo neceffario , com muito gof- 
)> to ; porque com o direito doReyrto ficai- 
» tes herdando as meímas obrigações , que 
» lhe todos tínhamos , principalmente eu , 
» que me recolheo , honrou , e fez rico. Pe- 
» lo que fe até agora me não vim aprefen- 
» tar ante voífos pés, nao foi por haver em 
)> mim alguma dúvida em voílo fer viço , fe- 
» não por defejar de me defarreigar de todo 
» dos Portuguezes , porque pelos penhores 
» que na Ilha de Dio tinha , me era necef- 
» farío diífimular , e fingir-me , até bufcar mó- 
»do, como fiz, pêra me fahir delia com mi- 
» nha mulher , filhos , e fazenda • pêra mais 
» defembaraçado , e com mais cabedal fervir 
)) Voífa Alteza , pêra o que eftou preíles com 
»tudo>oque tenho, porque pêra iílbtraba- 
» lhei de o falvar. E pois já eftou em vof- 
» lo poder , pelo muito que vos devo , como 



204 ÁSIA DE DlOGO DE COUTO 

)> a meu Rey , e Senhor, vos lembro as ra- 
» zoes que tendes pêra vingardes a morte 
» d'EiRey voffo Tio , e de tornardes a co- 
>) brar a Ilha de Dio , que he a melhor pe- 
» ca de voífo Reyno , e as portas, e chaves 
» delle : que em quanto eftiver em poder dos 
» Portuguezes , vos lião de ter hum pé no 
» peícoço , e haveis de perder o trato , e com- 
» mercio do Eílreito de Meca , com o que 
» voíTas rendas hão de vir tanto a menos , 
» que do mais rico Rey do Oriente fiqueis 
» o mais pobre , e fraco delle. E fobre tu- 
» do aíFrontada noíTa religião , e impedida 
» a romagem da cafa de nofíb Profeta , por- 
» que não tínheis em voílb Reyno outro por- 
» to melhor, nem mais continuado, que a- 
» quelle de Dio. E íe haveis de acudir a et 
» tas coufas , não fei tempo mais accommo- 
» dado , e accezonado que efte, que a for- 
» tuna vos offerece tamanha occaíião , como 
)> he apouca gente que naquella fortaleza fi- 
» ca , a fraqueza delia, e defeus baluartes, 
» e fobre tudo nenhuma agua ; porque a cif- 
)> terna, que o Governador Nuno da Cunha 
)> mandou fazer , eftá ainda imperfeita ; e os 
» Portuguezes não tem donde beber fenão 
» dos poços da Ilha, que tanto que lhos to- 
)) marem , não tem outro remédio fenão en- 
» tregarem-fe-vos : e o inverno he entrado , 
»e não podem fcr foccorridos de nenhuma 

» par- 



Dec. V. Liv. II. Cap. IX. 20? 

» parte ; e pois tudo eítá tanto da voífa , não 
» dilateis efte negocio , porque fem dúvida 
» vos fera muito fácil tornardes-vos a fenho- 
» rear daquella Ilha , e lançardes delia ta- 
» manhos inimigos. E pêra mais vos aíTegu- 
y> rardes neííe negocio vos affirmo , que na 
» entrada de Setembro tereis em voffo favor 
» huma groffa Armada de Turcos , porque 
» tenho cartas d'E!Rey de Zebit , que fe fí- 
» cão preparando em Suez com muita pref- 
yi ia. E efpero em Mafamede , que deita vez 
» havemos de lançar eítes homens fora da In- 
» dia ? pêra que a navegação delia fique li- 
» vre ? e defembaraçada como dantes. E por- 
» que V. A. veja que lhe não aconfeiho coti- 
» ia em que eu haja de ficar de fora , me of- 
».fereçopera eíla jornada com mil de cavai- 
» lo , e três mil de pé , pagos á minha cuíla. E 
» fobre iílo todo o mais dinheiro que fome- 
» ceíTario 5 porque tenho muito , e todo have- 
» rei por bem empregado no ferviço de V.A.» 
EIRey o ouvio com muita attençao , c 
lhe agradeceo com palavras honradas aquel- 
las lembranças , e ofFerecimentos. E por pa^ 
recer bem a todos os do Confelho , aílen- 
tou-fe fazer-le logo aquella jornada , elegen- 
do pêra ella Alucan , hum dos tutores d 'EI- 
Rey , e com elíe Coge Çofar , com igual 
mando , que EIRey logo' fez do feu Con- 
felho , e lhe fez mercê da Cidade de Surra- 

tc 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

te pêra el!e , e feus filhos, (que Soltao Ba- 
dur rinha dado a Moftafá Baxá , o que fe 
paíTou pêra os Magores , como já diiíemos 
no Capitulo V. do IX. Livro da quarta Dé- 
cada. ) 

Efte Moftafá Baxá chamava-íe também 
Rumecan , e era General do exercito de Sol- 
tao Badur, que tinha começado nella huma 
muito forte fortaleza pelo rio alíima mais de 
três léguas , afientada fobre o rio , que de- 
fendia a paflagem pêra a Cidade. Efta for- 
taleza mandou logo Coge Çofar acabar com 
muita brevidade. E começou-fe logo a fa- 
zer ajuntamento de Capitães , e gente , a que 
fe dco prefla pêra partirem na Lua nova de 
Junho. Agora es deixaremos por hum pou- 
co ; porque he neceííario continuarmos com 
as coufas de Ceilão. 

CAPITULO X. 

Das coufas que acentecêram em Ceilão : e 
de como o Madune for merte do irmão 
Reigão P andar fe apoderou de feu Rey- 
no : e de como E/Rey da Ce ta cafou Jua 
filha com hum Príncipe da cafta do Sol : 
e que cafta he efta t e porque fe chama afim. 

MUi magoado ficou o Madune dodes- 
. barato de Paichimarca \ e da grande 
amizade, e favor que feu irmão EIRey da 

Co- 



Dec. V. Liv. II. Cap. X. 207 

Cota tinha com os Portuguezes ; o que lhe era 
tão mão de íòíFrer , que morria depuro pe- 
zar: e em nenhuma outra coufa trazia o pen- 
famento ienâo em buícar modos pêra matar 
o irmão , até peitar os de dentro dafua ca- 
mará pêra lhe darem peçonha, o que tenta- 
ram algumas vezes, mas foram achados , e 
juftiçados. Eftando as coufas neíte eílado , e O 
Rey da Cota afTombrado do irmão , faleceo 
o outro irmão Reigão Pandar , fem Jhc fi- 
carem filhos ; e porque aquelle Reyno vinha 
de direito ao Rey da Cota , acudio muito 
depreíTa oMadune, e entrou na Cidade de 
Reigão Corlé , que era a cabeça do Reyno , 
e íe apoderou delia , e dos theíburos do ir- 
mão , ficando com ifto mais poderofo que 
o Rey da Cota. E como o defejo de íe ver 
fenhor de toda aquella Ilha era o que o in- 
quietava , tentou logo de metter contra o ir- 
mão todo o cabedal , como entrafle o verão , 
e averiguar logo aquelle negocio , primeiro 
que tiveííe outro foccorro dos Portuguezes. 
E querendo-fe ainda valer do Çamorim , lhe 
enviou outros Embaixadores , por quem lhe 
mandou pedir outra Armada , mandando-lhe 
muito dinheiro pêra fuás defpezas. Efta Ar- 
mada lhe pedia mandafíe na entrada de Se- 
tembro 1 porque já o acharia fobre a Cota. 
Diílo foi logo avifado efte Rey ; e vendo os 
rifcos em que andava , e que eílava fem fi- 
lho 



2o8 ÁSIA de Diogo de Couto 

lho herdeiro , determinou de cafar huma fi- 
lha que tinha 3 pêra que os filhos que delia 
procedeflèm foíteni herdeiros daquelle Rey- 
iio; e aííhn elegeo pêra genro hum Príncipe, 
que vivia nas lete Corlas , chamado Treava 
Pandár , que he ao que as hiftorias da índia 
corruptamente chamam Tribuli Pandár ; que 
aííim por pai , como por mãi procedia da- 
. quella Real geração da cafta do Sol ; por- 
que não podiam herdar o Império de Cei- 
lão, fenão os que direitamente vieflem def- 
ta caíta , que os Cingalás tem por divina, 
como logo diremos : e aflim não farão fuás 
fumbaias , nem obedecerão a Rey de outra 
cafta , ainda que os matem. 

Donde vem os Reys da cafta do Sol > e a ra- 
zão por que fe chamam ajjim. 

E Porque nos não fique por darmos razão 
deita cafta do Sol, diremos o que elles 
difto fabulão, por darem hum honrofo prin- 
cipio a léus Reys. Dizem luas Chronicas, 
( e nós o ouvimos cantar a hum Príncipe de 
Ceilão em verfos a feu modo , que hum in- 
terprete nos hia declarando , porque todas 
fuás antiguidades andam poftas em verfo % e 
fe cantam em fuás feitas , ) que vivendo os 
Gentios todos daqtiella parte do Gange pê- 
ra fora,, em tudo o que hoje comprende os 

Rey- 



Dec. V, Liv. II. Cap. X. 209 

Reynos de Pegú , Tanaçarim , Siáo , Cam- 
boja , e cm todos os mais daqueile fertao, 
fem Rey , fem leis , nem policia alguma, 
que os differençafle dos brutos animaes , aga- 
zaHiando-fe por lapas , e covas , comendo 
hervas , e raízes , Tem terem conhecimento 
de agricultura , nem grangearia dos campos : 
e que eílando aqueiles naturaes de Tanaça- 
rim hum dia pela manhã ao nafcer do Sol , 
vendo fua formofura , e ferindo os feus pri- 
meiros raios na terra , de improvifo a viram 
abrir , e íahir de dentro delia hum formo- 
íiílimo homem , grave na peíToa , de prefen-^ 
ça venerável , e em todas as mais feições 
differente de todos os homens , a quem acu- 
diram todos os que o viram , admirados da- 
quella maravilha, e com grande humildade 
lhe perguntaram , que homem era , e o que 
queria? Ao que reípondeo na lingua Tana- 
çarim , que era filho do Sol , e da terra , e 
que Deos o mandava áquelles Reynos pêra 
os reger , e governar. O que ouvido por to- 
dos , fe lançaram pelo chão , e o adoraram , 
dizendo-lhe, que eílavam preftes pêra o re- 
ceberem, feguirem, e acçeitarem fuás leis, 
e coftumes. Dalli foi levado , e poíto em hum 
lugar fupremo , e lhe deram obediência co- 
mo a Rey , e elle os começou a mandar, 
e governar. 

A primeira coufa que fez , foi tiraflos 
Couto. Tom. II. P.L O dos 



2io ÁSIA de Diogo de Couto 

dos matos, eajuntallos em civis converfa- 
ções , ordenando-lhes povoações , dando-lhes 
modo , e ordem pêra fabricarem cafas , e la- 
vrarem os campos ; e depois a lhes darem 
leis fuaves, e brandas, com o que fe foram 
achando bem , e a viverem differentemente 
do que até então. Reinou eíle Rey muitos 
annos , e deixou muitos filhos com que re- 
partio feus Rey nos , em cujos deícendentes 
andaram mais de.dous mil annos , e a to- 
dos os herdeiros que fuccediam lhe chama- 
vam Suriavas, que quer dizer, da caíla do 
Sol. Deites vinha direitamente Vigia Raya, 
que foi ( como já diflemos no Cap. V. do i. 
Livro) degradado, povoar aquella Ilha de 
Ceilão , em cujos herdeiros o Império dei- 
ia andou direitamente , e anda ate hoje ; por- 
que EIRey D.João, que eftá antre nós , c 
he o verdadeiro herdeiro de toda a Ilha , 
procede delia caíla , e fó nefta Ilha de Cei- 
lão fe confervou por linha direita de her-* 
deiro em herdeiro ; o que não foi nos ou- 
tros Reynos, onde ella começou , porque to- 
dos por tempos foram ter a mãos detyran- 
nos, e totalmente he extinguida , e apaga- 
da ; e fó em eíle Rey D. João fe conferva 
hoje , e nelle fe acabará , porque não tem 
filhos , nem netos , como na verdade fe aca- 
bou. E aílím fe jaítavam todos eíles Reys 
de Ceilão de procederem do Oriente. E a£ 

fim 



Dec. V. Liv. IL Cap. X. 2ii 

lím ellcs todos lhe conhecem huma certa fu- 
perioridade , e lhe mandam pedir fuás filhas 
pêra fe caiarem comellas* Deita cafta vinha 
direitamente efte Príncipe , que o Rey da Co 
ta cafou com fua filha , pofto que era des- 
herdado, e pobre. Celebradas as vodas, fi- 
cou aquelle Rey tendo com o genro mais 
algum allivio. E fendo avifados da determi- 
nação do Madune , fortificaram a Cidade da 
Cota muito bem , recolhendo dentro man- 
timentos , e armas. A ifto acudio Nuno Frei- 
re j Alcaide mor de Columbo , com alguns 
Portuguezes que tinha a fe lhes. offerecer , 
animando EIRey , e favorecendo-o ; certifi- 
cando-lhe , que o Eftado da índia todo fe 
havia dearrifear pelo foccorrerem , e ajuda- 
rem , pelo que não tiveííe receio de coufa al- 
guma , ficando-o fervindo na fortificação da 
Cidade com muita diligencia , pelo que EI- 
Rey lhe eílava muito obrigado. E neíte ef- 
tado ficao eílas coufas até tornarmos aellas* 









<* 



O li DE- 




.1Z 



DÉCADA QUINTA. 
LIVRO III. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

De hum maravilhofo prodígio das grandes 
. vitorias , que os Portuguezes houveram 
dos Turcos , que aconteceo em Dio : e de 
como os Capitães dSElRey de Cambaya 
chegaram áquella Ilha com f eus exérci- 
tos: e do defafire por que fe ateou o fogo 
na fortaleza. 

POrque daqui por diante começamos 
com o favor Divino a entrar nas gran- 
des guerras , que EIRey de Cambaya 
$oltãoMamude> fobrinho de SoltãoBadur, 
( que fuccedeo ao Mirao fobrinho do mef- 
mo SoltaoBadur, filho de huma fua irmã, 
que desbaratou o Magor Mir MahamedcZa- 
man , que fe tinha aleyantado com o Rey- 

no 



Dec. V. Liv. III. Ca p. I. 213 

no tyrannicamente , e appellidava Rey de 
Catnbaya) com o favor das Armadas do Grão 
Turco fez á nolfa fortaleza de Dio , nos pa- 
receo bem não paliar por hum efpantofo*ca- 
fo , que aconteceo antre os noílbs , que pa- 
rece que foi prodígio das grandes vitorias,- 
que os Portuguezes houveram de todas ef- 
tas gentes, que foi deíla maneira. Huma das 
Oitavas da Pafcoa da Refurreição , todos os 
moços Portuguezes da fortaleza , que não 
eram de idade pêra tomarem armas , defa- 
fiaram os moços da terra , aíTim cativos, co- 
mo forros , que também não eram. de ma- 
ior idade , pêra fe darem huma batalha , (cou- 
fa muito ufada antre os moços de Portugal , 
os de huma efeola , defafiarem-fe contra os 
da outra pêra o campo, onde ás pedradas, 
ou ás pancadas fe travam de tal feição, que 
fahem muitos bem efcalavrados. ) Aífimeftes; 
defafiados pêra a batalha, ordenaram huns , 
e outros antre íl feus Capitães com feus guiões, 
e bandeiras , levando os moços Portuguezes 
na fua a divifa da Cruz de Chriíto. E jun-. 
tos todos no terreiro da fortaleza, póftos em 
dous efquadrees , fazendo feus íinaes , remeta 
têram huns aos outros. E travados errrbata^ 
lha , aflim ás pedradas , como ás pancadas , 
com tamanha fúria, e ódio , como fe foram 
inimigos de muitos dias, efcalavrando-fe , e 
ferindo-fe huns aos outros. Mas os moços 

Por- 



ai4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Portuguezes (pofto que muito menos que os 
outros) vendo-fe feridos , ferraram com el- 
les , e muito mal tratados os arrancaram do 
campo , e os foram feguindo , bradando : F/- 
toria , Vitoria. Daqui ficou antre eftes o 
ódio tão ateado , que onde quer que fe en- 
contravam , ou foflem dous , e dous , ou me- 
nos , ou mais , travavam brigas , de que fem- 
pre havia fangue , e os da terra levavam a 
peior. E aflim havendo-fc por affrontados, 
tornaram a defafiar os moços Portuguezes 
pêra hum Domingo , que no terreiro da for- 
taleza ordenaram fuás tranqueiras mui bem 
feitas , em que fe mettêram , pondo por el- 
las muitas bandeiras , e mettendo dentro páos, 
pedras , e algumas armas , e panellas de pól- 
vora. Os moços da terra também negocian- 
do algumas armas efcondidamente , e algu- 
mas bombas de fogo , e com fuás bandei- 
ras arvoradas arrebentaram pelo terreiro 
com grandes gritas , e remettêram com as 
tranqueiras, cercando-as cm roda , começan- 
dc-fe a travar a batalha de pedradas, pan- 
cadas , e com algumas panellas de pólvora 
com tamanha braveza , e efirondo , que pa- 
recia já batalha mais que de moços. Mas co- 
mo os de fora eram muitos mais, trataram 
tão mal aos da fortaleza , e affim apertaram 
com elles , que os tiveram entrados. Osmo- 
jos Portuguezes creícendo-lhes a fúria, arre- 

ben- 



Dec. V- Liv. III. Cap. I. 21? 

bentáram pelas tranqueiras fóra , e dando 
nos da terra, os arrancaram do campo mui- 
to mal tratados , ficando elles com a vito- 
ria. O Capitão , que eíleve vendo a batalha 
das fuás janellas /folgou de ver a cólera , 
paixão , e furor dos moços Portuguezes , que 
dalli por diante ficaram fempre íòpeando os 
outros, endequer que os achavam, travan- 
do-fe em brigas , fem haver quem os pudef- 
fe apaziguar. Durou ifto até o mez de Ju- 
nho , que os Capitães d 'ElRey de Cambaya 
chegaram áquella Ilha com feus exércitos. 

Atrás os deixámos no fim do Cap. IX do 
2. Livro , fazendo feus ajuntamentos de gen- 
tes , e petrechos pêra virem cercar aquella 
fortaleza ; e tendo tudo preparado 5 partiram 
de Amadabá na entrada de Junho. Alucan 
levava debaixo de fua bandeira finco mil de 
cavallo , e dez mil de pé ; e Coge Çofar 
mil de cavallo , e três mil de pé , em que 
entravam muitos Rumes , e Turcos , gente 
que elletoda fez, e pagou á fua cuíla. Dc£ 
ta expedição teve logo António da Silveira 
avifo, pelo que mandou ordenar as coufas 
que lhe eram necefTarias pêra a defensão da 
Ilha , encommendando ao Capitão mor da 
Armada a guarda do rio com navios , e 
manchuas* e provendo na fortificação da for- 
taleza , reformando os baluartes , e fortifí* 
cando-os muito bem. 

An- 



iió ÁSIA de Diogo de Couto 

Andando nefta occupaçao 3 fucccdeo hum 
defaftre na fortaleza , queeíteve a rifco de fe 
perder com todos os que nella eftavam , que 
Foi , huma noite tomar fogo a povoação com 
tanta braveza , que parecia que ardia o Mun- 
do. António da Silveira com os Fidalgos , 
c Cavalleiros que acudiram , foi logo pro- 
ver nos almazens das munições , com mui- 
ta gente , e muita agua pêra a defensão do 
fogo , fe lhe chcgaíTe. E deixando tudo pro- 
vido muito bem , e encarregado aquelle ne- 
gocio a peííoa de muita confiança , foi-fe com 
toda a mais gente acudir ao fogo , que ca- 
df vez crefcia mais , por ferem as cafas ain- 
da então cubertas de palha , e o vento fer 
muito grande, que foi o que deo o traba- 
lho todo. Os Mouros da Cidade vendo a* 
quellas chammas , cuidaram cue a fortaleza 
toda era confumida nellas , e acudiram com 
grande alvoroço por fora a ver fe os noflTos 
fugiam do fogo pêra darem nelles. António 
da Silveira com toda a foldadefca trabalha- 
ram tanto aquella noite , lançandc-fe em meio 
das chammas , cm que fe muitos queimaram 
por muitas partes , que á força de braço , de- 
pois de durar muitas horas , o apagaram de 
todo , e nao com tão pequeno damno , que 
fe não queimaílem feííenta moradas de ca- 
fas , o que caufou em todos muito grande 
triíteza , e em fcus donos dor , e mágoa da 

per- 



Dec. V. Liv. III. Gap. I. 217 

perda que receberam 5 porque fe lhes confu- 
mio todo o leu movei fem fe falvar coufa 
alguma. António da Silveira como Fidalgo 
de bom coração j e muito liberal , fupprio 
alli com feu dinheiro , dando-o a todos pê- 
ra tornarem a reedificar , e renovar fuás ca- 
ías. 

Affirma-fe , que começou efte fogo em 
cafa de hurna mulher foJteira , eftando em 
ruim adio j no que parece quiz Deos mof? 
trar fua juftiça em caftigar aquella oíFenfa , 
que fel lie fazia em tempo , que elle determi- 
nava de fazer a todos os daquella fortaleza 
tantas mercês , cdar-lhes tantas vitorias , co- 
mo lhes depois deo. Os Mouros da Cidade 
defpedíram recado aos Regedores de como 
os Portuguezes ficavam fem terem defensão 
alguma, -por lhes arderem todas fuás muni- 
ções. 

Efta nova fe deo no Exercito , que fe re- 
cebeo com grande alvoroço , havendo que 
tinham pouco que fazer em tomarem a for- 
taleza. António da Silveira não fedefcuidava 
de fua obrigação , aífim na da fortificação , 
como das eípias , que todos os dias mandava 
faber dos inimigos , que gente traziam , e 
aonde eflav^m. Mas fempre achou em todas 
variedade , porque. como eram Mouros , nun- 
ca lhe fallavam verdade. Antre todas ascou- 
fas a que dava preífa , na ciílerna a punha 

mui* 



2i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito. maior, porque lhe era neceflario re- 
colher agua pêra o inverno. No baluarte da 
outra banda de Gogalá mandou dobrar os 
Oíiiciaes , porque com muita brevidade fe 
acabaíle , e aílim em poucos dias fubio em 
altura de vinte palmos , e a lala que fechava 
nelle , na de oito. 

CAPITULO II. 

De como Coge Çofar commetteo o baluarte 
da Villa dos Rumes , e da grande refif- 
tencia que achou nos Portuguezes : e de 
como Je recolheo ferido , e desbaratado : 
e das coufas em que António da Silvei- 
ra proveo. 

PArtidos os Capitães d'ElRey de Cam- 
baya de Amadabá , chegaram a Nova- 
nager duas léguas de Dio já de noite , fem 
os noflbs terem nenhum avifo delles. Coge 
Çofar como defejava de fe acreditar com El- 
Rey , e de toda a honra daquella jornada fer 
fua , imaginando (pelas novas que lhe deram 
das noíTas munições ferem queimadas ) que 
os Portuguezes eftariam defcuidados , e fem 
terem com que fe defender , determinou de 
ir ganhar o baluarte da Villa dos Rumes , 
primeiro que tiveífem avifo : e fem dar con- 
ta a Alucan daquella jornada , a vinte e féis 
de Junho, tanto que entrou o quarto dalva, 

ca- 



Dec-V. L iv. III. Cap. II. 219 

caminhando com fua gente , que eram mil 
de cavallo, e três mil de pé, tão apreíTado, 
que antes que rompefle a manhã chegou á 
Villa dos Rumes , e entrando por ella , foi 
logo demandar o baluarte. E pofto que os 
Portuguezes eftavam defcuidados , não dei- 
xaram de fer fentidos de hum que vigiava , 
que bradou alto : Mouros , Mouros. A eftes 
brados , os Officiaes da Alfandega , e os ou- 
tros Portuguezes , que por todos feriam vin- 
te e quatro , que viviam fora do baluarte, 
por não eílar ainda acabado por dentro, le- 
varam as mãos ás armas , tomando as que 
puderam , e foram-fe recolhendo pêra o ba- 
luarte já baralhados com os inimigos. E co- 
mo o baluarte eílava imperfeito , e não ti- 
nha ferventia , mais que por andaimos , por 
onde corriam os materiaes pêra a obra , ar- 
remettêram por ellcs aílima , e alguns pelos 
dentes das paredes do baluarte , onde a fala 
havia de ir fechar, e com muito trabalho 5 
e rifeo de todos fe puzeram em íima , per- 
dendo quatro companheiros , que lhe mata- 
ram ás efpingardadas. Os mais como fe vi- 
ram em lima puzeram-fe em defensão , re- 
íiftindo aos inimigos valorofamente , que por 
todas as partes trabalhavam pelos entrar , 
euftando efta fua determinação ávida a mui- 
tos , porque alguns dos noífos levaram et 
pingardas , que nelles fizeram grande damno. 

A 



lio ÁSIA de Diogo de Couto 

A manhã começou a apparecer , e da forta- 
leza grande fe ver claramente a revolta (pof- 
to que já tinham avifo por alguns el cravos , 
que fe lançaram a nado.) E ouvindo as ef- 
pingardadas 3 que laboravam de parte a par- 
te , António da Silveira mandou logo pre- 
parar embarcações pêra lhes foccorrer , e em* 
barcou-fe com quafi duzentos homens , dei- 
xando a fortaleza entregue a Paio Rodrigues 
de Araújo Alcaide mor. E porque podia ler 
que aquelle rebate foífe pêra na Cidade fe. 
dar outro algum , que pudeííe fazer mor da- 
mno , ( ainda que pêra paliarem á Ilha em 
alguns pálios delia eftiveflem guardas , por 
ferem muitos os lugares por onde fe podia 
paliar, ) mandou a Lopo de Soufa Couti- 
nho com a fua gente aos muros da Cidade 
daquella parte , que olha pêra o campo, que 
fe fez na dita Ilha. Goge Çofar bem via a 
prcíla que na fortaleza hia pêra irem foccor- 
rer o baluarte , porque claramente fe via em- 
barcar agente, pelo que determinou de avi- 
riguar. aquelle negocio , primeiro que ofoc- 
corro ehegaíle. 

E tomando os Turcos , e Rumes com» 
Hgo , comrnetteo a fubida do baluarte mui 
determinadamente : os de fima , que feriam 
perto de vinte homens , lhes defenderam o 
palio com grande valor, e esforço; porque 
com verem que o Capitão fe apreíTava pê- 
ra 



Pec. V* Liv. III. Gap* II. 221 

ra os vir foccorrer , fe lhes dobrava o ani- 
mo, e as forças , pelejando como leões , fa- 
zendo tal eílrago nos Mouros , que os fize- 
ram retirar. Coge Çofar vendo que fugiam , 
acudio aos affirontar de palavras , fazendo-os 
voltar 3 o que elles fizeram , tornando a com- 
metter a fubida com a fúria , que lhe fazia 
Jevar o defejo de fe deíaífrontarem ; mas nem 
defta vez acharam nos de lima menos refif- 
tencia , antes receberam deiles muito maior 
damno ; porque como os Mouros eram mui- 
tos , e eftavam amontoados, e como bruto» 
queriam fubir pelos andaimos , fizeram os 
de iima nelles mui grandes eftragos , porque 
eom vigas , pedras , e outros inftrumentos os 
lançavam deiles abaixo feitos pedaços. Co- 
ge Çofar, que andava. por baixo , animan- 
do-os , e fazendo-os fubir , não ficou fem 
feu quinhão, porque hum pelouro perdido 
de huma efpingardada lhe deo em huma mão , 
que lha cortou toda ; e retrahindo-fe quaíi 
mortal em braços de homens , cuidando to- 
dos os feus que era morto , largaram tudo , 
e foram pêra onde elle eílava. 

A efte tempo chegou António da Silvei- 
ra ao baluarte , e faltando em terra com to- 
da a fua geme , rnetteo-fe no baluarte , arvo- 
rando logo em fima a bandeira de Chrifto > 
que logo foi vifta de todos. E deixando o 
combate, fe foram recolhendo pêra No vana- 



222 ÁSIA de Diogo de Couto 

ger , pêra onde levaram Coge Çofar , fican- 
do-lhe muitos mortos no campo , e levan- 
do muitos feridos , de que depois morreo a 
mor parte. António da Silveira vendo affaf- 
tados os inimigos , c o grande damno que 
os do baluarte lhes tinham feito , achando 
a todos muito animofos , e banhados em leu 
próprio langue, pelas muitas feridas que ti- 
nham, os abraçou , e o mefmo fizeram to- 
dos os da fua companhia , não fem inveja 
de os verem tão gentis homens. O Capitão 
mandou os feridos pêra a fortaleza pêra fe- 
rem curados , e deitou efpias pêra faber dos 
inimigos , que lhe diíTeram como fe recolhe- 
ram a Novanager , e que Coge Çofar eítava 
muito mal da ferida. Com iílo tratou de pro- 
ver naquellas coufas com mais cuidado , por- 
que aquella leve affronta , e fobrefalto o es- 
pertou muito. 

E logo mandou dar preífa ao baluarte, 
e fala , que em breves dias poz em altura 
de quarenta palmos ; e como foi capaz de 
artilheria , lha poz , e proveo de munições , 
c mantimentos , e de muitas pipas , e jarras 
de agua , e confirmou a Capitania delle ao 
mefmo Francifco Pacheco , e lhedeo feten- 
ta homens , em que entraram todos os que 
com elle fe acharam no feito paflado , que 
comofaráram fe foram pêra elle. Aeílesde- 
fejamos faber os nomes pêra lhes darmos m£- 



Dec. V- Liv. III. Cap.II. 223 

ta efcritura os louvores que merecem ; más 
feja a culpa do pouco cafo que até agora fi- 
zeram deitas coufas na índia , è dos poucos 
curioíbs que nella houve. 

E tornando ao Capitão , depois de ter 
provido em tudo o do baluarte , o fez tam- 
bém na fortaleza , mandando recolher todos 
os mantimentos , e lenha que pode. E por 
fer avifado por efpias , que na Cidade tra- 
zia , que nos Mouros da Cidade havia al- 
guma alteração > e que o dia do fogo hou- 
vera antre elies mui grande reboliço , e o 
mefmo quando fe combateo o baluarte , re- 
ceando que aquelle negocio chegaíTe a mais y 
determinou de lhes dar hum grande caftigo. 
E fem dar a ninguém conta de coufa algu- 
ma , pelos não avifarem , fahio da fortaleza 
com trezentos homens , repartidos por três 
bandeiras , e deo bufca na Cidade a todas 
as cafas , e as armas que por elías achou 
mandou recolher, que foram muitas , e pren- 
deo alguns por fe ver ferem caufa de ajun- 
tamentos , e tumultos. E como em os da Ci- 
dade poz freio, em aquelle mefmo dia pro- 
veo os lugares que o rio , que divide a Ilha 
da terra firme , tem fracos , e pofli veis a fe* 
rem vadeados ,, o que tudo fe fez fem alte- 
ração alguma , porque tinha affentado de a 
fuftentar por caufa da agua , porque a não 
tinha na fortaleza , e dos poços de fora fe 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

fuftentava. E nos dous baluartes , que ficaram 
feitos do tempo de Soltão Badur nos paílbs 
mais fufpeitolbs , por ferem mais feecos , 
(que elle mandou alii fazer , quando fereco- 
lheo áquella Ilha fugido dos Magores , ) em 
hum delles poz Gonçalo Falcão , e no ou- 
tro Luiz Rodrigues de Carvalho , Fidalgos 
honrados , e de muita confiança por feu es- 
forço , e faber , a quem deo gente , artilhe- 
ria , e munições , que lhe pareceram necef- 
farias. E em outro paífo , que era mais cftrei- 
to , que fe chamava Palerim , mas de canal 
alto , poz Lopo de Soufa Coutinho de San- 
tarém, Fidalgo bem conhecido por feu es- 
forço , e valor , e que nefte cerco todo dos 
Rumes pelejou valorofamente , e depois fez 
os Commentarios delle em eftilo excellente , 
e grave , e foi o melhor de todos , porque 
efereveo como teílemunha de vifta. A cfte 
Fidalgo deo duas fuftas , huma galeota , e 
huma barcaça. Pelos mais paflbs efpalhou 
Francifco deGouvea, Capitão mor do mar 
de Dio , e António da Veiga Feitor d'Ei- 
Rey. 

Providos os paíTos , poz o Capitão as 
mãos na obra da ciílerna pêra recolher agua , 
em que fe correo com tanta prelTa , que nem 
de dia ^ nem de noite largavam a obra, fen- 
do os Fidalgos , e todos os mais Portugue- 
zes, os acarretadores dos materiaes \ e aca- 

ban- 



D £C. V. Liv. III. Cap. II. àtf 

bando-a por baixo , eftando ainda aberta por 
íima , mandou o Capitão começar a deitar- 
Ihe agua , pela preíTa , e neceífidadc que fe 
efperava , que fe acarretava dos poços da 
Ilha com todos os bois , que fe puderam ajun- 
tar , com feus odres , a que chamam Pacais 5 
e em breves dias recolheram dentro perto de 
três mil pipas de agua. E pofto que era pre- 
judicial a faude dos homens recolher-fe por 
então , por eftarem es betumes , e argama- 
ças da cifterna frefea , não podia fer menos 
por não haver outro remédio. E ainda quiz 
Deos que fuecedefle aquelle delaftre a Co- 
ge Çofar , porque o tempo que gaftou em 
iè curar , eífe tiveram os noflos pêra fe a- 
perceber de tudo \ que d'outra maneira efíava 
certa a perdição daquella fortaleza 5 porque 
tanto que os inimigos entraíTem a Ilha, não 
tinham os noíTos donde fe proverem de agua* 
E pofto que por então parecia temerida-r 
de querer defender huma Ilha tão grande 
com tão pouca gente , depois moftrou a ex- 
periência j que aquella determinação foi inf- 
pirada por Deos ; porque em quanto fe de- 
fendeo , fe proveram da Cidade de agua ^ e 
lenha. E quanto ao baluarte da Viila dos Ru- 
mes , que alguns taxaram a António da Sil- 
veira querelío defender, eíTa foi a falvação 
da fortaleza 5 porque fabido eílá quebrarem 
os inimigos nelle a fúria todos aquelles dias . 
Couto.Tom.lLF.L P pof-' 



226 ÁSIA de Diogo de Couto 

poílo que depois fe largaffe , ou perdefle ; 
porque felogo lho largaram , e os inimigos 
todo aquelle tempo bateram a fortaleza , 
iem dúvida fe perdera , porque cem virem 
da Vilia dos Rumes com a íbberba perdi- 
da , jicíTes poucos dias que a bateram , ef- 
teve perdida, como ie verá pelo decurfo da 
hiíloria. 

E tornando aCogcÇofar, efteve em fe 
curar todo o mez de julho; e fendo já são, 
poílo que aleijado , tratou de fe fatisfazer; 
c levantando íeu campo elle , eAlucan, fo- 
ram marchando pêra Dio. E paliando pela 
Vilia dos Rumes, iem oufarem a commet- 
ter o noffo baluarte , pelo verem diirerente , 
e em melhor eítado que da outra vez , af- 
íentáram de o deixar , e paliarem á Ilha ; e 
affim foram cemmetter os paíTos , aiTentan- 
do Coge Çofar o íeu arraial defronte do que 
guardava Lopo de Soufa Coutinho, e nel- 
le aífeftou três canhões. Alucan foi adiante 
com quinze mil homens , e repartio fua gen- 
te em algumas partes : huma delias poz fron- 
teira ao palio de Gonçalo Falcão , e a ou- 
tra onde António da Veiga ; e Francifco de 
Gouvea tinham os navios , c outra no de Luiz 
Rodrigues de Carvalho , e alguma gente poz 
em outros paííos , em que fizerair. feus va- 
los , e trincheiras , e fcrtiíkando-fe a fua von- 
tade^ como quem eílava na fua terra. 

CA- 



Dec. V. Liv. III. 227 

CAPITULO III. 

Dos combates , que os Mouros deram aospaf- 
Jcs da Ilha : e de como António da Sil- 
veira lhe pare ceo bem larga lios : e de co- 
mo os inimigos entraram a Ilha , e toma- 
ram os navios dos pajjos. 

DEpois dos Mouros terem prantado fuás 
eftancias , e aííentado lua artilheria , co- 
meçaram a barer os paílbs com grande fú- 
ria , e terror , fazendo grande damno em to- 
dos , principalmente no de Lopo de Soufa 
Coutinho, porque era mais cílreito , e as fuás 
furtas ficavam mais em barreira áfua artilhe- 
ria; mas como era Cavalleiro, e animoib , 
não largou hum palmo de leu lugar 3 antes 
delle ie poz á bateria com os inimigos , ma- 
tando- lhes alguns , aílim de pé , como de ca- 
vallo : e o mefrao fizeram pelos outros paí- 
fos em roda , com tao grande terremoto , 
que fó o terror , e eíhondo da artilheria met- 
tia medo , e efpanto aos feus , que eflavam 
pelas aldeias apartadas ; mas nenhum nos nof- 
fos , pofto que davam em meio delles aquel- 
la multidão de pelouros envoltos em fogo , 
e fumo , a que citavam coíiumados. 

Eíla bateria fe foi continuando alguns 
dias , e cada vez com maior fúria \ e o em 
que os inimigos mais tiveram o tento , foi 
P ii em 



228 ÁSIA de Diogo de Couto 

em impedir o foccorro que da fortaleza hia 
todos os dias aos noflòs j porque António da 
Silveira , não íe defcuidando de fua obriga- 
ção , os mandava muito a miude vifítar , c 
prover de pólvora , munições , e mantimen- 
tos por embarcações pequenas , de que al- 
gumas foram mettidas no fundo , e totalmen- 
te impediram aquelles íoccorros , que pêra 
os que eftavam nos pálios foi de grande fen- 
timento , porque receavam vir-lhes a faltar 
tudo ; e todavia por terra eram providos o 
melhor que podia fer. Os Mouros trabalha- 
ram por entulhar algum dos paíTos , pêra 
por elle paíTarem á Ilha ; pêra o que man- 
daram trazer das aldeias vizinhas muitos fer- 
vidores pêra a obra do entulho, em que co- 
meçaram a trabalhar de dia , e de noite ao 
lòm das bombardadas , que de ambas as par- 
tes não ceifavam , levando diante de íi mon- 
tes de terra até á borda da agua , aonde me- 
lhoraram fuaseftancias. Lopo de Soufa Cou- 
tinho, Francifco de Gouvea , e António da 
Veiga acudiram com os feus navios a im- 
pedir a obra , fobre o que fe travaram al- 
gumas efearamuças com muito damno , e 
mortes de ambas as partes , não. deixando po- 
rém os Mouros de irem melhorando , e e£ 
treitando os pailbs , até porem os noífos em 
defeonfiança. 

António da Silveira, que cada hora ti- 
nha 



Dec. V. Liv. HL Cap. III. 229 

nha avifo do que lá paliava , entendendo 
mui bem o rifco em que todos eítavam , e 
que os inimigos não poderiam deixar de ga- 
nhar os paíTos , e que não havia mais pro- 
veito de os querer defender , que perda de 
homens , e munições , de que depois havia 
de ter neceílidade , e que a principal coufa , 
por que tratara de defender a Ilha , fora por 
le prover de agua , e lenha , de que já tinha 
recolhido huma grande cópia ; aífentou por 
confelho de todos os Fidalgos , e Capitães 
de largar a Ilha, e que a artilheria dos paí- 
fos fe paíTafle á Cidade, e que trabalhaffem 
pela defender , porque não chegaffem os ini- 
migos aos incurralar na fortaleza. 

Diílo fe fez hum termo aflignado por to- 
dos , que António da Silveira guardou pê- 
ra fua fatisfação : e logo mandou Paio Ro- 
drigues de Araújo com alguns navios pêra 
recolher agente, e a artilheria, levando nu- 
ma Provisão do Capitão , em que mandava 
a todos aquelles Capitães , que logo tanto 
que aquella viíTem largaflem ospaflbs, efe 
recolhefsem á Cidade : e que elie Paio Ro- 
drigues de Araújo tomaíTe huma das fuítes 
de Lopo de Soufa Coutinho, e a barcaça, 
e as entregafle a "Gonçalo Falcão , e a Luiz 
Rodrigues de Carvalho , pêra nellas recolhe- 
rem toda a artilheria , e munições dos feus 
baluartes. 

Com 



-z$õ ÁSIA de Diogo de Couto 

Com efte recado partio Paio Rodrigues 
de Araújo aos nove de Agofto , que tanto 
havia que os Mouros eram chegados aos pát- 
ios. Paio Rodrigues de Araújo chegou a el- 
les 3 e moftrou aos Capitães a Provisão , e 
não podendo fazer outra coufa , trataram de 
ie recolher. António da Veiga, que andava 
por Capitão mór de íiias galeotas , e de três 
navios mais , em vendo o recado íaltou em 
terra , e deixou os navios encommendados 
iios Capitães com todos os foldados , pêra 
que fe foíTem pêra a fortaleza , e elle por 
terra fe foi , tendo-fe-lhe a mal deixar os feus 
navios; mas devia defer inadvertidamente , 
porque eíle homem em todas as coufas da 
guerra em que fe achou deo fempre muito 
boa conta de fi. Os Capitães dos feus navios 
vendo-o partido , quizeram-fe logo recolher , 
fendo ainda de noite , e tomando o remo 
na mão foram com a enchente da maré en- 
trando pêra dentro. O vento era mui gran- 
de, e o rio andava mui alterado , e palian- 
do pela cftancia deCoge Çofar , que eftava 
quaíi fobre o canal , que não fe podia já paf- 
far fenao pelas; bocas das bombardas , em 
os fentindo defearregáram fuás cargas nelles , 
de que lhe mataram , e feriram alguns ma- 
rinheiros ; os mais defeoroçoados não ati- 
nando o canal , deram com as galeotas em 
fecco. E como as bombardadas não ceifa- 
vam, 



Dec. V. Liv. III. Cap. III. 231 

vam , os foldados atemorizados, fem faze* 
rem diligencia alguma , iançárâm-fe ao mar , 
não os podendo os Capitães ter, por muitas 
coufasque lhes dilTeram , ora pondo-lhe di- 
ante a obrigação da honra Portugueza , ora 
ameaçando-os que haviam de fer caftigados 
como homens que fugiam da guerra ; e não 
lhes deixando o medo ver a infâmia que cor- 
riam , fe foram a nado pêra a outra banda 
da Ilha , que era perto , e por terra fe re- 
colheram á fortaleza. Os Capitães , que fica- 
ram fós nos navios, não lhes podendo dar 
remédio , vendo que os inimigos fe mettiam 
pela agua pêra os irem demandar , ajuntan- 
do a lenha que puderam , pondo a pólvora 
no meio dos navios , e a lenha por derredor, 
lhe deram fogo , porque não foífem a poder 
dos inimigos , porque fe não lograflem da 
artilheria: ecomo o fogo ateou, lançáram- 
fe ao mar, e paíTáram á outra banda, cum- 
prindo até o cabo com fita obrigação mui- 
to bem; e certo que folgáramos de lhes m 
char os nomes pêra o terem neíta efcritu- 
ra , porque o mereciam bem. Os inimigos 
que hiam pela agua demandar os navios , 
chegaram a tempo , que o fogo andava mui 
bravo , e como ^ram muitos , os rodearam 
por eftarem já em fecco , e lançaram-lhe 
ás mãos tanta agua , que o apagaram , fen* 
do já a mór parte dos navios queimados , 

mas 



232 ÁSIA de Diogo de Couto 

mas ainda lhes tomaram os falcões, e ber- 
ços. 

Dcfte defaftre fuccedeo outro maior , e 
foi, que andando Gonçalo Falcão recolhen- 
do as coufas do feu baluarte na barcaça , fal- 
ta ndo-lhe por mettcr nella três , ou quatro 
barris de pólvora , os Toldados que andavam 
ao trabalho, em vendo o fogo nos navios, 
foi tamanho o leu medo, que defamparáram 
tudo, e trataram de fe recolherem por ter- 
ra. Gonçalo Falcão vendo aquelle defatino , 
e que ficando lo poderia fer caufa de íua 
perdição , deixando as coufas da barcaça , acu- 
ciio a terra, epedio a todos que o não qui- 
zeíTem defamparar , que viííem que aquillo 
que queriam coinmetter era huma coufa tão 
aflfrontofa pêra homens , que tinham ganha- 
do tanta honra , aílim naquelle negocio, co- 
mo em todo o outro em que fe acharam , 
que bailaria pêra ficarem affrontados pêra to- 
da ávida: que viííem bem quanto mais hon- 
rofo feria morrerem em companhia do leu 
Capitão , que falvar as vidas com tama- 
nho vitupério. E que lhes affirmava , que 
paliado aquelle termo de temor, haviam de 
deíèjar antes de ter perdido mil vidas, que 
viverem com tanta vergonha. 

Tantas coufis deftas lhes difle , que os 
tirou de feu propofito , e os fez embarcar; 
e todavia não quizeram recolher os caixões 

da 



Dec. V. Liv. III. Cap. III. 235 

da pólvora por muito que Gonçalo Falcão 
niíTo trabalhou , de que enfadado ,' vendo 
que era forçado ficarem , mandou-lhes dar fo- 
go , e foram as labaredas tamanhas , que os 
Mouros da outra banda , que era perto , vi- 
ram mui bem a barcaça , e que eíiava mui- 
to carregada , e mal aparelhada , a que de- 
ram todos grandes gritas , a fim de amedron- 
tarem os noflbs : o que lhes não fahio em 
vão , porque os foldados como fe embarca- 
ram amedrontados , tornou a dar neiles o 
temor; e como o vento não ceifava , antes 
cada vez parecia crefcer mais, quiz a deí- 
aventura , que aílim com os mares , como 
com o medo dos remeiros , que hiam des- 
atinados , deífem em fecco , mas em parte que 
facilmente íè pudera tirar , fe o medo nei- 
les não fora tamanho , que em ella tocando , 
c em fe elles lançando ao mar vergonhofa- 
mente , tudo foi hum , fem lhes dar pelas 
obrigações que GonçaloFalcão lhes poz dian- 
te , deixando-o fó naquelle conflidlo , de que 
fe não pode valer, porque de todas as par- 
tes fe vio cercado de ameaços da morte: de 
huma o vento que esbravejava ; da outra os 
mares que lhe entravam ; da outra muitas , 
e groífas bombardadas , que fobre a barca- 
ça choviam. E vendo que fenao podia fal- 
var aquelle navio , contra fua vontade , (por 
não ir contra a obrigação de Chriítão , ) fe 

lan- 



^34 ÁSIA de Diogo de Couto 

lançou á agua , e fe paífou á outra banda , 
trifte , edefconfolado , por lhe acontecer a- 
quelíe defaftre pela falta , c covardia dos feus 
foldados. Neíle navio fe perderam bem dez 
peças de artilheria groífa , e miúda , e ar- 
mas 5 e outras coufas neceílarias. 

Ainda aqui não ceifou o mal , porque 
parece que eítava tudo conjurado neíle dia 
contra os noíTos , e foi , que a mefma de (aven- 
tura aconteceo a Luiz Rodrigues de Carva- 
lho. Eíte Fidalgo depois de Paio Rodrigues 
de Araújo lhe dar recado que fe recolheíle, 
lhe entregou pêra iílb hum a galeota , reco- 
lheo nella todo o fato do baluarte , e foi re- 
mando pêra paliar pêra a fortaleza ; mas foi 
varar em huma reftinga , onde também o 
deixaram os feus foldados : e depois que tra- 
balhou quanto foi poflivel , por ver fe po- 
dia remediar aqueile damno , vendo fer tu- 
do \cm vão por fer fó, e os inimigos virem 
já commettendo a fufta , havendo que era te- 
meridade querer fó defendella , lançou-fe ao 
mar, e palfou-fe á outra banda. 

Lopo de Soufa Coutinho também fe foi 
recolhendo , e não ceifando ainda o vento , 
e os 'mares, foi trabalhando até amare lhe 
dar derofto, e começar avafar, com o que- 
as aguas o foram encoftando a outra banda 
das eftancias dos Mouros , até o encalharem 
em fecco , fem lhe valer a força do remo , 

nem 



Dec, V- Liv. III. Cap. HL 23; 

nem do braço , em que todos trabalharam 
bem. E porque receava deixarem-no os Tol- 
dados , teve nelles grande tento , fazendo- 
Ihes huma honrada falia , que toda redun- 
dava em as obrigações de íuas peflbas , e 
nação ; e achou a todos mui animafos , e es- 
forçados, e aífim fe deixou ficar até que a- 
manheceo , e que foi vifto dos Mouros , que 
como andavam contentes das prezas palia- 
das , entraram pela agua hum grande núme- 
ro delles , e cercaram a galeota em roda , 
traoalhando pela entrarem 5 mas Lopo de 
Squfa com os companheiros lha defenderam 
valoroíamente , fazendo nos inimigos gran- 
de eftrago , ficando ellesfemdamno leu , nem 
dos feus. E vendo que não havia outro re- 
médio mais, que o valor dos braços, traba- 
lharam com elles como leões , fuftentandó 
aquella fúria até a maré tornar a encher , 
que o navio começou a nadar, e por lhe o 
vento fervir , deram alguns marinheiros ef- 
pertos á vela , e foram-fe fahindo do peri- 
go, deixando feito nos Mouros hum gran- 
deçíl^gí>, que feus Capitães fentíram mais, 
do qíie foi o gofto das outras vitorias , por 
haverem por affroma efcaparçm-lhe tão pou- 
cos homens das mãos. 



CA- 



2,36 ÁSIA de DroGo de Couto 

CAPITULO IV. 

De como os Mouros entraram a Ilha , e 
António da Silveira lar vou a Cidade : e 
de como os Capitães prantdram fuás ef- 
t anciãs fobre a nojfa fortaleza \ e de al- 
guns recontros , que os Portugueses tive- 
ram com elles y de que fempre levaram a 
melhor. 

NA mefma noite que os foldados da 
companhia de Gonçalo Falcão , e de 
Luiz Rodrigues de Carvalho defamparáram 
os navios, e feus Capitães, chegaram á for- 
taleza , e deiles foubc António da Silveira 
do defaftre acontecido , e perda dos navios > 
o que fentio em eftremo , affirn por lhe acon- 
tecer aquillo em principio do cerco que ef- 
perava , (porque receou amedrontarem- fe- 
Ihe os homens , ) como pela perda da arti- 
lheria , que nos navios tomaram, que eram 
dez, ou doze peças, com que determinava 
defender a Cidade ; receando também Lo- 
po de Soufa Coutinho , que fabia eftava em 
trabalho , e não tinha navios com que lhe 
foccorrer : e eftando nefta grande agonia, che- 
gou clle , o que eílimou muito , aílim por 
não ir odamno até o cabo, como pelo pre- 
ço da peííoa daquelle Fidalgo , que havia de 
haver muito miíter pêra os trabalhos queef- 

pe- 



Dec. V. L iv. IH. Cap. IV. 237 

perava. E fabendo delle feu fucceílo , e que 
os inimigos começaram a paliar állha, cha- 
mou em fegredo os Fidalgos , e Capitães 
principaes , e lhes diíTe , que bem labiam 
como eílavaaíTentado cm confelho defender- 
le a Cidade , e que a gente , e artilheria , que 
citava nos paflbs da Ilha fe paflaíle a cila , 
o que já agora não podia fer pelo defaflre 
acontecido ; e que peia tirar a artíiiíeria da 
fortaleza pêra ifíò , lhe não parecia licito , 
pela pouca que havia , que lhes pedia lhe 
aconfelhaílèm naquelle negocio o que foíTe 
mais ferviço de Deos , e d 5 EIRey.' Todos 
votaram , que fe lârgaíTe a Cidade , pelos 
inconvenientes que elle mefmo apontava , e 
por outros muitos que havia , porque pêra 
defenderem bem a fortaleza lhes faltava ain- 
da muitas couías. 

Eflando concluindo ifto tiveram rebate , 
que os inimigos eram chegados ao campo > 
porque logo pafsáram a Ilha , e Coge Ço- 
far foi dar viíla á Cidade com três mil de 
cavai Io, efete, ou oito mil de pé. Os Mou- 
jos delia , que com os defaftres paliados fe 
tinham alterado , tanto que viram a gente 
no campo, econheòêram as infígnias de Co- 
ge Çofar , arvoraram muitas bandeiras <ie 
fuasdivifas poríima do muro , pêra lhes da- 
rem a entender , que a Cidade eftava defpe- 
jada dos naflos. António da Silveira largan- 
do 



238 ASIÀ de Diogo de Couto 

do o confelho , acudio com muita preíía á 
Cidade, e mandou queimar as galés que ef- 
tavam varadas na ribeira junto da Alfande- 
ga por alguns homens, por fenão aprovei- 
tarem os inimigos delias , pofto que eram 
fuás , e as tinham alli por eífado. E affim 
mandou por outros alguns homens dar fo- 
go a huns armazéns , que citavam cheios de 
enxofre , e falitre , que fe não pode reco- 
lher , por não ficar aos Mouros ; e como 
na Cidade andava já grande alvoroço, e al- 
guns dos moradores tomavam armas , foi 
tamanho o medo dos que hiam áquellas cou- 
fas , que pondo-lhe o fogo fem o deixarem 
atear , fe foram recolhendo vergonholamen- 
te , fem deixarem feito coufa alguma , por- 
que o fogo foi logo apagado , e aquelles 
materiaes ficaram aos inimigos , que depois 
lhes fervíram contra nós. 

Vendo António da Silveira que a Ci- 
dade andava toda levantada, efcolheo cem 
homens , e elle com elles em peííoa , e en- 
trou por cila dentro , e todos os que encon-^ 
trou com armas metteo áefpada, e mandou 
enforcar pelas ruas a muitos pêra efpanto. E 
correndo a fama do ePrago que os noíTos 
hiam fazendo pela Cidade , foranv-fe todos 
os moradores pêra Coge Çofar , que os re- 
cebeo bem , e deiíes foube o que o Capi- 
tão andava fazendo. António da Silveira 

co- 



Dec. V. Liv. III. Ca?; IV. 239 

como não teve em quem executar íua fúria , 
mandou prender quatro Gentios mercadores, 
dos mais ricos , e principaes da Cidade , e 
os levou comíigo ; porque pela ventura íuc- 
cederiam depois couíás que foífe neceííario 
aproveitar- íè delles , por ferem ricos , e apa- 
rentados , que foram fempre mui bem trata- 
dos , e depois de íe acabar o cerco foram 
póílos em fua liberdade. E porque já Coge 
Cofar vinha entrando a Cidade , fe foram 
os noífos recolhendo pêra a fortaleza. Coge 
Çofar como fevio fenhor da Cidade, man- 
dou recado a Alucan , que ao outro dia en- 
trou , e começaram Jogo a aífentar fuás ci- 
randas por efla maneira. 

Coge Çofar fe alojou no Mandovim , 
que he hum lugar como terreiro, que ferve 
de recolher os mantimentos ; e em hum cais , 
que lança fobre ornar, mandou prantar to- 
da a artilheria , que fe tomou nos noífos na- 
vios , pêra dalli baterem o baluarte do mar > 
€ os navios que eílavam ao cais, ern queef- 
tava Lopo de Soufa Coutinho. 

Alucan fe alojou nas cafas da Rainha 
inãi d'E!Réy Badur , que eftavam no lugar 
mais alto da Cidade? È no mefmo dia co- 
meçou Coge Çofar a bater os nsrios com 
muitas , e amiudadas bomba rd adas , com qu« 
logo metteo duas feias no fundo , matando 
alguas £oldados que relias eftayatn , e na 

ga- 



240 ASIÁ de Diogo de Couto 

galeota de Lopo de Soufa deram alguns pe- 
louros , lein fazerem damno. Durou eíle com- 
bate até o meio dia , que ceílòu , dando os 
inimigos no arraial grandes gritas de alvo- 
roço 3 quando mettêram as fuftas no fundo. 
António da Silveira determinou de ver fe 
no que faltava do dia fe podia fatisfazer 
nos inimigos , porque de todo fe não ficaf- 
fem louvando. 

E porque alguns Portuguezes , que pou- 
favam fora da fortaleza , fe recolheram á che- 
gada dos inimigos com tanta preífa , que dei- 
xaram em fuás cafas a mor parte de fuás fa- 
zendas ; quiz o Capitão mandar recolher tu- 
do , e encarregou a Gafpar de Soufa , que 
com íincoenta homens foffe dar favor aos 
donos pêra irem bufcar fua pobreza. Gaf- 
par de Soufa com os companheiros foram 
caminhando até ás cafas , em que já anda- 
vam muitos Mouros efpalhados por dentro 
a roubar , bem defcuidados de -tal fobrefal- 
to , e dando os noflos nelles mataram mui- 
tos ; e os donos das cafas com os moços, 
e fervidores, que pêra iífo levavam, carre- 
gando-fe de tudo o que puderam , fe foram 
recolhendo , porque já recrefciam os inimi- 
gos. Nãocuílou efta cavalgada mais que hum 
foldado , poíto que também foram alguns 
feridos; nifto fe paflbu eíle dia. 

Ao outro tratou António daSilveira.de 

pro- 



Dec. V. L iv. III. Cap. IV. 241 

prover na defensão da fortaleza , e os balu- 
artes de Capitães : e no de S. Thomé poz 
Gonçalo Falcão com fincoenta foldados j e 
110 que fica fobre as cafas do Capitão na en- 
trada da cava poz Gsjfpar de Soufa com ou- 
tros tantos ; fobre a porta poz Paio Rodri- 
gues de Araújo , que era Alcaide mor. Os 
mais baluartes por ficarem fobre o mar , e 
não terem neceílidade de Capitães , deixou 
com alguns poucos foldados. A Lopo de 
Soufa Coutinho deo feííènta foldados pêra 
ir todas as manhans dar guarda a muitos ef- 
cravos , e fervidores , que hiam acarretar 
agua de huns poços , que eílavam perro da 
Cidade, e a desfazer as cafas dos Portugue- 
ses que eílavam fora, e recolher a lenha del- 
ias , e pêra ficar maior terreiro á fortaleza. 
Lopo de Soufa continuou efía guarda alguns 
dias , tendo em todos elles alguns encontros 
com os inimigos, de que fempre os deixou 
eíblavrados. A quatorze de Agofto , vefpe- 
ra da gloriofa Aílumpção de NoíTa Senho- 
ra , dia em que quiz dar a Lopo de Soufa 
huma mui honrofa vitoria : e foi deita ma- 
neira. 

*^ 

Sahindo eíle Capitão eíía madrugada de£ 
te tão ditofo dia pêra nós a dar guarda aos 
acarretadores , deixando quarenta foldados 
com elles , apartou*fe com quatorze , emet- 
teo-fe por humas ruas 3 em que achou alguns 
Cauto,Tom.U.P.L *Ct Mou- 



242 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mouros defmandados , e remettendo comel- 
les fupitamente , matou alguns , e os mais com 
muitas feridas os poz em desbarato. Tão 
cortados foram eftes de medo dos noflbs , 
que não pararam fenão dentro na eftancia de 
Coge Çofar ; e fabendo delles o que paffa*- 
va , defpedio quatrocentos homens pêra irem 
vingar aquella aíFronta. Eítes foram dar com 
os noflbs , que eftavam em huma rua eftrei- 
ta , que hia fahir a hum lugar largo , por 
onde os inimigos vinham com grandes ef- 
trondos , e algazarras. Lopo de Soufa qui- 
. zera fahir ao largo a pelejar comelles; mas 
hum Simão Furtado , homem fezudo , e mui 
bom Cavalleiro , lho atalhou , dizendo-lhe , 
que aquillo era temeridade , que deixa (Tem 
entrar os inimigos pela rua em que citavam , 
e clles fe deixaílem eftar no cabo da mefma 
rua , porque efta-va certo apinhoarem-fe de 
feição , que fe não haviam de poder menear i 
pela multidão delles , por fer a rua eftreita-, j 
e que então efles poucos que eram fe pode- i 
riam melhor ajudar contra elles , como fe- i 
nhores da rua , e que mais defembaraçada- 
mente podiam menear as armas. Lopo de Sou- 
fa lhe agradeceo o confelho , e recolheo-fe ! 
pêra o cabo da rua , em que os inimigos cc- » 
meçáram a entrar tão foífregos , e apinhoa- 
dos , que huns fobre os outros chegaram aos 
■noilbs ; cjíidando - levarenwios nas unhas. 

Lo- 



Dec.V. Liv. III. Cap. IV. 243 

Lopo deSoufa vendo aquella occafião, 
appcl lidando Sant-Iago , deo nos inimigos 
com tanto esforço , que foi fazendo nelles 
hum muito grande eíírago ; porque como ti- 
nham Janças compridas osnoííos, e eftavam 
fenhores da rua , meneavam-fe nella mui bem, 
e não faziam lenao enfopar ás fuás vontades 
as armas , e muitas vezes varavam de dous 
€ti\ dous , não fazendo mais que tirar , e 
embeber as lanças nelles. E aílim os aperta- 
ram tão rija , e cruelmente, que os diantei- 
ros por fugirem á morte , romperam pêra 
trás com tanto impeto , e força , que cahí- 
ram huns fobre os outros , fazendo os nof- 
lbs nelles muito grande matança. Os que ef- 
•ca param fahíram ao campo largo, e foram 
fugindo com tamanho medo , que não pa- 
raram fenao nas eflancias , como fe foram 
apôs elles quatorze mil homens : e aílim deí- 
atinados, efem ordem, huns feridos, e ou- 
tros fem armas , chegaram a Coge Çofar tão 
cortados de temor , que não fabiam dar ra- 
zão do que viram , o que embaraçou a Co- 
ge Çofar, porque cuidou que todo o poder 
dos Portuguezes hia fobre elles. E depois 
que íbube a verdade do que paflara , áffron- 
tou ,, e injuriou a todos de palavras , emao?» 
Lopo deSoufa ficou na rua, não lhe pare- 
cendo razão fahir delia , e ir apôs os inimi- 
gos , de cujos corpos ella citava entulhada, 
Q^ii fem 



244 ÁSIA de Diogo de Couto 

fem dos noííbs perigar algum , fó ficaram al- 
guns feridos , em qiíç entrou Lopo de Sou- 
fa pela perna efquerda , e hum pagem íeu com 
hum olho perdido , e outro homem com hu- 
iria eítocada por hnma perna. Com eita ta- 
manha vitoria fe recolheram os noflbs , di- 
gna por certo de ler muito celebrada , por 
tamanha deliguaidade , como a de quatorze 
pêra quatrocentos eícolhidos , em que entra- 
vam Rumes , Turcos , e outras nações bran- 
cas, e belicofas. 

António da Silveira recebeo os noííbs á 
porta da fortaleza com grandes feitas , e 
alegrias, dando a todos grandes, e públicos 
louvores. Lopo de Soufa Coutinho ficou al- 
guns dias impedido porcaufa da ferida, em 
f|ue encommendou o Capitão aguarda a 
Gonçalo Falcão , e Gaípar de Soufa , pêra 
cada hum íeu dia continuarem nclla ; e af- 
íim mandava todos os dias bufcar agua ,. e 
lenha , que não queria bulir na da fortale- 
za', porque não fabia os trabalhos que fuc- 
ced criam. E porque o tempo já dava jazi- 
go , deipedio huma embarcação com cartas 
;io Governador , em que lhe dava conta do 
citado' em que aquèlla fortaleza cílava , e das 
coufas que até então eram acontecidas. 

Os clous Capitães , a quem era encommen- 
dada a guarda dos carretadores , continuá- 
jam os ftus dias ordinários nellas , tendo 

em 



Dbc, V. Liv. III. Cap. IV, 245* 

em todos elles encontros com os inimigos. 
E hum, que era o de Gafpar deSoufa, em 
huma revolta deitas houve ás mãos hum Mou- 
ro , homem de bom entendimento, que An- 
tónio da Silveira eftimou muito ; edelle íb li- 
be que Alucan , e Coge Çoíar tinham dez- 
enove mil homens dentro na Ilha , e queef- 
peravam cada dia por huma grande Arma- 
da de Turcos , porque com eíTa confiança 
vieram fobre aquella fortaleza, eque anda- 
va já no exercito huma voz furda , que ha- 
via três dias que chegara a Mangalor huma 
náo de Meca , que dava novas ficar já em 
Adem. Náo poz ifto efpanto em António da 
Silveira, que logo deípedio recado ao Go- 
vernador, e mandou negociar hum catur li- 
geiro , em que mandou hum Miguei Vaz 
bom Cavalleiro , pêra que fofle até Manga- 
lor a tomar falia por aquella coita das ga- 
lés : e com ifto ie deo mais prefla a agua , 
e lenha, em cuja guarda tornou a continuar 
Lopo de Souía por eílar já são. Os inimi- 
gos foram batendo o baluarte do mar , e o 
de Gogalá , de que também foram mui bem 
hofpedados , matando-Ihes , e ferindo-lhes. 
muita gente nas eftancias. E pofto que os 
noffbs náo receberam damno , ficaram peior 
do partido, pela muita pólvora que difpen- 
dêram , que depois lhes veio a faltar. Os Ca- 
pitães Mouros vendo quanta gente perdiam 

na 



246 ÁSIA de Diogo de Couto 

na defensão da agua, mandaram lançar nos 
poços, aonde ahiambufcar, grande quanti- 
dade de peçonha , de que logo quiz Deos 
os noffos foíTem avifados primeiro que del- 
ia bebeíTem. 

CAPITULO V. 

Da Armada , que o Grão Turco mandou pê- 
ra lançar os Portugueses fora da índia : 
e da derrota que levou por todo o Eftr ei- 
to : e dos portos , Ilhas , e furgidouros 
que tomou até chegar a Adem : e de co- 
mo o Baxd houve aquelle P^ey as mãos y 
e o m andou enforcar* 

SOleimão Baxá tanto que defpedio do Cai- 
ro pêra Suez os Oíficiaes , e coufas ne- 
ccíTarias pêra a Armada que havia de levar, 
ficou no Cairo recolhendo agente que rinha 
mandado fazer pelas Províncias de Afia , e 
Ethiopia , ajuntando huma grande fomma de 
ouro , e moeda pêra as deípezas da jorna- 
da , tudo tyrannizado por aquelles povos , 
que deixou bem efcandalizados. E na entra- 
da de Junho fe poz em caminho pêra Suez , 
mandando que fe ajuntafle alli toda a gen- 
te meado Junho. Chegado aquelle porto , deo 
prefla á Armada , de que já achou a mor 
parte no mar , e a primeira couía que fez 
foi defpedir navios ligeiros pêra todos os por- 
tos 



Dec. V. Liv. III. Cap.-V. 247 

tos daquelle Eftreito de huma , e da outra 
banda a impedir com grandes penas , que 
nenhum navio partifle pêra a índia , nem íà- 
hiífe das bocas do Eftreito pêra fora , por- 
que não foflem as novas da Armada ás ore- 
lhas dos Portuguezes. E aífim efcreveo ao 
Xarife de Meca , que as náos em que Ca- 
farcan fora de Cambaya , as tiveífe negocia- 
das , e preftes pêra quando elle chegaíTe as 
levar comíigo. E também efcreveo ao Go- 
vernador de Judá , que três náos , que naquel- 
le porto eftavam de Amenzoy Mouro , gran- 
de Senhor no Cairo , as tiveíTe preftes , eque 
elle também o ajudaífe com algumas náos 
íuas. Com efte recado mandaram todos fa- 
zer preftes as náos que lhe pedia , que fe 
haviam de ir ajuntar com elle na Ilha de Ca- 
marão por todo Julho, ficando o Baxá dan- 
do ordem a muitas coufas : e ao tempo li* 
mitado chegou ã gente q.ue efperava y que 
era a feguinte. 

Mil e quinhentos Janizaros da guarda do 
Turco ; dous mil Turcos^ que mandou fa- 
zer pela Trácia; três mil homens outros dos 
portos da Natolia , de Damiata , de Alexan- 
dria , e de outros , de maneira que iriam 
por todos fete mil homens. E tanto que qh&i 
gáram fez pagas a todos , e repartio pela 
Armada a gente Veneziana , que feriam qua- 
trocentos homens 5 bombardeiros , comitres , 

ca-* 



248 ÁSIA de Droco de Couto 

calafates , carpinteiros : e aos vinte e dous 
dejunho fe embarcou , e feaítaítou do por- 
to, efoi furgir no porto de Faraó em qua- 
tro braças de fundo , lugar apartado de Suez 
huma légua e meia : alli fez de novo alar- 
do da gente , e Armada. As pelíoas princi- 
pães, que nefta jornada hiara , são as feguin- 
tes. 

Ifuf Amede Capitão mor do mar de Ale- 
xandria , que levava o governo de toda a 
Armada , por ler o Baxá velho , e não po- 
der correr com as coufas delia ; Chiclierchi 
Baxá de Alexandria ; Beram Baxá ; Mir Mof- 
tafá , ambos Capitães dos Janizaros ; Moík- 
fá Naxar ; outro Beram Baxá Janizaro , a fo- 
ra muitos Sangiacos , e Patrões das* galés , 
Jiòrtiens efcolhidos antre todos os Janizaros 
do Turco. Hia também Cafarcan em huma 
galé pêra confelheiro do Baxá , por fer mui- 
to prático nas coufas de Cambava. Dalli fe 
fez o Baxá á vela, e fcgu iremos nefta jor- 
nada o roteiro de hum Veneziano, (dos que 
foram tomados em Alexandria , ) que hia 
por comitre de huma deftas galés , que an- 
da impreíTo em Italiano , e junto ás varias 
•viagens , que recopilou João Baptifta Ramu- 
íio , que por fer curiofo , e nomear muitos 
portos, e lugares, que não andam nas nof- 
ias Cartas de marear, nos parecco bem fe- 
guir-nv>ío aqui, e aíTim o faremos em al- 
ga- 



Dec. V. Liv. III. Cap. V. 249 

gumas coufas do cerco , que elle conta co- 
mo teftemunha de viíla. 

Sahida a Armada da ponta de Faraó, 
foi íurgir em hum lugar , que chamam os do- 
ze poços de Moyfés , três Jeguas e meia a- 
diante. Dalii foram tomar Corondollo qua- 
torze léguas de jornada , onde furgíram em 
doze braças, (nefte lugar ferio Moyfés com 
a vara , e abrio o mar pêra paíTar á outra 
banda,) Daqui atraveífáram a coita da Ará- 
bia , e foram furgir no lugar de Toor , aon- 
de ha muitos Chriílãos dos que chamam de 
Cintura , huma jornada e meia do. Moílei- 
ro de Santa Catharina de Monte Sinay : ef- 
te dia andaram vinte e oito léguas , e nelle 
eítiveram íinco dias. Aos três de Julho de- 
ram avela, e foram até hum lugar chama- 
do Charas , treze léguas de Toor , e alli 
furgíram em doze braças. Ao outro dia fo- 
ram caminhando , e paliaram de longo de 
huma Ilha chamada Soridao , que eílá afíaf- 
tada da terra firme doze léguas , e por fer 
por alli tudo limpo, e o>ento brando , an- 
daram toda a noite. Ao outro dia amanhe- 
ceram defronte de huma grande ferra , que 
eílá da banda do Abexim chamada Marzoan , 
que eílá affaílada do lugar de Charas finco- 
cnta e finco léguas , que tantas andaram em 
duas noites , e hum dia. Dalli foram nave- 
gando á viíla da terra do Abexim ; e eílç 

dia 3 



150 ÁSIA de Diogo de Couto 

dia, que foram féis do mez, andaram vin- 
te e oito léguas , e aos fete do mez vinte e 
finco , e aos oito vinte e oito. Eíta noite to- 
da navegaram, e andaram outras vinte e oi- 
to léguas. Aos nove dias fe lhe mudou o 
vento , e acharam huma baixia aífaíiada da 
terra firme oito léguas , e eíle dia , e noite 
andaram dnas , e meia. Aos dez dias foram 
tomar hum porro chamado Cor, muito de- 
ferto , aonde furgíram em fundo de oito bra- 
ças ; aquelíe dia andaram vinte e três léguas. 
Aos onze de Julho ao meio dia, tendo an- 
dado fete léguas , chegaram á Cidade de Zi- 
den , mui célebre em todo aquelle Eltreito , 
huma jornada e meia antes daCafa de Me- 
ca. Tem eíta Cidade hum muito bom por- 
to , de grande eicala ; mas não tem aguas 
fenão as de chuva , que recolhem em alter- 
nas. Hum pouco pela terra dentro eítá hu- 
ma muito celebrada Meíquita , em que os 
Mouros aíBrmam citar enterrada noíla mãi 
Eva. Os moradores daqui , e de toda aquel- 
la coita fam Ethyopios , comem peixe tor- 
rado ao Sol , e fam todos homens magros , 
e fufcos, e andam quaíi nus : aqui chegou 
a Armada com menos finco navios , que fe 
perderam por eíTes baixos. Deteve-fe nefte 
porto o Baxá quatro dias em fazer agua , e 
refrefco. Aos dezefeis de Julho fe fez a Ar- 
mada á vela , e andou de noite , e de dia 

, até 



Dec. V. Liv. III. Ca p. V. 25T 

.até entrar por antre humas Ilhas defpovoa- 
das chamadas Atfas , que eftam cento e íin- 
coenta léguas de Zidem , e por antre cilas an- 
daram três dias , e três noites. ( Aqui vem 
os peícadores da terra firme , e das outras 
Ilhas pefear pérolas, que "acham em quatro 
braças.) Aos vinte edous do mez foram to- 
mar a Ilha de Camarão, aonde a mór par- 
te dos navios de alto bordo eítavam já ef- 
perando. Aqui delembarcou o Baxá , e man- 
dou dar querena ás galés , e deípedio duas 
fuítas ligeiras , huma a EIRey de Zebit , e 
outra ao de Adem , pcra que lhe tiveíTem 
preftes refrefcos , e agua pêra toda a Arma- 
da , e ao Rey de Zebit, que o efperaíle no 
porto , e que lhe trouxeiTe os tributos que 
devia , e lhe vieíTe dar a obediência como 
vaíTailo do Grão Senhor. Aqui fez o Baxá 
alardo da Armada , e achou fetenta e íeis 
veias , por efta maneira : 

Seis galeaças , a que os Turcos chamam 
Maonas , dezefete galés baftardas , vinte e 
fete fotijs , nove furtas , dous galeões , féis 
náos , e outras nove embarcações grandes 
carregadas de falitre , pólvora, bifcouto , fa- 
rinha , pelouros , artilheria , e todas as mais 
coufas neceífarias pêra tamanha Armada. A- 
qui em Camarão efteve o Baxá dez dias , e 
aos trinta do mez fe fez á vela , e ao der- 
radeiro tendo andado vinte e oito léguas , 

che- 



252 ÁSIA de Diogo de Couro 

chegaram a huma Ilha chamada Tuicce , 
onde acharam a fufta , que foi com o reca- 
do a EiRey de Zebit , que mandava hum 
preíente aoBaxá, de efpadas , e punhaes la- 
vrados de ouro , e prata > com alguns rubiis 
turquefcos , e pérolas , algumas rodellas , e 
cofos mui ricos , e outras peças curiofas \ e 
lhe mandou dizer, que foíte fazer a jornada 
contra os Portuguezes , e que da volta o ef- 
peraria pêra tudo o que lhe mandava. Difto 
ficou o Baxá muito enfadado > mas guardou-o 
pêra leu tempo. A Armada foi leu cami- 
nho , e ao primeiro de Agofto foram furgir 
em duas braças junto da líha Bebelmandel , 
que eílá na garganta do Eítreito , a que os 
Mouros chamam dos Robõis , que quer di- 
zer dos Pilotos , porque aili os vam tomar 
os navios , que querem entrar pelo Ettreiro 
dentro. 

Aeftallha chegou Affonfo deAlboquer- 
qué , quando entrou aquelie Eftreito , e man- 
dou neila arvorar huma Cruz mui formoía y 
e lhe poz nome a Ilha da Vera Cruz y on- 
de com tão divino marco tomaram os Reys 
de Portugal ha tantos annos a poíTe da gar- 
ganta do mar Roxo ; permittirá o Senhor 
que o Príncipe D. Filippe, (depois de mui- 
tos , e largos annos da vida d'E!Rey feu pai 
do melrno nome,) quando vier herdar os 
Reynos de Portugal , mande y e ordene ; que 

ef- 



Dec. V. Liv. III. Cap. V. í£ 

cíle divino marco palie adiante , c que feja 
cile o que execute aquella tenção, que o fe- 
liciílimo Imperador Carlos V. feu Avô poz 
ao redor de lua divifa das columnas F/us 
ultra j e que foííe aquillo profecia do que 
cm feus dias lhe haja de acontecer, palian- 
do nelles aquella cohimna de nofla Redem- 
pção , até fe plantar nos montes de Suez , e 
Sinay , e que faça levantar fumptuofiííimos 
Templos na caia de abominação de Mafa- 
xnede , pêra que no lugar de tanta torpeza 
íeoffereçam aoAlriííimo Deos muitos íacri- 
ficios de louvor. 

E tornando á noíTa ordem. Ao outro dia , 
<jue foram dous deAgofto, fe fizeram á ve- 
la , e ao terceiro foram furgir em Adem , 
que eftá da boca do Eítreito pêra fora qua- 
renta léguas. EIRey tanto que a Armada íiir- 
gio, mandou viíitar o Baxá com muito re- 
frefeo , e peças de prefente. Eftes Enviados 
recebeo o Baxá mui bem, e lhe deo cabaias 
de veludo alto , e baixo , ^ os deípedio com 
humfalvo conduto do Turco, pêra que EI- 
Rey foííe feguramente ver-fe com elle. Di£ 
to fe mandou elle efeufar , ofFerecendo-lhe 
tudo o de que tiveíTc neceffidade , do que o 
Baxá ficou muito agaílado , e mandou logo. 
deftoldar as galés , e pôr toda a gente em 
-armas, e fazer preftes osJanizait>s pêra deA 
embarcarem çm terra ; mandando adiante o 



1^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Chachava a perfuadir a EIRey que fofie 
fèguramente vello. O Chachaya fe foi ver 
com EIRey , e depois de muitas práticas que 
com elle teve , o tomou fobre fua fé 5 e pa- 
lavra , com o que o fegurou 9 e foi a galé 
acompanhado de alguns dos feus principaes. 
O Baxá o recebeo com muitas honras ; ea- 
partando-fe com elle com grande fingimen- 
to , depois de praticarem algumas couías , o 
defpedio, dando-lhe duas cabaias mui ricas, 
lavradas de ouro , e a todos os feus cada 
hum fua de veludo. E chegando á proa da 
galé pêra fe embarcar, foi levado nos ares 
pelos Janizaros , e enforcado no penao da 
verga, e junto delle quatro dos feiís os prin- 
cipaes. E logo mandou o Baxá hum San- 
giaco com quinhentos Janizaros pêra ficarem 
em guarda daquella Cidade. 

Alguns Efcritores contao ifto de outra 
maneira , e dizem , que de Zebit mandara o 
Baxá algumas fuftas carregadas de Janizaros 
fingidos doentes , e que mandara pedir a EL- 
Rey de Adem que lhos agazalhafie, eman- 
daífe curar , e que nas padiolas que para if- 
fo mandou fazer , em que os defembarcá- 
ram , levaram fecretamente armas ; e que de- 
pois do Baxá chegado, vendo que EIRey o 
não queria ir viírtar, mandara defembarcar 
a gente em terra, e fazer final aos doentes 
que eítavam dentro, que já hiam enfaiados 

do 



Dec. V. Liv. III. Cap. V.kVI. 25:5: 

do que haviam de fazer , e que cin os de 
fora commettendo a Cidade , fe levantaram 
elles com íms armas , e fizeram grande des- 
truição , e que tomaram EIRey , ou fe lhes 
entregara, e o levaram aoBaxá, que o man- 
dou enforcar. O Veneziano, que eícreveo ef- 
ta jornada , a conta da maneira que a nós 
temos dito , e iflb mefmo os Mouros , que 
defta Armada ficaram em Cambaya , com 
quem nós communicámos eftas coufas , e di- 
zem q^ie nao houve taes enfermos. 

CAPITULO VI. 

Do que o Baxd fez em Adem , e do que lhe 
aconteceo até chegar a Dio : e de como 
hum galeão feu foi ter def garrado d c o fi- 
ta do Ma lavar , e foi tomado por Antó- 
nio de Scto-maior : e de como por elle fou- 
be o Governador Nuno da Cunha as no- 
vas da Armada do Turco : e dos foccor- 
ros que de Goa partiram pêra Dio. 

Í7 Nforcado o Rey de Adem, mandou o 
LBaxá a BeranBaxá com quinhentos Ja- 
nizaros , que fe fofíe metter na Cidade, o 
que elle fez fem contradicção alguma; eco- 
mo eftes homens fam cruéis , e foberbos , 
logo começaram a pôr os moradores a fao 
co , ufando deshumanidades efpantofas. Os 
•Turcos da Armada ouvindo a revolta na Ci- 

da- 



256 ÁSIA de Diogo de Couto 

dade , acudiram lá, e ajudaram a affolar , e 
roubar tudo , enchendo-fe todos de riquezas , 
• porque ellava aquella Cidade recheada de 
muitas fazendas ricas , por íèr aquelle por- 
to mui continuado de todos os mercadores 
do Oriente. Soleirnao Baxá , General da Ar- 
mada, como era cheio de cubica, e comfer 
de oitenta annos , e Eunuco , fem ter nin- 
guém pêra quem o haver miíler , não havia 
couta que o fartafTe. E íabendo das grandes 
riquezas da Cidade , não lhe fofírendo ília 
ambição, que outrem aslograíle fenão elle, 
defembarcou em terra com os da fua guar- 
da, e foi-fe pôr aporta da Cidade , que fa- 
lua pêra a banda do mar; e a todos os que 
íahiam por ella pêra fe recolherem ásgaíés 
com fuás prezas , os bufeava , e todo o ou- 
ro , prata , pérolas , pedraria , e dinheiro lhes 
tomou ; e affim lhes foi ter ás mãos toda a 
riqueza da Cidade, ficando odiado com to- 
dos os da Armada. Depois de farto fe re- 
colheo , deixando a Cidade mui bem pro- 
vida de tudo ; e querendo-fe partir , mandou 
tomar três náos de Calecut , que alli eíia- 
vam com fuás fazendas , a quem elle tinha 
dado feguro quando logo chegou, emetteo 
nellas gente , e munições , mantimentos ,e 
outras coufas , que na Cidade achou. E aos 
dezenove de Agofio fe fez á vela, efoi fe- 
gyindo fua derrota com tempo muito fVe-f- 

co, 



Dec. V* Liv. III. Caí. VI. 157 

co , e com algumas trovoadas , que lhe dei- 
apparelháram alguns navios, e fe apartaram 
íeis correndo por onde cada hum pode. Hu* 
ma galé quafí deftroçada foi tomar a encea- 
da de Jaquete na coíla dos Sanganes , aon*- 
de íiirgio > e maridáram a bateira a terra a 
bufear alguns mantimentos «, porque todos 03 
que levavam fe lançaram ao mar. 

Os naturaes dalli , que fam mui grandes 
ladrões > tomaram a bateira , e mataram to- 
dos os que nella hiam > e em algumas co- 
tias foram commetter a galé , rodeando-a por 
todas as partes , atirando-lhe muitos tiros > 
e pedradas , (em que fam táo déítros , corno 
os das Ilhas de Malhorca ) com que lhes ma- 
taram feííènta peílòas. EeíTes poucos que fi- 
caram , vendo-fe perdidos , largaram a amar- 
ra , e deram á vela , e por terem vento por 
fl, fe foram fahindo. 

Das outras velas que fe apartaram > foi 
hum galeão correndo tormenta quaíl perdi- 
do , e ferrou os Ilheos de Santa Maria na 
coíla de Canará , antre Baçanor , e Manga- 
lor , aonde havia dous , ou três dias que era 
chegado António de Soto-maior por Capi- 
tão mór de alguns navios , que tinha fahi- 
do de Cananor , aonde eílava por Capitão 
Fernande Anes de Soto-maior feu pai. E ás 
oito horas de pela manhã houve viíta daquel- 
h vela , que foi demandar P e reconheceo fer 
C*uto.Tam.lLP.L R de 



2)8 ÁSIA de Diogo de Cotrro 

de Rumes , e tomando as armas a commet- 
teo com grande alvoroço de todos os ièus , 
pêra o que não houve mifter pcrfuadillos , 
porque o defejo da honra foi o que os ani- 
mou. E cercando-o á roda , o bateram for- 
temente, dando-lhes grandes furriadas de ar- 
cabuzaria, de que lhe mataram muita gen- 
te ; e não lhe foffrendo o coração aquelle va- 
gar , puzeram-lhe as proas , abordando-a por 
todas as partes , começando-fe huma muito 
afpera , e rija batalha, mui bem pelejada de 
ambas as partes; e foi o negocio de feição, 
que affim afferrados lhes anoiteceo , determi- 
nando osnoílbs de a não largarem até a ren- 
derem , ou morrerem ; e aílim o fizeram , 
porque com morte da mor parte dos Tur- 
cos entraram o galeão já muito tarde , e de 
alguns , que acharam ainda vivos , foube An- 
tónio de Soto-maior ferem da companhia 
de Soleimao Baxá , que já devia de eftar em 
Dio. E informando-fe da Armada 3 gente , 
c mais coufas , os mandou logo ao Gover- 
nador em hum catur muito ligeiro pêra 
delles faber a verdade de tudo. Eíle navio 
chegou em poucos dias a Goa , e com as 
novas que levou , poz toda a Cidade em re- 
volta. 

O Governador depois de informado de 
tudo , foi-fe pôr na ribeira , e mandou ne- 
gociar a Armada, porque logo determinou 

de 



í 



Dèc. V. Liv. III. Cap. VI. aft 

de ir pelejar com os Rumes. Alguns Fidal- 
gos , e Cavalleiros tomaram o mefmo dia , 
que a nova chegou , catures ligeiros , e con- 
vocando foldados de fua obrigação , fahí- 
ram pela barra fora, e tomaram o caminho 
pêra Dio , e eítes foram três : Fernão de Mo- 
raes , Simão P.angel de Caítelío-branco , e 
António de Araújo , e Gafpar de Araújo , 
ambos irmãos de Paio Rodrigues de Araújo , 
que hiam juntos em hum catur. Cada navio 
deites levava vinte foldados , e os Cavallei- 
ros principaes que antre elles hiam , a que 
foubemos os nomes , foram : Lançarote Pe- 
reira , Rodrigo Homem , António Manhoz , 
Triítão da Silva , e Fernão Corrêa. Deites 
Capitães fó Fernão de Moraes fe defpedio 
do Governador, que efereveo por elle a An- 
tónio da Silveira , que eítiveffe de bom ani- 
mo , porque elle fe ficava preparando pêra 
o foccorrer. E affim logo defpedio recado 
a Martim AíFonfo de Soufa , que invernou 
em Cochim , pêra que fe apreílafle com to- 
da fua Armada , porque ficava efperando por 
elle pêra ir bufear os Rumes. E efereveo 
á Cidade as novas que tinha , pedindo-lhe o 
ajudaflèm com toda a gente , e navios que 
pudeflem , reprefentando-lhe a neceílidade em 
que a fortaleza de Dio eítava. 

E tornando a continuar com Soleimao 
Baxá ; foi feguindo fua derrota ; correndo 
R ii © 



z6o ÁSIA de Diogo dé Coittg 

o mefmo tempo com bem de trabalho , ú 
a cabo de muitos dias foi haver vifta da ter- 
ra na paragem deMangalor na coita deDio. 
E correndo de longo delia aos três de Se- 
tembro , foi vifta a Armada de Miguel Vaz > 
que a andava por alli vigiando } e tanto que 
a vio , notou muito devagar o número , e de- 
pois de fe certificar deo á vela pêra Dio. Da 
nofla fortaleza foi vifto 9 e logo entenderam 
que vira a Armada dos Rumes , que os Mou- 
ros da Cidade começaram a enxergar de íi~ 
ma das Mefquitas , e os nofíòs viram acu- 
dir pêra fora toda a gente da Cidade pêra 
a verem. Miguel Vaz chegou á fortaleza > 
e deo ao Capitão as novas da Armada , e 
não fazendo aqui) lo abalo algum em feu ani- 
mo , logo alli efcreveo ao Governador hu- 
ma breve carta , em que fe reportava a Mi- 
guel Vaz 3 e o defpedio com ella , encom- 
mendando-lhe que com a mor brevidade que 
pudeffe , levafle aquellas novas ao Governa- 
dor. Miguel Vaz fe fahio logo pela barra 
fora , e como era homem animofo , quiz-fe 
fegurar de novo na cópia dos navios pêra 
failar pontual , pois o Capitão fe reportava 
na carta a elle. E tomando o remo na mão , 
íoi-fe pôr ao mar pordefcubrir a Armada, 
que hia delongo da terra á vela, bufcando 
o poufo pêra furgir , e efteve muito á fua 
vontade 3 notando-à ; e contando as velas. Os 

Tur- 



Déc. V. Liv. III. Cap. VI. 261 

Turcos enxergaram aquelle navio ao mar 
delies , efãhindo-lhe doze galés ligeiras, o 
foram demandar. Miguel Vaz deo á vela por 
fer o vento bom , e foi-fe engolfando : as 
galés mettêram o baílardo , e tomaram o re- 
mo , indo-o feguindo muito apreíTadamente , 
e entrando-o muito. Ifto tudo fe via mui bem 
da fortaleza , e houveram que o navio não 
poderia efcapar , o que em eítremo fentiam , 
tendo-o por perda notável fetalfofíe, e por 
ruim prognoílico em principio do cerco que 
efperavam. Miguel Vaz , que era homem 
muito cfperto , e bom Cavalleiro , foi com 
grande fegurança animando os marinheiros , 
e lançando-lhes dinheiro a todos pêra traba- 
lharem com mais vontade , e elles aílim o 
fizeram de feição , aue íè desfaziam. 

E como Deos noííb Senhor tinha os olhos 
naquella fortaleza , e não a queria defampa- 
rar , permittio que depois de muitas horas 
que o íeguiam , no tempo em que já cuida- 
vam que o tinham nas mãos , nefle lhe en- 
calmaíTe o vento , com o que o navio que 
era pequeno teve tempo , e mais occafiao pê- 
ra ufar do remo muito mais defembaraça- 
damente , e aílim fe foi fahindo das galés 
muito á fua vontade. Os Turcos magoados 
de aílim lhe efcapar das mãos , lhe atiraram 
com algumas efperas , cujos pelouros deram 
por derredor da fufta > que fe hia efcoando 

com 



262 ÁSIA de Diogo de Couto 

com vento galerno , e com o remo muito 
bem. Os Turcos tornaram- fe pêra a Arma- 
da , que já eftava furta defronte das Mef- 
quitas grandes. Miguel Vaz vendo-fe já def- 
apreífado, deo folga aos marinheiros, ani- 
mando-os , e louvando-os , e dando-lhes do 
feu dinheiro , e aífim o deixaremos ir feu 
caminho pêra continuarmos com as coufas 
de Dio. 

Alucan , eCogeÇofar, tanto que viram 
a Armada furta , embarcáram-fe cada hum 
em feu navio, e foram por fora da Ilha da 
banda do Ponente a vilitar o Baxá , que os 
recebeo com muitas honras , e delles foube 
o eíiado em que a noífa fortaleza eílava , fa* 
cilitando-lhe fua tomada , pedindo-lhe arti- 
lhem , e munições , e que fe deixaífe eftar , 
e defcançaffe, que elles lha entregariam. O 
Baxá fcftejou muito aquellas efperanças , dan- 
do-lhes os agradecimentos da vontade , e 
defejo que moílravam ao fervijo do Grão 
Senhor, 



CA- 



Dec. V, Liv. III. 263 

CAPITULO VIL 

De como os Jamzaros defembarcáram em 
terra , e Jaqueãram a Cidade : e da vif 
ta que deram ánojfa fortaleza : e de hum 
efpantofo cometa que fe vio no Ceo : e de 
como a Armada efleve perdida naquelle 
floufo , e fe paffou a MadrefavaL 

EM quanto os Capitães cPEiRey de Cam- 
baya íe detiveram na galé , fallando-fe 
os Janizaros huns com os outros , tomaram 
as bateiras , e outras embarcações , e defem- 
barcáram em terra por vezes fetecemos del- 
les , e foram á Cidade, ecom a defordem , 
e braveza com que coftumam fazer fuás ceu- 
fas , a entraram 5 e metteram a facco > rou- 
bando , e efcalando o melhor delia , e to- 
mando as mulheres , e filhas aos naruraes , 
deshonrando-as , e tratando-as mal , não lhes 
efeapando os apofentos do Alucan , que tam- 
bém foram eftragados , Jevando-lhc toda fua 
recamara de ouro, prata, arreios, etudo o 
mais de valia , que mandaram pêra as galés. 
E porque vinham tão arrogantes , que cui- 
davam que elles fós bailavam pêra tomar a 
notTa fortaleza , a foram commetter , pon- 
do-fe derredor dos muros ás efpingardadas, 
e ás frechadas ; e commettendo as portas , 
cuidaram que aslevaíTem nas mãos, mas em 

bre^ 



^6^ ASIÀ de Diogo deCouto 

breve efpaço foram defenganados , porque os 
noífos das primeiras furriadas lhes derriba-^ 
ram íincoenta logo mortos , e lhes feriram 
mais de cento, do que ficaram tão cfcanda- 
lizados , e amedrontados , que com a fober- 
ba perdida fe foram recolhendo , cuftando 
porém efta breve vifta as vidas de féis dos 
noíTos , e vinte feridos. O Baxá fem faber o 
que hia na Cidade defpedio Alucan , e Co- 
ge Çofar. 

Eftes chegaram á Cidade , que a acha* 
ram poíla em pranto , e então fouberam o 
deítroço , que os Janizaros andaram por el- 
la fazendo até chegarem a fuás cafas , onde 
acharam tudo efcalado , e roubado. Alucan 
entendendo que peior haviam elles de ficar 
da vinda dos Rumes, que os Portuguezes, 
(porque bem lábia delles quão bem cof- 
tumavam a defender fuás coufas , e que por 
fim do negocio havia o Baxá de fe querer 
fatisfazer nelles , ) não querendo aguardar ai- 
li mais, pafTou-fe á outra banda , e tomou 
logo o caminho de Amadabá , levando a 
mor parte da fua gente , indo tão efcanda- 
lizado , que por toda a parte por onde paf* 
fava hia mettendo em ódio com os Turcos; 
c o mefmo fez com EIRey , a quem deo 
conta do que paliava , affirmando-lhe , que 
csPortuguezes daquella feita lhe haviam do 
defender feu Reyno 3 porque fe elles não efr 

ti- 



Dec. V. Liv. III. Caí." VIL 26? 

tiveram naquella Ilha , fem dúvida fe haviam 
de fazer fenhores delia , e dalli pouco , e 
pouco de todo o Reyno do Guzarate. Mas 
que elle fabia mui bem , que afílm haviam 
de ficar efcandalizados das mãos dos Portu- 
guezes , que quando bem efcapafíem , feria 
deíiroçados , aiTrontados 3 e com a foberba 
perdida. 

O mefmo dia que o Baxá furgio , che- 
gou a elle huma fuíta , que EIRey de Cam- 
baya lhe mandou cheia de refrefco , porque 
em tendo as primeiras novas , a defpedio pê- 
ra o ir tomar aonde quer que o achaíTe ; tu- 
do ifto paliou efte dia. 

E tanto que anoiteceo , ás dez horas vi- 
ram todos ir correndo pelo ar hum come- 
ta , á maneira de trave de fogo , que foi da 
banda da Cidade até parar fobre a Armada 
dos Turcos , aonde fe eíleve desfazendo em 
labaredas. Foi ifto vifto de todos com gerai 
efpanto , mas com difFerente agouro ; porque 
os noíTos o tiveram por final de lhes Deos 
fazer muitas mercês, e os Rumes anotaram 
a muito ruim prodígio; e o Baxá que defua 
natureza era acovardado , ficou com receios , 
edefconfianças. A efta forte de cometas (fe- 
gundo Plinio , e outros Authores ) chamam 
os Gregos Docci , que quer dizer , trave , 
pelo parecer que com ella tem. Outro fe-» 
iaelhantc a eíte fe vio também desfazer fo* 

bre 



?,66 ÁSIA de Diogo de Coyto 

fare a Armada dos Lacedemonios , quando 
foram vencidos no mar , e perderam o Im- 
pério de Grécia. 

E tornando á noíTa hiftoria , tão efcan- 
dalizados ficaram os Gentios da Cidade, das 
cruezas, edeshumanidades dos Turcos, que 
muitos delles fe paffáram á outra banda , e 
outros fe recolheram debaixo dos muros da 
noíTa fortaleza. Difto foi avifado o Baxá , e 
defpedio ao outro dia hum Capitão com o 
feu Chachaya com dous mil homens pêra 
quietarem aquella gente , porque de todo fe 
não defpejaíTe a Cidade , no que fe fez pou- 
co , porque ficaram todos tão amedronta- 
dos , que fe não quizeram mais fiar dos Tur- 
cos , e poucos , e poucos fe paílaram á ou- 
tra banda , ficando a Cidade quaíi deferta. 

António da Silveira não eílava defcuida- 
do na fortaleza, antes de dia, e de noite, 
fem tomar repoufo , tratava de fe fortificar, 
e repairar o melhor que podia , mandando 
prover o baluarte da outra banda de todas 
as munições , e couías que lhe pareceram ne- 
ceífarias , porque receou que depois que os 
Turcos defembarcaflem , o não pudefie fa- 
2er ; e mandou alevantar a ponte , que ficava 
fobre a cava, e tapar as portas de pedra, e 
cal. O mefmo mandou fazer no baluarte de 
Gogalá , porque tiveííem menos coufas que 
guardar. E mandou reformar o baluarte do 

mar , 



Dec. V. Lit. III. Cap. VIL 267 

mar , de que era Capitão António de Soufa 
Coutinho , a quem deo quarenta Toldados ; 
e de forte proveo tudo , e em tudo , que 
quando os Turcos defembarcáram , já não 
havia que fazer. 

O Baxá eíleve furto defronte da Mefqui- 
ta até os fete dias do mez , em que lhe deo 
huma tormenta do Sul tão brava , que eí- 
teve a Armada de todo perdida. Os noíTos y 
que da fortaleza viam a braveza do mar , e 
o trabalho em que citavam, pediam aDeos 
com grandes orações , que crefceíle a tor- 
menta , e que os Turcos pereceífem nella ; 
e houve peííòas , que fizeram grandes votos 
pêra iífo. Os batéis dos galeões , que hiam 
da terra carregados de gente > foram comidos 
das ondas , fem efcapar huma fó peflba ; e em 
toda a Armada creícia o trabalho , porquç 
também o tempo era cada vez maior. z\s ga- 
lés defemmafteárao , e recolheram dentro a 
appellaçao , tendo já todas as poftiças que- 
bradas ? e a mòr parte delias os efporões , 
e eftavam em eílado , que não apparecia del- 
ias mais que os cafcos. Os galeões perde- 
ram algumas ancoras , e alijarão a mor par- 
te do que traziam : durou a tormenta vinte 
e quatro horas. E tanto que o vento acal- 
mou , receando-fe o Baxá de outro perigo , 
(porque naquelle fe vio de todo perdido , ) 
tevou-fe com toda a Armada • e foi-fe pê- 
ra 



268 ASIÂ de Diogo de Couto 

ra Madrafaval , que he pouco mais de fin- 
co léguas de Dio , pêra dentro da enceada , 
pêra alliefpalmar , e concertar as galés, que 
ficaram de todo deftroçadas , e á vela foi paf- 
fando á viíla da fortaleza 9 mas afFaftado por 
fe recear da artilheria , e a foi falvando por 
ordem. António da Silveira lhes mandou re- 
fponder , deitando-lhe dentro nas galés al- 
guns pelouros groífos , pêra que viflem o 
com que os haviam de hofpedar. Chegados 
a Madrefaval , ao entrar do porto fe lhe per- 
deram quatro náos de vitualhas. OBaxá def- 
ernbarcou em terra , e mandou armar ten- 
das , e deípejar as galés pêra fe concerta- 
rem. 

Alli foi ter com elle Coge Çofar , e tra- 
taram ambos o modo que fe havia de ter 
no fitiar da nofla fortaleza , e aíFentáram f 
que , porque a Armada não podia entrar 
em Dio , pelo rifco que corria da artilheria 
da fortaleza, e baluarte do mar, que man- 
daíTem cercar o Caftello de Gogalá , e que 
depois de tomado fe paflafTe por alli toda a 
gente, artilheria , e petrechos neceífarios pê- 
ra o cerco. Com eíta refolução mandou o 
Baxá defembarcar a artilheria , que eftava nas 
quatro Máonas , (a que nós chamamos Ga- 
leaças , ) que eram três bafalifcos , féis efpe- 
ras, que encarregou aBeranBaxá Janizaro , 
com mil e quinhentos Turcos pêra ir em 

com- 



Dec.V.Liv. III. Caí>. VIL e VIII. %6f 

companhia de Coge Çofar a cercar , e ba- 
ter o Caílello de Gogalá , em quanto clle 
mandava reformar a Armada. Eíte mefmo 
dia chegaram alJi huma náo , e huma galé 
das que defapparecêram no caminho , e ao 
entrar da barra deram no banco, em que fe 
perdeo a náo , que hia carregada de pólvo- 
ra , munições , e outras vitualhas > e a galé 
fe tirou , e concertou. 

CAPITULO VIII. 

De como ElRey D. João tratou de viandar 
d índia o Infante D. Luiz [eu irmão , pe- 
las novas que teve de Confiantinopla , da 
Armada que o Turco mandava : e das r.e~ , 
voltas que houve no Reyno y fobre ElRey 
querer obrigar os Morgados ao acompa- 
nharem : e de como o Infante defijlio da 
jornada , e foi eleito D. Garcia de No- 
ronha por Vifo-Rey : e da Armada , que 
levou no anno de 1538 ; e de como ElRey 
houve Bulias do Rapa pêra fazer Bi [pa- 
do a Igreja de Sarna Catharina de Goa y 
e do primeiro Bifpo que fe f agrou. 

DEpois de ElRey D. João defpedir em 
Outubro a Armada que diílemos , por 
ter novas de galés 5 lhe chegou recado cer- 
to da cópia da Armada , que o Turco man- 
dava preparar em Suez 7 e dos grandes aper- 
. ; cer 



470 ÁSIA de Diogo de Couto 

cebimentos , que em Conílantinopla fe faziam 
pêra aquclla jornada. Iílo metteo grande al- 
voroço em todo o Reyno , e aJgum temor 
em EIRey, que nefte tempo eítava em Évo- 
ra , onde havia finco, ou féis annos quere- 
fidia , por eílar affeiçoado á terra , e fe achar 
nella bem , pelo que fe não fabia fahir del- 
ia , de que todo o Reyno citava efcandali- 
zado pelos muitos gados , que os Fidalgos 
faziam cm feguirem a Corte. A's novas das 
galés , que correram por tod© o Reyno , 
acudiram muitos Fidalgos a fe offerecerem 
pera aquella jornada , a que EIRey deter- 
minava de acudir com mui groífo poder , 
porque naquelle negocio eílava perder-fe , 
ou ganhar-fe a índia. E pondo eftas coufas 
em confelho , houve alguns de parecer , que 
mandafle o Infante D. Luiz feu irmão ; por- 
que tanto que os homens o viffem embar- 
car, todos haviam de folgar de o acompa- 
nhar. Outros dizem, que o mefmo Infante 
fc offereceo ; como quer que foffe , EIRey 
o declarou pera a índia com quarenta náos ^ 
e oito mil homens. Com iílo todos os Fi- 
dalgos defuaCaíà, que tinhão poífe, man- 
daram com muita preíla tomar náos porVil- 
la do Conde , pelo Porto , por Aveiro , e 
por outros lugares , começando-fe a fazer 
preftes , com o que fe metteo todo o Rey- 
no em revolta. EIRey mandou chamar mui- 
tos 



Dec. V- Liv. III. Cap. VIII. 271 

tos Fidalgos velhos , e ricos pêra irem com 
o Infante leu Irmão , e quiz obrigar os Mor- 
gados ao acompanharem , como coftumava 
a fazer aos foccorros de Africa. A ifto acu- 
diram os pais aggravando-fe d^ElRey. Dos 
primeiros chamados foi D. Pedro Deça , de 
Santos 5 que fe efcufou com dizer , que cl- 
le não poíTuia coufa alguma da Coroa , e 
fe alguma coufa tinha, que bem lha podiam 
tirar. EIRey efcandalizado o mandou rifcar 
dos feus livros. Pela mefma maneira fe cfc 
cufáram outros , ainda que mais fuavemente. 
E todavia iníiftindo EIRey em mandar os 
Morgados j aggravaram feus pais pêra a Me- 
za da Confciencia , aonde allegáram de fua 
juítiça. Era Preíidente delia o Bifpo de Co- 
imbra D. Fr. João Soares , Religiofo da Or- 
dem de Santo Agoftinho , que fora Meftre 
do Príncipe feu filho , que com os Deputa- 
dos pronunciou , que EIRey não podia obri- 
gar os Morgados a ir á índia ; porque co- 
mo aquella terra fora defcuberta pêra com- 
mercio , e trato , não tinham os Morgados 
obrigação de acudir a ella ; e que fó aos lu* 
gares de Africa , por ferem fronteiros > os po- 
deria obrigar. Vendo EIRey aquillo , deíiftio 
da ida do Infante , ( poíto que diziam os 
praguentos, que a Rainha Dona Catharina , 
e o Conde da Caftanheira foram a caufa 
principal de fua ficada ; ) allegando inconve- 

ni- 



zyz ÁSIA dê Díôgo de Couto 

mentes de grandes gados , e defpezas , que 
oReyno não podia fupprir, e do titulo que 
fe havia de dar ao Infante : e que aquillo 
era quaíi fcparar a índia da jurdiçao do Rey- 
no , com outros que nós fendo moço ouvi- 
mos na Guarda-roupa do Infante , aonde nos 
creámos de idade de dez annos até elle fa- 
lecer. 

Em fim , defiílindo EIRey deíle negocio ^ 
tratou em leu Confelho o que faria no foc- 
corro , e provimento das coufas da índia , 
e que Armada mandaria ; e aflentou-fe , que 
foíTem quatro mil homens em doze náos , e 
que proveíTe a índia de hum Fidalgo velho 
com titulo de Vifo-Rey , porque folgaíTem 
muitos Fidalgos , que defejavam de fe achar 
no negocio das galés , de o acompanhar; o 
que pela ventura não quereriam fazer a ne- 
nhum Capitão mor. E que com os Turcos 
ouvirem , que era chegada á índia huma Ar- 
mada groíia , com hum homem intitulado 
por Vifo-Rey , caufaria nelles o efpanto 9 
que fohia caufar aos inimigos do povo Ro- 
mano , quando fe elegia Di&ador. E que 
bem podia fer , que ÍÕ eíta fama os fizefle 
alevantar do cerco , que tiveífem podo em 
qualquer das fortalezas da índia. Mo pare- 
ceo bem a EIRey ; e lançando os olhos a 
todos os Fidalgos do Reyno , fatisfez-fe mui- 
to de D. Garcia de Noronha > ( affim pelas 

par- 



Dec. V. Liv. III. Ca?. VIII. 273 

partes , e qualidades de íua peíToa , e pelas 
moítras que tinha dado de leu faber , e es- 
forço em todas as coufas em que fe na In-» 
dia achou em companhia de Affoníb de Al- 
ho querque feu tio , como pela grande pef- 
foa que tinha , ) porque era hum dos maio- 
res homens do Reyno , e por fer muito cheio 
de cans , que lempre Iam muito refpeitadas ; 
porque naquelle tempo era homem perto de 
fetenta annos , que fó efta era a taxa que to- 
dos lhe punhao , o que a EIRey pareceo me- 
lhor que tudo , porque fó pertendeo bufcar 
homem , que foubeífe mandar , e a que to- 
dos folgaíleni de obedecer , porque pêra pe- 
lejar todos os Portuguezes o faziam muito 
bem. 

Triítão da Cunha , pai do Governador 
Nuno da Cunha , que ainda vivia , vendo 
que EIRey defiília da ida do Infante , e que 
elegia outro homem por Vifo-Rey da índia , 
o íentio muito, e aggravou-fe a EIRey de 
fatisfazer a feu filho tão mal , tantos fervi- 
cos como lhe tinha feito , em perto de dez 
annos que na índia o fervia ; e que quem 
lhe tinha dado as fortalezas de D10 , e Ba- 
çaim , também lhe dera as galés dos Rumes, 
fe paíTaífem á índia , porque elle confiava 
de feu filho que eftaria já no mar com hum 
muito grofíb poder pêra os ir bufcar; eque 
não parecia juftiça , que a Armada que elle 
Couto. Tom. JL P. L S com 



274 ÁSIA de Diogo de Couto 

com tanto íiior havia de ter negociada , fof- 
fem outrem a tomar-lha , e roubar-lhe com 
ella a honra , que efperava da vitoria dos 
Turcos ; e mais quando feu filho o não ti- 
nha defervido em coufa alguma. EIRey , di- 
ziam , que defejára bem dclàtisfazer aosag- 
gravos deTriflão da Cunha; masjáquenao 
podia, confolou-o , e quietou-o com pala- 
vras fatisfatorias á honra de leu filho , co- 
mo Príncipe muito Chriífao , e que deíejava 
de não aggravar feus vaílallos. E aílim foi 
dando grande preiTa á Armada , com que 
correo o Conde de Caftanheira , que era Vea- 
dçv da Fazenda. 

Vendo EIRey que já tinha provido a ín- 
dia de novo Capitão no temporal , o quiz 
também fazer de outro no efpiritual , pela 
neceflidade que na índia havia delle , pelo 
muito que crefciam as coufas de nofla Re- 
ligião Chriftã , porque o Bifpo D. Fernan- 
do Vaqueiro , da Ordem de S. Francifco ? 
que EIRey mandara á índia o anno de trin- 
ta e dous na Armada do Doutor Pêro Vaz 
do Amaral , ( como na quarta Década fica 
dito no Liv. VIII. Cap. II. ) falecera o anno 
de trinta e quatro , eílando em Ormuz , aon- 
de jaz enterrado na Igreja da fortaleza , na 
parede da Capella mor , aonde tem huma 
pedra com duas vaccas , que eram fuás ar- 
mas. E porque a índia eftaya em neceflida- 
de 



Dec. V. Liv. III. Cap. VIII. 27? 

de de Prelado, quiz prover niíTò , e fuppli^ 
cou já .0 anno paliado ao Summo Pontífice 
Paulo III , que lhe concedeíTe fazer Arce- 
bifpado a Sé do Funchal , e Bifpados as Igre- 
jas S* Salvador do Cabo Verde , Sant-Iago 
da Ilha de S. Thomé , e Santa Catharina de 
Goa 3 mandando-lhe confentimento pêra que 
lhes pudeífe applicar de fuás rendas quinhen- 
tos cruzados a cadaBifpo pêra as fuás me- 
zas , e pêra as ordinárias das Dignidades da 
Igreja de Goa , com que. fó continuaremos. 
Cem cruzados ao Ada ião , quarenta ao 
Arcediago , e outros tantos ao Chantre , The- 
foureiro, Meíbe Efcola , e trinta cruzados 
a cada Cónego , que haviam de fer doze : 
o que tudo lhe concedeo o Summo Pontí- 
fice per luas Bulias Apofiolicas , com privi- 
legio pêra os Reys de Portugal poderem 
aprefentar os Arcebiípos , Bifpos , e todas 
as mais Dignidades , Vigairarias , Benefícios , 
como Meílre que era da Ordem da Caval- 
leria de nofib Senhor Jefus Chriílo. E que os 
limites da Diocefe de Goa começaííem , e 
fe acabaflem , e foííem inHituidos , e julga- 
dos defdo Cabo de Boa Efperança are á ín- 
dia inclufivè , e da índia até á China com 
todos os lugares aílentados , aílírn nas ter- 
ras firmes , como nas Ilhas achadas , e por 
achar , em que os Reys de Portugal tivef- 
fem fortalezas ? e moraíTem Portuguezes , e 
S ii Chri- 



276 ÁSIA de Diogo de Couto 

Chriftãos , annexando aífím efte Bifpado , co- 
mo os de S. Thomé , Cabo Verde , ao di- 
reito da Metropolitana do Funchal , como 
fe vê mais largamente nas Bulias , que an- 
dam no Tombo da Sé de Goa , aonde nós 
vimos ifto. 

EIReycom eílas Bulias nomeou peraBif- 
po de Goa hum D. Franciíco de Mello > ho- 
mem Fidalgo , que foi fagrado em Lisboa 
com grandes ceremonias. E por falecer ef- 
íe verão em que andamos , fupplicou EIRey 
novos Breves , por cuja virtude nomeou pê- 
ra Bifpo de Goa hum Frade da Ordem do 
Glorioíò Padre S. Francifco , chamado Dom 
João de Alboquerque , Caftclhano , Varão 
Apoftolico , e virtuofo , da Província da Pie- 
dade em Portugal , a quem por virtude de 
outro Breve lhe deo EIRey por Coadjutor , 
ç futuro íucceflòr outro Religiofo da mefma 
Ordem , chamado Fr. Vicente , homem vir- 
tuofo , e muito bom Letrado , a quem man- 
dou fazer preíles , e lhes deo defpezas , c 
todas as couías neceíFarias pêra fua embar- 
cação. 

E porque pêra a cópia da gente , que 
EIRey queria mandar, hia faltando muita, 
paííou huma Provisão , e perdão geral , em 
que havia por perdoados todos os cafos, (ti- 
rando o da Fé , e léfa Mageílade ,) e to- 
dos os degredos , ou por tempo limitado, 

ou 



De c. V. Liv. III. Cap. VIII. 277 

ou pêra fempre , a todo o homem , com tan- 
to que fe embarcaííe naquella Armada pê- 
ra a índia. Efta Provisão fe publicou por to- 
do o Reyno , a que acudiram muitos homens 
a fe regiítarem ; e porque ainda com iífo não 
enchia a cópia , mandou EIRey por todas 
as cadêas , e prizóes do Reyno , que todos 
os homens , que eftiveílem prezos , degrada- 
dos , e ainda ientenciados á morte, felevaf- 
fem ásprizoes de Lisboa , pêra dalli fe em- 
barcarem pêra a índia , commutando aos fcn- 
tenciados a morre empena de degredo per- 
pétuo pêra aquellas partes; e aos de degre- 
dos perpétuos em três annos; eaos de três > 
e quatro, que lhos perdoava , embarcando- 
fe pêra 3 índia, 

Antre muitos que acudiram a efte Edi- 
fto geral , foi hum Fidalgo chamado Ma- 
noel de Mendoça , que eftava degradado por 
nove annos pêra os lugares de Africa , por 
matar hum homem , de que EIRey eftava 
mui efcandalizado. Efte acudio á Corte com 
dous irmãos fcus , João de Mendoça , e Dio- 
go de Mendoça , offerecendo-fe a EIRey pê- 
ra aquella jornada , o que elie eftimou mui- 
to. E pedindo-lhe o Manoel de Mendoça 
perdão do feu degredo , não quiz EIRey , 
mas diíle-lhe , que pois todos três hiam á 
índia, que ferepartifTe porelles o tempo do 
degredo , e que andando todos três na ín- 
dia 



2j$ ÁSIA de Diogo de Couto 

dia três annos i lhe havia por fuppridos os 
nove , e que lhes faria mercês , pelo que 
lhes beijaram a mão > e íe fizeram preftes. 

O Conde da Caftanheira deo tai preiTa 
á Armada , que meado Março a fez á ve- 
la , e EIRey a foi lançar fora. Era efta Ar- 
mada de onze náos , em que hiam de van- 
tagem de quatro mil homens , muito dinhei- 
ro , armas , munições , artilheria , e todas as 
mais coufas necelTarias , e muitos , e muito 
honrados Fidalgos contentes , e fatisfeitos , 
porque a todos fez EIRey mercês de dinhei- 
ro , fortalezas , cargos , ordenados , e outros 
defpachos , porque entendiar bem quão ne- 
ceílario era homens contentes pêra a guerra, 
Os Capitães, que neíla jornada hiam nas 
náos , eram Bernaldim da Silveira o Drago , 
que hia delpachado com a fortaleza de Dio , 
(com quem íe embarcaram todos os homi- 
ziados , e degradados , e todos os mais con- 
demnados á morte , que íe tiraram das cadêas 
do Reyno , ) João de Sepúlveda , filho de 
Diogo de Sepúlveda , Fidalgo Caílelhano, 
que em Portugal caiou com huma mulher Fi- 
dalga , doappellido dosSoufas, da Cafa do 
Prado. Efte Diogo de Sepúlveda havia já li- 
do Capitão deÇofaía, e da mefma fortale- 
za também o filho hia provido. D. João de 
Caílro , filho de D. Álvaro de Caítro , Go- 
vernador da Caía do Civel , a quem EIRey 

da- 



Dec. V. Liv. III. Cap. VIII. 279 

dava a fortaleza de Ormuz , que elle não 
quiz acceitar, dizendo-ihe , que lha não ti- 
nha merecido , que como lha merecefíe , en- 
tão lhe faria mercê delia, o queElRey ef- 
timou muito , e lhe fez mercê de quatrocen- 
tos mil reis de tença em cada hum anno , 
em quanto andafle na índia ; D. Francifcò 
de Menezes , filho de D. Henrique de Me- 
nezes , irmão do Marquez de Villa-Real. Eí- 
te D. Francifcò era hum dos melhores , e 
mais bem acondicionados Fidalgos , e das 
melhores partes que havia em feu tempo , 
ou ao menos nenhum lhe precedia em cou- 
fa alguma , hia defpachado com a fortale- 
za de Baçaim ; D, Chriftovão da Gama , que 
hia provido da fortaleza de Malaca , era fi- 
lho de D. Vafco da Gama, o primeiro Con- 
de Almirante ; D. Garcia deCaftro, quele- 
vava a de Goa; Luiz Falcão a de Baçaim; 
Ruy Lourenço de Távora a mefma fortale- 
za; D. João Deça a de Goa ; Francifcò Pe- 
reira de Barredo , que já tinha íido Capitão 
de Chaul. 

Os Fidalgos aventureiros que fe embar- # 
cáram neíla Armada , os de que pudemos fa- 
ber os nomes , iam os feguintes : D. Álvaro , 
e D. Bernardo de Noronha, filhos do Vifo- 
Rey D. Garcia de Noronha ; D. Martinho 
de Soufa ? filho de D.Jorge de Soufa ; Dom 
João Manoel, de alcunha oAlabaílro, por 

fer 



280 ÁSIA de Diogo de Coirro 

fer muito gentil-homem , filho de D. Nuno 
Manoel , e irmão de D. Fradique Manoel, 
Efte D. João tinha mais de hum conto de 
renda , e por hum defgofto que teve fe em- 
barcou contra vontade dos irmãos , e paren- 
tes ; D. Luiz de Taíde , que depois foi Con- 
de de Atougia ; D. António de Noronha Ca- 
tarraz ; Fernão da Silva, Commendador , e 
Alcaide mor deAlpalhão; D.Diogo de Al- 
meida , nlho do Contador mor , a que de- 
pois na índia chamaram, o Alfenim , por fer 
muito mimofo , e limpo defua peííoa , efoi 
fempre tamanho na índia , e lhe tiveram to- 
dos tanto refpeito , que em fua aufencia o 
nomeavam díodos os Fidalgos pelo Senhor 
D. Diogo ; D. João Mafcarenhas ; Francif- 
co Lopes ; e Pêro Lopes de Souía , ambos 
irmãos ; D.João Henriques; D. Duarte De- 
ça ; os três irmãos Manoel , João , e Diogo 
de Mendoça ; D. Jorge de Menezes , que de- 
pois fe chamou Baroche , e outros Fidalgos , 
e Cavalleiros. E por Veador da Fazenda ge- 
rai da índia , o Doutor Fernão Rodrigues 
de Caftello-branco , que lá tinha já lido Pro- 
vedor mor dos Defuntos, e Ouvidor Geral , 
que fez depois em Lisboa humas cafas jun- 
to de Noíía Senhora da Graça , que agora 
fam do Commendador mor D.Diniz deA- 
lencaítro. 

CA- 



Dec. V. Liv. XI. 281 

CAPITULO IX. 

Do que aconteceo na jornada a eft a Arma- 
da até chegar a Moçambique : e de como 
Je perdeo o galeão de Remaldim da Sil- 
veira o Drago : e de como da lli dejpedio 
o Vifo-Rey Henrique de Soufa Chicborro 
com cartas a EIRey : e de como o Vifo- 
Rey chegou a Goa, e das coufas em que 
logo proveo. 

D Ada a Armada á vela , foi feguindo Tua 
derrota , não lhe faltando a variedade , 
e inconftancia dos tempos , que foem haver 
em tão comprida viagem , em que defappa- 
receo anáo deBernaldim da Silveira o Dra- 
go , em que hiam todos os homiziados , que 
o tempo comeo , o que pareceo permifsão 
Divina , de toda efta Armada não fe perder 
outra fenão ella , porque como levava mui- 
tos homens condemnados á morte porcafos 
graves , e feios , parece que quiz Deos nof- 
ío Senhor fazer juftiça deiles , já que em Por- 
tugal fe não fizera , porque não fe houve por 
fervido ainda nefte negocio , que era de fua 
honra , ( pois hiam a pelejar por fua Santa 
Fé contra feus inimigos , ) de homens tão 
abomináveis , e cruéis como alguns que alli 
hiam. Todas as mais náos chegaram a Mo- 
çambique y e o Viíb-R.ey foi muito feíleja- 

do 



282 ÁSIA de Diogo de Couto 

do de Aleixos deSoufaChichorro , que alli 
eftava por Capitão, mandando agazalhar to- 
dos os doentes das náos , que eram muitos , 
em caias , e ramadas , que pêra iílb mandou 
ordenar , curando a todos , e dando-lhes to- 
do o neceífario do feu dinheiro, como fez 
aos doentes de todas as náos , que em feu 
tempo alli foram ter , porque em todos os 
feus três annos o mor emprego que fez foi 
neftas , e outras obras de caridade, e miíe- 
ricordia , cm que gaitou tudo o que aquel- 
la fortaleza lhe deo , pelo que fahio delia 
tão pobre , como adiante fe verá. O Viío- 
Rey mandou dar muita preífa á aguada das 
náos , e a outras coufas necelTarias , porque 
determinava de fe partir logo. 

E porque achou alli a náo , em que fo- 
ra por Capitão Henrique de Soufa Chichor- 
ro, como atrás temos dito no Cap. VIL do 
fegundo Livro , querendo moftrar-fe agrade- 
cido ao agazalhado , que lhe feu irmão Alei- 
xos de Soufa Chichorro fez naquella forta- 
leza , determinou de o mandar com novas a 
EIRey de fixa chegada , porque como elle 
eftava efcandalizado do mefmo Henrique de 
Soufa ? por certas palavras que diífe ao par- 
tir do Reyno , que depois EIRey foube , por- 
que o mandou rifear de feus livros , quiz o 
Vifo-Rey dàr-lhe efta jornada pêra fe recon- 
ciliar com elie , eferevendo-lhe largamente 

do 



Dec. V. Liv. III. Cap. IX. 283 

do fucceíío da viagem , e de como chega- 
ra a Moçambique com todas as náos , falvo 
a dcBernaldim da Silveira o Drago, de que 
não havia novas, eque ainda alli não acha- 
ra nenhumas dos Rumes , e que a índia ef- 
tava de paz , e quieta , e que fe partia en- 
rrada de Agoíto , dando por regimento a 
Henrique de Soufa , que fe partiífe dalli na 
entrada de Novembro, como fez, e chegou 
ao Reyno a falvamento. E não achámos lem- 
brança fe tomou ainda as náos que haviam 
de partir aquelle anno pêra a índia ; mas fa- 
bemos que EíRey eílimou muito as novas 
do Viiò-Rey , e perdoou a Henrique de Sou- 
fa , e o tornou a mandar aíTentar em feus li- 
vros. 

O Viíb-Rey deo á vela entrada de Agofc 
to , e foi feguindo fua derrota até á barra 
de Goa , onde foi furgir a doze de Setem- 
bro com nove náos , porque a de João de 
Sepúlveda por má navegação foi-fe encoílar 
a Sacotorá , onde as aguas a levaram , e por 
caufa delias fe deteve alli tanto tempo , que 
por não fer já monção pêra paflar á índia , 
foi invernar a Ormuz. As novas da chega- 
da do Vifo-Rey D. Garcia de Noronha foá- 
ram logo por Goa , e os Fidalgos , como 
he muito antigo na índia , largando o Go- 
vernador Nuno da Cunha , foram logo á 
barra a viíítallo. Nuno da Cunha fentio mui- 
to 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

to oaggravo que lhe EIRey fez , e por car- 
tas de leu pai Triftao da Cunha ibube o 
que com elle paíTára fobre aquelle negocio , 
e aílim íe malenconizou , que nunca mais o 
viram alegre , e todavia mandou vifitar o 
Vifo-Rey. Os Vereadores da Cidade acudi- 
ram a dar-lhe os parabéns de lua chegada , 
e a faber quando havia de fer lua defembar- 
caçao , porque lhe queriam ordenar recebi- 
mento, Elle lhes agradeceo muito aquelle de- 
fejo , dizendo-lhes , que não era tempo de 
detenças, e que ao outro dia havia de dei- 
embarcar; pelo que elles fe foram pêra ter- 
ra , e fizeram com muita brevidade as cou- 
fas que convinham pêra o receberem. 

O Governador , como diííemos , ficou 
malenconizado , e quaíí fá , por fe irem to- 
dos os Fidalgos ao Vifo-Rey , e alguns 3 que 
fe davam por muito feus amigos, e paren- 
tes o acompanharam. E pedindo-lhe hum def- 
tes licenja pêra ir vifitar o Viíb-Rey , lhe 
reípondeo: Ide , Senhor , e f aliareis com a 
mais avifado doudo, que nafceo em Portu- 
gal. Iíto diffe o Governador aílim , porque 
era verdade fer elle muitp difcreto , e avifa- 
do , como por aqueila foltura , e encadar- 
roamento de fallar que tinha , que he qua- 
íi natural nos mais dos Noronhas , e em mui- 
tos outros que o fazem por arte. ( E tanto 
o tinha eíte Vifo-Rey por natureza , que fe 

con- 



Dec. V. Liv. III. Cap, IX- 285: 

conta delle , que andando negociando a Ar- 
mada pêra ir buícar os Rumes , neíles pri- 
meiros dias que chegou , entrando hum Do- 
mingo na Sé , a tempo que os Clérigos ef- 
tavam nosKyrics da Mifla, que fe dizia de 
canto de órgão com grande vagar , e ouvin- 
do lá cantar Kyrie , Kyrie , virando pêra o 
Coro , difle alto : Queria eu que fojjeis vós 
aos Rumes , e mandou dizer a Miíla reza- 
da , e foi-le á ribeira. ) PaíTados os dous dias 5 
entrou o Vifo-Rey em Goa , e foi recebi- 
do da Cidade mui bem , e o Governador lhe 
entregou a índia , e toda a Armada, que ti- 
nha já de verga d'alto , que eram perto de 
oitenta velas, em que entravam quarenta grof- 
fas , galeões , náos , e caravellas , e as de- 
mais galés, e furtas j e affim lhe entregou os 
armazéns cheios de muita artilheria , muni- 
ções , e mantimentos , como quem tinha tu- 
do feito pêra íi , porque determinava de ir 
bufcar os Rumes, e pelejar com elles. 

A primeira coufa que o Vifo-Rey fez > 
foi defpedir logo João de Córdova , Capi- 
tão de hum catur , com cartas a António da 
Silveira , em que lhe fazia a faber de fua 
chegada , porque ainda não havia novas de 
ferem os Rumes em Dio , (por não fer ain- 
da chegado o Miguel Vaz com as novas cer- 
tas das galés.) E affim defpedio D. Pedro 
de Caftello-brancQ .em ..alguns navios com 

car- 



2%6 ÁSIA de Diogo de Couto 

cartas pêra a Cidade de Cochim , em que a 
avifava de íua chegada , e das novas que ha- 
via dos Rumes , dando-lhe conta de como 
fe ficava negociando pêra os ir bufcar, pe- 
dindo-lhe que pêra as defpezas da Armada 
o quizeíTem ajudar com algum dinheiro , af- 
íim do povo, como dos órfãos , empreitado, 
pêra o pagar dos primeiros rendimentos do 
Eílado : eaííim alguns efcravos pêra as chus- 
mas das galés , que fe Jhes tornariam como 
fe acabaííe a jornada , ou lhos pagariam fe 
nella morreíTem : levando D. Pedro regimen- 
to pêra ajuntar toda a Armada d'ElRey , 
e navios de partes , que houveííe em Cana- 
nor , e Cochim , e que por todo Outubro 
foíTe com elle. OVifo-Rey ficou continuan- 
do com os provimentos da Armada, repar- 
tindo os navios que achou pelos Fidalgos y 
que foram em fua companhia , ficando os 
mefmos que foram nas náos , nas que hiam 
ordenadas pêra ficarem na índia , de que hiam 
fó quatro declaradas pêra a carga da pimen- 
ta , que eram as mais velhas , vifitando o 
Viíb-Rey em peíTòa todos os dias a ribeira 
das Armadas, e os armazéns a pé, porque 
efte he o verdadeiro oiEcio , e obrigação dos 
Vifo-Reys. 

Pouco depois chegou o catur de Miguel 
Vaz , de quem o Vifo-Rey foube a grande 
Armada , que ficava fobre Dio y e o que lhe 

acon- 



Dec. V. Liv. III. Gap. IX. 287 

acontecera , e informando-fe delie muito miu- 
damente , o tornou o outro dia a defpedir 
com cartas pêra António da Silveira , em 
que lhe affirmava , que muito cedo feria com 
elie. Nefte catur mandou embarcar D. Duar- 
te de Lima pêra ir ver o eftado em que a 
fortaleza eftava , e lhe tornar a dar razão do 
queviífe, em quanto fe elle negociava. Par- 
tido eíle navio , começou-fe o Vifo-Rey a 
embarcar , e poz fora do banco toda a Ar- 
mada de alto bordo , e fez alardo da gente 
que havia de levar , e achou quafi número 
de féis mil homens , toda gente limpa , e 
alvoroçada pêra fe ver com os inimigos ás 
guedelhas. Por fim do mez de Setembro 
chegou Martim AíFonfo de Soufa na galé 
baíiarda com alguns navios; mas o Vifo-Rey 
deixou pêra fi o galeão S. Diniz , (que Nu- 
no da Cunha tinha muito bem negociado- 
pêra lua peííoa,) dando a dianteira da Ar- 
mada a Martim Affoníb de Soufa , como 
Capilão mór do mar , pêra quem fe palia- 
ram muitos Fidalgos feus parentes , e ami- 
gos , e affirmava-fe que tinha na fua galé 
mais de duzentos homens, 

O Vifo-Rey embarcou fua peííoa pêra 
efperar o recado de Cochim , e de Dio , e 
defpedio finco navios de remo , de que eram 
Capitães Gonçalo Vaz Coutinho , Gabriel 
Pacheco , Martim Pacheco 7 Francifco Men- 
des 



288 ÁSIA de Diogo de Couto 

des de Vafconcellos , e António Mendes de 
Vafconcellos, pêra que fefoífem metter em 
Dio , mandando metter nos navios muitas 
munições. Com eftes Capitães fe embarcaram 
alguns Fidalgos , e Cavalleiros feus paren- 
tes , e amigos defejofos de ganharem hon- 
ra. Aílim meímo defpedio oVilo-Rcy Lou- 
renço Botelho por Capitão mór de quatro na- 
vios pêra fe ir pôr na ponta de Dio , on- 
de as náos de Ormuz coítumavam a ir de- 
mandar , pêra as avifar , e fazer voltar pê- 
ra Goa. E juntamente com elles defpedio 
Luiz Coutinho por Capitão mor de féis na- 
vios de remo 3 pêra íè ir pôr na enceada de 
Cambaya a defender que da cofta de Ba- 
çaim , e Damão não paílaílem mantimentos 
pêra a Armada do Turco. E com iflo dei- 
xaremos as coufas de Goa pêra continuar- 
mos com as de Dio. 



CA- 



Dec. V. Liv. III. 289 

CAPITULO X. 

De como os Turcos ajjentdram fuás ejlãrt* 
cias fobre o Caflelló da Villa dos Rumes : 
e da grande , e efpantofa máquina que or* 
dendram pêra o ccmmet terem pela banda 
do ma? : e de como António da Silveira 
lha mandou queimar : e dos nojjbs navios 
que chegaram dquella fortaleza. 

DEfembarcada a artilheria dos Turcos $ 
como diflemos no fim do Cap. VII def- 
te terceiro Livro, foram Beran Baxá , e Co- 
ge Çofar caminhando muito devagar por 
caufa dá artilheria , que era groíla , e do ca- 
minho que era de arêa , em que as carretas 
fe aíFogavam ; e porque lhes não pareceo po£ 
íivel levarem os bafilifcos, os deixaram, e 
fó três peças , (que não eram tão pequenas , 
que não lançaflem pelouro de ferro coado 
de cento e ííncoenta livras , ) com eíTas fo- 
ram caminhando , ficando as outras pêra mais 
devagar. E aos dez dias do mez de Setem- 
bro chegaram á Villa dos Rumes , e plan- 
taram fuás eftáncias fobre aquelle Caftello , 
fortificando-fe á faa vontade. 

Francifco Pacheco , Capitão do baluar- 
te, tanto quevio os Inimigos , não lhemet- 
tendo medo fua multidão , tratou do que 
convinha á fua defensão , mandando logo ta- 
Couto.Tom.II.P.L T par 



290 ÁSIA de Diogo de Couto 

par as portas da ferventia da fala (por não 
occupar nellas gente) reformando- fe por den- 
tro o melhor que pode. Ao outro dia derãp 
os inimigos moftra aos noííbs , a modo de 
aíTalto , affim pela banda da terra , como do 
mar , chegando-fe ao Caftello com algumas 
efcadas pêra o commetterem ; mas deííma, 
que eftavam já preftes , e defejofos de os def- 
enganarem , os falváram com fua artilheria , 
e arcabuzaria de feição , que lhes fizeram per- 
der o orgulho com que hiam , afFaftando-fe 
mais depreífa do que chegaram , com alguns 
menos , que deixaram de levar por não per- 
derem outros. Os Turcos vendo o damno 
que receberam naquella primeira moftra , bem 
entenderam quanto lhes havia de cuftar a- 
quelle negocio, fe por aílaltos o quizelíem 
concluir , porque fe queriam poupar pêra a 
fortaleza grande. 

E praticando os Capitães o modo que 
naquillo teriam , fem lhes cuftar muito , af- 
fentáram , que fe fabricafíe huma máquina 
fobre huma grande barcaça , que eftava na 
Cidade , pêra que cheia de materiaes peço- 
nhentos , com a preiamar fe encoftaíTe ao 
Caftello, e lhedefíem fogo, pêra que com 
o fumo fe aíFogaífem os noílòs , e perdef- 
fem o tino , e que então os commetteíTem 
por aíTalto , e que facilmente feriam entra- 
dos. Coge Cofar mandou logo á Cidade dar 

or~ 



Dec. V. Lív. III. Cap. X. i$í 

ordem áquella fabrica , e fobre a barcaça \ 
que atraveíTáram com groíTas vigas , arma- 
ram no meio delia hum Cafteilo tão altero* 
lo, como o da Villa dos Rumes, que man- 
daram encher de falitre , enxofre , rama ver* 
de , bofla , e outras immundicias fedorentas ; 
nifto gaitaram alguns dias : e tanto que fe 
acabou , mandaram furgir a barcaça com 
quatro amarras no meio do rio pêra efpe* 
rarem as aguas vivas , que vinham cedo , 
pêra mais á fua vontade abordarem o Caf* 
tello. 

Efta máquina diabólica foi vifta danoí- 
fa fortaleza tanto que furgio ; e entendendo 
António da Silveira o effeito pêra que fe fa- 
ria , determinou de a mandar queimar , o 
que encarregou a Francifco de Gouvea por 
fer homem muito determinado pêra todos os 
negócios , e tomando duas fuftas com os fol- 
dados que efcolheo , em que entravam mui- 
tos Fidalgos , e Cavalleiros , efteve preftes , 
e de noite na entrada do quarto da modor- 
ra , íahio ao longo da couraça com a en- 
chente, no mor íilencio que pode, por não 
ferem fentidos dos inimigos , que não pode 
fer , pelas muitas vigias que em todas as par- 
tes tinham , e logo começaram a chover fo- 
bre as fuftas pelouros tão apreífados , e com 
tamanho terremoto , e eftrondo , que pare- 
cia que fe desfazia a terra , e o mar em tro- 

T ii voes. 



392 ÁSIA de Diogo de Couto 

voes , e relâmpagos. Francifco de Gouvea 
fem fe efpantar de coufa alguma foi paífan- 
do avante por todas aquellas carrancas até 
chegar á barcaça , a que mandou muito de- 
vagar pôr fogo por todas as ilhargas, eítan- 
do dentro alguns Mouros , que nella ficaram 
pêra a vigiarem , que por adormecerem não 
fentíram os noflbs , fenão quando já o fo- 
go ateava , e deitando-fe ao mar fe paífá- 
ram á terra. Tanto que o fogo deo naquel- 
les fedorentos materiaes , começou a arder 
com tanta braveza , que parecia que o Mun- 
do fe confumia em labaredas , o que tu- 
do fe via com grande gofto , e alvoroço dos 
nofíbs , e muito maior mágoa , e pezar dos 
inimigos, Francifco de Gouvea como era Ca- 
valleiro , e pontual , não fe quiz recolher 
até de todo fe não desfazer a barcaça em 
cinza , chovendo todo aquelle tempo fobre 
clle nuvens de pelouros mortaliííimos ; e fen- 
do tudo confumido , fe recolheram os nof- 
fos pêra a fortaleza y aonde foram mui bem 
recebidos de todos. 

Ao outro dia , que foram treze de Se- 
tembro , chegaram quatro navios á barra , 
os três de Fernão de Moraes, Simão Ran- 
gel , e o dos Araujos , que deixámos parti- 
dos de Goa , e o quarto era de Pêro Vaz 
Guedes , fobrinho de Simão Guedes , Capi- 
tão de Chaul y que chegando alli eftes na- 
vios > 



Dec. V. Liv. III. Cap. X. 293 

vios , mandou em íua companhia o fobri- 
nho com aquelle navio carregado de manti- 
mentos , e munições pêra ir ver o eftado 
da fortaleza, eihe tornar com novas delia. 
Eftes navios caufáram grande alvoroço em 
todos , e Antoriio da Silveira recebeo os que 
nelles hiam com muitas honras. E vendo a 
carta de Simão Guedes , em que lhe pedia 
lhe mandaííe depreíTa o íbbrinho com reca- 
do do eftado em que eftava , logo lhe refpon- 
deo , e o defpedio , mandando-lhe cartas pê- 
ra o Governador, (porque ainda não fabiam 
da chegada do Vifo-Rey. ) Fernão de Mo- 
raes , que levava ordem do Governador Nu- 
no da Cunha pêra ver a fortaleza , e lhe tor- 
nar com recado , porque queria faber delle a 
certeza , por fer hum homem de muita autho- 
ridade , dando conta diílo a António da Sil- 
veira , lhe pedio clle quizeíTe alli ficar , por- 
que tendo-o por companheiro , não fentiria 
tanto os trabalhos 5 porque aquelle era o tem- 
po , em que elle tinha neceífidade de feu es- 
forço , e confelho ; c que pêra latisfação do 
Governador bailavam cartas luas. Fernão de 
Moraes o fez aílim , e defpedio a fufta , por 
quem ambos efcrevêram ao Governador mui- 
to largamente , de tudo o que era fuccedi- 
do até então. António da Silveira repartio 
aquelles Fidalgos, que chegaram de novo pe- 
los baluartes fronteiros ao campo , aonde Si- 
mão 



2<?4 ÁSIA de Diogo de Couto 

mão Range! teve todos osfoldados que le- 
vou , dando-lhes meza á fua cuíta , porque 
foi de Goa pêra iflb muito bem negociado, 
Efte melmo dia veio á fortaleza Fran- 
cifco Pacheco , Capitão do Caílello de Go- 
galá , em huma pequena almadía , a ver-fe 
com o Capitão , e ordenar algumas coufas , 
que cumpriam á fua alma , e confciencia pe- 
lo rifco em que eftava. E depois de fazer tu- 
do , querendo-fe tornar , o embargaram os 
Officiaes d 5 E!Rey por certa quantia de di- 
nheiro que lhe devia , apertando com elle 
que o pagaífe primeiro que fe foííe. Fran- 
cifco Pacheco tomado daquella defordem , 
lhes diíTe palavras aíFrontofas perante o Ca- 
pitão , e foi tamanha fua paixão , que difle 
ao Capiíão , que aquillo era calo digno de 
fe caftigar , e que fe o não fizeífe , que pro- 
veífe o baluarte de Capitão , porque elle o 
não queria fer. António da Silveira foífren- 
do-lhe fua paixão, com muita brandura ihe 
diífe , que viíle o que fazia , que aquillo não 
convinha á fua honra , e que não perdeífe 
o credito que tinha cobrado por huma cou- 
fa em que tão pouco hia. E com iílo lhe 
diíTe outras palavras de amigo, que a cóle- 
ra lhe não deixou entender , antes virando 
as coitas fe foi. Lopo de Soufa Coutinho , 
que fe achou prefente , feofFereceo ao Capi- 
tão pêra íe ir pêra o baluarte , o que lhe elle 

agra- 



Dec. V. Liv. III. Cat>. X. 295 

agradeceo muito ; mas não acceitou , por-» 
que defejava de Francifco Pacheco não per- 
der de todo com elle o credito : porque aos 
Cavalleiros tão hpnrados , e que tanto fe ar- 
rifcam pela honra de Deos , e de íèu Rey , 
hão os Capitães, e Governadores de foffrer 
muito , e tratar de temperar com brandura , 
e não damnar de todo com paixão , como 
fez António da Silveira, que bufcou todos 
os meios , pêra que efte homem fe não des- 
honraíle , pedindo a Fernão de Moraes , que 
era feu amigo , que o temperaílè , o que el- 
le fez de feição, que cahio na conta, efoi- 
fe reconciliar com o Capitão , que o defpe- 
dio com palavras de muita honra pêra o ba- 
luarte , encommendando-lhe algumas coufas f 
principalmente que como tiveíTe necefíidade , 
lhe fizeíTe final pêra o foccorrer como pu- 
deífe* 




DE- 



z$6 

DÉCADA QUINTA. 
LIVRO IV. 

Da Hiftoria da índia. 

————— " ' ^— — — — — m^^— — — — — ■— »■ 

CAPITULO I. 

De como es Turcos começaram a bater o 
baluarte de Gogalá : e de como Lopo de 
S r ufa Coutinho fi faber o eftado em que 
ejiava : e da vifia que a Armada inimi- 
ga deo d noffa fortaleza : e do defafire 
que aconteceo nos baluartes : e da conf* 
t anciã , e grande fortaleza que teve hu- 
ma p bre mulher na morte de dous filhos 
que lhe mataram* 

TAnto que os Turcos viram desfeita y 
e queimada a grande máquina com que 
efperavam ganhar o baluarte por af- 
falto , defenganados de o poderem fazer fe- 
nao por bateria , lha começaram a dar tão 
furiofamente , que os pelouros varavam o 

Ça£ 



Dec. V. Liv. IV. Cap. I. 297 

Caílello por fima de parte a parte , fazen- 
do as pedras que cahiam das ruinas grande 
damno nos noflbs , matando alguns , e fe- 
rindo aos mais. Francifco Pacheco andava 
provendo tudo com muito animo , esforçan- 
do , pelejando , e repairando com muita pref- 
teza as partes derribadas , e damniíicadas. Os 
companheiros pelejavam todos com grande 
valor , fem fazerem conta das feridas que ti- 
nham , fazendo com fua arcabuzaria grande 
emprego nos inimigos , porque como da- 
vam em meio delles , nunca perdiam tiro. An- 
tónio da Silveira , tanto que ouvio a bate- 
ria , mandou favorecer os do baluarte com 
fua artilheria , e como viam da fortaleza as 
eílancias dos Mouros claramente , fizeram 
jielles muito grande eftrago. Os Capitães 
Mouros vendo o damno que tinham recebi- 
do , affaítáram-fe ceifando a bateria. Fran- 
cifco Pacheco fez logo curar os feridos, e 
lançar os mortos ao mar com a vafante da 
maré, porque não havia onde os enterrar, 
e toda a noite paílaram em grande vigia. 
Por efta maneira foram continuando os Mou- 
ros a bateria com dobrada fúria , finco dias 
continuos , em que o baluarte ficou quall 
desfeito por íima , e todos os que nelle ef- 
tavam feridos de muitas fendas por roílos, 
braços , pernas , cabeças , das coufas que os 
pelouros ao paflar do baluarte derribavam 

fo- 



298 ÁSIA de Diogo de Couf o 

fobre elles , mas nem com tudo ifto perdiam 
o animo, nem deixavam os lugares , antes 
com muita vigilância , e cuidado gaitavam 
de dia em pelejar, e de noite em vigiar, e 
repairar , tão alegres todos , que parecia que 
tinham a vitoria nas mãos. 

Paliados os finco dias chegou a Dio o 
catur de João de Córdova com as cartas , 
e novas da chegada do Vifo-Rey, que en- 
cheo a todos de mui grande alvoroço. O 
Capitão mandou logo embandeirar a forta-» 
leza , e falvar as novas com muitos tiros. 
No baluarte foi vifto aquelle alvoroço , e 
como não fabiam o que era , ficaram em 
grande confusão ; mas todavia bem enten- 
deram pelo que viram , que eram boas no* 
vas , e refpondêram de lá com outra falva , 
e com outras bandeiras. António da Silvei- 
ra vio as cartas do Vifo-Rey , em que lhe 
certificava ficar-fe fazendo preíles pêra o 
foccorrer , e as amoílrou a todos pêra os 
animar. O Vifo-Rey efcreveo a alguns Fi- 
dalgos dos que alli eítavam , como he obri- 
gação , pois eílavam fervindo , e cercados : 
fó a Fernão de Moraes deixou de efcrever , 
ou por efquecimento , ou por lhe parecer 
feria voltado pêra Goa , do que elle ficou 
quaíi afFrontado , e logo mandou fazer pref- 
tes o feu navio pêra fe embarcar , o que lhe 
António da Silveira quiz eílorvar como intri- 



Dec V. Liv. IV. Cap. I. 299 

go, fobre o que fe apaixonaram , dizendo 
Fernão de Moraes , que pois fe lhe tinha 
tão pouco reípeito , que não queria mais fi- 
car naquella fortaleza , nem fervir EIRey. 
E depois de o Capitão ver que o não po- 
dia tirar de fua paixão , lhe difle 5 que fe 
foífe muito embora , que fem eile defende- 
ria a fortaleza. Fernão de Moraes fe embar- 
cou y e fe foi. 

António da Silveira defejou de mandar 
aos do baluarte as novas do Vifo-Rey 3 e 
a faber o que lá era paliado , porque até 
então não tinha recado algum. Lopo de Sou- 
fa Coutinho fe lhe ofFereceo pêra iflb , e fe 
embarcou nocatur de João de Córdova com 
alguns parentes , e amigos , levando algumas 
munições pêra lhe metter dentro , e as cou- 
fas neceíTarias pêra os feridos ; e efperando 
pela maré da noite , tanto que efteve meia 
cheia , fe affaftou do cais muito caladamen- 
te , e fe foi pôr na veia da agua , pêra que 
ella o foífe levando , porque não boliífem 
com os remos , por não ferem fentidos , e 
aífim foi governando ao fom delia. Mas to- 
davia como os Mouros tinham mui grande 
vigia , foram fentidos , e por todas as eítan- 
cias fe levantou huma grande grita , e co- 
meçaram a varejar o navio com a artilhe- 
ria, derredor de quem cahiam tantos pelou- 
rou , que parecia ferver o rio , que eftava 

mui- 



300 ASIÀ de Diogo de Couto 

muito brando , e focegado , fem que pela 
bondade de Deos receberem damno algum. 
Lopo de Soufa Coutinho foi paffando avan- 
te até pôr a proa ao pé do Caftello , e bra- 
dando alto chamou por Francifco Pacheco , 
que logo acudio pela muita vigia que tinha. 
Lopo de Soufa por fer a noite efcura lhe 
diífe quem era , e ao que hia , dando-lhe as 
novas do Vifo-Rey, e perguntando-lhe co- 
mo eftava , e o que era fuccedido os dias 
paíTados. Francifco Pacheco , e todos os com- 
panheiros ouvindo as novas do Vifo-Rey, 
deram grandes gritas de alvoroço , e contou 
Francifco Pacheco tudo o que lhe tinha a- 
contecido até então , e como lhe tinham mor- 
tos féis companheiros , e eftava com todos 
os mais feridos , e que os pelouros varavam 
o Caílello todo , mas que com tudo iíTo ef- 
tava muito bem. Lopo de Soufa lhe pedio 
mandaífe abrir as portas , porque lhe que- 
ria deixar algumas munições que levava pê- 
ra o mefmo Caílello , e ficar por feu folda- 
do acompanhando-o. Francifco Pacheco lhe 
deo os agradecimentos , dizendo-lhe , que 
não podia fer 5 porque a porta eftava tapa- 
da de pedra , e cal , e por os Mouros to 
rem impedida a ferventia da praia pêra a fa- 
la com grandes vallos. Que fe recolheíle 
embora , que não tinha neceílidade de cou- 
fa alguma por então , mais que do favor de 

Deos: 



Dec. V< Liv. IV. Cap. I. 301 

Deos : que pediíTe ao Capitão da fua par^ 
te , que lhe foccorreíle em algum eflremo 
grande , fe rielle fe viíTe , porque logo lhe fa- 
ria final. Neíle dialogo gaitaram mais de hu^ 
ma hora , porque como eftavam longe , e a 
artilheria dos inimigos não ceifava , o eftron- 
do delia lhes apagava muitas vezes as pala- 
vras na boca , pelo que fe não entendiam 
bem , e foi-lhes necelfario repetillas tantas 
vezes até que fe entendeífem. Lopo de Sou- 
fa Coutinho fe defpedio delle , e tomando 
o remo o foi apertando rijamenta pêra a for- 
taleza , feguindo-o hum grande número de 
pelouros , que fobre elle foram fempre cho- 
vendo até entrarem pela porta da couraça. 
O Capitão, e todos os Fidalgos o foram re- 
ceber, e o levaram nos braços com muitas 
palavras de louvores ; e prefentes todos , con- 
tou tudo o que paífára com Francifco Pa- 
checo 5 e como todos os do Caílello eftavam 
tão animados , que lhes tivera inveja. Antó- 
nio da Silveira, e todos feftejáram muito a- 
quellas novas. 

Francifco Pacheco com as doVifo-Rey 
ficou tão ufano > que em amanhecendo man- 
dou embandeirar o Caftello , e difparar to- 
da a artilheria nas eítancias dos inimigos , 
tangendo , bailhando , foliando , e fazendo 
outros íinaes de alegria , chamando pelos 
Mouros , dizendo : Ah cães , que logo vira 

<0 



302 ÁSIA de Diogo de Covto 

o Vifo-Rey com huma grqffa Armada , e a 
todos vos ha de metter a banco das fuás ga- 
lés. Efte alvoroço não caufou pequeno abai- 
lo nos Turcos , por quem Jogo fe efpalhá- 
ram as novas da chegada a Goa de hum no- 
vo Rifo-Rey, com grande poder, eque fi- 
cava embarcado com huma grofla Armada 
mui poderofa pêra ir áquella fortaleza , o 
que em todos mettco hum geral medo , e 
efpanto. 

António da Silveira defpedio ao outro 
dia o mefmo navio com cartas ao Vifo-Rey 
de tudo o que era paffado , e no navio man- 
dou embarcar alguns doentes que eftavam 
mal , pêra os lançar em Chaul. Nefta embar- 
cação determinou Manoel de Vafconcellos 
mandar fua mulher. Era efte homem hum Fi- 
dalgo honrado , natural da Ilha da Madeira , 
cafado com huma Dona mui nobre , chama- 
da Ifabel da Veiga , com quem fe paífou a 
viver áquella fortaleza , aííim pela barateza 
da terra , como por humas tenças que alli 
tinha. E vendo os trabalhos que ao diante 
fe efperavam , pedio á mulher que fe embar- 
caífe naquelle navio pêra Goa , o que nun- 
ca pode acabar com ella , dizendo-lhe : » Que 
» nunca Deos quizeffe , que ficando elle em 
» trabalhos , e perigos , eftiveíTe ella aufente 
adelles, e fora delles , porque todos os em 
» que fe viiTe em fua companhia , haveria por 

»pe- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. I. 305 

» pequenos , e por penas , e tormentos to- 
» dos os defcanços fóra delle : Que houveíTe 
» por bem ficafle ella alli , ao menos pêra fer 
» lua enfermeira, quando tiveffe difíb necef- 
» íídade. E fe peio perigo em que via aquel- 
» ia fortaleza a queria mandar fóra delia , 
» que quando ella fofle tão mofina , que el- 
» la correíTe rifco , e o mataííem a elle , que 
» ella então não queria mais viver. Mas por- 
» que não tiveíTe muitas coufas de que fe 
MemeíTe , que ella era contente , que elle 
» mandalfe pêra Goa huma filha que tinham 
» de antre ambos ao avô da menina , pai da 
)> Ifabel da Veiga ; porque fe Deos fizeífe al- 
» guma coufa daquella fortaleza , e lhe acon- 
» receílè por feus peccados alguma defaven- 
y> tura , que huma tenra idade a não con- 
)> demnaíTe. » Iílo diíTe com tanta força de 
lagrimas , que o convenceo , e defiílio de 
fua determinação , ficando efta matrona em 
todo aquelle cerco fazendo coufas dignas de 
ferem celebradas , como o faremos pelo de- 
curfo da hiftoria adiante em feu lugar. 

Os Turcos foram profeguindo na bate- 
ria do Caílello tão continuo , e com tanta 
fúria, e força, que derribaram toda a fala 
por terra , e todos os altos do Caílello , ma- 
tando , e ferindo muitos dos de dentro. E 
o que foi peior , que cegaram toda a arti- 
lhem , que já não laborava : mas nem com 

iífo 



304 ÀSIÀ de Diogo dé CotfTo 

iíTo deixavam os noíTos de empecer aesini* 
migos com tudo o que podiam. E affim fe 
tinham tão fatisfeitos dos damnos que dei- 
les tinham recebido , que lhes tinham mor- 
tos mais de quinhentos homens. António da 
Silveira mandava as mais das noites huma 
almadía pequena com hum homem pêra ir 
faber o eitado do baluarte , mandando al- 
gumas vezes dizer a Francifco Pacheco , que 
fe eftava em perigo , largalfe tudo , e de 
noite pela calada fe fahiíTe do baluarte de 
longo do mar, e que dalli fe lançaíTe a na- 
do , e que em duas vogas feriam nelle , já 
que não tinham embarcações pêra os man- 
dar recolher, equenifto perigafle quem pe- 
rigaífe , porque do mal íempre fe havia de 
efeolher o menor. A ifto lhe mandou refpon- 
der , que eftavam tão bem , que aílim eíli- 
veflem elles lá na fortaleza. Efte confelho fe 
o elle então tomara , não chegara o mal ao 
que depois chegou , e fora-Ihe muito fácil 
recolher-fe a nado , como lhe o Capitão man- 
dava dizer. 

O Baxá , que eftava em Madrefa vai , tan- 
to que lhe chegaram as novas do Vifo-Rey * 
logo fe levou com toda a Armada , e foi 
demandar a nofla fortaleza, pêra ver fe po- 
dia averiguar aqueíle negocio, primeiro que 
o Vifo Rey chegafle*. E aos vinte e oito de 
Setembro appareceo ávifta da fortaleza com 

as 



Dec. V. Liv. IV. Cap. I. 305: 

as galés a fio , indo diante a de Icuf Arae- 
de, todas toldadas , e forni o fa mente emban- 
deiradas com feus eftandartes, e galhardetes 
de cores , que lhes arrojavam até baixo , por- 
que eíle dia moftráram todas as fuás carran- 
cas , determinando de dar a primeira falva 
á nolTa fortaleza. E aílim a fio foram todas 
paliando, falvando-a huma , e huma, e fa- 
zcndo-fe logo á banda. António, da Silvei- 
ra acudio ao baluarte de António de Gou- 
vea , aonde toda a artilheria inimiga defpa- 
rou por ficar fobre a barra , e mandou em- 
bandeirar toda a fortaleza , e falvar a Ar- 
mada com fua artilheria , porque vifíem os 
Turcos o goílo , e o banquete com que os 
efperava; mas permittíram os peccados dos 
homens , que os bombardeiros defattentada- 
mente carregaíTem as bombardas com pólvora 
de efpingarda , e não podendo foffrer a for- 
ça delia , arrebentaram dous forrnofos bafa- 
lilcos , hum de metal , e outro de ferro , 
que era fechado com muitos arcos de fer- 
ro 3 que efpalhando-fe em pedaços , fizeram 
em todos os que acharam á roda hum gran- 
diílirno eílrago , ficando logo alli quatro ho- 
mens feitos pedaços , e feridos dez com mui- 
tas fendas. E não parando aqui o mal , tam- 
bém no baluarte S. Thomé , e em outros, 
arrebentaram finco peíTas , ainda que meno- 
res , que também fizeram mui grande damno. 
Couto.Torn.lLP.L "V Os 



3o6 AS1A de Diogo de Couto 

Os Turcos tanto que ouviram arrebentar as 
peílas , de lá da Armada deram huma gran- 
de grita , e aílim foram paíTando devagar, 
e dando fua falva. Mas ifto não foi tanto a 
íeu íalvo , que lhes não metteííem huma ga- 
lé no fundo , eihes não ficaííem outras def- 
apparelhadas de maílos , e vergas , receben- 
do os noílos muito maior damno da fua pró- 
pria artilhcria , que da dos inimigos , por- 
que lhe não mataram mais que hum mance- 
bo de menos de vinte annos, que tinha fua 
mãi na fortaleza , em cuja morte fe moflrou 
o grande valor , e animo da trifte , e def- 
confolada mãi ; e foi deita maneira. 

Havia na fortaleza huma mulher Portu- 
gueza , viuva , que fe chamava Barbara Fer- 
nandes, que fora ama de Manoel de Noro- 
nha , natural da Ilha da Madeira ; cfta tinha 
dous filhos , mancebos de grande valor , e 
mui esforçados Cavalleiros. O mais velho fe 
chamava Luiz Franco , e eftava no baluarte 
da Villa dos Rumes : o outro fe chamava 
Chriftovão , era de dezenove até vinte annos , 
eftava com a mãi na fortaleza. Efte eftando 
hum dia no muro com fuás armas , lhe deo 
hum pelouro de efpera pola barriga , que 
atiraram de huma galé , que o efpedaçou to- 
do. Foi trazido ainda fallando , e aíTim o 
lançaram nos braços da mãi , que o recebeo 
nelies , dizendo-lhes o pobre moço : Mãi 

mi- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. I. 307 

minha , veja eu i vos peço , primeiro a con* 
fifsao y que voffas lagrimas ; porque temo > 
que a dor que vos vir padecer , me feja im- 
pedimento d breve de /pedida , e partida de 
minha alma. A velha , e deíconfolada mãi 
fuftentando com as mãos as efpedaçadas en- 
tranhas do filho , com o roílo quieto , e fe- 
reno , e os olhos enxutos , (fendo elía ío a 
que por boa razão, entre os muitos que na 
cafa eftavam , havia de padecer a dor , e 
tormento , que as palavras do filho nella cau- 
favam , fem romper em gritos , e brados ao 
Ceo , que hum moço naquelle eílado em que 
efte eftava , coftuma caufar na mai ? ) Ihere- 
ípondeo : Filho, da necejjidade que tens de 
Confejjbr me peza , que de tua morte ; a ef- 
perança que me fica do bom lugar que tua 
alma pojjuird , ma fará foffrer bem : en- 
commenda-te a De os , e esforça- te em mor- 
rer conforme com fua fanta vontade , que 
fó ijfij bafiará pêra eu ficar muito confola- 
da. Defta maneira fe animaram , e confolá- 
ram hum ao outro > dando a trifte tnai ani- 
mo ao filho , pêra que ToffrcfTe bem a arre- 
batada , e apreflada morte , e a fi mefma pê- 
ra lha poder ver receber. ConfeíTou-fe odi- 
tofo mancebo , que efte he o nome , que me- 
recem os que acabam tão gloriofamente , 
com muito grandes moftras de dor , e arre- 
pendimento de feus peccados , e aflim pa£- 

V ii íbu 



308 ÁSIA de Diogo de Couto 

fou dcfta vida a gozar dos grandes , e infi- 
riitos bens da outra , cujo fim foi recebido j 
da triftc mãi com tão inteiro , e igual ani- 
mo , que os que a vinham confolar , hiam | 
alegres, e contentes de a verem tão inteira, 
e conforme com a vontade de Deos , em ca- | 
foque de força havia defentir, e cortar mui- j 
to. E porque a dor do filho morto não pa- j 
rafle aqui , aconteceo que logo ao outro dia ; 
leguinte fe perdefle o baluarte daVilla dos • 
Rumes , onde o outro filho mais velho efc 
tava , pêra que com a perda do outro filho ; 
fe lhe dobraífe a mágoa de os perder am- ; 
bos ; pois ambos efies defaftres , e deíaven- 
ttiras , que aconteceram a cila valorofa matro- ' 
na, foífreo ella com huma nova , e defufa- 
da, e ainda incrível fortaleza , e igualdade! 
de animo , fem romper nem em palavras 
de dor , nem em lagrimas de compaixão J 
jiern em exclamações mulheriz , que emou-j 
tros cafos menores coíluma a haver. Exem-Í 
pio foi eíle merecedor de perpétua memo-; 
xia , e de andar elerito no Mundo com hum 
muito fubido , e alevantado eílilo , que nos a 
nós falta, com que mofiraífemos a todos os que 
o viílem 5 que não fóRoma, e Grécia creá-; 
iam mulheres fa mofas , pcis também as hou-! 
ve no noíío Portugal , mas faltou quem per- 
petuaífe fua memoria, e o valor de que ufá- 
ram j porque não he menos digna delia ef-í 

ta I 



D e c. V. Li v. IV. C a p. I. 309 

ta mulher , que aquella Archelonyde , que 
os Gregos engrandecem tanto ; porque dan- 
do-lhe novas , que feu filho Braildas era mor- 
to na guerra, perguntara, fem fe turbar, fe 
morrera pelejando; e dizendo-lhe que fim, 
ficara coníòlada. A efta mulher chama Plu- 
tarco Argelona , pois cita ainda não vio eí- 
pirar-lhe o filho nos braços feito pedaços do 
cruel pelouro , como vio efta noíla Portu- 
gueza ; porque as chagas do filho era mui- 
to certo caufarem-lhe bem differente mágoa , 
e fentimento , que a da Grega , que não vio 
o filho com os olhos , porque as coufas au- 
fentes , ainda que fejam afperas , íentem-fe 
menos que as prcfentes. E vós , ó nobre ma- 
trona , já que o tempo , c o deícuido Por- 
tuguez vos não fatisfez os merecimentos de 
voííos filhos, ao menos não perdereis de to- 
do a memoria de vofla criílandade , e varo- 
nil conítancia , porque já efta vos ficará ne£ 
ta minha hiftoria , ainda que em eftiio tão 
rude , e groífeiro , mas por vós , e por ou- 
tros muitos feitos femelhantes , efpero ve^ 
nha a fer acceito a todas. As galés depois 
de darem fua íalva , foram furgir no primei- 
ro poufo , que tomaram defronte da Mef- 
quita grande, onde fe deixaram eftar. 



CA~ 



3io ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO II. 

Do grande ajjalto , que os Turcos deram ao 
baluarte de Francifco Pacheco : e do va- 
lor com que ãous homens o defenderam : 
e de como hum foldado chamado António 
Falleiro foi d fortaleza com huma carta 
de Francifco Pacheco : e das ruins fuf pei- 
tas > que dejie homem fe conceberam. 

EM quanto durou a falva na Armada , 
não deixaram os Turcos de continuar 
com a bateria do Caflello da outra banda , 
porque determinavam de lhe dar hum a (Fal- 
to , em que efperavam de concluir aquelle 
negocio \ pelo que dobraram a bateria pêra 
fazerem caminho por onde o commettelTem , 
e riao deíiftíram delia até quafi Sol podo , 
em que acabaram de arrazar a Fala , e hum 
grande pedaço da írontaria do baluarte , fof- 
frendo os de dentro aquelle dia toda aquel- 
la tempeílade de tiros, e pelouros, com que 
lhe mataram perto de quinze companheiros, 
e feriram quaíi todos os mais , mas com mui- 
to grande damno , e eftrago dos inimigos , 
porque também alli ficaram mais de duzen- 
tos efíirados. Os Mouros ao outro dia ven-| 
do a nolTa artilheria de todo cega , e que 
lhes não podia fazer nojo , e o baluarte ar- 1 
ruinado todo ? e que por aquella parte por I 

on- I 



Dec. V. Liv. IV. Cap. II. 311 

onde a parede da fala enteftava nelle , lhes 
deixara huns dentes pelo muro aílima , como 
hnma efcada muito bem feita , por onde po- 
diam fubir muito á fua vontade , não quif 
zeram perder tempo , encommendando o af- 
íako aos Janizaros : deites fali iram fetecen- 
tos dos vallos , com huma bandeira verma- 
Iha mui grande defenrolada aofom de feus 
inftrumentos ; e como homens , que tinliam a 
vitoria nas mãos , e que cuidavam que os 
noífos eftariam taes , que íè não puaeíTem 
defender, remettêram ao baluarte, e come- 
çaram a fubir pelos dentes , e ruinas da pa- 
rede , fendo favorecidos dos debaixo com 
a arcabuzaria, e frechas , com que jogavam 
em roda viva , porque os de dentro fe não 
pudeííem aífomar á defensão daquelle lugar. 
E como aquella parte , onde a parede hia 
refponder aílima , não era capaz demais que 
de dous homens , por ler hum recanto ; os 
primeiros que fe alli puzeram eíles ficaram 
em fua defensão , e a defenderam tão valoro 
famente com duas lanças de fogo nas mãos, 
com que fizeram tamanho eftrago nos inimi- 
gos , que fe não pode imaginar de dous ho 
jnens , porque as lanças de fogo derribavam 
os que chegavam , e eíles levavam outros 
apôs li até cahirem em baixo , em lima da- 
quella multidão de inimigos, huns com per- 
nas quebradas 5 outros com braços, e cabe- 



312 ÁSIA de Diogo de Couto 

ças, porque aquelles dons esforçados Tolda- 
dos com as mãos , com os pés , e com tu- 
do offendiam aos inimigos ; porque depois 
que felhes gaitaram as lanças, lançaram io- 
bre os debaixo huma fomma de panellas de 
pólvora , com que abrazáram os que eftavam 
ao fopé , ecom os pés derribavam íbbre os 
que hiam fubindo grandes pedras, e cantos, 
que eftavam pòftos por alli pêra o mefmo ef- 
feito , eftando os mais de dentro cevando-os 
com panellas de pólvora , e com lanças de 
fogo , com que não davam vagar aos Tur- 
cos pêra poderem íiibir, nem deícer, fenao 
em trambulhoes até o pé do muro, onde tu- 
do eram labaredas das panellas de pólvora. 
Os Janizaros haviam pela maior affronta , 
que nunca paliaram , dous homens fós faze- 
rem nelles tamanho eftrago , e damno , e de- 
fenderem a fubida a tantos , e tão experi- 
mentados janizaros , e tão vitoriofos em tan- 
tas guerras na Europa ; e determinando de 
acabarem aqueíle negocio , ou morrerem to- 
dos na demanda , tornaram a commetter a 
fubida , como homens oíferecidos á morte , 
onde a acharam muito certa , porque logo 
tornaram a voltar pelos ares fobre os mais , 
porque aquelles dous esforçados Manlios fo- 
bre o alto Capitólio defendiam valorofà- 
mente aquella fubida , fem quererem tomar 
hum pequeno de repoufo , nem largar o lu- 
gar 



Dec. V. Lxv. IV. Cap. II. 315 

gar a outros companheiros , que lhes pediam 
iè recolheífem a curar , (por eílarem ambos 
feridos de muitas frechadas , e efpingarda- 
das , porque todos os debaixo acertavam nel- 
les feus tiros , como aquelles que eftavam 
por alvo, fem lhes dardaquelle granizo de 
pelouros , e frechas , quefobre elles cahiam , 
coufa alguma.) O Capitão Francifco Pache- 
co chegou a elles , e lhes pedio , que qui- 
zeíTem partir com elle huma pequena da- 
quella honra , em quanto elles fe curaffem , 
e que logo lhes tornaria o lugar; mas elles 
fem darem pelos rogos do feu Capitão , em- 
bebidos na batalha , não faziam fenão cal- 
lar, bracejar, e derribar nos inimigos , fen- 
do aquiilo caufa de fe lhes vafarmais ofan- 
gue , o que a fúria, e a cólera lhes não dei- 
xava fentir. Da fortaleza fe via mui bem o 
aflalto , e as maravilhas que faziam aquel- 
les dous foldados ; e por não haver embar- 
cações , em que os foífem foccorrer , eílavam- 
fe todos debatendo , defejando de fe lança- 
rem a nado pêra fe irem achar com feus com- 
panheiros naquelles tão honrofos trabalhos , 
e perigos. 

E certo , que efta foi a mor affronta , em 
que António da Silveira fe vio , e todos os 
mais Fidalgos , e Cavalleiros com elle em 
todo o decurfo do cerco , porque lhes re- 
bentaram os corações dentro nos peitos de 

pe- 



3^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

pezar , de verem feus amigos em perigos, 
e não lhes poderem valer ; mas de lá com 
as vontades , defejos, e com os meneios os 
ajudavam. António da Silveira os mandou 
favorecer com a artilheria , já que com o 
mais não podia , defparando-a nas eftancias 
dos inimigos, e ao pé do baluarte, matan- 
do-Ihes muitos. Os Turcos eftavam palma- 
dos de verem o desbarato , e eílrago , que 
fés dous homens tinham feito na melhor , e 
mais elcolhida gente que havia antre osja- 
nizaros da guarda do Turco , cuja foberba 
lhes fazia parecer , antes de commetterem o 
aífalto , que nem toda a gente que efbva na 
fortaleza grande lhes poderia defender a- 
quelía entrada , e como attonitos , e pafma- 
dos eftavam com os olhos póílos nas cou- 
fas, que aquclles dous homens faziam* Du- 
rou eíta contenda até que o Sol fe poz , que 
os inimigos a feu pezar deixaram fua por- 
fia, recolhendo-fe a feus vallos , desbarata- 
dos , e dedroçados de dous homens fós. 

Francifco Pacheco como fe vio defapref- 
fado , mandou-os recolher , e curar muito 
bem , e foram tirados dalli nos braços de 
todos com grandes iouvores. Muito traba- 
lhámos por faber os nomes deites dous va- 
loroíbs , e esforçados foldados , fó de hum 
delles o foubemos , .que fe chamava Anto* 
nio Pinheiro, mancebo de vinte eílnco an- 

nos , 



Dec- V- Liv. IV. Cap. II. 31? 

nos 5 filho de hum Cavalleiro de Faro ; o 
nome do outro não achámos , porque o def- 
cuido , ou a inveja o tem poíto em efque- 
cimento , não fendo fuás obras fenão pêra 
viverem eternizadas na memoria dos ho- 
mens , com titulos tão bem merecidos , co- 
mo aquelie celebrado dos Romanos Marco 
Manlio , a quem deram o fobrenome de Ca- 
pitolino , por defender o Capitólio aos Fran- 
cezes , não lendo batido , nem arrazado com 
canhões 3 e bazalifeos medonhos , nem per- 
feguido de tantas nuvens de pelouros , e. fre- 
chas como eftes. E ainda que em nós não 
haja o eílilo , e eloquência de Tito Livio , 
vós, meus valorofos foldados, e outros a quem 
o defeuido Portuguez tem fepultados nas tre- 
vas doefquecimento , trabalharemos por vos 
tornar a refufeitar nefta noffa hiíloria , por- 
que veja o Mundo , que não faltaram an- 
tre Portuguezes , Manlios , Torquatos 3 Cor- 
vinos , Scevolas,Decios , nemOracios, mas 
faltaram até agora favores , honras , e mer- 
cês , que fam as coufas que fazem refufei- 
tar os engenhos , e habilidades , que antre 
todas as outras nações foram fempre tão fa- 
vorecidas , e eftimadas. 

E tornando á noíla hiftoria. Efta mefma 
noite , eftando os do baluarte de Gafpar de 
Soufa na fortaleza grande vigiando , fentí- 
ram chamar debaixo j e perguntando o que 

era. 



316 ÁSIA ds Diogo de Couto 

era, refponcleo hum homem, que era Antó- 
nio Faleiro , que hia do baluarte de Goga- 
lá , e levava huma carta de Francifco Pache- 
co per.?, o Capitão. Efte homem andara já 
em Africa , e fabia bem a lingua Arábia. 
Deo-fe difto recado ao Capitão , que o man- 
dou recolher por huma eícada de corda , e 
o eíperou com todos os Capitães , e Fidal- 
gos, e chegado a elle , lhe deohuma carta 
cerrada , que moftrava ler de Francifco Pa- 
checo , e no lugar defobrefcrito dizia, que 
podiam dar credito a tudo o que António 
Faleiro de fua parte lhe diíleíTe , e dentro lhe 
dava brevemente conta de algumas coufas fuc- 
cedidas antes do aflalto , e moftrava fer fei- 
ta havia três dias- O Capitão não lhe foube 
bem aquelle negocio , e diffe ao Faleiro , 
que podia livremente dizer ao que hia alli 
perante todos, efazendo-o affim, diffe defi- 
ra maneira : 

)> Senhor , eu fiou mandado da parte de 
» todos os do baluarte deGogalá ate fazer 
»a faber, como o Capitão Francifco Pache- 
» co fica em artigo de morte , de huma gran- 
» de enfermidade , que ha dias querem.» A 
iílo lhe atalhou Lopo de Soufa Coutinho , 
dizendo: Que, porque dizia aquillo , fie elle- 
havia menos de quatro dias quefaJlára com 
elle , e o vira muito são , e bem difpofto ? 
António Faleiro ficou embaraçado , e ven- 
do 



Dec. V. Liv. IV. Cap. IL 317 

do que corria rifco fua verdade , diíle : » Que 
» ainda que o ouvira fallar já eílava muito 
» doente 5 e que pêra morrer hum hpmem , 
» não havia mifter mais de hum momento , 
» quanto mais três , e quatro dias. » E pro- 
feguindo feu recado , diíle : » Que nos com- 
» bates paliados lhe tinham já mortos vinte 
» companheiros , e que todos os mais efta- 
» vam feridos de muitas , e grandes feridas 5 
)) e que todas as munições eram já gaitadas , 
» e o que peior era , que eftavam fem agua > 
» porque as pipas em que a tinham fe lhe 
» fora a mor parte, e que o Caftello eílava 
y> todo arrazado , e com a artilheria cega de 
)> todo , e fem poder laborar , por onde já não 
» havia outro remédio mais , que irem todos 
)> morrer no exercito dos inimigos , ao que 
» eftavam determinados tanto que amanhe- 
» ceíle , porque já que haviam de morrer, 
» queriam que foíTe de huma morte honra- 
» dn , e digna de eterna memoria. E que efr 
» tando com efta determinação vigiando el- 
» le António Faleiro o quarto da prima a 
» huma bombardeira , vira paliar hum Mou- 
)) ro , a quem fallára em lingua Arábia , e 
» lhe difíera , que pêra que era tanta cruelda- 
»de, e tantas mortes ; que febufcaíle algum 
» meio honefto pêra fe evitar tanto damno, 
» porque todos os Portuguezes eftavam de- 
» terminados a morrerem ibbre a primeira 

» pe- 



318 ÁSIA de Diogo de Couto 

» pedra , ou derradeira daquelle baluarte , 
» que os Turcos não haviam de ganhar fem 
» lhes çuílar a mor parte de fua gente. E que 
» a ifto lhe refpondêra o Mouro , que iria 
)) fallar com feus Capitães , e que logo tor- 
» naria com a refpofta , com que não rardá- 
» ra 5 e lhe diflera da parte de Coge Çofar , 
» que lhe mandafle o Capitão hum homem 
» de credito pêra com elle praticar fobre al- 
» gum modo de concerto ; e que elle Anto- 
»nio Faleiro fora eleito pêra ifíb , e lan- 
)> çado logo fora pela bombardeira , e fora 
)> ievado a Coge Çofar , e aos Capitães Tur- 
» cos , que Ibediííeram , que fe Fe entregaf- 
)> fem todos á mercê do Baxá , que era ma- 
» gnanimo , liberal , e grandiofo , ufaria com 
;» eiles de muita clemência , e mifericordia. 
y> Ao que o Faleiro refpondêra , que os Por- 
» tuguezes não ■ coftumavam a fe entregar fe- 
» não com muito grandes feguranças das vi- 
» das , e liberdades , ainda que cada hum 
» delles foubeífe paííar mil vezes pelos fios 
» da morte. E que nenhum partido , nem 
)> eífe , nem outro haviam de acceitar , fem 
y> fe dar primeiro conta ao Capitão da for- 
yi taleza ; no que elles confentíram , e o def- 
» pediram , dizendo-lhe , que até o outro dia 
» lhes levaflè a refpofta , e que a iífo o man- 
» davam os do baluarte , que agora viífe el- 
» le o que deviam fazer. ;> 

Au- 



Dec. V. Liv..IV. Cap. II. 319 

António da Silveira , e todos os mais 
deitaram fobre efte negocio differentes juí- 
zos , concebendo ruim opinião do Faleiro ; 
mas como aquillo eram fufpeitas , não fe fe- 
guráram nelJas, E pedindo áquelles Capitães 
que o aconfelhaflem naquella matéria , fo- 
ram todos de parecer, que pois não podiam 
ir ajudar , e favorecer aos do baluarte, que 
não era licito , que homens que eílavam fo- 
ra do perigo , obrigaíTem a outros a mor- 
rerem ; que pois elles eftavam no rifco , e£» 
colheflem o melhor partido que entendeíTem , 
conforme ao eftado em que eílavam. Difto 
fe fez hum termo , em que todos aílignáram * 
que fe deo ao Faleiro pêra o levar por re- 
fpofta , fem fe lhe efcrever nada mais , e o 
defpedíram. Efte homem , fegundo depois 
fe foube , teve alguns tratos fecretos com os 
Mouros, e affirmava-fe , que por três vezes 
fora fallar com elles escondidamente , fem 
nunca os do baluarte fufpeitarem coufa algu- 
ma ; e não fe foube na verdade o que fe 
paífou , porque como todos os do Caftello 
foram depois falfamente mortos, não hou- 
ve quem a difíefFe, E efta he a razão , por 
que cuidamos que o nome de hum daquel- 
les dous valorofos foldados , e de outros fin- 
co ( de que adiante fallaremos ) ficaram cm 
efquecimento > porque não houve quem os 
difíeffe, 

CA- 



320 AS1A de Diogo de CouTo 

CAPITULO III. 

De como os do baluarte' da Vi 11 a dos Ru- 
mes fe entregaram a partido aos Turcos : 
e de como João Pires cem finco compa- 
nheiros foram mortos em defensão da ban- 
deira de Ckrifio , e lançados no mar : e 
de como feus corpos milagrojamenie fo- 
ram aportar á fortaleza* 

PArtido António Falciro com o aflento 
que fe tomou , chegando ao Caítello , o 
moítrou aFrancifco Pacheco , e aos compa- 
nheiros todos y a quem Francifco Pacheco 
pedio , que lhe deíTem feu parecer naquelle 
negocio. E praticando tudo antre elles , e 
aprefentadas as difficuldades que havia pêra 
fe poderem defender 3 pela falta que havia 
<ie tudo , e pelo pouco remédio que da for- 
taleza lhe podiam dar 5 aííentáram , que fe 
írataííe da iegurança das vidas , que era ne- 
cefsario pouparem pêra ajudarem a defender 
a fortaleza grande , em que eílava toda a 
importância do negocio. Sobre o modo que 
fe niíío teria debateram , e deo cada hum 
feu parecer , nao fe conformando todos ; 
porque huns diziam , que morreisem antes 
alli como Cavalleiros , que entregarem- fe 
como covardos , porque pêra fe defenderem 
não eftavam tão impoíTibilitados P que não 

ti- 



Dec. V- Liv* IV. Cap. III. 3 2t 

tivefíem ainda alguns mantimentos, eagua; 
e que poíto que de todo lhes faltafTe , que 
os homens podiam viver fete dias fem co- 
mer , e que neííes íbccorreria Deos 5 e po- 
deria chegar o Vifo~Rey, Outros foram do 
parecer de Franciíco Pacheco , que era , que 
ie oBaxá lhes concedeííe as vidas, e osdei- 
xaííe ir livremente pêra a fortaleza , que lhe 
entregaíTem o Cartel lo , que nillo hia pou- 
co , porque não era perder mais que pare- 
des quebradas, que com a chegada do Vi- 
fo-Rey fe tornariam a cobrar; e que nodif- 
curfò do cerco , eílando elles na fortaleza , 
fe poderiam bem fatisfazer nos inimigos da- 
quella quebra. Eites venceram os mais , e lo- 
go deipedíram António Faleiro com o re- 
cado a Coge Çofar , que eílava aguardan- 
do por elle , e Jhe deo conta do que era pai- 
fado , affirmando-lhe , que fe não deixaffem 
ir os Portuguezes do Caílello pêra a forta- 
leza , que nenhum outro partido haviam de 
acceitar, Neíle tempo amanhecia já , pelo 
que o detiveram , e defpedíram recado ao 
- Baxa do que fe farin. O Baxá mandou logo 
a refpofta , e com ella hum formão , ou fal- 
vo-conduto , chapado , e fellado com a cha- 
pa , e fello do Grão Turco , em que em feu 
nome concedia as vidas aos que eflavam no 
baluarte da Villa dos Rumes , e que os dei- 
xaria ir livremente pêra a fortaleza 3 fem 
Couto.Tom.lLP.L X da- 



322 ÁSIA de Diogo de Couto 

damno , nem defeito algum em fuás peííbas. 
Chegado o formão , o levou António Falei- 
ro a moftrar a Francifco Pacheco , que lhe 
pareceo necelfario ir elle em peflba ver-fe 
com Coge Çofar , como fez , e ambos af- 
fcntáram , que lhe entregaífe o Caftello , e 
que íe fofle pêra a fortaleza , indo todavia 
elle Francifco Pacheco primeiro ver-fe a ga- 
lé com o Baxá, edar-lhe a obediência como 
rendido , e que todos os companheiros fe 
poriam da outra banda da Cidade , e que de 
lá fe poderiam ir pêra a fortaleza livremente. 
Aflentado iflo ao primeiro dia de Ou- 
tubro, havendo vinte que fuftentavam o cer- 
co , fahio-fc Francifco Pacheco da fortale- 
za com alguns companheiros , e Coge Ço- 
far o encaminhou pêra o Baxá , mandando 
com elle hum Sangiaco. Francifco Pacheco , 
e alguns , que com elles foram , fe embarca- 
ram com grande dor , e mágoa de feus co- 
rações , por fe verem chegados ao mais in-, 
felice eftado , em que hum peito valorofo fe 
podia ver. Francifco Pacheco foi mettido 
cm hum batel pêra ir ao Baxá , e com elle 
lium Gonçalo de Almeida feu parente , e o 
António Faleiro pêra lingua. Chegados á ga- 
lé, foi Francifco Pacheco levado ao Baxá, 
diante de quem feprefentou com hum rof- 
tò tão defcontente , que bem moftrava a dor , 
t mágoa que levava no coração de fe ver 

che- 



Dec. V. Liv* IV. Cap, III. 323 

chegado áqueile eftado \ e humilhando-fe ho* 
neftamente , lhe aprefenrou o feu falvo-con- 
duto , pedindo-lhe que o cumpri fle como 
era obrigado por lei da guerra , e o deixaf- 
fe com todos léus companheiros paíFar pêra 
a fortaleza. O Baxá o recebeo com muita 
honra , e lhe mandou dar logo huma for- 
mofa cabaia , e ihe confirmou o falvo-con- 
duto , com condição , que fe não iriam pê- 
ra a fortaleza, em quanto duraíTc o cerco, e 
que eítaria na Cidade em cafas , que lhe man- 
daria dar até ver o fim daquelle negocio. 
Gom ifto o tornou a mandar a Coge Ço- 
far , com ordem que os puzeíTe na Cidade 
com grande refguardo , e vigia. Francifco 
Pacheco vendo que em parte lhe quebravam 
os partidos com que fe entregara , arrepen- 
deo-fe do que tinha feito , porque receou 
mais mal. A alguns homens daquelle tem- 
I po ouvimos dizer , que Francifco Pacheco 
fe negociara mui mal.nefla entrega, porque 
já que fe não quizera recolher, como lhe An- 
tónio da Silveira tinha mandado dizer, pu- 
I dera preitear-fe com os inimigos, com con- 
i dição , que lhe puzeííem huma fuíta ao pé 
| do baluarte pêra fe embarcarem nella ,, e que 
! levanraífem o campo de febre o Caftello em 
quanto o faziam , e que aííim fegurava ávi- 
da de todos , porque tudo lhe haviam os 
Turcos de conceder, pelo que lhes impor- 
X ii ta- 



324 ÁSIA de Diogo de Couto 

tava haver aquelle Caftelio ás mãos , e o prin- 
cipal pela muita gente que íobre elle per- 
diam , porque pêra Turcos , e Mouros , que 
per natureza fam falfos , e fementidos , hà 
mifter grandes cautelas, 

E tornando á nofia ordem. Em quanto 
Francifco Pacheco fe foi aprefentar ao Ba- 
xá , ficaram os Portuguezes , que com elle fe 
fahíram no exercito , e alguns ainda ficaram 
na fortaleza. Osjanizaros, foffregos do fac- 
co do Caftelio , não aguardando que fe def- 
tapaífem as portas , ajuntando-fe quatrocen- 
tos delles j remettêram com as paredes , e 
pelos dentes delias huns , e outros por tra- 
ves , que encoftáram , fuhíram aíTima com 
grandes eftrondos , e remettêram logo com 
a bandeira de Chrifto , (que ainda eftava ar- 
vorada em fima do Caftelio , ) e a deitaram 
no chão 3 e naquelle lugar puzeram huma 
vermelha muito grande com as infignias do 
Grão Turco. Os noífos , que cftavam ainda 
no Caftelio , vendo aquelle defprezo feito 
áquella infignia de nofia Redempção , mo- 
vidos da honra da fua Religião , fahíram féis , 
de que era cabeça João Pires , homem de 
mais de feííenta annos, mui grande Caval- 
leiro ; e como doudos remettêram com os 
Turcos , e levando João Pires a bandeira 
de Chrifto nas mãos , a tornou a pôr no feu 
lugar > e deitou pelo chão a dos Turcos > 

de 






Dec. V. Liv. IV. Cap. III. 325: 

de que elles tomados acudiram aiíTo, e co- 
meçaram a ferir nos féis , e elles com gran- 
de animo nelles, ateando-fe huma muito af- 
pêra , e muito defigual briga , iníiftindo os 
Portugueses , tanto em terem a fua bandei- 
ra em feu lugar , que com lha arrancarem 
três vezes , outras tantas a tornaram a arvo- 
rar , fazendo fobre ifto maravilhas nas ar- 
mas , não lhes deixando ver aquelle grande 
zelo da honra de Deos o notável , e certo 
perigo a que fe punhao contra tantos, eem 
parte , que não podiam ter foccorro huma- 
no , andando antre os Turcos como leões 
bravos (do que elles mel mos eítavam pafma- 
dos. ) Os da fortaleza grande bem viam a- 
quelle alevantar , e abater , ora de huma , 
ora de outra bandeira , mas nao fabiam o 
que feria , porque nao tinham novas do que 
era paífado , pelo que eftavam em grande 
confusão, João Pires , e os mais andavam 
mui accezos na batalha contra os Turcos , 
de que tinham mortos alguns ; mas todavia 
andavam já todos com muitas feridas , fer- 
rados fempre na bandeira de Chriíto , pê- 
ra que eftiveíTe arvorada , do que enver- 
gonhados os Janizaros , ( vendo que fó íeis 
homens lhes davam tanto que fazer, ) car- 
regaram todos fobre elles , e os aperta-, 
ram tanto , que os ataílalháram , o que el- 
les antes quizeram , que verem com feus 

olhos 



326 ASIÀ de Diogo de Couto 

olhos tamanha offenfa feita á Cruz de Chri- 
fto. 

Mortos eíles féis animofos , e esforçados 
Cavalleiros , a bandeira dos Turcos foi lo~ 
go arvorada fem fe mais mudar , ( o que fe 
notou da fortaleza , ) mas como não fabiam 
oqueláhia, não o fouberam determinar. Os 
Mouros como ficaram efeandalizados da- 
quelles Cavalleiros, eMartyres de Chriito, 
lançaram os feus corpos da Torre abaixo 
da banda domar, enchendo amare; coufa 
maraviíhofa ! que querendo logo Deos mof- 
trar quão acceito fora diante delle aquelle 
grande amor , e zelo de fua honra , no mef- 
mo inftante que os corpos tocaram na agua, 
refreando o mar feu curfo , indo pêra fima 
com grande fúria , tornou logo com outra 
tamanha a defcer pêra baixo, que levou a- 
quelles corpos juntos até os por rodos na 
porta da couraça ; e depois de os ter juntos 
peite lugar feguro , tornou a maré a conti- 
nuar o ieu curfo ordinário. Era ifto a hora 
de meio dia. Foram aquelles corpos viílos 
de fima do baluarte , e acudindo António 
da Silveira, os mandou recolher dentro, no- 
tando todos o milagre tão evidente , fem fa- 
berem o que linha acontecido. Dal li foram 
levados á Igreja com grande honra , e en- 
terrados todos juntos em huma cova defron- 
te do Altar mor daCapella pêra fora - y e de 

crer 



Dec V. Liv. IV. Cap. III. 327 

crer he , que fuás almas fubiriam triunfan- 
tes diante da Divina Mageíhde , aonde rece- 
beriam a gloriofa coroa de Martyres. E fe 
he verdade ( como os Doutores affirmam ) 
que não fó a pena faz o martyr , fenão tam- 
bém a caufa , ( porque pêra fer perfeita ra- 
zão de martyrio não bafta morte , mas tam- 
bém vontade , ) logo pois tudo ido concor- 
reo neíles noíTos Martyres de Chrifto. Com 
muita razão os podemos nomear por efles , 
e mais quando tão claramente moftráram 
morrer por honra de fua Fé. E nós também 
nomeáramos a todos eíles féis nefte lugar , 
fe lhes acháramos feus nomes , fobre o que 
trabalhámos bem. A eftes defeuidos já não 
>ha remédio , mas trabalharemos de os emen- 
dar em noflòs tempos , com fegurarmos , que 
todo o que merecer nome na hiíloria , o não 
perca nefta noíía. 

E tornando a continuar com António 
Faleiro , ficou na galé com o Baxá , muito 
feu mimofo, e logo em fe fahindo Francif- 
co Pacheco , lhe mandou o Baxá , que ef- 
creveífe huma carta em feu nome , que o 
mefmo Baxá notou , e mandou a Coge Ço- 
far que foíTe ter com Francifco Pacheco , e 
lha fizeíTe allinar, e fizeífe ir a bom recado 
até defronte da fortaleza ao mefmo António 
Faleiro, eque levaífe acarta a António da, 
Silveira, efallaífe com elie, e o perfuadif- 

fe 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe a lhe entregar a fortaleza , e que nas pro~ 
meflas não foíle avaro , mandando a Coge 
Çofar, que eílivelTe prefente ás práticas pê- 
ra fer teftemunha delias. Foi coula efpanto- 
fa , que logo na fortaleza fe começou a di- 
zer, ( fem haver quem tal foubefle, ) que Fran- 
cifco Pacheco havia duas ; ou três noites que 
hia fallar com os ditos Capitães Turcos , e 
outras particularidades deita qualidade , que 
depois fe affirmáram fer aílim , como foram 
adivinhadas, 

CAPITULO IV. 

Que contém o theor de huma carta , que o 
Baxd efcreveo a António da Silveira , em 
nome de Francifco Pacheco : e do que paf 
fou na falia que teve com António Falei- 
ro : e da rejpojia que lhe deo : e de como 
os Turcos ajjentdram fuás ejlancias , e 
começaram a bater a fortaleza. 

EStando António da Silveira muito trif- 
te , e malenconizado todo aquelle dia , 
fem faber o que era fuccedido no baluarte , 
mais que entender-fe eftarem os Turcos fe- 
nhores delle , fem faber o como , ao outro 
dia , que foram dous do mez de Outubro ás 
dez horas do dia , appareceo á vifta da for- 
taleza António Faleiro em meio de quatro 
Janizaros ,, veítido em huma cabaia de eí- 

car- 



DecV. Liv. IV. Cap. IV. 329 

carlata , com muitos alamares cie fio de ou- 
ro , e na cabeça turbante a modo Turquef- 
co j e bradando aos do baluarte de Gafpar 
de Soufa , diífe , que trazia huma carta de 
Francifco Pacheco pêra o Capitão , que lo- 
go mandou por hum daquelles Janizaros , 
que chegou ao pé do baluarte , e a atou a 
hum cordel , que de fima lhe lançaram , e tor- 
nou-fe affaftar. Gafpar de Soufa a mandou ao 
Capitão , e elle ficou á falia çom o Falei- 
ro , que lhe diífe, que Francifco Pacheco, 
e Coge Çofar eítavam alli perto efperando 
pela refpofta , e alli lhe contou o modo de 
como fe entregaram , e de como o Baxá os 
recebera com honras , engrandecendo muito 
fua authoridade, prudência, liberalidade, e 
outras partes , que elle não tinha , contan- 
do-lhe o grande poder que trazia , dizendo- 
lhe , que o bom feria entrarem também em 
algum partido com elle , e entregar-lhe a- 
quella fortaleza , porque não era poffivel po- 
der-fe defender a tantos , e tão poderofos ca- 
nhões , e ferozes baíiliícos ; e que o Baxá 
eítava apoftado a fazer tudo o que lhe o 
Capitão pediíTe. Gafpar de Soufa tanto que 
aquillo ouvio , logo entendeo que era velha- 
co j e que fora nos tratos , o que todos fuf- 
peitaram delle , e com muita paixão , e có- 
lera lhe diífe, que era hum fraco, traidor, 
e covarde , e que difleíTe ao Baxá , que on- 
de 



330 ÁSIA de Diogo de Couto 

de vira elle hum Capitão como António da 
Silveira , que tinha huns teíticulos tamanhos 
como os de hum touro , entregar a fortale- 
za , que tinha em feu poder , a hum Eunuco , 
como mulher, fraco, fem fé, nem palavra; 
e que fe mais lhe dizia fobre aquillo algu- 
ma coufa , que o mandaria efpedaçar com 
hum camello : com ifto fe callou. A carta 
foi levada ao Capitão , que a não quiz abrir , 
fenão prefentes todos os Fidalgos , e Capi- 
tães , de que fe encheo toda a cafa , e man- 
dando-a ler , fem a querer tomar na mão , 
viram que dizia aílim : 

» Senhor , forçado da neceflidade me en- 
y> treguei ao Baxá Soleimão , com íeguran- 
» ça das vidas , e liberdades , de que nos paf- 
-» fou hum falvo-conduto com o fel lo do 
» Grão Turco , contentando-íè com lhe lar- 
» garmos o baluarte , e que lhe foílemos á 
» fua galé dar a obediência , o que fiz , e 
» levei comigo António Faleiro , e Gonça- 
» lo de Almeida , e elle nos fez muitas hon- 
» ras , e mercês , e nos tornou a confirmar 
» o falvo-conduto , com condição , que nos 
» não iríamos pêra a fortaleza , em quanto 
» q cerco durafle ; porque como determinava 
» de fe não levantar de fobre ella fem a to- 
»mar, não queria que a foííemos ajudar a 
)) defender. Efte homem traz muito grande 
» poder, etem mandado defembarcar gran- 

»de 



Dec. V. Liv. IV- Cap. IV. 331 

y> de fomma de baíiliícos , e outras peças groC* 
» fiíTimas ; e informado da pouca gence que 
» eílá neíTa fortaleza , e da falta da agua , e 
a mantimentos , e munições, defejava denão 
» chegar ao cabo com a guerra , e de haver 
» algum meio pêra cfcufar tanto damno: pe^ 
)i lo que , Senhor , vos peço hajais bom con- 
» felho , e que lhe entregueis eíTa fortaleza 
»com toda a artilheria , que elle vos dará 
» embarcações , em que todos vos poífais ir 
»pera Goa livremente. » 

António da Silveira tanto quexmvio fal- 
lar na entrega da fortaleza , não deixou ir 
mais por diante a carta , (porque ainda era 
maior;) e perguntando aos que eftavampre- 
fentes , que era o que diziam áquillo ? re- 
ípondêram todos a numa voz , que fobre a 
mais pequena pedra daquella fortaleza per^ 
deriam mil vidas, fe tantas tiveflcm. Antó- 
nio da Silveira com grande alvoroço os a- 
braçou a todos, e logo na mefma carta (que 
não quiz que lhe ficafle ) mandou refponder 
o feguinte : 

» Pêra Capitão , que tanto me engrande- 
» ceis , houvera de cumprir comvofco me- 
»lhor o falvo-conduto , que vos paflbu dos 
» partidos com que vos entregaftes ; mas não 
y> me efpanto de íer falfo , e mentirofo , quem 
y> tem por lei , e natureza não guardar ver- 
#dade. De vós íim, que tão livremente me 

» acoa- 



3J2 ÁSIA de Diogo de Couto 

2» aconfelhais huma coufa tão longe da que 
a eu tenho em meu coração , porque não fó 
» cuido de lhe defender efta fortaleza , mas 
» de o ir desbaratar dentro era feus exercir 
» tos* E vós não fejais mais oufado a me ef- 
acrever femelhantes coufas , porque a to- 
ados os que vierem com voííb recado , man- 
» darei efpedaçar ás bombardadas. » E cer- 
rando acarta, lha mandou lançar do baluar- 
te abaixo , e foi levada a António Faleiro , 
que fe foi ajuntar com CogeÇofar, e com 
Franciíco Pacheco , e todos fe foram á ga- 
lé , e levaram a refpofta ao Baxá , que fe 
houve por muito affrontado das palavras com 
que o tratavam. E affim com aquella ira man- 
dou metter a banco das galés a Francifco Pa- 
checo 3 e a todos os mais que foram da Vil- 
la dos Rumes , que feriam perto de feífen- 
ta peífoas , em que entravam alguns Chri- 
ílãos da terra. 

As novas deita carta do Baxá correram 
pela fortaleza ; e não fó na gente nobre-, mas 
ainda na popular , até nas mulheres caufou 
tamanha ira , e furor , que defejavam de irem 
commetter os inimigos dentro em fuás eftan- 
cias. O Baxá mandou logo trazer toda a ar- 
tilheria, que tinha deixado em Madrefaval , 
que foi trazida com grande trabalho de mui- 
ta gente da terra em juntas de bois , e foi 
paliada á Ilha em grandes barcaças , e o car- 
go 



Dec. V. Liv. IV. Cap. IV. 33$ 

go de Meítre do Campo deo a Icuf , e o 
da artilheria a Hamede Baxá com dous mil 
Turcos ; e a Coge Çofar com toda fua gen- 
te , que eram treze mil homens , deo o car- 
go de General fobre elles , porque elle ficava 
na fua ga!é , aflim porque era muito velho, 
como porque era muito covarde , e não fe 
queria pôr a algum rifco. Icuf aos quatro de 
Outubro plantou fua artilheria fobre a for- 
taleza de mar a mar em leis lugares , por 
onde poz as peças todas por eíta maneira. 

Na ponta da terra , que fica defronte don- 
de hoje eftá fituada a Igreja de S. Domin- 
gos , ( e onde fe vê hum formofo pyramide , 
que alli fe poz depois pêra memoria , que 
íerá pouco mais de trezentos paííos pela ef- 
quadria , ) puzeram huma colubrina , que lan- 
çava pelouro de ferro coado de pezo de k[^ 
lenta e finco libras , e dous pedreiros , hum 
de pelouro de trezentas libras , e o outro de 
duzentas , hum paífavolante , e huma colu- 
brina de pelouro de cento e fincoenta libras , 
hum bafalifco mui grande , duas águias , dous 
leões , e outros canhões pequenos. 

Em outro lugar, que fica naquelle alto , 
que eftá fobre o jogo da bola , a pouco mais 
de oitenta paífos da fortaleza , puzeram dous 
bafalifcos , hum paífavolante , duas águias, 
dous leões , e outros canhões menores , e 
hum temerofiílimo quartáo pêra com elle ar- 

rui- 



334 ÁSIA. de Diogo de Couto 

minar a ciflerna , que levava pelouro como 
hum fardo de arroz. 

Adiante pêra a banda do mar , defronte 
do baluarte S.Thomc, afleíláram dous bafa- 
iifcos , duas águias , hum facro , hum mor- 
tarro de quatrocentas libras de pelouro , c 
outros canhões, 

Naquella parte , em que depois fe fundou 
a Ermida de NoíTa Senhora , que era o lu- 
gar da forca , plantaram dous bafalifcos , 
duas águias , hum efpalhafato , huma colu- 
brina de cem libras de pelouro , e outros ca- 
nhões ; e aífim por eíla maneira correram 
com as outras duas eílancias até cingirem to- 
da a frontaria da fortaleza , de forte , que em 
todas eílas eílancias havia cento e dez peças 
de artilheria , fem fe bolir em alguma das 
galés, porque toda eíla vinha de fobrecellen- 
te nos galeões. Por eílas féis eílancias fe re- 
partiram quatrocentos bombardeiros , Efcla- 
vonezes , Ungaros , Venezianos ,' e de outras 
nações. E depois que fe fortificaram , e fi- 
zeram feus repairos , baíliães , e mantas , af- 
fentáram feus exércitos antre eílas eílancias , 
c a fortaleza, naquella parte onde eíla o jc- 
go da bola , que ficava mais baixa , de for- 
te que porfima dclles jogava toda a artilhe- 
ria daquella parte, e alli fe fortificaram de 
vallos , trincheiras , e cavas , o que tudo fi- 
zeram aquella noite com perda > e damna 

de 



Dec. V. Liv. IV. Gap. IV. 335 

de muitos dos feus , porque dos noflòs ba- 
luartes , em o fentindo , defparáram nelles to- 
da a noite fua artilheria. 

Ao outro dia pela manhã fe viram to- 
das as eftancias plantadas , e fortificadas com 
muito boa ordem , e com ellas começaram 
logo a dar a primeira falva á fortaleza com 
tamanho eíirondo > e terremoto , que pare- 
cia que o Mundo fe desfazia em coriícos , 
e trovões , eclipfando-fe o Sol com a efcu- 
ridade , e efpeífura das nuvens do fumo , 
com que deixaram de fe ver huns aos ou- 
tros. Os pelouros faziam pçlas ameias do 
muro tão grandes terremotos , que parecia 
que todos os Cycoples infernaes eftavam nel- 
las martellando ; mas nada deitas carrancas 
efpantou os nofTos , porque defprezando tu- 
do , acudiam a repairar com muita prefteza 
algumas partes arruinadas , refpondendo-lhes 
também com fua artilheria , que fe defparou 
em todas as eílancias , em que lhes mata- 
ram , e feriram muitos. António da Silvei- 
ra , como Capitão animofo, corria a todas as 
partes , pêra ver com o olho o de que ti- 
nham neceffidade pêra logo mandar prover. 
No baluarte de Gafpar de Soufa ( por on- 
de os Turcos tinham determinado de dar o 
aflalto , por eftar fora da cava ) puzeram el- 
les muita força , batendo-a de três eftancias > 
porque determinavam de o arrazar , porque 

ef- 



336 ÁSIA de Diogo de Couto 

efte de nenhum outro través podia fer íbo 
corrido , e ajudado , íenão folie do baluar- 
te do mar , de que era Capitão António de 
Soufa. Efte Capitão tanto que vio começar 
a bateria , mandou apontar todas as peças 
no exercito inimigo , que lhe ficava pela ban- 
da do mar hum pouco deícuberto , come- 
çando-o abater rijamente, fazendo-lhe mui- 
to grande damno. Os Turcos acudiram lo- 
go áqueilas partes , e fizeram repairos pê- 
ra não ferem por alli tão offendidos. 

A bateria foi-fe continuando naquelle ba- 
luarte de Gafpar de Soufa , em que fe def- 
carregou aquella tempeftade , e multidão de 
baíiiifcos , falvagens , leões , águias , com 
que lhe. arrazáram ( nefta primeira moftra ) 
todos os altos , ameias, e contra ameias , ce- 
gando-lhe as mais das peças, que era o que 
eiles pertendiam , quebrando-lhe hum camel- 
lete em muitos pedaços , e a boca a hum for- 
mofo leão. E não querendo defiftir daquelle 
negocio até não derribarem todo o baluarte 
pelo chão , mandaram revezar a bateria , al- 
ternando-a duas vezes , aífim aquelle dia 
todo, como a noite feguinte , em que por 
conta dos de dentro atiraram duzentas e 
quarenta bombardadas. Em todo efte tem- 
po não houve poderem tomar os noííos 
hum pequeno de repoufo , porque repar- 
tidos todos pelo trabalho , acudiram a repai- 

rar â 



Dec. 'V. Liv.IV.Caí. IV. 337 

rar , e reformar as ruínas , que eram mui- 
tas. 

Ao outro dia tornaram á bateria pela 
mefma ordem , em que acabaram de arrazar 
o baluarte are o entulho , ficando as peças 
da artilheria todas cegas , e eíle defcuberto 
por todas as partes , quebrando-lhe mais hum 
íalvagem de ferro , e outras peças miúdas* 
Entendendo António da Silveira , que por 
aquelle baluarte pertendiam dar-lhe o afíal- 
to , deo ordem a todos os Capitães das ou- 
tras eftancias , que no tempo do commetti- 
mento omandafTem íoccorrer com a melhor 
foldadelca que tiveífem. E logo mandou acar- 
retar pêra o pé do baluarte muita madeira , 
c pedra pêra o fortificar , e renovar , pro- 
vendo de muitas lanças de fogo , paneilas 
de pólvora , e de outros petrechos de guer- 
ra pêra íua defensão, pondo por todo elle 
muitas tinas cheias de agua , e ordenou pi- 
pas , e ceftoes cheios de terra , que fe pu- 
zcram á roda do baluarte pêra repairo. Os 
inimigos vendo que fó em dous dias puze- 
ram aquelle baluarte naquelle eftado , ficou- 
Ihes elperanças de o arrazarem de todo, e 
mandaram continuar a bateria , e bater a cor- 
tina do muro com oito peças juntas, o que 
fe fez por mais íinco dias contínuos , em 
que derribaram liuma grande parte do mu- 
ro , que hia fechar no baluarte S. Thomé, 
CMtQ.Tom.ILP.I. Y que 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

que ficou de feição , que fe via a fortaleza 
toda por dentro, e o través do baluarte foi 
também derribado por algumas partes , e ce- 
gas as peças que delle jogavam* Daquelia 
parte do baluarte , que fe derribou , cahio tan- 
ta pedra , e caliça pêra fóra , que lhe ficou 
hum entulho que chegava até íima , por on- 
de muito bem fe podia fubir. Ficava efta ro- 
tura do muro muito perto do baluarte de 
Gafpar de Soufa , que acudio a repairar tu- 
do o melhor que pode, com muito grande 
rifeo , e trabalho de todos. 

Efta noite chegou á fortaleza ocatur de 
Miguel Vaz , em que vinha D. Duarte de 
Lima , que foi recolhido pela couraça , e re- 
cebido do Capitão com grandes honras. Del- 
le foube como o mandava o Vifo-Rey ver 
o eftado em que aquella fortaleza eftava , 

5>orquecom a certeza do que lhe diíTefle , fe 
lavia de abalar , porque ficava já no mar 
com huma muito poderofa Armada. Com 
iílo ficaram todos muito alegres , e toda a 
noite paílaram em feílas , e folias. E a ou- 
tro dia fe embandeirou a fortaleza , aífini 
pêra darem a entender aos Mouros o pou- 
co que os temiam , como porque foubeíTem 
que efperavam pelo Vifo-Rey. 



CA- 



Dec. V. Lrv. IV. 339 

CAPITULO V. 

Do primeiro ajjalto , que os Turcos deram 

ao baluarte de Gafpar de Soufa , e do 

que nelle pajjou. 

VEndo António da Silveira o baluarte 
de Gafpar de Soufa arrazado, acudio 
ao fortificar com huma groíTa parede pela 
banda de dentro , que logo começou a fa- 
zer com muita prefla de noite. Ifto foi knr 
tido dos inimigos, que por não darem tem- 
po aos noííbs de fe repairarem , bateram to- 
da a noite o baluarte , fazendo nelle grande 
damno, matando, e ferindo alguns dosnof- 
fos , que andavam na fabrica da parede j por- 
que os muitos pelouros que choviam fobre 
o baluarte, não davam lugar pêra fe correr 
com a obra. Mas António da Silveira , que 
com o feu grande entendimento andava tra- 
çando modos pêra contra os ardis dos Mou- 
ros , mandou , que com muito íilencio fe 
correfle alli com a obra , e que no panno 
fe bateíTe com muitos picões , e fe fizeíTe 
grande eftrondo , pêra que os inimigos acu- 
diflem ao fom das pancadas , pêra aílim da- 
rem algum fôlego aos que corriam com a 
obra da parede ; o que lhe não fahio em 
vão , porque como a noite era muito efcu- 
xa , e elles não Yiam aonde atiravam P afTeft 

Y ii ta- 



34<> ÁSIA de Diogo de Couto 

tavam as peças da artilheria ao tom do tra- 
balho dos picões , e afíim ficaram correndo 
com muito filencio na obra da parede, que 
começou a crefcer , indo-a fabricando pela 
borda do baluarte de pedra , e barro , e a- 
quella noite a puzeram em altura de hum 
homem, e tão larga, que com huma eíca- 
da que fizeram pêra a íerventia , ficava to- 
mando a terça parte do baluarte , com o 
que ficou por então feguro , e defenfavei. 

Ao outro dia tanto que amanheceo , que 
os inimigos viram a obra feita , ficaram co- 
mo pafmados v e fem embargo diíTo deter- 
minaram de daraquelle dia hum aflal to pe- 
la rotura do muro , e delle encommendáram 
a dianteira a fetecentos Janizaros debaixo 
das bandeiras de Beran Can , e Mamede Can, 
que em dous efquadrões foram remettendo 
com o muro. Os dianteiros , que começa- 
ram afubirpelas ruínas, foram íinepenta Ja- 
nizaros armados de todas as armas. No mef- 
mo tempo fe começou a bateria em toda a 
fortaleza pêra divertirem os noííos , e para 
ficar aquella parte mais fraca , c com menos 
efperança de foccorro. Os dianteiros com 
grande oufanía , e arrogância commettêram a 
fubida , havendo quedaquella feita levariam 
a fortaleza nas unhas ; mas Gafpar de Sou- 
fa deixando o baluarte provido, tomou al- 
guns companheiros P que pêra iíjb efeolheo , 

e. 



Dec. V. Liv. IV. Cap. V. 341 

e acudio áquella parte com algumas lanças 
de fogo, e panellas de pólvora, e chegan- 
do os Janizaros a pôr as mãos no muro , 
dando nelles , os fez virar de pernas afíima , 
levando apôs íi outros. Os Capitães Turcos , 
que eílavam ao fopé do muro , vendo vir 
aquelles , mandaram outros ; e aííim foram ce- 
vando aquelie lugar , porque como fe va- 
iava dos que os de lima derribavam , logo 
fe enchia de outros , que parecia que apor- 
fia hiam bufcar.a morte, que lhes não tar- 
dava mais , que em quanto o ferro Portu- 
guez lhes não chegava. 

Os Turcos vendo a. grande reíiflencia, 
que nos de fima achavam , começaram a per- 
der o brio , e foberba com que alli chega- 
ram , ( porque haviam que tudo fe lhes deí- 
ampararia emelles chegando.) Ifto lhes fa- 
hio bem ao revés ; porque os de lima , quan- 
to mais dos inimigos recrefcião , tanto mais 
fe lhes dobrava o animo , forças , e alento. 
Gafpar deSoufa deoaqui hum a grande pro- 
va de feu muito valor, e esforço , porque 
em quanto durou o aflalto , fempre fe apre- 
fentou no maior perigo diante de todos os 
feus, fazendo taes obras, que obrigava a to- 
dos ao imitarem. D. Duarte de Lima (que 
tinha chegado aquella noite) quiz fer tel- 
temunha de tudo pêra informar de vitla ao 
Vifo-Reyj epoílo diante de todos \ fezcou- 

fas 



34^ ÁSIA de Diogo de Couto 

fas bem dignas de ferem mui particulariza- 
das, o que anoífa hiftoria não foffre ; por* 
que fe de todos o houvéramos de fazer , 
fern dúvida , que pêra cada hum dos que 
nefte cerco fe acharam, houvera mifter mui- 
tos Capítulos , e por iífo não faremos mais 
que nomeallos \ porque pelo decurfo do cer- 
co fe verá bem a gloria , que fe deve a ca- 
da hum , e a todos. 

António da Silveira chegou áquella par- 
te acompanhado de alguns Fidalgos , que o 
feguiam , ( que elle chamava perá fe acon- 
felhar nas coufas árduas , ) e foi paíTando por 
todos pêra fe pôr no lugar da defensão , 
porque lhe não foífria o animo ver os feus 
em perigo, eelle ficar de fora; mas os que 
hiam com elle o detiveram , dizendo-lhe , 
que não era aquella fua obrigação , e que 
lhe não haviam de confentir arrifcar-fe a pe- 
rigo algum , porque nelle eílava o remédio 
daquella fortaleza ; e que em quanto o vif- 
fem vivo , pelejariam todos com as tripas 
cm huma mão , e com a efpada na outra ; 
o que feria ao contrario , fe lhe acontecef- 
fe defaftre. António da Silveira deteve-fe en- 
tão no baluarte , provendo dalli nas coufas 
neceííarias. Os noílbs , que eftavam ao encon- 
tro com os inimigos , fizeram nelles tama- 
nho eftrago , que de já não poderem os Tur- 
cos ver tanto, arrancaram do exercito com 

to- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. V. 343 

todo o poder , e chegaram a favorecer os 
feus com tamanho eftrepito , e ruido , que 
atroavam os ares , com que efpantavam as 
aves do Ceo. 

Aqui foi a revolta muito grande , por- 
que os inimigos como magoados trabalha- 
vam por entrarem a fortaleza ; e os noííbs , 
como quem em fua defensão eílava feu re- 
médio , faziam maravilhas pola não deixa- 
rem entrar. Alli acudiram de refrefco Lopo 
de Soufa Coutinho , Manoel de Vafconcel- 
los , e outros Fidalgos , e Cavalleiros , e pe- 
diram aos que eílavam no lugar da defen- 
são , que delcançaííèm hum pouco , que el- 
les ficariam alli até tornarem , o que alguns 
não quizeram fazer, e outros quaíi por for- 
ça , por fe irem curar de muitas feridas que 
tinham. Em fim os noííbs trataram os ini- 
migos de feição, que quantos mais fubiam , 
tantos mais tornavam a voltar feitos peda- 
ços , levando outros até baixo apôs ÍL Du- 
rou eíte affalto até o meio dia , que fe re- 
tiraram os inimigos pafmados de verem tão 
poucos homens fazer tamanhas maravilhas , 
blasfemando de Mafamede , havendo que el- 
le era o que os caítigava por mãos de tão 
poucos. 

OsnoiTosvendo-fe defalivados , recolhe- 
ram os feridos , que eram muitos , cuílando 
fó as vidas a dous. O Capitão mandou re- 

pai- 



344 AS1A de Diogo de Couto 

pairar aquelle lugar com muita prefteza , no 
que trabalharam o que reftou do dia, e to- 
da a noite , fem tomarem repoufo. Os Mou- 
ros cheios de ira , e furor do máo fuccef- 
ío paflado , tornaram a redobrar a bateria 
naquelle lugar pêra o acabarem de arrazar, 
infiftindo em que por alli haviam de entrar 
a fortaleza ; e affim o bateram , que torna- 
ram a deitar por terra tudo o que fe reno- 
vou. Aquella noite pedio António da Silvei- 
ra a D. Duarte de Lima , que fe tornalTe 
com o recado do que vira ao Vifo-Rey > 
pois efperava por elíe , pêra que fe apreífaf- 
íe, efcrevendo-lhe huma breve carta , em 
que fe reportava a elle. D. Duarte de Lima 
lè embarcou contra lua vontade , porque de- 
fejou de ficar na fortaleza , e com grande 
vigia nas galés , fahio pela barra no quarto 
da modorra , e foi feguindo feu caminho. 

Ao outro dia pela manha chegou á Ar- 
mada huma das náos , que eram defappareci- 
das , em que vinha o Armiraglio , que tra- 
zia muitas vitualhas. Com fua chegada, por 
lhe fazerem fefta , quizeram os inimigos dar 
outro aílalto á fortaleza , e aíTim fahíram de 
feus exércitos com fuás bandeiras defenrola- 
das , e rerrettêram com a quebrada do mu- 
ro , por onde começaram a fubir 5 como ho- 
mens magoados , e defefperados a recebe- 
rem a morte das mãos dos de lima , que os 

et 



Dec. V. Liv. IV. Gap. V.eVI. 34? 

efperáram com muito animo pêra lha da- 
rem , e aíHm os efcandalizáram eíte dia , que 
a pezar feu os fizeram afFafíar, com tanto, 
ou maior damno que o paíTado. E por não 
particularizarmos tanto , que enfaftia , três 
vezes commettêram eíle dia o aílalto , achan- 
do década huma maior defengano nosnof- 
íòs; e afiim tornaram á fua bateria , coufa 
que os de dentro mais fentiam , que os af- 
laltos , porque nelles não faziam mais que 
matar , e derribar nos inimigos , com tanto 
goíto , que elle lhes fazia parecer o perigo 
muito leve, mas na batetia andavam occu- 
pados no repairar , e renovar , fem poderem 
tomar por luas mãos vingança, de quem lhes 
dava aquelles trabalhos. 

CAPITULO VI. 

Do grande medo que deo no Baxd , tanto 
que Joube que o Vifo-Rey ficava pêra o 
ir bufe ar \ e da contagiofa enfermidade , 
que deo em todos os da fortaleza : e do 
valor , com que as mulheres acudiram aos 
trabalhos da fortificação. 

GBaxá , que eftava no mar , tanto que 
entrou D. Duarte de Lima na fortale- 
za, (pelo alvoroço que nella houve, epor 
também os noíTòs lho dizerem de noite de 
lima do muro , ) foube logo .de como o Vi- 

fo- 



346 ÁSIA de Diogo de Couto 

Íb-Rey ficava no mar pêra o ir bufcar , pe- 
lo que fe paílbu daquelle porto , ( porque 
também nelle osNoroeftes lhe davam traba- 
lho , ) e fe foi pêra a outra parte da terra 
firme da banda de Gogalá , porque ficava 
mais abrigado. E como era homem fraco, 
e acovardado , mandou afFerrolhar logo to- 
dos os Chriftãos , e paíTou-fe da galeaça em 
que eftavapera a galé baftarda , por fer mui- 
to ligeira , e mandou-lhe tirar o toldo , e 
vela , que era todo quarteado , divifa pêra 
ler conhecido no mar, e mandou-a guarne- 
cer de velas brancas , porque fe não foubeí- 
fe em qual das galés eftava , deixando a fua 
bandeira , e divifa na galeaça , e mandou 
guarnecer as galés todas de arrombadas , e 
padezes fortes , porque fe vieíle a Armada 
doVifo-Rey, (que elle não determinava de 
efperar , ) eftaria preíles alfim pêra fugir , co- 
rno pêra pelejar , quando mais não pudeífe. 
E porque não ficaífe trabalho algum , que 
os da fortaleza não paflaífem , fobreveio em 
todos huma geral enfermidade da boca , e 
gengivas com tamanha inchação , e dores , 
que nem o arroz mole podiam maíligar, e 
era mui grande laftima de ver , e ouvir os 
gritos , e ais das dores que padeciam. Efte 
mal fe caufou da agua , que bebiam da cis- 
terna , que por neceílidade fe recolheo neí- 
la 3 com o betume , e cal ainda frefca , o 

que 



Dec. V. Liv. IV- Cap. VI. 347 

que a corrornpeo de feição , que caufou ef- 
te mal tamanho em todos mui grande efpan- 
to , e medo , porque fe viam huns aos ou- 
tros como mortaes , com as bocas abertas , 
eílilando hum humor peçonhentifíimo , co- 
mo fe foram mordidos de nocivas biboras, 
iem comerem , dormirem , nem tomarem re- 
poufo algum ; mas todavia nos rebates acu- 
diam todos com hum fervor , e animo , que 
lhes fazia efquecer as dores que tinham. 

E como em todas as baterias matavam , 
e feriam aos da fortaleza , começava a fal- 
tar gente pêra o trabalho da reformação das 
minas, do que movidas as mulheres todas, 
com hum zelo honrofo Portuguez , ordena- 
ram tomar á fua conta o trabalho manual 
das obras , pêra que ficaífem eíles poucos 
homens , que havia defoceupados , pêra a de- 
fensão da fortaleza. As authoras defta obra 
tão heróica foram Ifabel da Veiga , e hu- 
ma Anna Fernandes. A Ifabel da Veiga , 
(que he a de quem já falíamos no Capitu- 
lo I. do IV. Livro , ) que fe não quiz ir 
pêra Goa , quando feu marido Manoel de 
Vafconcellos a mandava 3 foi filha de hum 
Cidadão de Goa nobre , chamado Francif- 
co Ferrão , que foi Juiz da Alfandega de 
Goa em vida; foi cafoda com eíle Manoel 
de Vafconcellos, homem Fidalgo , de an- 
tre quem ficou no Mundo grande pofterida- 

de, 



348 ÁSIA de Diogo de Couto 

de, e ampla geração; porque tiveram eftas 
filhas , Dona Luiza de Vafconcellos , que foi 
cafada duas vezes ; a primeira com Diogo 
de Mefquita , de quem neíla quinta Década , 
e na quarta falíamos muitas vezes , que foi 
Capitão de Çofala , de quem nafcêram Ma- 
noel de Mefquita, caiado na índia , quefa- 
leceo fem lograr a fortaleza de Chaul , de 
que era provido, eDona Ifabei de Vafcon- 
cellos , que também foi cafada duas vezes , 
como fua mãi , numa com Ruy Dias Ca- 
bral , filho de Fernan de Alvares Cabral , 
de que não houve filhos ; e a outra com Ma- 
noel de Miranda , filho de Diogo de Mi- 
randa , Camareiro mor, que foi do Cardeal 
D.Henrique. De antre eftes nafcêram mui- 
tos filhos, e filhas, que fam vivos. Afegun- 
da vez foi Dona Luiza , cafada com Panta- 
kão de Sá , filho de João Rodrigues de Sá 
do Porto , que foi Capitão de Çofala , de que 
houve huma filha , que eftá cafada em Portu- 
gal , que fe chama Dona Barbara de Mene- 
zes , cori Lourenço de Mello , filho de Chrif- 
tovao de Mello, e de huma filha do noflb João 
de Barros , a que chamavam Dona Catharina. 
As outras duas filhas , que Ifabei da Veiga 
teve de Manoel de Vafconcellos, foram Dona 
Catharina , cafada com Pcro de Mefquita , e 
Dona Joanna com Diogo Lopes de Mefqui- 
ta de Guimarães , que foi Capitão de Maluco. 

A 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VI. 349 

A outra Matrona Anna Fernandes , que 
fe ajuntou com efta pêra governarem as ou- 
tras , foi cafada com hum Fernão Louren- 
ço , Chriftão velho , profeflbr da Cirurgia. 
Eftas appellidando todas as mais , com léus 
ceftos nas cabeças mui alegres , e contentes , 
começaram a carretar a pedra , terra , madei- 
ra , e outros materiaes pêra as obras , e re- 
pairos , que íe faziam , que logo foram cres- 
cendo muito , fentindo-fe já dalli por dian- 
te menos a falta dos doentes. Eíle ferviço 
faziam todas com huma prefteza , e alegria, 
que dobrava os ânimos a todos. E não con-^ 
tente Anna Fernandes com efte exercício , co- 
meçou a exercitar outro de muito grande ca- 
ridade , que era, a todos os feridos, que fe 
hiam curar a fua cafa com feu marido, el- 
h com fuás próprias mãos lhes alimpava as 
feridas , e fazia os fios , concertava os un- 
guentos, e ainda osagazalhava em fua caia, 
e lhes fazia as dietas , e dava as fuás con- 
iervas, e mimos , com tanto amor , como 
fe todos foram feus próprios filhos. E não 
fatisfeita ainda difto , fem tomar repoufo , 
tanto que era noite , e que os agazalhava , 
fahia-fe de cala encoftada a hum bordão , 
(porque era velha, e pejada,) e hia correi 
todas as eftancias , e baluartes , animando a 
todos , lembrando-lhes fuás obrigações , e 
fazendo-os eftar promptos á vigia. Ê ainda 

paí? 



3?o ÁSIA de Diogo de Couto 

paíTou mais adiante , que todas as vezes que 
havia alTaltos, acudia aparte em que pele- 
javam , e com hum animo varonil fe mettia 
em meio de todos , animando-os , e perfua- 
dindo-os a pelejarem pela Fé de Chrifto. Al- 
gumas vezes acertou de ver pelejar alguns 
floxamente, echegando-fe aelles, os repre- 
liendeo , e esforçou ; e vendo huma vez , ou 
duas, que fe hiam huns efcoando , efahin- 
do-fe da batalha , com ira , e menencoria os 
tomou pelos braços , e affrontando-os com 
palavras mui honradas , os fez tornar a feus 
lugares. E aífim trazia o olho neftas coufas , 
que nada deixava de ver ; e tamanho medo , 
e refpeito lhe tinhao já todos , que em ella 
chegando no tempo da briga , e levantando 
a voz , fe mettia em meio delles , chaman- 
do-lhes filhos , e Cavalleiros de Chrifto : af- 
Hm trabalhavam todos por lhe parecerem 
bem , e de fe arriícarem nos lugares mais 
perigofos , como fepelejaíTem diante dofeu 
Rey , que os houveífe de galardoar. 

Tinha efta Matrona hum filho de de- 
zoito annos na fortaleza , chamado FranciA 
co Mendes , muito bom Cavalleiro , e que 
fempre pelejou bem : andando ella nefte af- 
falto vifitando os baluartes , o achou mor- 
to de huma efpingardada pela cabeça , e 
muito inteira , e confiante o tomou nos bra- 
ços , e o recolheo ? e como fe acabou a bri- 
ga* 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VL 35*1 

ga , lhe fez dar fepultura com huma fegu^ 
rança , e foffrimento , que efpantou a todos , 
não deixando de continuar com feu piedofo 
exercício , encubrindo a dor , e mágoa , que 
em feu coração tinha , por não entriílecer a 
todos y que a amavam como mãi. Deita ma- 
neira ficaram eftas Matronas continuando no 
trabalho de noite , e de dia , e em qualquer 
parte que por ellas chamavam pêra alguma 
neceflidade , logo acudiam com todo aquei- 
le feminino efquadrão, carregadas todas de 
materiaes , e de todas as mais coufas necei- 
1 sri3s 

CAPITULO VIL 

De como os Turcos melhoraram fuás ejlan- 
cias até as porem d borda da cava. 

EScandalizados osTurcos dos aílaltos paf- 
fados , determinaram de não levarem 
mão da bateria , até não arrazarem de todo 
o baluarte de Gafpar de Soufa, pêra entra- 
rem por elle na fortaleza , no que puzeram 
toda fua induftria , e poder. E affim foram 
continuando abateria com grande terror, e 
efpanto alguns dias , em que também der- 
ribaram a Igreja , que eftava no meio da for- 
taleza no mais alto lugar delia , que era hum 
edifício muito arrezoado de três naves, com 
huma torre fobre a porta , tão alta 9 e qua- 
fi tamanha , como a antiga de S. Vicente de 

fó- 



3? 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

fora em Lisboa , que fe deícubria toda de 
fora muito bem, e tudo arrazáram, e der- 
ribaram , no que accreícentáram nos Portu- 
guezes maior ódio, eira, defejando de vin- 
gar aquella oíFenfa feita ao Templo dedica^ 
do ao Altiíiimo Deos. Daquella eftancia , que 
os Mouros tinham fobre o jogo da bola , 
( de que também batiam todos aquelles dias 
o baluarte de Gafpar de Soufa , ) defpará- 
ram aquelle temerofo quartáo, que tinham 
affeílado porefquadria no lugar dacifterna, 
que eftava a cargo de Roque de Navaes , 
hum Cavalleiro honrado , que mandou com 
muha diligencia armar fobre ella alguns an- 
daimos fortiílimos 5 per^ que os pelouros 
embaçafíem primeiro neíles , que déííem na 
abobada , o que foi parte pêra fe não ar- 
rombar de todo , poíto que alguns pelou- 
ros lhe deram , de que recebeo algum da- 
mno. O baluarte de Gafpar de Soufa foi ba- 
tido de três partes com tanta fúria , que lhe 
arrazáram toda aquella parede , que os nof- 
fos tinhao fabricada. A iíloacudio logo An- 
tónio da Silveira , e mandou edificar outra 
inais forte pela banda de dentro , que to- 
mava tanto do baluarte , que já lhe não fi- 
cava mais , que hum terço delle , em que fe 
recolheífem. 

A eíle ferviço acudio com muito fervor 
aquelle feminil efquadrão carregado de pe- 
dra, 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VII. 3£g 

dra , barro , terra , agua , madeira , não ihes T 
impedindo eíla obra nem a grande quen- 
tura do Sol , de que ellas não refguardavam 
feus delicados carões, nem o fereno , e ef- 
curidão da noite, nem os grandes , e medo- 
nhos coriicos , e tempeílades da artilheria , 
cujos pelouros lhes zonião , e aílbviavão pe- 
las orelhas , fem ellas mudarem palio , nem 
largarem o ferviço. António da Silveira re- 
ceando que lhe tornaíFem a derribar aquel- 
Ia parede , e que o baluarte fe perdeíle , or- 
denou de fabricar pela banda de dentro hu^ 
ma torre á maneira de Cavalieiro pêra de- 
fensão da fortaleza. 

Neíta obra ( que foi muito proveitofa ) 
fe puzeram as mãos com muita diligencia; 
e porque começou a faltar pedra , mandou 
o Capitão derribar algumas cafas , o que fe 
fez com muita prefteza , acarretando as mu- 
lheres a pedra , e madeira delias , com o que 
a obra foi crefcendo de feição , que ern pou- 
cos dias fe poz, na altura do baluarte , com 
o que elle ficou feguro. Foi eíla fabrica tão 
neceíTaria , e importante , que parece que 
Deos moveo o coração do Capitão pera a 
ordenar ; porque fem dúvida , ella foi a prin- 
cipal parte da defensão da fortaleza , e de 
os inimigos anão entrarem. Em quanto du- 
rou eíle trabalho, nunca António da Silvei- 
ra fe apartou do baluarte, onde era fua ef- 
Çout§. Tem. 1L P, L Z tau- 



3^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

tancia , e onde eftava fempre de dia , e de 
noite ao pé delle , aílentado em huma cadei- 
ra armado, mandando, e governando tudo, 
e fempre com a bolça aberta cheia de di- 
nheiro , que defpendia muito liberalmente 
por todos ; e aífim deo tanto , que lhe veio 
a faltar , e foccorreo-fe a prata de feu fer- 
viço , que toda cortou em pedaços , com que 
fazia as pagas fem pezo , nem conta. Ef- 
ta foi huma das grandezas , que fe notaram 
emCefar, que mandava pagar aos foldados 
ás inaos cheias de dinheiro , mandando que 
cada hum metteííe a mão em huma alcofa, 
que eílava cheia delle , e que tomafle tudo 
o que eiíe pudeffe levar , porque dizia , que 
de outra maneira o enganariam na conta. 

Os Turcos vendo derribada a fegunda 
parede > e o baluarte tão damnificado , que 
já fe podia commetter , determinaram de me- 
lhorar fuás eílancias , até as porem fobre a 
borda da cava , pêra o que ordenarão gran- 
des balas de algodão , e huns fardos gran- 
des de couros crus dobrados , muito redon- 
dos, e compridos, cheios de terra. Depois 
de tudo iílo feito , huma noite os foram ro- 
lando , indo detrás delles osjanizaros, am- 
parados por amor da nolTa artilheria , e ar- 
cabuzaria ' y porque os noííos tinham tama- 
nha vigia, que em fentindo aquelle rumor, j 
defparáram pêra aquelia parte toda a mu 

jqí- 



iu. 



Dec\ V.- Liv. IV- Cap. VIL 357 

niçao , com que lhes mataram , e feriram 
muitos. Todavia elles foram por diante até 
chegarem a dous fornos de cal mui gran- 
des, que os noílbs tinham feito perto da ca- 
va pêra a obra da fortaleza , que por def- 
cuido ficaram em pé , cujas paredes ficavam 
fobre a terra , altura de hum homem. E pon- 
do aqui os fardos, entulharam os fornos com 
muita preíleza ,- e de hum ao outro fizeram 
logo huma groíTa parede de terra , e pedra , 
com o que ficava hum grande , e formofo 
repairo , e por íima delle puzeram as balas 
de algodão , fobre o que armaram huns ca- 
vallos grandes de madeira , forrados de cou- 
ros crus , que pêra aquillo tinham feitos , com 
o que ficou aquella eítancia quaíí tão alta , 
como aquelle baluarte , apartado delle a lar-* 
gura da cava. Eííes cavallos tinham muitas 
feteiras pêra jogar a fua arcilheria , e com 
muita arte, einduftria fizeram algumas pro- 
fundas cavas pêra a ferventia defdo exerci- 
to até alli , por onde fe ferviam de huma 
Carte pêra a outra; fem ferem vidos dosnof-* 
los , e por elias trouxeram algumas peças de 
artilheria , que plantaram contra o baluarte > 
e por fóra deita eftancia abriram outra mui- 
to formofa , e larga cava. 

Efta obra fe fez toda efta noite , e no ou«* 
fro diafeguinte , em que receberam afias de 
damno dos noílos ; que não eftayam defcui* 
Z ii da- 



35^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dados , antes huns pelejando , e outros for- 
tificando , também gaitaram todo aquelle 
tempo. Os Turcos tanto que acabaram as 
eftancias , começaram a bater o baluarte de 
Gafpar de Soufa com grande fúria , e con- 
tinuação. Tinhão os noííos arvorada huma 
formofa bandeira em lima da Torre nova, 
que o Baxá vio da galé , e mandou dizer a 
todos os bombardeiros do exercito , que o 
que lha derribaíle lhe daria liberdade , e íeí- 
fenta cruzados , e hum veftido. Com efie in- 
tereíTe lhe atiraram muitos , e hum dellcs, 
que era Efclavonez , aos três tiros deo com 
eila em baixo , ao que os Turcos deram gran- 
des gritas , e fizeram muitas feitas. A bate- 
ria foi-fe continuando , até derribarem toda 
a parede, que de novo tinham feita, e par- 
te do melmo baluarte , cuja terra , caliça , e 
pedra , que cahio pêra fora , fez hum entu- 
lho tão alto como o muro , por onde não 
podiam bater no vivo , e todos os tiros em- 
buçavam. Vendo Coge Çofar aquillo, man- 
dou trazer das aldeias vizinhas muita gente 
inútil , por quem mandou furtar o entulho 
por baixo , fem amparo algum , e por for- 
ça , e ás pancadas os faziam chegar ao tra- 
balho , em que a mor parte pereceo , por- 
que a efpingardaria de íima le empregava 
nelles bem á vontade , fem fe perder tiro.ji 
Os -Turcos, em quanto leifto fazia,- não de-' í 

fif- í 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VIL e VIII. 3^7 

fiftiam da bateria dos outros baluartes , o 
que não fizeram a feu falvo , porque do ba- 
luarte do mar lhes fizeram fempre muito 
damno , porque os varejavam por huma ilhar- 
ga do exercito , e todavia o baluarte de Gon- 
íalo Falcão ficou tão arrazado , que por 
íima ficou defeuberto todo fem amparo al- 
gum. 

CAPITULO VIII. 

Do grande , e geral a [falto , que os Tur- 
cos deram d fortaleza : e dos efpanto- 
jòs cafos , que nella aconteceram. 

P Oitos os baluartes no eftado em que diC- 
femos y determinaram os Turcos de dar 
á fortaleza hum geral aílalto. Ehum dia pe- 
la manhã fahíram de fuás eílancias com toa- 
das as bandeiras dcfenroladas , e remettêram 
com o baluarte de Gafpar de Souia , cui> 
dando que daqueila feita fe concluiiTe aquel- 
le negocio. Os Janizaros , que eram os di- 
anteiros , começaram a íubir pelo entulha 
com grande determinação , e foberba , que 
fe lhes quebrou tanto , que os de íima lhes 
puderam chegar , e alcançar com o ferro , 
com que os cortaram de feição , que mui^ 
ta parte delles tornaram de pernas aílima fei- 
tos pedaços , e abrazados das muitas paneí- 
lns de pólvora , quefobre elles lançaram. A 
bateria neíle tempo não ceifava nas outras 

par- 



3? 8 ASIÀ de Diogo de Couto 

partes pêra divertirem os noflbs. Gonçalo 
Falcão andava emíima do feu baluarte, que 
eftava todo arrazado , e defcuberto , man- 
dando-o repairar , e fortificar ; e como ti- 
nha alli feu fim limitado , o tomou hum pe- 
louro de huma bombarda pela cabeça , que 
logo lhe fez em pedaços. A morte deite Fi- 
dalgo foi muito fentida de todos , pelas mui- 
tas partes que tinha , de confelho , esforço > 
e liberalidade , que em todo o tempo pude- 
ra fazer muita falta , quanto mais naquelle , 
cm que tanta neceílidade tinha de homens 
daquella qualidade , porque nelles traziam 
todos os mais os olhos , e elles os faziam 
oufados , e confiados. No baluarte de Gaf- 
par de Soufa foi a referta grande , porque 
os Turcos hiam fubindo com grande deter- 
minação , huns pelas quebradas das paredes , 
e outros pelo entulho , até chegarem a ex- 
perimentar o damno, que em fima lhes ef- 
tava apparelhado , porque os noflbs aíTim os 
efeandalizáram , como aos primeiros. N 

Os Capitães Turcos vendo aquelle eftra-^ 
go , remettêram ao baluarte com todo o po- 
der , lançando os Janizaros armados de ar- 
mas brancas diante , que envergonhados de 
verem tantos dos feus tornarem domais al- 
to feitos pedaços, defeítimando a morte, a 
foram bufear á porfia , travando-fe huma 
cmel batalha > em que os do baluarte íe vi- 
ram 



Dec. V. Liv. IV. Ca?. VIII. ^9 

ram em grande rifco , e aperto. Diíto fe dea 
logo rebate a António da Silveira, que ci- 
tava no feu lugar governando , e provendo 
a tudo ; e fabendo o trabalho em que efta- 
vam , mandou todos os que trazia em íua 
companhia , que acndifíem lá , e o mefmo 
fizeram dos outros baluartes muitos Fidal- 
gos , e Cavalleiros , que com hum grande 
ódio , e defejo de vingança fe puzeram ao 
encontro dos inimigos , começando a cor- 
tar por elles fem piedade ; mas como erain 
muhos, não lhes fazia falta os que lhes ma- 
tavam , porque logo fe tornavam a encher 
os lugares de outros folgados , renovando- 
fe o furor , e ira em todos ; porque huns 
por fubir , e outros por lhe defender a fu- 
bida , faziam maravilhas , não tanto a fal- 
vo dos nolfos , que naquelle conflicto lhe 
não mataííem quatro , e feriííem os mais del- 
les ; e antre eftes deram a hum João da Fon- 
feca , muito bom Cavalleiro , huma efpin- 
gardada pelo collo da mão direita , que lhe 
varou tudo o fangradouro , íicando-lhe o 
braço dependurado ; e como elle eítava com 
aquelle animo , e furor , não fazendo cafo 
da ferida , nem lha entendendo os que eíla- 
vam detrás delle , porque eftava diante de 
todos, mudou com muita prefteza huma a- 
dafga, que tinha pêra aquelle braço, e to- 
mando a efpada com a mão efquerda , fez 

com 



"3 '6o ÁSIA de Diogo de Couto 

com ella taes coufas , que fe lhe não fentio 
o defeito do outro braço , que elle trabalha- 
va por encubrir •, acudindo de quando em 
quando com a mão efquerda a levantallo pê- 
ra lima , porque tinha os oílbs quebrados, 
e com o pezo da adarga lhe cahia ao lon- 
go da perna ; e nunca efta falta lè lhe en- 
xergara , fe fe lhe não fahíra , e vira o mui- 
to langue , que delle corria , de que eftava 
o chão todo cheio. 

E como aquelle lugar , em que pelejavam , 
não era capaz demais que de doze, ou tre- 
ze peffoas, tinham muitos, que citavam de 
fora , o olho no que fe faria pêra o tirarem , 
e fe porem em feu lugar. Duarte Mendes de 
Vafconcelíos , que eftava detrás delle, ven- 
do-lhe correr tanto fangue , e entendendo 
quão mal ferido eftava , e que fó o efpiri- 
to , e confiança o detinha alli , puxando por 
elle , lhe pedio fe quizeífe ir curar , porque afi- 
fas tinha dado prova de feu muito grande 
valor , e esforço , porque feria perda mui- 
to grande acontecer-lhe algum defaftre por 
diilímular com as feridas , que depois lhe 
não faltaria tempo , e lugar, em que moftraf- 
fe feu vaiorofo animo. João daFonfeca fez 
tão pouco cafo daquiilo , que fem lhe re- 
fponder , nem fazer mudança alguma , foi 
continuando na briga com tanto furor, que 
fez pafmar a todos : certo, que parecia que 

quan- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VIII. 361 

quanto mais fangue delle fe vafava , tanto 
mais lhecrefciam as forças , e o animo. Du- 
arte Mendes como eftava defejofo daquelle 
lugar , e todavia era grande mágoa ver hum 
tão valoroíb mancebo tão arrifcado , por fe 
não querer fahir da batalha , tornou a pu- 
xar por elle , e a lhe rogar , que não qui- 
zeífe iníiílir naquella porfia , ainda que tão 
honrofa , que fe foífe curar , que elle lhe 
guardaria o lugar até tornar, João da Fon- 
feca virando o rofto, lhe diífe: Pedis-me , 
Senhor , bem grande fem-razao \ fe ep te- 
nho ejie braço efquerdo fam , epojfo com el- 
le menear ejla efpada , como hei de deixar 
o lugar , em quanto nelle não perder a vi- 
da ? E tornando á fua defensão , não pele- 
java com furor de homem , que queria de- 
fender aquelle lugar , fenão como quem pa- 
recia que fe queria lançar dalli em meio 
dos inimigos , pêra de mais perto tomar del- 
les vingança do ódio que lhes tinha , e fa* 
tisfazer-fe da dor da ferida. Todavia che- 
gou áquelle tempo Lopo de Soufa Couti- 
nho, que vendo tão honrada porfia, pedio 
a João da Fonfeca que fe foífe curar , por- 
que elle tinha já ganhado tanta honra , que 
não havia coufa alguma mais que defejar ; 
e que a maior que tinha havido naquelle 
cerco, era a muito honrofa inveja , que to- 
dos lhe ficavam tendo. João da Fonfeca ven- 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

do-fe importunado , e tendo refpeito a Lo^ 
po deSoufa, fahio-fe do lugar, cm que íè 
metteo Duarte Mendes , que trabalhou tu- 
do o que pode por fe não fentir nelle fua 
falta , fazendo taes coufas clle , e todos , que 
tinham pafmados os inimigos , em que ti- 
nham feito tamanho eftrago , que já os mais 
delles commettiam a íubida mais froxamente. 
Sentindo iílo António da Silveira , (que 
a todos os momentos era avifado de tudo 
o que fe paliava , ) mandou a Lopo de Sou- 
fa Coutinho, que com a gente que pudeíTe 
ajuntar, fedeíceíTe ácava pelo baluarte São 
Thomé , e que fofíe por fora dar nos ini- 
migos, que elle confiava em Deos , que ha- 
via de alcançar huma grande vitoria. Lopo 
de Souía ajuntou logo trinta e finco folda- 
dos , e por efeadas de cordas- fe lançaram 
na cava pêra aquella parte , que olha pêra 
o mar , donde não podia fer vifto dos ini- 
migos, e com huma reíbiuta determinação, 
arrebentou pela boca da cava fora , dando 
Sant-lago nos Mouros , que eftavam ao fo- 
pé do muro do baluarte da porfia, bem des- 
cuidados de tamanha oufadia \ e com tão 
grande eftrondo oscommetteo, que parecia 
que dava fobre elles hum grande efquadrão , 
começando a fentir em fuás carnes o ferro 
dos noífos : e fem o medo lhes deixar ver 
o pequeno número delles ; deiamparáram o 

lu- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. VIII. 363 

lugar , e foram fugindo pêra as eftancias. Ok 
que eftavam em fima do entulho commet* 
tendo a entrada , tanto que ouviram embai- 
xo o eítrondo , e viram o defarranjo com 
que os léus fugiam , fem fazerem difcurfo 
algum mais , que aquelle que o medo , e de- 
fejo de falvarem as vidas lhes reprefentou > 
fem verem orifco a que fe punham, fe lan- 
çaram dalli abaixo , vindo muitos efpetar-fe 
nas lanças dos noflbs , e os mais que efca- 
param foram tão amedrontados , que den- 
tro em fuás eítancias não perderam ainda o 
medo que levavam, ficando o baluarte def- 
apreflado. Lopo de Soufa Coutinho tornou- 
fe a recolher á cava fem damno algum , com 
grande gloria , e honra daquelle feito , e man* 
dou dizer ao Capitão , que lhe parecia bem 
haver de continuo guarda naquella cava pê- 
ra impedirem aos inimigos , que com pe- 
quenos aíTaltos não inquietaflem os noflbs; 
porque pofto que então lhes folie neceflario 
commettcrem com maior poder, e ifto fof- 
fe mor perigo, e rifco pêra os noflbs, to- 
davia refultaria hum effeito de muita impor- 
tância , que era ficar-lhes então mais tempo 
pêra fe fortificarem , e que elle fe oífereciâ 
pêra ficar na cava. O Capitão pondo aquel- 
le negocio em confelho , aflentou-fe fer mui- 
to neceflario , e que todos os dias ficafle hum 
Capitão na caya 7 e que de noite fe reco- 
lhe- 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

IheíTe á fortaleza, porque de dia eítavam nel- 
la feguros , porque era muito alta , e os ini- 
migos não podiam chegar á borda delia pê- 
ra os empecerem, que nãofofíem logo des- 
baratados dos de lima do muro. Com eíta 
refolução mandou dizer o Capitão a Lopo 
de Soufa Coutinho , que lhe agradecia mui- 
to aquelle confelho que lhe dera , e que fof- 
feelle o que começalfe aquella guarda : com 
o que Lopo de Soufa fe deixou ficar todo 
aquelie dia com agua , e bifcouto , que de 
íima lhe lançaram , e como anoiteceo fe ve- 
colheo á fortaleza. Ao outro dia teve our 
tro Capitão a guarda, e aflim foram conti- 
nuando, pondo- fe os noflbs na boca delia, 
que era mais eítreita , e poucos homens po- 
diam defender a entrada , que os noíTos ti- 
nham fempre occupada com as lanças enref- 
tadas aos quartos. E quando havia alguma 
coufa , lhe faziam de fima final ; e daqui lhes 
fahiam muitas vezes de través, efempre os 
efcandalizavam , como adiante fe verá , de 
feição, que fe refrearam em feus aflaltos, e 
os noíTos ficaram tendo mais algum fôlego , 
pêra fe poderem fortificar, e remediar fuás 
neceífidades. 



CA- 



Década V. Liv. IV. 365* 

CAPITULO IX. 

De algumas coufas notáveis , que acontece* 
ram aos que vigiavam a cava : e de al- 
guns aj] altos , que os Mouros deram á for- 
taleza : e de como minaram o baluarte 
de Gafpar de Soufa. 

COntinuando-fe elta ordem da guarda da 
cava , íuccedeo fer hum dia de Simão 
Furtado, que com oito foldados fepoz nei~ 
la ; antre eíles fe metteo hum moço de dez- 
enove annos , criado de Lopo de Soufa 
Coutinho , Gallego de nação , e muito pe- 
queno de corpo i mas terrivel , e indiabra- 
do , chamado João ; eíte levava fua efpada , 
eçfpingarda. Eftando aífim, deram de ílma 
avifo , que alguns Mouros eftavam favore- 
cendo aos trabalhadores , que furtavam o en- 
tulho do baluarte ; e arrebentando Simão 
Furtado com os feus companheiros pela ca- 
va fora , deo nos inimigos como hum raio , 
derribando dos primeiros golpes alguns ; os 
mais cortados do medo fugiram , fem ve- 
rem o pequeno efquadrão , que os punha em 
desbarato. O moço João , depois que def- 
parou a efpingarda em hum Mouro, arran- 
cou da efpada , e remetteo com outro , que 
era hum façanhofo homem de corpo , com 
pueril apertou tão rijamente ; que Uie fez vi- 
rar 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

rar as cofias , (porque também feus compa- 
nheiros já hiam fugindo. ) O moço o foi fe- 
guindo ás cutilladas , e aflim o perfeguio , 
que com o defatino ., que levava do medo, 
foi tomando o caminho domar pêra a ban- 
da do cais da fortaleza, que lhe ficava mais 
perto que o exercito , e o moço fempre apôs 
elle até fe metter pela agua , por onde o 
Mouro fe metteo , e entrou tanto porella, 
que lhe deo pelo pefcoço ; e como o Mou- 
ro era homem grande , chegou até parte , 
que o moço lhe não pode chegar, e coma 
raiva , e defejo que levava de o ferir , met- 
tido na agua quaíi até o pefcoço , fe desfa- 
zia em golpes , que cortavam pela agua. De 
Uma do muro foi vifto o trabalho em que 
eftava; e conhecendo-o Lopo deSoufa, lhe 
bradou : E/locadas , ejlocadas , João. O mo- 
ço conhecendo a voz do amo , encolheo o 
braço , e lhe atirou algumas eftocadas , met- 
tendo-fe com a fúria tanto pela agua , que 
perdeo o fundo, eindo-fe-lhe os pés , ficou 
todo mergulhado , ( fem largar nunca a es- 
pingarda da outra mão , nem a efpada. ) O 
Mouro vendo-o fubmergido , virou fobre 
elle pêra o affogar ., havcndo-o os de íima 
do baluarte já por perdido ; mas elle tornou 
a furdir aífima quafi affogado; efentindo o 
Mouro afferrar delle , (não perdendo o ani- 
mo naquella hora , g trabalhoíb tranfe , ):eii^ 

co- 



Dec. V. Liv. IV- Ca?. IX. 367 

colheo o braço , e deo-lhe duas , ou três es- 
tocadas pela barriga. O Mouro com a dor 
da morte o largou ; e o moço , que já tinha 
tomado pé, lhe deo tantas, até que o aca- 
bou de todo. E vendo-fe defalivado delle r 
fahio-fe da agua banhado todo no Tangue 
do Mouro, e com a eípada emhuma mão, 
c a efpingarda na outra , fe foi recolhendo 
pêra a cava, feuspaííbs ordinários, e muito 
íeguro , chovendo íbbre elle nuvens de e£» 
pingardadas , que os Mouros lhe atiravam, 
lahindo-o a recolher Simão Furtado , que 
já fe tinha apartado dos Mouros, deixando 
feito nelles grande eítrago. O moço foi cha- 
mado aílima á fortaleza , c António da Sil- 
veira o levou nos braços , dizendo-lhe pala- 
vras , e gabos de muitos louvores. 

Eíle feito admirou a todos , e aílim não 
lemos , nem ouvimos que aconteceíTe outro 
lemelhante a Gregos , nem a Romanos ; por- 
que fora delles mais celebrado , e em mais 
volumes, e com mais cópia de palavras am- 
plificado , do que o nós fazemos aos noííos 
naturaes , como o faz Tito Livio ao feu Cor- 
vino , que matou hum Francez em defafio 
em terra raza , echá, fendo ajudado de hum 
corvo , que lhe períeguia o inimigo ; mas 
nós tratamos as coufas íingelamente , como 
fuccedêram , porque ellas mefmas ficaram 
fendo o louvor de quem as obra. Efle-mo- 



368 ÁSIA de Diogo de Couto 

ço fe chamou depois João Gil , de alcunha 
o Pequeno , porque o era , como já difie- 
mos , e viveo depois muitos annos cafado, 
em Dio, rico, eabaftado, aonde o nós al- 
cançámos , e communicámos alguns inver- 
nos , que invernámos naquella fortaleza , fen- 
do Vilò-Rey da índia o Conde do Redon- 
do : a efte João Gil ouvimos contar eftascou- 
fas, e outras deite cerco. 

E tornando ao noiíb fio. Ao outro dia , 
depois que iílo paliou , coube a vigia da ca- 
va a Manoel de Vafconcellos , que com trin- 
ta homens fe metteo nella , e de madrugada 
fahio aos inimigos , que começavão a acu- 
dir á obra do entulho ; mas como elles já 
eflavam prevenidos , não o puderam os nof- 
fos fazer tão encubertamente , que não fof- 
fem fentidos , pelo que os acharam já preftes , 
travando-fe antre elles huma afpera briga , 
de que os noílbs fe recolheram com maior 
damno, porque lhe mataram Chriítovão de 
Soufa , mancebo Fidalgo de grandes penfa- 
mentos , e que promettia de fi mui grandes 
efperanças , que primeiro que o mataííem vin- 
gou bem fua morte , fazendo maravilhas y 
como até então tinha feito em todo aquelle 
cerco. Manoel de Vafconcellos enfadado do 
ruim fucceflb que teve , negociou-fe pêra fe 
iatisfazer ; e na mor força do dia , eítando os 
inimigos defcuidados , deo fobre elles , vin- 

gan- 



Dec, V. Liv- IV. Cap. IX. 369 

gando-fe bem da perda padada , e depois 
de fazer nelles grandes damnos , recolheo- 
ie a feu falvo. 

Os Turcos affrontados daquelles aílaltos , 
vendo que não fó defendião os Portuguezes 
a fua fortaleza , mas que ainda lhes hiam 
dar em feu exercito , determinaram de lhe 
dar ao outro dia hum geral aíTalto , pêra o 
que fe prepararam toda a noite ; e em rom- 
pendo amanhã, arrebentaram com todo feu 
poder , e cercaram a fortaleza á roda ; mas 
os Janizaros todos commettêram o baluarte 
de Gafpar de Scufa com grandes gritas , e 
edrondos , começando a íubir pelo entulho 
até chegarem aonde os de íima lhe alcança- 
ram , achando nelles a reíiílencia acoftuma- 
da , e deícnganando-os bem com morte de 
muitos. Era efre dia da guarda da cava de 
Lopo de Soufa Coutinho , que já de madru- 
gada eítava dentro ; e fentindo os inimigos 
dar o aíTalto , arrebentou pela cava fora , e 
deo nos que efíavam ao fopé do baluarte , 
tão de fupito , que o não viram, íènao de- 
pois que fentíram os fios de fuás efpadas , 
baralhando-fe com os inimigos 5 fazendo to- 
dos os noffos maravilhas. E andando Lopo 
de Soufa como hum leão , lhe deram hu- 
ma bombardada do baluarte do mar , ( que 
em todos os aífaltos varejava de lá os Mou- 
ros , ) mas quiz Deos que o tomou em fofc 
Cou to. Tom. II. P.L Aa laia 



370 ÁSIA de Diogo de Couto 

laio por huma efpadoa , que a foi roçarr- 
do, e o pelouro pafFou adiante , e deo em 
três foldados dos feus , de que cahíram inal 
feridos. Os mais , vendo Lopo de Soufa fe- 
rido , e os companheiros , recolhêram-nos 
com muita prelía pêra a cava, e foram ala- 
dos á fortaleza pêra os curarem. 

Os Turcos ficaram efte dia bem efcala- 
vrados , e todavia houveram feu confelho 
de profeguirem abateria até arrazarem o ba- 
luarte , porque os aííaltos lhe euflavam mui- 
to , e aííim a tornaram a continuar mais qua- 
tro dias, mettendo nelies todo o reílo daar- 
tilheria em todas as eílancias , e deita vez 
arrazáram todos os apoiemos do Capitão , 
ao que elle acudio logo , mandando fazer 
por dentro hum novo contra-muro. Iílo pat- 
inava aos inimigos , porque em derribando 
alguma coufa , ao outro dia a viam repai- 
rada , e feita de novo , como ie nunca rece- 
bera damno. 

A principal coufa , por que quizeram os 
Turcos continuar com abateria mais aquel- 
les quatro dias , foi , porque pertendêram mi- 
nar nelies o baluarte de Gafpar de Soufa, 
pêra o que tinham preftes as coufas neceíTa- 
rias \ e ao outro dia de noite trouxeram hu- 
mas grandes traves , com huns olhos , que as 
furavam de parte a parte , ao direito huns 
dos outros, que com muita prefteza encof- 

tá- 






Dec. V. Liv. IV. Ca?. IX." 37* 

taram ao baluarte alamborados pêra fora , 
e logo lhe pairaram pelos olhos alguns bar- 
rotes , que fe fechavam nas pontas por não 
fe affaítarem as traves , e por Uma delias 
pregaram groííbs tabcoes , pêra lhe ficarem 
como mantas , e nos pés fizeram fortes re- 
puxos , porque não correííern pêra trás ; e 
pêra fe íegurarem dos que lhes fahiam da 
cava, lhes entupiram aquella mefma noite a 
boca com muitas balas de algodão forradas 
de couros crus. 

Feitas as mantas , neíla noite foram lo- 
go mettidos muitos officiaes de minas debai- 
xo , pêra trabalharem ftguros dos tiros de 
lana ? e começaram a pôr as mãos á obra 
com muita prefteza. António da Silveira tan- 
to que ao outro dia vio as mantas encofta- 
das ao baluarte ? bem entendeo que o mi- 
navam , pelo que mandou Gafpar de Sou- 
fa , que com fetenta homens fe metteíTe na 
cava, e déíTe hum aíTalto nos inimigos pê- 
ra os embaraçar ; e com elle mandou algu- 
mas peífoas , que tinham conhecimento de 
minas , pêra que em quanto duraííe a bri- 
ga , fe metteífem dentro nellas, e as medif- 
iem 5 pêra faber fua altura , e onde lhe re- 
fpondiam. Gafpar deSoufa muito alvoroça- 
do , efeolheo parentes , e amigos pêra aquel- 
le feito , que era muito honro ib , ainda que 
arrifeado, erepartio por todos lanças defo- 
Aa ii go > 



37 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

go , bombas , panellas de pólvora , e faqui- 
teis de couro cheios delias. E tanto que en- 
trou o quarto d 5 alva, metteo-fe na cava, re- 
partindo pelos companheiros ascoufas, que 
haviam de fazer , pêra que fe não embara- 
çaífem. A huns deo cuidado de queimarem 
as bailas de algodão , que entupiam a boca 
da cava ; a outros o reconhecerem as mi- 
nas ; a outros de derribarem , e desfazerem 
as mantas , e eftes todos hiam afforrados , 
e levavam muitos efcravos , e fervidores pê- 
ra os ajudarem; porque em quanto elle pe- 
lejava com os Mouros , tiveflem elles tem- 
po pêra fazerem o que tinham a cargo. 

CAPITULO X. 

De como Cafpar de Scufa commetteo os ini- 
migos , e os nojjbs reconheceram a mina : 
e do defajire , por que Gafpar de Soufa foi 
morto : e de como hum foi dado morreo de 
puro medo : e dos ajjaltos , que os Turcos 
deram d fortaleza , e de outras coufas. 

EStando os noffbs na cava preíles pêra 
o aíTalto ; fendo meado o quarto d'al- 
va , tomou Gafpar de Soufa fincoenta efco- 
lhidos antre todos , deixando os mais em 
guarda dos que haviam de reconhecer as mi- 
nas , e queimar as balias ; e arrebentando 
por íima do releixo y que vai de longo do 

mu- 



Dec. V. Liv. IV. Cap, X. 373 

muro , deo nos inimigos , que eílavam nas ef- 
tancias fobre a cava. E tomando-os defcui- 
dados de tal fobrefalto , entrou os baíliaes, 
matando logo as vigias , e com tanta pre£» 
fa , e fúria foram paliando avante , matan- 
do , e derribando nos Mouros , que puzeram 
todos em fugida , mettendo-fe com iílo todo 
o exercito em revolta , porque os noííbs pou- 
cos de tal maneira fizeram nelles hum tão 
cruel eftrago, que parecia que era outro po- 
der tao grande como o feu. Os Portugue- 
ses , que tinham as outras coufas a cargo , 
tiveram bem de tempo pêra as executarem y 
porque huns arremettêram com as balias , e 
rompendo-as por partes , lhes mettêram pól- 
vora, e deram fogo , com que começaram 
a arder ; outros entraram nas minas , c as 
mediram muito á fua vontade \ e os outros 
desfizeram com muita preíía as mantas , com 
que deram embaixo, elhes puzeram fogo. 
Gafpar de Soufa , depois que fez o aíTalto mui- 
to devagar, havendo- fe por fatisfeito doda- 
mno , que tinha feito nos Mouros , e tam- 
bém por vir já amanhecendo , foi-fe reco- 
lhendo , indo já os inimigos recrefcendo fo- 
bre elle , tendo-lhe fempre o roílo , indo el- 
le detrás dos feus por fe não defmandarem. 
E como o defarranjo dos foldados da ín- 
dia he mui grande por totalmente carece- 
rem da difciplina militar y e da principal par- 
te 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

te. delia, que he a obediência, deixáram-fe 
ficar três delles atrás , por fazerem fortes aos 
inimigos. Gafpar de Soufa tanto que o fou- 
be , voltou fó pêra os recolher , mandando 
aos feus , que foliem devagar com as efpin- 
gardas no roíío ; eelle chegou a hum por- 
tal velho , que fora do amigo muro , onde 
os feus foldados pelejavam , e já os nao a- 
chou , porque fe tinham recolhido por de- 
trás de hum pedaço de parede. Gafpar de 
Soufa nao os vendo , tornou a voltar , mas 
achou-fe rodeado dos inimigos , que tinham 
dado a volta á parede apôs os foldados , que 
já eram recolhidos , e dando com elle , o com* 
metteram mui determinadamente. Gafpar de 
Soufa com huma efpada , e rodela , com o 
roílo fempre nos Mouros , que o perfeguí- 
ram bem , fe foi recolhendo o melhor que 
pode , pelejando valorofamente , havendo 
por affronca virar-lhes as coílas , e quiz an- 
tes que o mataffem , que verem-no fugir , 
podendo-o elle fazer com honra fua. Os ini- 
migos cada vez recrefciam mais fobre elle, 
que hia fazendo maravilhas. Do muro bem 
viam o trabalho em que eilava , e o favo- 
receram com alguns tiros. Os JVlouros for 
ram-no. apertando de feição , que vendo- íe. 
tão perfeguido , remetteo com os de diante 
com tao grande fúria , que os fez voltar , der- 
ribando alguns j levando-os com aquelle im- 
pe- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. X. 37? 

peto até fora do portal , fahindo elle com 
aquelle furor de envolta com elles aoJargo. 
Aqui o rodearam por todas as partes ; mas 
aífím fe fazia temer a todos , que não ou- 
fando a lhe chegarem , o perfeguiam com ti- 
ros de arremeco , de que o feriram em al- 
gumas partes , e por detrás o acoílaram tan- 
to até lhe jarretarem as pernas , e cahir mor- 
to , depois de ter feito coufas , que fe efpe- 
ravam de fcu valor, e esforço. Iílo tudo foi 
vido do muro com grande mágoa , e dor de 
todos , por perderem nelle hum dos princi- 
pães defenfores daquella fortaleza. Os feus 
Toldados não viram iílo , porque eftavam já 
na boca da cava ás lançadas com outro tro- 
pel de Mouros , que os foram perfeguindo. 
Morto Gafpar de Soufa , logo lhe cor- 
taram os Turcos a cabeça , os pés , e as mãos f 
e o tronco do corpo lhe deitaram na praia 
por fe vingarem niífo dos grandes damnos , 
que delle tinham recebido , porque pelas ar- 
mas o conheciam já , e por triunfarem def- 
ta vitoria , havendo-a peia maior que alii al- 
cançaram , lhe mettêram a cabeça em huma 
lança,, e a levaram arvorada por todo oexr 
ercito. E poíto que neíle recontro fe perdef- 
fe hum varão tão aífinalado , todavia foi hum 
dos maiores , que os nofíbs tiveram mais em 
damno dos inimigos i de que morreram mais 
de cento x e lhes defmancháram as mantas i 

e 



376 ÁSIA de Diogo de Couto 

e queimaram as bailas , em que o fogo an- 
dou com muita braveza quatro dias. Antó- 
nio da Silveira fentio em eftremo a morte de 
Gafpar de Soufa ; e fabendo dos que foram 
reconhecer as minas pela medida delias, que 
chegavam já ao meio do baluarte , toman- 
do a medida da altura , mandou logo com 
muita preíteza fazer outras contraminas com 
ieus repairos , e repuxos muito fortes , e por 
dentro mandou desfazer a mina , e entulhar 
o lugar por onde hia com huma muito grof- 
fa parede de pedra , e cal , o que tudo fe 
fez logo. E mandou recolher o corpo de Gaf- 
par de Soufa por homens, que a ifTo fahí- 
ram de noite pela couraça , e lhe deram mui- 
to honrada fepultura com muitas lagrimas de 
todos. Não dizemos a geração deite Fidal- 
go , porque a não foubemos : fua morre , ( e 
de todos os outros , que morreram na guer- 
ra , e as enfermidades , e a falta, que fe co- 
meçava a fentir de todas as coufas , e fobre 
tudo verem quanto tardava o foccorro de 
Goa , e que das fortalezas de Baçaim , e 
Chaul os não foccorriam com coufa alguma, 
porque não oufavam atirar nada de fí , que 
também fe receavam dos Turcos,) e todas 
cilas coufas tinham mettido tamanhos medos , 
e defeonfianças em alguns homens, que an- 
davam como pafmados , principalmente em 
Jium chamado João da Novaí , havido por 



Dec. V. Liv. IV. Cap. X. 377 

muito bom Toldado, eque fempre o viram 
pelejar muito bem. 

Efte havendo a fortaleza por perdida , 
parece que imaginando na morte , lá lhe cor- 
reo hum humor frio , e malenconico pelas 
veias de tal feição , que ficou como homem 
tonto, e pafmado ; c eíquecido de tudo fem 
armas , como homem aiTombrado , andava pe- 
los baluartes perfuadindo a todos , que fe 
entregaííem aos Turcos a partido , e que 
grangeaiTem as vidas , porque a fortaleza cf- 
tava em eftado , que fe não podia defender. 
Diílo zombavam todos , entendendo que a- 
quillo era malenconia , e já o não deixavam 
entrar nas eftancias , do que o trifte com 
grande dor , e trifteza , de lugar em lugar 
andava folitario , cuidando na agonia da mor- 
te ; e chegou iílo a tanto , que veio a cahir 
em cama , resfriando-fe-lhe de todo o ca- 
lor natural , e efpirito vital ; e em poucos 
dias morreo , entendendo-lhe mui bem os Mé- 
dicos fua enfermidade , applicando-Ihe os 
remédios necelTarios aella, que eram esfor- 
çallo , e animallo, affirmando-lhe que já vi- 
nha o Vilo-Rey , e que os Turcos fe em- 
barcavam , o que nada aproveitou , porque 
tinha já o mal tomado tamanha poííe do co- 
ração, que não deixou obrar alguma coufa 
deitas. 

Eíle cafo foi ainda mais efpantofo P que 

o 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

o daquelle Ditamo foldado d'EiRey Anti- 
gono , que fendo muito enfermo , aborrecen- 
do-lhe a vida pelas dores que paliava , to- 
das as vezes que entrava nas batalhas , fazia 
tamanhas façanhas , que efpantava a todos , 
pondo-fe iernpre na dianteira nos mores rií- 
cos , como quem não eílimava a vida ; pe- 
lo que EIRey o veio a eílimar tanto , que 
o mandou curar como fua própria peffoa , 
e aílim foi curado , que veio a farar de to- 
do , egofíando da íaude , aííim eftimou por 
ella a vida , que quanto primeiro a arriíca- 
va pela enfermidade , tanto depois a pou- 
pava , e refguardava ; com o que ficou tão 
acovardado , que publicamente fugia das ba- 
talhas , e fe regelava de medo todas as ve- 
zes que as via romper. 

Tornando á noíía hiíloria* Os Turcos 
foram continuando * fua bateria afperrima- 
roente, fazendo muitas ruinas por mais par- 
tes , principalmente no baluarte , que foi de 
Gafpar de Soufa , que o Capitão deo a hum 
Cavalieiro muito honrado, chamado Rodri- 
go de Proença , que era da obrigação de 
Nuno da Cunha, que trabalhou muito por 
fe não fentir nelle a falta do Capitão paíTa- 
do. Eíte dia, que foi o derradeiro dos qua- 
tro da bateria , acabaram dearrazar eíle ba- 
luarte até o entulho , ficando todo delàbri-r 
gado , e fem defensão j e os Portuguezes re- 
co- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. X. 379 

colhidos detrás da derradeira parede , que 
tinham feira , com o que ficavam lo com hum 
terço do baluarte , e ainda delie derribado 
muita parte , ficando fó da altura de hum ho- 
mem até os peitos. Os Turcos vendo o ba- 
luarte naquelle eílado , fahíram de fuás ef- 
tancias com as bandeiras eftendidas , e o com- 
mettêram , entrando logo em ílma , porque 
fe lhe não pode defender , ficando daquel- 
la feita fenhores das duas partes delle ? ean- 
tre elles , e os noílbs aquella pequena pare- 
de j que os Turcos commettêram com gran- 
de determinação : mas os noílbs lha defen- 
deram mui bem , porque como o que fica- 
va aos Mouros não era capaz de muita gen- 
te , quaíi pelejavam iguaes : mas tinham mui- 
ta vantagem nos íbecorros , porque em lhes 
matando hum Mouro , fe punham logo ou- 
tros , o que os noílbs não podiam fazer. 
Aqui fizeram os Portuguezes grande deftrui- 
çao nos inimigos. A refeita foi creícendo 
muito y e pela fortaleza correo a fama do 
baluarte eítar pelos Turcos , com o que mui^ 
tos defeoraçoáram! António da Silveira não 
perdendo ponto de feu animo , o mandou foc- 
correr com gente das outras eílancias , pro- 
vendo-o de armas , e coufas neceííarias , 
animando a todos com grande fegurança , e 
confiança. E porque ifto era já de noite , e 
os inimigos não deixavam de porfiar fobrq 

a 



3$o ÁSIA de Diogo de Couto 

a entrada da parede , que lhe os nofíbs com 
grande valor defendiam , íèm lhes lembrar 
repoufo , nem quererem dar lugar a outros 
de refrefco , e aefcuridão era grande, e o 
eftrondo , e bramidos muitos , mettiam gran- 
de medo , e caufavam efpanto na fortaleza. 
E porque alguns fe hiam retrahindo do 
baluarte de medo , e fe palTavam pêra os ou- 
tros , foi António da Silveira avifado ; e re- 
ceando que aquillo foíTe cauía de fua per- 
dição, mandou com muita preífa tirar três, 
ou quatro degráos antrefachados daefcada, 
que hia pêra aquelíe baluarte , que era de ma- 
deira, porque os que foliem fugindo , déflem 
por elles abaixo de focinhos pêra os haver ás 
mãos, e caítigar pêra exemplo dos outros, 
como fez a alguns. Ido lhe foi mui grande 
remédio , porque de vergonha o deixaram 
de fazer. Eíta noite foi pêra todos os da 
fortaleza de mor trabalho , e confusão , que 
todas as que houve em todo o decuríb do 
cerco , porque fempre eftiveram com as ar-? 
mas nas mãos pelejando com os Turcos , 
que porhuma parte apertavam com os nof- 
íbs , e pela outra trabalhavam em fazer nuns 
valos naquella parte do baluarte , que lhes 
ficava pêra fua defensão, cavando o entulho 
pêra iííb , o que fe não fez fem muita per-? 
da , e damno feu ; porque os nofíbs como 
citavam á lerta com a efpingardaria , não 

fe- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. XI. 381 

faziam fenao derribar nelles , e com as pa- 
nellas de pólvora abrazallos. Nefte trabalho , 
e conflito paliaram a noite toda. 

CAPITULO XI. 

De hum nevo , admirável , e nunca viflo 
ardil de fogo , que os noffos inventaram 
fera Je defenderem : e dos aj] altos que 
houve : e do fccccrro que chegou de Goa. 

AO outro dia tanto que ainanheceo , 
mettêram os Turcos todo o refto por 
entrarem as paredes ; mas acharam os nof- 
fos tão efperros , como fe toda a noite rc- 
poufáram, rebatendo-os com grande valor, 
e esforço, matando, e ferindo muitos. Foi 
efte commettimento medonho , cruel , e ef- 
pantofo , porque parecia que fe desfazia o 
Mundo em gritos , prantos , eílrondos. E 
aílim com a barbara vozaria dos Turcos , 
como com os clamores , e mifericordias f 
que as mulheres , e meninos (que acudiram 
áquella parte) pediam a Deos pelas ruas. Os 
Turcos apertaram muito com os noííos , e 
efteve a coufa arrifeada a fe perder, feDeos 
(que ainda não queria defamparar aquella 
fortaleza ) não infpirára no coração de hum 
daquelles homens hum novo fervor , e con- 
felho , que vendo tudo tão perigofo , bradou 
alto por fogo , e por lenha ; e correndo ef- 

ta 



382 ASIÀ de Diogo de Couto 

ta voz pela fortaleza , em muito breve ef- 
paço acudio aquelle exercito feminino car- 
regado de tudo ifto. 

E tomando os noífos a lenha , a puzeram 
fobre a parede que os dividia , que era mui- 
to larga, e pondo-lhefogo , começou a arear 
com grande cfírondo , com o que- os Tur- 
cos feaffafláram pêra fora por não poderem 
íbífrer fuás labaredas. Vendo osnoflbs quan- 
to aquelle remédio aproveitava , mandaram 
levar muita lenha, com que foram cevando 
o fogo , e aflim com eíle novo artificio fe 
defenderam doze dias , o que foi único re- 
médio daquella fortaleza , cujo author mere- 
cia não fer efquecido no Mundo , como ef- 
te foi ; porque nem Lopo de Soufa Couti- 
nho , que fe achou prefente , e efcreveo ef- 
te cerco, nem João de Barros, que também 
o fez feparado , nem outros efcritores , nem 
os homens , que fe nelle acharam , ( que al- 
cançámos muitos a quem o perguntámos,) 
dam razão do leu nome, E fe não foi voz 
do Ceo , ( porque fe em todas as coufas da 
índia faltaram milagres , fora tudo acaba- 
do , ) devia de fer algum homem apagado , 
e não conhecido , como fe efte negocio não 
bailara pêra dalli em diante vir a fer hon- 
rado , c nomeado no Mundo , em que não 
faltaram iempre eílas miferias , edefcuidos; 
porque daquelles Lacedemonios tão políti- 
cos 



Dec. V. Liv. IV. Cap. XI. 383 

cos lemos , que dando no Senado hum ho- 
mem ( que devia de fer tão apagado como 
efte) outro confelho em grande prol, e uti- 
lidade daquelia Republica , lançando-o fo- 
ra , mandaram ao mais honrado daquellcs Se- 
nadores , que o tornaíTe a recitar com as 
mefmas palavras , como fe elle foíTe o au- 
thor delle, havendo por vitupério feguirem 
o confelho de homem de baixa forte , co- 
mo fe não fora aquiílo hum furto manifef- 
to , e encubrir a virtude alheia , que he hum 
diíTunulado vituperar , porque fempre fe de- 
ve diante dos grandes do Mundo mais pre- 
mio , e lugar ás virtudes , e ao valor ganha- 
do por próprio braço, que ás herdadas dos 
avôs , como difle EUley Antigono áquelle 
mancebo mal acoftumado , que por muita 
nobre, diante delle queria preceder aos ou- 
tros. E pofto que deva muito a Deos o que 
nafce nobre , porque nelíe refplandecem fem- 
pre mais aè virtudes , quando são em igual 
gráo do outro não tão bem nafcido , toda- 
via nem poriílb devem de deixar deferteu- 
vadas , e engrandecidas neíte , como efte nof- 
fo Portuguez , que deo hum tão proveitofo 
confelho ; e feja quem quer que for , não 
perderá neíla nolTa hiftoria o preço de lua 
virtude , todas as vezes que lhe ficaram em 
obrigação de reflituição os homens daquelle 
ten?po , que de propoíito lho encubríram. 

E 



384 ÁSIA de Diogo de Couto 

E porque nos vem aqui a pelo , não dei- 
xaremos de eilranhar a defeonfiança ( a que 
não fei outro nome) dos Governadores , e 
Vifo-Reys da índia , que por não chama- 
rem aos confeihos públicos homens , que não 
fam Fidalgos , fe arriíeão muitas vezes a 
defacreditar j porque muitos Cavalleiros, e 
homens nobres ha na índia , que não foram 
peior nafeidos , que alguns deftes Fidalgos , 
que tem mais experiência , e diicurios nos 
negócios todos , e que feu parecer pode a- 
proveitar muito ao ferviço de Deos , e d'EI- 
Rey^ porque, que razão ha pêra dar o Fi- 
dalgo de quatro dias na índia feu voto nas 
coufas árduas , que fe oíierecem de Mala- 
ca , Maluco , Ceilão , e dos Eítreitos , fe nun- 
ca viram mais que a Armada do Alalavar, 
quando ha Cavalleiros honrados , e velhos, 
que as viram , e trataram , e que de tudo 
podem dar muito boa, e certa informação? 
E pofto que alguns Vifo-Reys, como cada 
dia coftumam , os mandem chamar iós pêra 
tomarem leu parecer, o meu leria, que lho 
não dem , nem lhe refpondam a propofiro , 
pois lhe negam o lugar em público , que 
lhes a idade , esforço , experiência 3 e honra 
tem dado. 

Tornando a noíTo fio. O fogo foi con- 
tinuando , e o grande ardor delle fez reti- 
rar os Turcos } e largarem o baluarte , man- 

daa- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. XI. 38; 

dando das eítancias atirar ás fogueiras , em 
que deram muitas bombardadas , que leva- 
ram os tições por eííes ares , donde torna- 
vam a cahir fobre os Portuguezes , tratando-os 
mal; mas pela neceffidade em que eftavam, 
não fentiam tanto as chagas , nem largavam 
o lugar, trazendo tanto tento no fogo, que 
aífím como as bombardadas o desfaziam , 
aíTim o tornavam logo a renovar, E já fe 
não contentaram de o fuftenrar em lima da 
parede , mas ainda o deitaram da banda de 
Fora pêra a parte em que os Turcos efta- 
vam , cevando-o de ordinário , pêra o que 
fizeram grandes bicheiros de ferro , com que 
lhes chegavam a lenha , e deita maneira fe 
foram fuftentando , ainda que com muito tra- 
balho. 

António de Soufa , Capitão do baluarte 
do mar , não fe defcuidava de fua obriga- 
ção , antes eítava tanto á lerta , que todas 
as vezes que os inimigos íubiam pêra o ba- 
luarte , empregava nelles toda a munição , 
porque lhe ficavam em defcuberto , fazendo 
nelles tal eftrago , que de efcandalizados de- 
terminaram os Turcos de o commetterem 
por mar , e ganharem-no , porque depois 
lhes feria mais fácil o negocio da fortaleza. 
Pêra efte commettimento mandaram prepa- 
rar muitas barcaças , e entre tanto viraram 
pêra elle todos os baíilifcos , e canhões da- 
Cêute.Torn.ILP.L Bb quel- 



38o ÁSIA de Diogo de Cot/to 

quellas eftancias que o defcubriam , e lhe 
deram todo hum dia huma efpantofa bate- 
ria , com que lhe derribaram a parede da 
couraça , e a ferventía da porta , que fe lo- 
go repairou com muita prefla. E primeiro 
que commetteíTem o baluarte do mar, (em 
quanto durou a bateria , por não eítarem a- 
quelle dia ociofos , ) determinaram de ver fe 
podiam acabar de ganhar o baluarte do fo- 
go , em que já tinham os dous quinhões , 
e para iílb fe armaram alguns de armas intei- 
ras com çapatos de ferro , pêra porem os 
pés feguramente por íima do fogo, e com 
mafcaras de aço porcaufa das labaredas , le- 
vando outros bicheiros de ferro , que man- 
daram fazer , como os que os Portuguezes 
tinham , pêra com elies efpalharem o fogo. 
E aílim com muito grande determinação com- 
mettêram a entrada , deitando muitos artifí- 
cios de fogo fobre os noíTos pêra o aífa (ta- 
rem da parede , e com os bicheiros come- 
çaram aaffaftar o fogo pêra os armados paf* 
íarem ; mas os noífos aííim os efcandalizá- 
ram , que paílando pelo fogo , lhe deitaram 
em íima muita pólvora com que abrazáram 
muitos , começando-fe a retrahir , e os bi- 
cheiros de parte aparte a laborar, huns em- 
palhando o fogo, outros ajuntando-o , esp- 
plicando-lhe cada vez mais lenha , com o 
que as labaredas eram cada vez maiores» 
- - Mui- 



Dec. V. Liv, IV. Caí. XI.. 3S7 

Muitas vezes fe encontravam huns bichei- 
ros com os outros , travando-fe , e embara* 
çando-íe : e por efta razão huma vez hum 
homem , chamado João Rodrigues , ( ho* 
tnem quaíi agigantado , que naquelle nego- 
cio dos bicheiros tinha trabalhado mais que 
todos , ) cite ganchando o feu bicheiro com 
outro dos inimigos, em que eílavam afFerra- 
dos quatro , ou finco > tão fortemente puxou 
por elle i que os trouxe a todos arraílóes , 
dando com elles fobre a fogueira > de que 
fahíram bem efcaldados. 

E por não particularizarmos os cafos , 
que aqui aconteceram , ( que foram tantos , 
6 tão grandes , que pêra cada hum havia 
miíter hum Capitulo , ) dizemos aqui em fcm- 
ma , que efte foi o mais bem commettido , 
e defendido dia até então , fazendo os Por- 
tuguezes todos tamanhas coufas, que eraef- 
panto ; porque alli acudio toda a força da 
fortaleza , revezando-fe na briga , e no tra- 
balho, poraíHm tomarem mais alento. An- 
tónio da Silveira em pé , junto da efcada pê- 
ra o baluarte , via com feu olho tudo o que 
fe nelle fazia , e os que fubiam , e defciam , 
trazendo homens , que não faziam mais que 
repartirem munições pelos que pelejavam. 

As mulheres não defcançavam de acar- 
retar lenha , no que andavam tão preííes , e 
continuas , que nem de dia ? nem de noite 
Bb ii to- 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

tomavam hum pequeno de defcanço. Os Mou- 
ros , perdida de todo a confiança , recolhêram- 
fe de já não poderem aturar , nem íbffrer as 
muitas coufas , com que os noíTos os derriba- 
vam. Nefte combate morreram quatro Por« 
tuguezes , e ficaram vinte e finco feridos , 
em que entraram Francifco de Gouvea , Ma- 
noel de Vafconcellos , Duarte Mendes , e 
Rodrigo de Proença , que lhe deram huma 
frechada pela boca , e outros a que náo achá- 
mos os nomes , a quem nem canfaço , nem 
as muitas feridas foram parte pêra fe reco- 
lherem , porque alli fe mandavam curar, e 
alli íe deixavam ficar. Já nefte tempo eram 
mortos quarenta homens , e eftavam feíTenta 
feridos, e faltavam munições, e muitas ou- 
tras coufas neceílarias , pelo que havia gran- 
des defeonfianças na fortaleza. 

Mas como Deos nas mores neceflídades 
foccorre a feus fervos , quando mais atribu- 
lados eftes feus eftavam , chegaram áquella 
fortaleza os navios , que tinham partido de 
Goa , de que eram Capitães Gonçalo Vaz 
Coutinho, Francifco Mendes de Vafconcel- 
los , António Mendes feu primo , e Martira 
Pacheco, que depois que deram ávéla, fem 
fe deterem em coufa alguma , foram haver 
vifta da outra cofia aos vinte e fete de Ou- 
tubro, e indo demandar Dio ao Sol pofto, 
houveram viíla da Armada Turquefca , e 

dei- 



Dec. V- Liv. IV. Cap. XI. 389 

delia também foram viílos ; mas como já hia 
efeurecendo , e os Turcos não puderam di- 
vifar bem quantos navios eram , e tinham 
por novas , que o Viíb-Rey ficava pêra par- 
tir , houve o Baxá que feriam aquelles na- 
vios da lua dianteira , pelo que fe começou 
a preparar , e toda a noite eíleve com gran- 
de temor, e vigia. 

Os Capitães dos navios tanto que anoi- 
teceo , tomando o remo em punho , foram- 
fe defviando da Armada , e entraram em 
Dio muito a feu falvo. Da couraça grande 
foram viílos , e perguntando que navios eram > 
deram-fe a conhecer , pelo que com grande 
alvoroço deram recado ao Capitão , que acu- 
dio arecebellos, mandando-lhes abrir apor- 
ta da couraça pequena por onde entraram , 
e foram levados nos braços de todos com 
grandes feílas , e alegrias, António da Sil- 
veira fem fe apartar dalli , mandou recolher 
dentro todas as munições , e mantimentos 
que traziam , e alguma artilheria miúda , c 
eferevendo huma breve carta aoVifo-Rey, 
em que lhe pedia o foccorreífe em todo ca- 
fo com a mor brevidade que pudeííe , tor- 
nou a defpedir os navios entregues a feus 
mocadões , porque não viíTem os inimigos 
pela manhã o pequeno foccorro que lhes vie- 
ra. E pêra os mais embaraçar , mandou de 
madrugada embandeirar a fortaleza > e fa- 
zer 



39<3 ÁSIA de Diogo de Couto 

zer muitas folias , como homens contentes , 
ç alegres , e que tinham já o foccorro den- 
tro. Os Turcos ao outro dia pela manhã 
vendo aquellas moftras 5 entendendo que era 
foccorro que lhes viera , e não vendo no rio 
navios alguns , tendo de noite viftos aquel- 
les , ficaram embaraçados , havendo que a 
cópia dos navios era maior do que de noi- 
te enxergaram , e que depois de lançarem 
gente dentro na fortaleza , fe tornaram a par- 
tir. Com efta mágoa ficaram por então fem 
faberem o que era. 

CAPITULO XII. 

De como D. Duarte de Lima chegou com 
as novas de D/o ao Vifo-Rey D. Garcia 
de Noronha : e das Armadas que defpe~ 
dio em feu foccorro : e do grande ajfalto 
que os Turcos deram ao baluarte do mar. 

DOm Duarte de Lima dco-fe tanta pre£ 
fa no caminho , que em poucos dias 
chegou a Goa , e deo ao Vifo-Rey as car- 
tas de António da Silveira , e o informou do 
que vira 9 e do eílado em que a fortaleza 
de Dio ficava , pelo que com muita preíla 
defpedio António da Silva com quaren- 
ta navios ligeiros , com regimento 5 queviíTe 
fe fe podia metter em Dio fem rifco algum , 
eque quando não, de noite fepuzeífè áviA 

ta 



Dec. V. Liv. IV, Cap. XII. 391 

ta da Armada do Turco, e lhe fizeííe gran- 
des carrancas de bombardadas , e fuzis , por- 
que cuidaíTem que era a fua dianteira , cora 
o que poderia íer fe recolhefiem , e que de 
tudo o que íuccedefíc o avifaffe por hum 
navio muito ligeiro , e que de Chaul até 
Goa teria navios por paragens, pêra que em 
poucos dias tiveííe rebate. António da Silva 
Te fez á vela, e dos Capitães que o acom- 
panharam , io de poucos achámos os no- 
mes > mas porque de todo fe não efqueçam , 
diremos os dos que vieram á nofla noticia. 
D. Luiz de Taíde , que depois foi Conde 
de Atouguia , D. Martinho de Soufa , Dom 
Duarte de Lima , o que veio de Dio , Fer- 
não de Moraes, António Fernandes de Si- 
queira , Mattheus Pereira , Gafpar Moniz , 
Francifco Martins , Jeronymo de Figueire- 
do , Álvaro de Siqueira , Francifco de Si- 
queira o Malavar , e outros. Em algumas 
lembranças achámos , que D. Manoel de Li- 
ma foi em alguns navios diante , mas não 
fabemos o que lhe fuccedeo. 

Seguindo António da Silva fua jornada, 
de Chaul defpedio Francifco de Siqueira o 
Malavar , por fer muito ligeiro o feu navio , 
eelle grande homem domar, pêra. que fof- 
fe entrar em Dio , e por elle efcreveo hu- 
ma carta a António da Silveira de fua ida, 
pedindo-lhe o avifaíle do modo , o como , 

e 



39^ ÁSIA de Diogo de Couto 

e quando poderia entrar naquella fortaleza , 
encommendando ao Siqueira notaíTe muito 
bem a Armada. O Vifo-Rey tanto que def- 
pedio eíla Armada , o fez logo a outros vin- 
te e quatro navios de remo , de que fez Ca- 
pitão mor Jorge de Lima , com regimento , 
que fe eftendeífe com elles defdos Uheios 
queimados até Chaui , pêra lhe mandar to- 
dos os dias recado da Armada dos inimigos. 
Neíles navios cuido eu que foi D. Manoel 
de Lima , e que Jorge de Lima o apartou 
com fete , ou oito navios pêra andar de Chaul 
até Baçaim ; e elle com os mais fe eftendeo 
de Chaul até os Ilheos queimados , tendo de 
dous em dous em paragens. 

Partidos eftes navios , defpachou o Vifo- 
Rey as náos do Reyno pêra irem a Cochim 
tomar a carga , que eram quatro , as mais pe- 
quenas , e velhas , porque as outras de ma- 
ior porte tinha mettidas na fua Armada, que 
eram as principaes forças delia. Nuno da Cu- 
nha ( fegundo nos diílè hum Fidalgo bem 
honrado ) fe offereceo ao Vifo-Rey pêra o 
acompanhar na jornada , de que elle o ef- 
eufou , porque queria toda a honra pêra íi - y 
o que vifto por Nuno da Cunha , lhe pedio 
huma náo boa pêra fe embarcar, porque o 
tinha aflim promettido a feu pai Triílão da 
Cunha, que lhe elle negou , dizendo, que 
quando lhe fizera aquelles cumprimentos , 

não 



Dec. V. Liv. IV. C ap. XII. 393 

não eftava cercado de Turcos, como então 
fe via. Sobre iílo tiveram algumas razões , 
de que Nuno da Cunha ficou defgoftofo , e 
fe embarcou pêra Cochim , aonde fe nego- 
ciou pêra o Reyno ; e das nãos., que eíla- 
vam á carga , eicolheo huma , que era de Vi- 
cente Gil , pequena , mas mui boa de ma- 
nhas. E porque adiante havemos de tratar 
de fua viagem , o deixamos até lhe caber 
leu lugar , porque he neceífario tornarmos 
a Dio, que eítá em aperto. 

Os Turcos , depois de entrado o foccor- 
ro que diíTemos , não deixaram de continuar 
com a bateria do baluarte do mar, até lhe 
acabarem de arrazar a couraça. Ao outro dia 
feguinte , que foram vinte e nove do mez , 
em que tinham determinado de lhe dar o af- 
falto, arrebentaram da Cidade com íincoen- 
ta embarcações , em que hiam perto de mil 
e quinhentos Turcos , cujo Capitão era Ma- 
mede Can , e com grandes eftrondos de tam- 
bores, trombetas, e outros inftrumentos bár- 
baros remettêram com o baluarte pela par- 
te da couraça , que olha pêra dentro do rio. 
António deSoufa vendo aquillo, preparou- 
fe o melhor que pode, acudindo áquella par- 
te com trinta companheiros , que tinha mui 
animofos , e todos com grandes defejos de 
moftraremjá aos inimigos a vontade que lhe& 
tinham, rep.artindo-fe pelas partes mais ne- 

cef- 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

ceifarias com muitas lanças de fogo , panei- 
las de pólvora , e outros inílrumentos mor- 
taes. Da fortaleza grande foi vifto paíTar 
aquella frota contra o baluarte ; e como lhe 
paiTava perto, e a geito , defparáram nella 
muitas bombardadas , que deram em meio 
dos navios , metrendo-lhes no fundo duas 
barcaças , e matando-lhes nas outras muita 
gente. A Armada paflbu avante até pôr a 
proa no baluarte , que de maré vafia fazia 
naquella parte hum releixo , que também ef- 
tava entulhado até lima com a caliça , e pe- 
dra da parede , que com a importuna bate- 
ria foi derribada naquella parte. Eíle lugar 
feria capaz de duzentos homens , que logo 
faltaram nelle , commettendo a fubida do ba- 
luarte , que lhe era muito fácil na opinião , 
mas muito difficultofa na obra dos noííbs. 
Das barcaças atiraram muitas bombardadas 
pêra defpejarem aquelle lugar , que eftava 
roto 3 e defabrigado , por onde fubíram al- 
guns em fima ; mas os noíTos , que ficavam 
com elles já amparados , arrebentaram co- 
mo trovões com as lanças de fogo accezas , 
e aos primeiros botes deram com os Turcos 
em baixo bem queimados , e cfcalavrados , 
fendo António de Soufa o dianteiro , que 
çom o feu grande animo pelejava , e esfor- 
çava aos feus , que aífim trabalhavam de o 
fatisfazer, que já fe não contentavam de lan- 
çar 



D e c. V. L i v. IV. C a p. XII. 39? 

çar os inimigos fora de fua cafa , fenão ain- 
da defejavam de íe baldearem com elles em 
baixo , pêra fatisfazerem nelles fua ira. Os 
Turcos affrontados do fucceflb , tornaram a 
çommetter a íubida , accendendo-fe mais a 
fúria da batalha, não ceflando abateria das 
barcaças , que nos noflbs fez muito damno , 
porque pelejavam defcubertos , e não fe que- 
riam recolher pêra dentro , e aflím os Tur- 
cos tornaram a cavalgar em lima do balu- 
arte ; mas António de Soufa aífrontado da- 
quelle negocio , remetteo com os feus fol-> 
dados , que andavam como leões raivofos , 
e a pezar dos Mouros , com grandes eftra- 
gos os tornaram a lançar embaixo, e apôs 
elles muitas panellas de pólvora, de que a^ 
brazados fe recolheram ás embarcações mais 
depreíTa do que elles faltaram em terra ; e 
tomando o remo em punho , fe foram a£* 
faltando , porque começaram a chover fo- 
bre elies bombardadas , e efpingardadas , af- 
íim do baluarte, como da fortaleza grande, 
com o que lhe mataram muitos. 

Os Turcos , fendo já affaftados , e em par- 
te que lhes não chegavam os tiros , torna- 
ram a cuidar quão grande vergonha , e af- 
fronta era fugirem a tão poucos homens, 
fendo elles tantos , e os mais efcolhidos em 
todo o exercito ; e voltando outra vez com 
a fúria , que lhes fazia levar tamanha affron-, 

ta 



396 ÁSIA de Diogo de Couto 

ta pêra a fatisfaçao delia , com determina- 
ção de ou morrerem todos , ou ganharem 
aquelle baluarte ; e defembarcando outra vez 
neile , commettêram a fubida como defef- 
perados ; mas os valorolbs foldados com as 
lanças de fogo de refrefco , fe mettêram no 
meio delles , e de tal maneira os abrazáram , 
e efcaldáram , que tornaram a dar com el- 
les em baixo 5 tão efcandalizados , e tão mal- 
tratados , que determinaram de fe tornarem 
antes com fua mágoa , que experimentarem 
outra vez o ferro , e braço rortuguez. E 
affim fe embarcaram mui aprefladamente , 
dando-lhes da fortaleza grandes apupadas 
pêra os envergonharem ; mas o medo que 
levavam era tal , que não curaram de mais , 
que de falvar as vidas. 

E fendo já de fronte da Cidade , fora 
de medo, tornou Mamede # Can a cahir em 
quão affrontado ficava daquelle negocio , que 
lhe tanto foi encommendado , e que Ihebaf- 
tava pêra o damnar com o Turco , com quem 
eílava muito bem acreditado j e correndo as 
embarcações todas , fez a todos huma breve 
falia , em que lhes lembrava as obrigações , 
que tinham porjanizaros da guarda do Grão 
Senhor , e que aquella aífronta ficava fendo 
em vitupério de fua nação ; porque , que ra- 
zão haviam elles de dar a fugirem amenos 
de trinta homens , fendo elles tantos ; e tão 

ef- 



Dec. V. Liv. IV. Ca?. XII. 397 

efcolhidos ? que lhes pedia tornaíTem por 
fua honra , porque era muito melhor mor- 
rerem , que viverem tão affrontofamente ; e 
com iílo os fez voltar. Chegados outra vez 
ao baluarte com nova íòberba , e furor , que- 
rendo-o commetter , quiz Deos guiar hum 
pelouro de hum berço pêra o Mamede Can, 
que o tomou pelos peitos , e o derribou lo- 
go mortal. Os léus, quehiam mais por ver- 
gonha que por honra , tornaram a voltar com 
grande prefía , não querendo experimentar 
terceira vez a ira dos noííos , indo apôs el- 
]es muitos pelouros de bombardadas , que 
da fortaleza lhes atiraram , dando-lhes ou- 
tras gritas , e apupadas ; e aílim fe recolhe- 
ram á Cidade com muitos mortos , e feridos. 
E porque das barcaças , que fe arrom- 
baram com as bombardadas , andavam alguns 
Mouros fobre a agua , que não puderam to- 
mar as embarcações porcaufa da corrente da 
maré , mandou António da Silveira alguns 
homens em huma almadía , pêra que lhe to- 
rnaíTem alguns vivos , pêra delíes faber al- 
guns aviíbs : eftes foldados mataram todos 
os que acharam no mar , recolhendo fó dous, 
António de Soufa , tanto que os Mouros fe 
recolheram , mandou os mortos á fortaleza 
pêra os enterrarem , e aos feridos pêra os 
curarem ; e antre eftes hia hum Fernão Pen- 
teado , homem nobre , e muito bom Caval- 

lei- 



398 ASÍÁ de Diogo de Couro 

leiro , que hia ferido na cabeça , e Antonid 
Manhoz com hum braço quebrado , e Fer- 
não Correia com outras feridas, que todos 
pelejaram muito valorofamente* 

CAPITULO XHL 

Do grande , eperigofo afjalto , que os Tur- 
cos deram ao baluarte do fogo : e de hum 
honrofo , e efpantofo feito , que fez Fernão 
Penteado : e de outro muito notável , e 
graciofo , que fez huma daquellas mulhe* 
res : e da morte que os moços da forta- 
leza deram a hum eferavo , por huma 
palavra que diffè em favor dos Mouros. 

COm o ruim fucceíío do baluarte do 
mar, ficaram os Turcos mui quebran- 
tados , e cheios de ira y e querendo-fe vin- 
gar de tantas aífrontas , tanto que as embar- 
cações fe recolheram , falaram de feus ex- 
ércitos com todo o poder , luas bandeiras 
defenroladas , e com grande eftrondo de in- 
ítrumentos, e gritas, remettêram com o ba- 
luarte do fogo , por onde fubíram com gran- 
des terreniotos, pondo-fe os que couberam 
nas duas partes , que eílavam por eiles , e á 
porfia commettêram as paredes , em que os 
noílbs já os efperavam com as forças tão in- 
teiras , como fe nunca tiveram trabalhado , 
acudindo huns ás 'fogueiras , deitando-ihes 

le- 



Dec. V. Liv. IV. Cap. XIII. 399 

lenha , c fuílentando-lha com os feus bichei- 
ros , outros com fuás armas , e efpingar- 
das , com que empeciam bem aos inimigos ; 
e outros com panellas de pólvora. Os inimi- 
gos pela mefma maneira , huns fe occupa- 
vam em efpalhar o fogo , outros em pele- 
jarem ás efpingardadas , e em fim todos de 
li uma , e outra parte em trabalharem : huns 
por ganhar aquellas paredes ; outros pelas 
não perderem , fobre o que fe baralhou a 
coufa de feição , que tudo o que fe via , e 
ouvia eram corifcos , e labaredas , e incên- 
dios , vozes, bramidos, e tudo ornais hu* 
ma rcprefentação do inferno. 

António da Silveira eílava em feu lugar 
provendo tudo , mandando reforçar o balu- 
arte com mais gente, acudindo alliaquelles 
Capitães , que chegaram de Goa de refref- 
co , tomando os lugares mais perigofos y 
obrando todos coufas dignas do valor Por- 
tuguez. E tudo foi neceííario , porque os 
Turcos pelejavam com defefperaçao , apof- 
tados todos a morrerem daquella feita , ou 
concluírem com aquella fortaleza ; e aííim fe 
mettiam pelo fogo como bárbaros , fem or- 
dem , nem Cõnfideração , o que tudo era mui- 
to differente nos Portuguezes , que peleja- 
vam com muita confiança , fegurança , e or- 
dem ; porque com ferem tão poucos , aíílm 
eftavam repartidos por feus lugares , que nem 

os 



4oo ÁSIA de Diogo de Couto 

os que pelejavam com as efpingardas emba- 
raçavam aos das panellas de pólvora , nem 
os dos bicheiros tinham quem os eítorvaí- 
fe ; e affim faziam coufas tão grandes , e ad- 
miráveis , que em pouco efpaço puzeram os 
inimigos em dcfconfiança , porque lhes ti- 
nham tantos mortos , e abrazados , que os 
vivos lhes era neceííario pêra pelejarem por 
íima dos que eíhvam eftirados , acabando-os 
de matar. Aqui foi a revolta tamanha , que 
parecia que fe entrava a fortaleza ; e o re- 
boliço por ella foi tal , que chegou efta voz 
a cafa de Fernão Lourenço , marido daquel- 
la boa Anna Fernandes , que citava curan- 
do os feridos , que áquella hora chegaram 
do baluarte do mar ; e fendo ouvido por 
Fernão Penteado , ( que eílava aguardando 
que fe acabaííe de curar outro pêra o elie 
fazer também , ) e perguntando o que era , 
dizendo-lhe que fe entrava o baluarte , não 
lhe foffrendo o coração, e animo Portuguez 
eílar alli, fahio-fe pela porta fora com Im- 
itia alabarda nas mãos , e fubindo ao baluar- 
te , paílbu com grande fúria por todos , até 
fe pôr no lugar da batalha , em que come- 
çou a fazer maravilhas, aprefentando-fe no 
maior perigo , até que lhe deram outra cu- 
tilada pela cabeça , que o obrigou a ir buf- 
car o remédio pêra ambas. Chegando a ca- 
fa do Cirurgião, achou-o occupado na cu- 
ra 



Dec. V. Liv. IV- Cap. XIII. 40Í 

ra de outros homens, porque não tinha ho- 
ra vaga; e como o negocio do baluarte ef-> 
teve deita vez mui arrifcado , e nelle cref- 
ciam os gritos , e alaridos cada vez mais i 
e pelas ruas andavam correndo mulheres, e 
meninos, pedindo mifericordia aDeos com 
grandes gritos, e prantos ; dando ifto outra 
vez nos ouvidos de Fernão Penteado , affir- 
liiando-fe , que o baluarte era perdido , (fer- 
vendo-lhe o coração no peito , porque e£- 
tava alli ociofo , havendo que o lugar da 
briga era o mais íeguro , e deícançado, ) fem 
efperar pela cura , tornou a lançar pela por- 
ta fora , e entrando no baluarte, paííou ao 
lugar da briga , que eílava no mais arrifca- 
do ponto em que fe nunca vio , (por te- 
rem os Turcos efpalhado o fogo, e já pe- 
lejavam fobre a entrada da parede,) e co- 
mo fenão tivera coufa alguma , começou a 
pelejar como hum leão por hum grande efr 
paço , até que a fortuna invejofa do valor 
defeu braço, ordenou, que lhe déííem por 
elle huma lançada, que de todo o inhabili- 
tou pêra mover as armas ; e fendo-lhe fie- 
ceíTario recolher-fe , o fez com muita triíle- 
za , e ma'goa de feu coração , por fer a fe^ 
rida por parte , que não podia tomar delia 
fatisfação ; e foi demandar a cafa do me£ 
tre , onde fe curou de três feridas , que eram 
todas bem perigofas , de que farou. Mas o 
Couto. Tom. II. P. L Ce que 



402 ÁSIA de Diogo de Couto 

que o ferro , e o fogo não puderam acabar , 
o fez a agua ; porque depois defte cerco paf- 
fado , morreo eíle valorolb íoldado affoga- 
do em huma fuíla , que fe perdeo. E poí- 
to que não chegou a ter fatisfação de feus 
merecimentos , dar-lha-hemos nós nefta nof- 
fa hiftoria , com o deixarmos conhecido ao 
Mundo, em quanto elle durar; porque eftes 
são os galardões , que os varões famofos mais 
pertendêram que todos , que os Filofofos 
antigos houveram ' pelos maiores prémios , 
que a virtude podia ter , como fentia Bru- 
to, efcrevcndo a Cicero, dizendo affím: » Que 
» coufa ha melhor , que a memoria dos bons 
» feitos , pofto que os illuftres ânimos não 
)> vão tanto apôs os prémios , e louvores , 
y> quanto apôs a virtude ; porque ainda qne 
» muitos por fua grandeza de animo não 
3> procuraflem gloria , nem por iflb deixá- 
» ram de a alcançar , porque depois lhes veio 
» com maior vontade : e bem fe fabe , que 
y> nenhuma virtude recebe tantos louvores , 
» como a Fortaleza. » 

E tornando a noíTb fio. A briga no ba- 
luarte hia crefeendo cada vez mais, com gran- 
des damnos de parte a parte ; mas da dos 
inimigos foi o eftrago tamanho , que não o 
podendo foffrer, fe lançaram do baluarte a- 
baixo , pafmados do que viram , deixando 
aquelle lugar entulhado dos corpos dos feus 

mor- 






Dec- V. Liv. IV. Cap. XIII. 403 

mortos, levando amor parte dos que eíca- 
páram bem grandes finaes das mãos dosnof- 
los , de que não morreram mais de dous , 
ficando porém quarenta mal feridos. Já nef* 
te tempo não havia mais de duzentos e fe- 
tenta homens sãos pêra poderem pelejar , 
porque íincoenta eram já mortos , e havia 
mais de fetenta feridos , e aleijados , e fo- 
bre tudo ifto havia já falta de pólvora, deeC- 
pingarda , e de chumbo. 

Paliado o combate , ( porque até então 
não houvera tempo , ) mandou António da 
Silveira levar diante deli dous Turcos , que 
foram tomados no mar, de quem foube tu- 
do o que quiz , e lhe affirmáram , que no 
exercito havia grande medo da Armada do 
Vifo-Rey , e que eram mortos na guerra 
quafi oitocentos homens , e que paliavam de 
mil os feridos , e que o Baxá determinava 
de metter todo o refto por ganhar aquella 
fortaleza, primeiro que o Vifo-Rey chegaf- 
fe. O Capitão depois de informado de tu- 
do , entregou os Turcos a certas peflbas , 
pêra que de noite lhes foííem dar fundo no 
mar, e foram por entre tanto recolhidos em 
humas cafas. 

Pela fortaleza fe divulgou logo tudo o 

que os Turcos diíleram , e que o Baxá não 

fe havia de alevantar de fobre a fortaleza fèm 

a tomar. Ifto foi fabido pelas mulheres , que 

Ce ii aa- 



404 ÁSIA de Díôgo de Couto 

andavam ao trabalho; e paliando huma dei* 
las pela porra das caías , em que eftavam os 
Turcos , ( e foi a tempo , que de dentro fa- 
ina- hum foldado , ) e perguntando-lhe ella 
pelos Turcos , e pelo que o Capitão man-. 
dava fazer delles , lhe refpondeo o foldado 
zombando , pela fentir com paixão : Que os 
Turcos eftavam dentro , e que o Capitão 
os mandava foltar livremente. Ella ouvindo | 
aquillo , cheia de ira , e de paixão , entrou 
pela porta dentro como douda , e encontrou 
Francifco deGouvea, que eftava todo abra- 
sado em vivo fogo , ( porque foi hum dos 
homens que nefte dia , e em todos fe abali- 
zou bem , não fe fahindo do baluarte , íenão 
queimado dos pés , mãos, rofto, e de todo 
o mais corpo , ficando tal í e tão desfigura- 
do , que o não conheciam.) E nefte eftado , 
que pudera achar piedade na mais deshu-! 
mana fera, que no Mundo houvera, anão 
achou nefta mulher , que com a fúria que j 
levava , cuidando que era hum dos Turcos M 
^levantando huma gamela que trazia nas j 
mãos > remetteo com elle pêra lhe dar com 
ella na cabeça , dizendo : Ah perro inimigo > 
e vivo has tu de tornar daqui ? Sabe quev 
ás minhas mãos has de morrer ' , tu , e ef- 
fputro perro como tu. E querendo defcar-. 
regar o golpe , elle fe lhe affaftou ò melhor: 
que pode, dizendo-lhe , que na outra caía. 

de 



Dec V, Liv. IV. Cap. XIII. 405* 

<de dentro tinha os Turcos. Ella cuidando 
todavia que elle era hum delles , e que a 
enganava , tornando a remetter a elle pêra 
lhe dar, lhe ditfe : Ah cão , queres-me en- 
ganar ? Olhai como efpivita o Bortuguez , 
pois fahe que nada te ha de valer , que 
te hei de fender ejla gamela nejja cabeça \ 
e fernpre lhe dera com ella i fegundo Fran- 
eifeo de Gouvea citava fraco , fe áquelle 
tempo náo acudiram alguns homens , que 
Jho tiraram das mãos , dizendo-ihe quem era. 
Ella vendo aquillo , com a mcfma paixão 
com que eílava , fe fahio pela porta fora,, 
e ajuntando imitas das companheiras , fefoi 
ao Capitão , e com aquella faria , e cólera 
com que eftava contra os Turcos , lhe dif- 
íè : Como mandais vós , Senhor , dar vida 
a huns inimigos , que tanto tem trabalha- 
do por nos beber o fangue ? Se tal he ver- 
dade , eu , e ejias minhas companheiras y 
que nefte cerco temos tamanho quinhão , co- 
mo tocks os homens , o não havemos de con- 
fentir , antes os havemos de efpedaçar com 
nojjas mãos , por ifjb mandai que no-los en* 
treguem. O Capitão palmado de ver áquel- 
le animo, ira, e furor em peitos fracos, e 
medrofos per natureza 5 havendo que até a 
ella tinha em feu favor , muito alegre , e rizo- 
nho lhes refpondeo , que fe quietaíTem , por- 
que - ellçs não ficariam com vida , e que 

j4 



4oó ÁSIA de Diogo de Couto 

já tinha mandado , que os lançaíTem no 
mar. 

Que mais efpantofo cafo fe vio , que 
eíte neftas noífas Poruiguezas ? Por eítas com 
muita razão fe pode dizer , o que diife a- 
quella Lacedemonia á outra Efpartana , cha- 
mando-lhe mulher; que era verdade que as 
Lacedemonias fós mereciam efle nome , pois 
ellas fós pariam homens. Quanto mais hon- 
rada paixão foi efta , que a daquellas Ro- 
manas , que foram convocadas pela mãi do 
moço Papyrio , que por não defcubrir o fe- 
gredo do Senado á mai , que apertava com 
elieque lho diiTelTe , lhe diíTe, que fe trata- 
ra aquelle dia fe çafariam os homens com 
duas pêra a multiplicação da geração , e 
que ficara por determinar. Do que indigna- 
da a mai , ajuntando as outras Matronas , en~ 
tráram no Senado com grandes clamores , 
e brados , dizendo aos Senadores , que quan- 
do aquillo houveííe de fer , que antes orde- 
Daflem , que as Romanas tiveíTem dous ma- 
ridos. 

Outro cafo femelhante ao paíTado de ira, 
c paixão , açonteceo aos moços da fortale- 
za , que também andavam acarretando cou- 
fas pêra os repairos , e fortificações , não fe 
efçufando cativo , nem livre de dez annos 
pêra fima. Quiz a má fortuna de hum da- 
quelles efçravos , que diííeífe hum dia : Sc 



Dec. V. Liv. IV. Cap. XIII. 407 

efles Turcos foram homens , e Couberam o 
ejlado , em que ejla fortaleza ejld , já a hou- 
veram, de ter tomada. Os moços Portugue- 
zes em ouvindo ifto , dando-lhes a ira , e a 
paixão , largando os ceílos , remettêram a el- 
le , levando-o logo nos ares pêra o matar; 
e aílim chegaram aonde eftava o Capitão , a 
quem contaram o cafo , requerendo-lhe , que 
logo o mandaíTe juítiçar , pois tivera tama- 
nho atrevimento , e pêra que outro não fof- 
fe oufado a fallar , nem imaginar outra fe* 
melhante coufa. O Capitão eípantado de ver 
naquella tenra idade hum zelo tão honroíb , 
louvou-lho muito ? e lhes diííe , que fe reco- 
lheflem , e lhes deixaílem o moço, que elle 
o mandaria caftigar. Os moços defcontentes 
daquelia refpofta , como hiam cegos da pai* 
xão , fem fazerem difcurfo , nem confidera* 
ção , todos a hum tempo remettêram ao e£- 
cravo com páos , e pedras , e em breve ef- 
paço o desfizeram em pedaços , fem o Ca^ 
pitão lhe poder valer ; e tomando o corpo 
nos ares , o levaram com grandes gritas á 
couraça , e o lançaram no mar. Efte cafo 
admirou a todos , mas também os encheo 
de alegria , por verem que até nos me- 
ninos crefcia o animo , e furor contra os 
Turcos , o que lhes dava bom agouro , 
porque haviam que todas aquellas coufas 
eram movidas por Deos , que os queria 

ani- 



4o3 ÁSIA de Diogo de Couto 

animar , esforçar , e dar confiança neítes tra- 
balhos. 

Pouco depois chegou Francifco de Si- 
queira o Maiavar , que António da Silva 
mandou com a carta ao Capitão , que fe 
alegrou muito por faber que tinha o íbc- 
corro tao perto , e logo o tornou a defpe- 
dir, efcrevendo-lhe , que de noite commet- 
tefle a entrada, e que Francifco de Siquei- 
ra o guiaria , ficando alJi dez , ou doze ho- 
mens que hiam no catur , que na mefma noi* 
te fe tornou a fahir pêra fora* 




DE- 



4õ«) 
)J £#* #* j^ £fe **. « «£% J (( 

DÉCADA QUINTA, 
LIVRO V. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO L 

Do ardil de que os Turcos ufdram pêra ve- 
rem fe podiam tomar os da fortaleza 
defcuidados : e do grande , e geral af- 
Jalio que lhes deram : e dos raros , e ef- 
pantofos cafos que nelle aconteceram. 

VEndo os Turcos que por força não 
podiam entrar a fortaleza , e que to- 
das as vezes que a commettiam lhes 
cuítava muito , determinaram de ver fe por 
ardil podiam fazer alguma coufa , que lhes 
foííe de mais effeito, Eaífím deitaram logo 
fama , que fe embarcavam , por haver no- 
vas do Vifo-Rey ; e de dia fe começaram a re- 
colher ás galés , pêra verem fe os noílbs fe 
defeuidavam pêra tornarem a voltar , e coiii- 

roet- 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

metterem a fortaleza com maior força, An- 
tónio da Silveira vendo a prefla com que 
os Turcos fe embarcavam , entendeo-Ihes lo- 
go feu defenho , e naquelle pouco tempo , 
que lhe davam de fôlego , mandou reformar 
os lugares mais perigo los , pondo mais af- 
tucia , e diligencia no do fogo, mandando 
accrefcentar a parede , que cortava o balu- 
arte , e pôr nella todos os petrechos nece£ 
farios pêra o aífalto , porque tiveffem os fol- 
dados tudo á mão. Ea/Tim mandou acarre- 
tar muitas traves das caías pêra as foguei- 
ras , de que nunca levaram mão , e a arti- 
Iheria do baluarte S. Thomé mandou apon- 
tar pêra efte , na parte por onde os Turcos 
haviam de fubir. E a António de Soufa , Ca- 
pitão do baluarte domar, mandou recado, 
pêra queeftiveífe fobreavifo. Os Turcos de- 
pois de embarcados , fe aíFaftáram as galés 
pêra fora , como que fe queriam fazer á ve- 
la ; e tanto que a noite efcureceo , (porque 
eftava a Lua em conjunção de quarteirão da 
creícente , quedava claridade até meia noi- 
te, ) tornáram-fc pêra aterra, onde defem- 
barcáram , e fe paliaram á Ilha , mettendo- 
fe em feus exércitos em muito filencio. Al- 
li fe prepararam pêra o aífalto , que havia de 
fer de madrugada , por cila maneira. 

Três mil Turcos repartidos em três ban- 
deiras. A primeira de Icuf Amed j a fegun- 

da 






Dec. V. Liv. V- Cap. I. 411 

da de Beran Baxá ; a terceira de Baxa Ma- 
mede , que haviam decommetrer o baluar- 
te do fogo ; e Coge Çofar com os mais Ca- 
pitães de Cambaya com a gente Gufarata, 
haviam de commetter as mais eftancias á ro- 
da , pêra divertirem os noíTos. 

Eftando preftes nefta ordem , hum pouco 
antes de romper a manhã, arrebentaram de 
fuás eftancias , e com huma barbara confu- 
são , e borborinho remettêram com o ba- 
luarte do fogo , e com as cafas do Capitão , 
arvorando logo nellas muitas efcadas , por 
onde começaram a fubir com grande deter- 
minação. 

Os Portuguezes , que eílavam alerta 5 a- 
cudíram com muitas panellas de pólvora , 
que lançaram fobre os inimigos , pêra com as 
labaredas verem as partes por onde commet* 
tiam , que muito claramente viram , e nota- 
ram. Aparte que foi commettida com mais 
inílancia , e em que os Turcos arvoraram 
mais efcadas, foi no muro que corria do ba- 
luarte do fogo pêra o de S. Thomé , em que 
havia três, ou quatro partes derribadas , e 
abertas da bateria. 

E pela mefma maneira fe arvoraram ou- 
tras efcadas no muro , que corria por bai- 
xo dos apofentos do Capitão , porque de- 
terminaram de lhe entrar pelas janellas , e 
varandas. António da Silveira, que de tu- 
do 



4*2 ÁSIA de Diogo de Couto 

do foi avifudo , mandou Gonfalo Vaz Cou- 
tinho , e António Mendes de Vafconcellos , 
que acudiflera ao muro antre os baluartes ; 
e a Francifco Mendes de Vafconcellos , e 
Manoel de Vafconcellos mandou , que fe 
foífem metter nos feus apofentos com a gen- 
te de fuás obrigações ; e das outras eftan- 
cias mandou vir todos os foldados pêra a- 
quellas duas partes , que eram as mais pe- 
rigofas. Os Capitães Turcos commettêram 
cada hum ília parte ; Icuf Amede, que le- 
vava huma formofa bandeira branca , e ver- 
melha , começou a fubir pelo baluarte do 
fogo, arvorando logo' o feu Alferes a ban- 
deira fobre elle , enchendo-fe aquelles dous 
terços do baluarte dos mais efcolhidos del- 
ks , que commettêram as paredes com gran- 
de determinação. 

Rodrigo de Proença , que eítava pref- 
tes pêra os receber , acompanhado da me- 
lhor gente da fortaleza acudio alli ; e ven- 
do os inimigos apinhoados , efoíFregos pe- 
las cavalgarem , deitaram em meio delles 
muitas panellas de pólvora , que os abrazou 
a todos , fazendo-os affaftar. E fendo-lhes máo 
de íòffrer aos nolTos foldados , verem o ef- 
t-endarte Turco arvorado no feu baluarte , 
como fenhor delle, crefcendo-lhes o furor, 
arrebentaram perto de trinta , e deram com^ 
figo das paredes abaixo no ineio dos imam 



Dec. V. Liv. V. Cap. I. 413 

gos , como leões famintos , que defejavam 
de os comerem aos bocados , começando a 
matar , e ferir nelles crueliílimamente ; e che- 
gando hum delles ao Alferes Turco , o ma- 
tou , dando com a bandeira pelo chão. Os 
Janizaros vendo aquella affronta , afferrando 
delia, a tornaram a arvorar; mas o meimo 
foldado , que era valorofo (a que também 
não achámos o nome ) tornou a endireitar 
com elles ás cutiladas , ferindo muitos y e 
trabalhou por chegar outra vez á bandeira , 
porque fe não jaétalTem , que a tiveram le- 
vantada naquelle lugar fem lhes cuílar mui- 
to. Aqui crcfceo a refeita, porque todos fe 
baralharam huns com os outros , e quaíi que 
chegaram ás punhadas , por ler o lugar pe- 
queno , e os inimigos muitos; e tanto aper- 
taram os Portuguezes com elles , que com 
morte de muitos os lançaram do baluarte 
em baixo , abatendo-lhes a bandeira a fea 
pezar. Mas como os contrários eram mui- 
tos , e todos os daquella primeira batalha e£ 
lavam ao pé daquclle baluarte , tornaram lo- 
go a fubir outros de refrefco , que acharam, 
os noffos tão encarniçados , que lhes não da- 
va coufa alguma de fubirem todos. Alli fe 
travou hum a muito cruel, e deíigual bata- 
lha, em que os deixaremos , porque he ne- 
çeilario continuarmos com as outras eílan- 
cias* 



414 ÁSIA de Diogo de Couto 

A fegunda batalha, de que era Capitão 
Beran Baxá , que hia arvorar fuás efcadas 
nos apofentos do Capitão , achou já tal de- 
fensão , e guarda , que com a efpingardaria 
lhes derribaram muitos ; e tanto que huns 
cahiamcom as efcadas, chegavam logo ou- 
tros pêra as levantarem , que h iam pelo mef- 
mo caminho. E tal manha tiveram os nof- 
fos nefte jogo , que em quanto huns defpa- 
ravam, outros carregavam , porque não fi- 
caífe momento vafio aos das efcadas pêra 
chegarem com ellas ao muro , fobre o que 
morreram tantos , que houveram por feu par- 
tido largarem-nas , e defiítírem daquelle lu- 
gar , e aííim voltaram pêra fe ajuntarem com 
os que pelejavam no baluarte do fogo. Aqui 
fe accendeo mais a crueza ; porque os Mou- 
ros como defefperados , punham todas fuás 
forças em fe fenhorearem de todo daquelle 
baluarte , os Portuguezes o mefmo pelo de-^ 
fenderem , porque niífo eftava a falvação da 
fortaleza, e aííim retiniam os golpes , accen- 
diam as chammas , atroavam os gritos , e 
bramidos de tal maneira, que tudo era hu- 
ma confusão. 

Coge Çofar andava com treze mil ho- 
mens do feu terço , favorecendo os que fu- 
biam , franqueando-lhes as eítancias com tan- 
tas nuvens de frechas , que efcureciam o Sol , 
que já começava a nafcer. 

E 



Dec. V. Liv. V. Ca?. I. 41? 

E certo , que bem fe podia dizer naquel- 
la hora pelos noílbs , o que refpondeo Leo- 
nides aos feus , commetrendo os Parthos : (di- 
zendo-lhes que as frechas eram tantas , que 
encubriam o Sol) Pois, filhos , que má© hc y 
diíTe elle , que pelejemos á fombra delias ? 
Os Turcos eftavarn taes , que não receavam 
a morte a troco de fe fatisfazerem das que- 
bras paliadas ; mas cada vez fe achavam mais 
embaraçados , porque parecia que de feu fu- 
ror , e braveza nafciam aos noitos novas for- 
ças pêra lhes refiftirem. 

O dam no de ambas as partes era gran-> 
de ; porque ainda que da dos Portuguezes 
era muito menos , fentia-fe tanto mais con- 
forme a quantidade , porque tanta falta lhes 
fazia hum , como aos Mouros cento : por- 
que no lugar que cahia , entravam outros do-» 
brados ; e no que cahia da parte dos Portu- 
guezes , não podia entrar mais que outro % 
alfím pela cftreiteza do lugar , como pelos 
poucos que já havia. E chegou acoufa aqui 
a tanto , que mandou o Capitão a Gonfalo 
Vaz Coutinho , Gabriel Pacheco , Martinx 
Vaz Pacheco, António Mendes de Vafcon- 
cellos , Francifco Mendes, Luiz Rodrigues 
de Carvalho , António da Veiga , Lopo de 
Soufa Coutinho , Paio Rodrigues de Araújo » 
Simão Rangel de Caftello-branco , e a Ma»* 
^oel de Vafconcellos , que eílavam reparti- 
dos 



416 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos pelas outras eftancias , que acudiflem 
áquelle baluarte , onde eftava metiida toda a 
potencia dos inimigos. Chegados eftes Fi- 
dalgos a elle , tomaram todo o trabalho fo- 
bre li, fazendo nelle o que lhe pedia o va- 
lor de quem eram. 

Rodrigo de Proença , Capitão do balu- 
arte do fogo , deo nefte dia moftras de hum 
valorofo Cavalleiro , e prudente Capitão ; 
porque quando era neceffiirio , pelejava co- 
mo foldado com grande valor ; e quando 
cumpria , mandava , e governava como af- 
tuto Capitão , acudindo de tal maneira ás 
neceííidades , que em gritando hum por pól- 
vora , e panellas , já as alli achava ; por lan- 
ças de fogo , ás mãos as tinham ; em fim r 
tudo eftava tão bem negociado , que nada 
faltava a íèu tempo. O Capitão ao pé do 
baluarte, onde eftava vendo, e governando 
tudo , dalli cumpria tanto com fua obriga- 
ção , e trazia tantas intelligencias , que na- 
da fe fazia fem feu confelho , mandando ter 
muito tento nos feridos, que logo mandava 
recolher, e curar com muito cuidado. Abri- 
ga cada vez fe accendia mais , e o dainno 
crefeia dobrado \ mas nem com iflo as for- 
ças enfraqueciam nos nofTos ; porque quan- 
do parecia que tudo eftava mais arrifeado , 
o tornavam a fegurar com o eftrago que fa- 
ziam nos inimigos j e com o que cada hum 

via 



Dec. V. Liv. V. Cap. I. 417 

via fazer ao que tinha a par de íi , Ihecref- 
cia huma tão honroia inveja j que fe desfa- 
ziam todos em cólera, ira, e braveza, 

Neíte tempo , em que a coufa eílava em 
balanço , fe levaram quatorze galés , e fe che- 
garam a huma eftacada , que eílava perto da 
fortaleza . e dalli a começaram a bater com 
grande fúria , que logo os nofíos lhe quebra- 
ram ; porque Francilco de Gouvea , Capi- 
tão do baluarte de fobre a barra , lhes man- 
dou tirar com algumas peças , e foram tão 
bem empregadas , que lhes rnetteo huma ga- 
lé no fundo , e lhes defapparelhou as mais 
das outras. António de Soufa , Capitão do 
baluarte do mar , também os efcandalizou 
com a fua artiiheria bem. No baluarte da 
briga hia cada vez o mal em maior crefei- 
mento , porque os inimigos trabalhavam por 
arvorarem outra vez a fua bandeira nclle , 
e os nolTos por lha derribar, e abater; fo- 
bre o que faziam de ambas as partes gran- 
des coulas. Neíte confíiélo deram huma fe- 
rida a Martim Vaz Pacheco , de que cahio 
logo morto , tendo bem moílrado leu esfor- 
ço. Gabriel Pacheco , feu primo com irmão , 
que eílava a par delle , imirando-o nas obras , 
vendo-o daqueJla maneira , como o amava 
muito , defejando de vingar fua morte , avor- 
f xecido já da vida , faltou entre os Mouros 
com huma efpada , e rodela , com que a 
Couto. Tom. IL P. L Dd hu- 



418 ÁSIA de Diogo de Couto 

huma , e a outra parte foi ferindo , derri- 
bando , e deftroçando a todos os que podia 
alcançar, tomando bem grande fatisfação da 
morte do parente. E como não fugia aos 
perigos , antes onde eram maiores , alli fe 
arremeçava , deram-lhe duas feridas no rof- 
to , de que lhe corria muito fangue , do que 
lhe eJJe deo pouco , antes lhe acerefeenta- 
va a fúria, e braveza, com que andava co- 
mo leão , que os inimigos fentiam bem em 
fuás carnes. Hum dos noíTos , que eílava jun- 
to delle , vendo-o tão maltratado , lhe pe- 
dio , que fe recolheíle a curar , porque af- 
ias tinha feito , e que lá lhe ficava tempo , fe 
efcapaiTedalli , pêra tomar vingança daquel- 
]as oífenfas. Não quero eu ( lhe refpondeo 
elle ) poupar a vida , quando eu vejo a do 
homem , a que tanto quiz , perdida , que pa- 
rece que me ejld pedindo vingança de Jua 
morte ; e pois fomos companheiros tantos 
annos na vida , razão he que ofejamos tam- 
bém aqui na morte. E fazendo leu officio, 
fe metteo pelos inimigos como leão raivo- 
fo , fazendo nelles grande deftruição , até 
que lhe deram huma efpingardada , de que 
cahio morto a par do parente, cumprindo- 
lhe niílo a fortuna bem feus defejos , que! 
tanto trabalhou por ficar naquelle lugar. 

Dos dous baluartes S. Thomé , e do mar, 
que ficavam de huma parte ; e da outra da-> 

quel- 



Dec. V. Liv. V. Cap. I. 419 

quelle do fogo , em quanto o aíTalto durou , 
íèmpre varejaram os inimigos, que eftavam 
apinhoados ao pé delle , em quem fizeram 
mui grande , e notável eftrago. Nefte tem- 
po , em que mataram eftes dous Fidalgos pa- 
rentes , fe fubio hum foldado em íima de 
huma parede do apofento do Capitão , e com 
fua efpingarda começou a derribar nos Mou- 
ros muito á fua vontade , fem o verem ; e 
vendo andar hum Mouro , que na louçai- 
nha do trajo fe differençava dos outros , e 
como Capitão andava governando a gen- 
te , ficando-lhe atiro, apontou nelle , e quiz 
fua ventura , que o tomou pelos peitos 3 der- 
ribando-o logo morto. E em cahindo , che- 
gou hum Mouro pêra o levantar, e carre- 
gando o foldado a efpingarda depreífa , tor- 
nou a apontar nelle , e acertou também o 
fegundo tiro , que derribou o outro morto 
fobre elle ; e acudindo outros pêra o leva- 
rem , tornou o foklado a deffparar outra vez , 
e derribou o terceiro r ficando alli todos ef- 
tirados por falvarem o feu Capitão. O que 
era muito differente dos noUos , porque ca- 
hia o parente , e o inimigo aos pés do ou- 
tro , fem haver quem tivefie mais tento , 
que nas mãos com que pelejavam , fazendo 
alguns o íincapé em feus corpos , como a- 
conteceo a hum Fernão de AfFonfo , homem 
de mais de fetenta annos , muito bom Ca- 
Dd ii vai- 



4"o ÁSIA de Diogo de Couto 

valleiro , que affim deita vez , como de to- 
das as mais , tinha pelejado como fe fora 
de trinta > que cahio aqui de muitas feridas ; 
e como os mais eftavam occupados em íua 
defensão , curando pouco do bom velho , em 
lugar de o levantarem , o acabaram de atrope- 
lar , porque naquelle tempo toda a carida- 
de , que fe quizelíe ufar neíta parte, podia 
vir a fer crueza pêra todos ; porque cada 
hum cuidava que lo em feu braço eítava a 
defensão daquella fortaleza , e como eífe , pe- 
lejava fem dar mais fé de outra coufa. 

Em huma guarita do baluarte S. Tho- 
mé , que eftava derribada , fe metteo tam- 
bém hum foldado 9 e dalli com fua efpin- 
garda matou muitos Mouros ; e ao tempo 
que no baluarte do fogo crefcia a referta , 
e crueza fobre a bandeira dos Mouros , huns 
pela alevantarem , e outros pela abaterem y 
quiz a ventura deite foidado , ( a que tam- 
bém lhe roubou o defcuido Portuguez eíta 
gloria , com lhe efconderem o nome , ) que 
apontando no Alferes , o derribou logo mor- 
to , e a bandeira cahio pelo chão , a que os 
noífos deram grandes gritas , e os Mouros 
começaram a afloxar. O que viíto pelos nof- 
fos , apertaram tanto comelies, que oslanr 
cáram do baluarte abaixo. 



CA- 



Década V. Liv- V. 421 

CAPITULO II. 

De como as outras duas batalhas commet- 
têram o baluarte : e dos cafos , que acon- 
teceram a alguns dos nqffòs : e de como 
os inimigos fe retiraram desbaratados. 

DEsbaratados eftes da primeira batalha , 
de que era Capitão Iluf Amed , com 
muito grande damno feu , acudioBeran Ba- 
xa , Capitão da fegunda , e remetteo com o 
baluarte pêra vingar a affronta feita aos ícus ; 
e como chegou de refrefco , ecom mil Tur- 
cos , e Janizaros folgados , tornou~fe logo 
a pôr em lima, ainda que com grande per- 
da lua , e logo arvoraram quatro bandeiras 
de feda em grandes aíteas de lanças , e em 
fima humas maçans douradas muito gran- 
des , e bem lavradas , de que pendiam mui- 
tos cordoes com borlas brancas de algodão 
muito fino. Eítas quatro bandeiras mandou 
o Califa de Meca ao Baxá , que foram fan- 
tificadas ao feu modo na caía de Mafame- 
de , e tocadas em lua fepultura , conceden- 
do mui grandes , e geraes perdões a todos 
I os que em lua defensão morreíTem , pro- 
I mettendo-lhes da parte do falfo Profeta , que 
| alcançariam vitoria naquella jornada contra 
; os Portuguezes ; e aífim as eííimavam , e ti- 
nham em tão grande veneração , que nunca 

as 



4^2 ÁSIA de Diogo de Couto 

as quizeram tirar , e defenrolar, fenão efte 
dia , (que haviam que havia de fer o ul- 
timo de feus trabalhos , ) e que fem dúvi- 
da daquella feita por fua virtude ganhariam 
aqueila fortaleza» 

Arvoradas as bandeiras , remettêram os 
Turcos com as paredes , que os noíTos de- 
fendiam , a que fe tinham já recolhido , ( on- 
de ainda durava o fogo , de que fe teve íem- 
pre grande cuidado , ) lançando fobre os nof- 
fos huma grande fomma de artifícios de fo- 
go , e outros infinitos tiros de arremeço , zar- 
gunchos , lanças , pedras , e outras coufas , 
com que feriram, e abrazáram alguns, que 
affim ardendo não faziam mais, que chegar 
ás tinas da agua a fe refrefcar , e tornar a 
feu lugar , onde logo eram outra vez tofta- 
dos , e aliados , ficando alguns taes , que fe 
não conheciam. Os Mouros , que eítavam 
debaixo, que não cabiam no baluarte, def- 
pediam pêra dentro da fortaleza tantas nu- 
vens de frechas, que era coufa efpantofa de 
ver , porque todas as lanças dos noflbs ef- 
tavam empenadas , e alguns com as mãos en- 
cravadas nellas , e outros pelos roftos , ca- 
beças , braços , e em todas as mais partes 
de feus corpos» E certo , que foi aquelle hum 
efpectaculo piedoíííTimo dever, porque h uns 
cahiam pedindo confifsão j outros abrazados 
corriam ás tinas da agua -> outros bradavam , 

que 



Dec. V. Liv. V. Cap. II. 423 

que lhes defencravaflem as mãos ; outros , 
que lhes tiraíTem as frechas do rolto , e ca- 
beças , porque lhes faziam impedimento pê- 
ra a briga ; outros gritavam por panelas de 
pólvora , por lanças de fogo , e por outras 
coufas femelhantes ; e com tudo ilto faziam 
todos tamanhas maravilhas ? quaes fc não 
podiam efperar de muitos homens sãos , quan- 
to mais de tão poucos 3 e tão cruelmente fe- 
ridos. 

Aqui efteve a coufa tanto em balanço , 
que todos os que de fora a viam , houve- 
ram tudo por acabado, O Capitão fobre 
quem carregava tudo , governava todas as 
coufas fem perturbação , e com grande ani- 
mo , não fe affaftando do pé da efcada , 
donde defpedia pêra fima toda a gente que 
podia , tendo mui grande conta com as mu- 
nições , que não faltaffem , no que andavam 
occupadas aquellas honradas Matronas , com 
que he razão que continuemos em todo o 
tempo , pelo muito que aqui mereceram. Ifa- 
bel da Veiga , e Anna Fernandes , cujos 
annos , e idades eram já mais pêra repou- 
fo , que pêra aquelles trabalhos , fubidas am- 
bas ao baluarte > mettidas no meio dos que 
pelejavam , alevantando as vozes esforçavam 
a todos. 

Aqui Anna Fernandes com hum fervor 
chriftianiífimo , arrancou de hum devoto 

Cru- 



424 ÁSIA de Diogo de Couto 

Crucifixo, e arvorando-o no ar, difle : Ah 
filhos , que aqui tendes quem v:-s ha de dar 
a vitoria : ponde os olhos nefte Senhor , que 
delle vos ha de vir todo o foccorro : pelejai , 
Cavalleiros de Chrifto , esforçados Capi- 
tães , ejoldados Jeus , com muita confiança 
contra vojjbs , e Jeus inimigos , que aqui 
tendes comvofco aquelle , que defende , e guar- 
da todas as Cidades , e lugares daquelles , 
que pelejam por fua Fé Sagrada , e Catho- 
lica. Iíabel da Veiga também pela lua par- 
te fazia outro tanto , tão feguras ambas , e 
confiantes , que nada lhes dava dos pelou- 
ros , e das frechas , que lhes hiam zonindo 
pelas orelhas. E fe algum dos noflbs caiiia 
ferido, ou morto , chamavam pelas compa- 
nheiras , que acudiam logo , e os tiravam 
dalli por não eííorvarem aos vivos. Os nof- 
fos , queeftavam accezos na peleja, vendo a 
figura de Chrifto arvorada , e ouvindo as pa- 
lavras daquellas animofas Matronas , de re- 
pente fe lhes accendeo hum novo furor em 
feus ânimos , e corações , com que começa- 
ram a fazer coufas não efperadas de homens , 
que tanto tinham ibíFrido , e que efravam tão 
efcalavrados , porque antre todos não havia 
já hum são. 

António da Silveira , poílo que não ti- 
nha como elles os trabalhos dos braços, ti- 
nha os do animo , e do vigilantiílimo cui- 
da- 



Dec. V. Liv. V. Cap. II. 42? 

dado , porque o tinha repartido por muitas 
partes , provendo todas de tal feição , que 
nunca faltou coufa que fe pediíTe , e de que 
fe tiveíle neceflidade. Nefte exercício anda- 
vam as mulheres , e alguns homens muito 
velhos , a quem particularmente era dado o 
cuidado de recolher os feridos , e de os man- 
dar curar, provendo o Capitão logo aquel- 
Ies lugares de outros sãos , fe os havia ; e 
antre eftes feridos, que fe tiravam, (e mui- 
tos quaíi por força , ) fe foram também fa- 
hindo alguns de pequenas feridas , que fo- 
ram viftos de Anna Fernandes , que com 
grande cólera , e paixão os tomou pelos bra- 
ços, e os tornou a feu lugar, dizendo -lhes 
que pelejaflem , que as feridas não era n de 
perigo ; e aílim como aos que faziam ma- 
ravilhas louvava , e engrandecia com pala- 
vras de amor , chamando-lhes filhos , e Ca- 
valleiros de Chriílo , aílim aos que fentia fra- 
cos , e medro fos os affrontava , e reprehen- 
dia, de maneira, que huns por honra, e ou- 
tros por vergonha , e medo deita honrada 
velha , pelejavam até morrerem km mudarem 
o pé de hum lugar ; mas deites houve poucos , 
porque todos fizeram tão heróicas proezas , 
que não ha cópia de palavras com que fe pof- 
fam particularizar. E aílim aconteceram em 
todo eíte cerco cafos mui raros , e nunca ou- 
vidos, como hum neíta mefma briga. 

Ef- 



426 ASIÀ de Diogo de Couto 

Eítando hum foldado noflb pelejando com 
lua efpingarda com grande fervor , tendo 
mortos muitos Mouros, e defpendida toda 
quanta munição tinha bem á ília vontade , 
e tendo lançado huma carga de pólvora na 
efpingarda , foi á bolça bufcar pelouro , c 
não no achando , como eftava accezo naquel- 
le furor , magoado de fe lhe acabarem os 
pelouros , e não ter com que defparar aquel- 
la carga nos inimigos , levou a mão com 
grande cólera á boca , e pegou de hum den- 
te , ( que devia de lhe bolir , ) e com tanta 
força puxou por elle , que o arrancou , e 
metteo na efpingarda por pelouro , com que 
atirou aos inimigos. Caio he efte por certo 
pêra fe engrandecer , e louvar com melhor , 
e mais alto eílilo que eíle nolTo , em que nos 
pareceo melhor ( pois o tempo deixou tão 
valorofo foldado com outros taes em efque- 
cimento ) contar o cafo aílim como paliou , 
porque elle por fi fe realça , e engrandece, 

Rodrigo de Proença , que nefte dia fez 
coufas bem dignas de fe celebrarem , vendo 
o aperto em que eftava , fe poz diante de 
todos , fazendo bem o officio de foldado , 
porque o eftado em que via aquelle negocio 
o fez efquecer da obrigação de Capitão , 
porque entendeo que alli convinha mais 
pelejar , que mandar ; mas a fortuna invejo- 
la do feu esforço > ordenou , que em ale- 

yan* 



Dec. V, Liv. V. Cap. II. 427 

vantando a vizeira de hum elmo, que tinha 
pêra resfolegar hum pouco , endireitafle hu- 
•ma frecha por alli dentro, que o tomou por 
hum olho , e outra logo pela boca , de que 
cahio mortal. Aqui acudio a boa Anna Fer- 
nandes , e o mandou tirar com muita pref- 
fa pêra lhe darem remédio , que lhe não a- 
proveitou , porque logo morreo. No mefmo 
inítante deram outra frechada a António 
Mendes de Vafconcellos , que o tomou pe- 
la garganta , de que também logo cahio mor- 
to. Aqui declinou a batalha contra os nof- 
fos , porque eílcs homens , e outros , que já 
alli citavam eílirados , eram os que fuftenta- 
vam o pezo delia. • 

Nefte perigofo tranfe chegou João Ro- 
drigues , (de quem já falíamos no Cap. XI. 
do quarto Livro , que travou do bicheiro 
dos inimigos , ) que trazia aos hombros hu- 
ma jarra de pólvora de efpingarda , que le- 
vava perto de huma arroba , e como era ho- 
mem mui grande , e forçofo , foi paflando 
por todos os que pelejavam , dizendo-lhes , 
que lhes deffem caminho , porque alli leva- 
va o com que aquelle negocio fe havia de 
concluir. E paflando adiante de todos , che- 
gou ao lugar dos inimigos , e levantando a 
jarra com as mãos , deo com ella antre el- 
les, recolhendo-fe pêra dentro. A jarra em 
dando no chão , fez-fe logo em pedaços , c 

to- 



428 ÁSIA de Diogo de Couto 

tomando o fogo de muitos morrões , que 
levava accezos , levanrou aqueilas labaredas 
ardentiílimas , em cujo meio ficaram logo vin- 
te Mouros abrazados , e mais de cento fo- 
ram voando por elTes ares ; e as quatro dia- 
bólicas bandeiras foram desfeitas em cinza. 
A ido deram os noilbs huma grande grita , 
e os inimigos fe foram retrahindo , com o 
que cobrando os noífos novo animo , (quan- 
do já eftavam mais defconfiados , ) deram íb- 
bre os Mouros , que hiam já em desbarato , 
e os deitaram do baluarte abaixo , e fobre 
elles lançaram muitas panelas de pólvora , 
que fe foram desfazer antre os que eíbvam 
apinhoados ao pé do baluarte , em que fize- 
ram grandes incêndios , e deftruiçao. As mais 
deitas panelas /oram lançadas por João Ro- 
drigues, que era homem muito braceiro , e 
foi hum dos que nefte cerco mereceram mais \ 
e daqui lhe ficou o appellido de João Ro- 
drigues Panelas de pólvora , pelo que foi 
muito conhecido. Viveo depois muitos an- 
nos, calado em Goa , eEiRey lhe deo por 
efte ferviço os cargos de Guarda dos Con* 
tos de Goa , e Thelbureiro dos reíles , pê- 
ra eiíe , e pêra feu filho Martim Rodrigues 
Panelas de pólvora , que neíta era de no- 
venta e féis , em que ifto efcrevemos , vive 9 
homem honrado , que imita á verdade , e 
bondade de feu pai. Neíle tempo y em que 

Fe 



Dec. V- Liv. V. Cap. IL 429 

fe começava a declarar a vitoria pelos nof- 
fos , quiz Deos que do baluarte do mar, e 
do de S. Thomé acertaffem alguns tiros 
no meio daquelle cardume de inimigos , em 
que fizeram tamanha deftruiçao, que de to- 
do íe houveram por desbaratados. 

A terceira batalha , de que era Capitão 
Baxá Mamede , vendo o defíroço que era 
feito na gente da companhia de Beran Ba- 
xá , foi-lhe neceiTario foccorrer-lhe , e com- 
metrer os noííos , o que fizeram com menos 
confiança , pelo grande eftragc , que vira fa- 
zer em tantos dos feus. E iubindo ao balu- 
arte. , já os noííos os não quizeram efperar 
detrás das paredes ; porque vendo a mercê 
que Deos lhes tinha feito, e fazia, fahíram 
das paredes , e dando nos Mouros como 
leões bravos , ferindo , e matando nelles bem 
á lua vontade , os lançaram fora com pou- 
co goíto delles. Na dianteira dos Mouros 
pelejava Caracen, (que já dêmos a conhecer 
no Cap. IX. do Liv. I. que era cafado com 
a filha de Coge Çofar , que foi mulher do 
Tigre do Mundo,) que como homem ani- 
mofo , e esforçado , fe quiz aílinalar , e avan- 
tajar de todos , indo acompanhado de al- 
guns Janizaros que efeolheo. E remetten- 
do com os noíTos , achou logo o defenga- 
t\o daquella confiança , porque a poucos gol- 
pes cahio afllm de feridas ^ como de abra- 

za« 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

zado em fogo , e em eftado , cjue o reco- 
lheram os íeus. Depois viveo eíte Mouro 
até o armo de oitenta e três , com grandes 
íinaes defte fogo nas mãos , pernas , e rof-> 
to, coufa dequeelle fe muito ja&ava , con- 
verfando os Portuguezes , de que depois foi 
muito amigo, A falta defte homem , e o ve- 
rem-no levar daquella maneira , fez grande 
temor , e poz em grandes defconfianças aos 
que eílavam ás mãos com os noííos , pelo 
aue fe começaram a retirar com grande pref- 
la : o que vifto pelos noííos , começaram a 
appellidar Vitoria , vitoria , tocando- fe lo- 
go todos os inftrumentos , aílim pêra ani- 
marem a todos os da fortaleza , como pê- 
ra defcoraçoarem mais os inimigos. Durou 
efte combate quatro horas , ficando já os nof- 
ios defalivados ; porém não com tão peque- 
no damno , que não morreífem quatorze , fi- 
cando mais de duzentos feridos, e queima- 
dos. Dos inimigos paliaram os mortos de 
quinhentos , e de vantagem de mil os feri- 
dos* 



CA- 



Década V. Liv. V. 431 

CAPITULO III. 

De como o Baxá mandou recolher os feus y 
efe embarcaram : e dos apercebimentos 
que António da Silveira fez fera fe de- 
fender , cuidando fer ardil 5 como da ou- 
tra vez : e de como Francifco de Siquei- 
ra o Malavar tornou com recado de An- 
tónio da Silva : e da defaflrada morte % de 
António da Veiga. 

L Evadas as novas ao Baxá daquelle fuc- 
cefíb , ficou como fem íizo , e fora de 
fí;'e vendo quanto lhe tinha cuftado aquel- 
la jornada , e que cada vez lhe fuccedia peior , 
e que cada dia podia arrebentar alli a Ar- 
mada do Viíb-Rey , e que já não tinha po- 
der pêra a efperar , por fer a mór parte de 
fua gente morta naquella guerra 5 e confu- 
midas todas as munições , e fobre tudo fen- 
tir já huma alteração , e mudança em Coge 
Çofar , com quem havia pouco tivera hu- 
mas razões ruins , e palavras , o dia que che- 
garam á fortaleza as novas , que o Vifo-Rey 
ficava pêra partir ? dizendo-lhe , queerafal- 
fo , e que o enganara , porque lhe tinha el- 
]e affirmado, que o Vifo-Rey não fe havia 
de abalar de Goa , nem o havia de ir buí* 
car: e como Coge Çofar era mui recatado, 
ç via o ruim fucceflo ; que as coufas do Ba- 
xá 



432 ÁSIA de Diogo de Couto 

xá hiam tendo , conhecendo a fua maldade , 
e falíidade , receando-íe que o quizefle levar 
ao Turco , pêra defearregar íobre elle as 
culpas do pouco , que fizera no cerco , an- 
dava já retirado , e apartado fem ir á fua 
galé. Via mais o Baxá , que os naturaes an- 
davam alterados , e não acudiam com os 
mantimentos como cofiumavam , o que era 
verdade j porque ou de efeandalizados pelas 
avexaçoes , e affrontas, que os Turcos lhes 
tinham feitas , ou induzidos de Coge Ço- 
far, eram todos aufentes. Iílo tudo entendi- 
do do Baxá , logo o mefmo dia , primeiro 
que anoiteceíle , mandou a feus Capitães que 
fe recolheílem , e que tiveíTem tento em íi , 
porque a gente não os acabaífe de desbara- 
tar , e lhes tomaííe a artilheria , o que el- 
les logo começaram a fazer no que reftava 
do dia , paliando logo á outra banda toda 
a artilheria que puderam , e algumas peças 
muito grandes deixaram entregues a Coge 
Çofar y pêra dar conta delias todas as vezes 
que lhas pediífem. 

Diíío foi logo António da Silveira avi- 
fado; e receando que pudeíTe aquillo fer al- 
gum ardil , ou invenção , como da outra vez , 
toda aquella noite não quietou, nem repou- 
íbu 5 mandando fazer preftes denovoascou- 
fas j que havia pêra fe defenderem , fe o tor- 
aiaífem a commetter ; mas não achou nos ai~ 

ma- 



Dec. V. Liv. V.Cap. III. 433 

mazens pólvora alguma , por fer toda gai- 
tada , nem havia já em toda a fortaleza mais 
de quarenta homens , que fe pudeílem repar- 
tir pelos baluartes. 

Pelo que , vendo tamanha pobreza , foc- 
correo-fe a Deos , e mandou tirar a pólvo- 
ra , que eílava já carregada ern quatro bom- 
bardas groíías , de que fe encheram quaren- 
ta panellas de pólvora , que fe repartiram 
pelas eílancias , que mandou guarnecer de 
muitas pedras , que arrancaram aquellas Ma- 
tronas honradas. Eílas vendo o perigo era 
que a fortaleza eílava , e a pouca gente que 
havia pêra fua defensão , acudiram todas com 
hum animo, e valor fobrenatural , repartin- 
do- fe pelos baluartes , pêra fupprirem a falta 
dos homens , armando- fe algumas delias em 
armilhas 5 e coíToletes , com lanças , e ala- 
bardas nas mãos , muito alegres , e conten- 
tes , determinadas a morrerem na defensão 
daquella fortaleza , veftindo-fe todas pêra, 
iffo dos mais ricos, e galantes trajos que ti- 
nham. O mefmo fizeram todos os homens, 
pondo-fe de plumas , e louçainhas , e os que 
as não tinham , as pediam a outros , queren- 
do nefte dia (que havia de fer o derradei- 
ro) moftrar o goílo que tinham de morre- 
rem pela Fé de Chrifto. Os feridos , que ef- 
tavam em fuás camas , fabendo o que por 
fora hia , e doapparelho que todos faziam , 
Couto. Tom. II. P. L Ee os 



434 ÁSIA de Diogo de Couto 

os mais fe mandaram levar por feus efcra- 
vos aos baluartes , porque aquelles lugares 
haviam por mais feguros. António da Sil- 
veira muito contente ? e alegre com eíte po- 
bre apparato 5 que tinha feito pêra efperar 
os inimigos , gaitou toda a noite em viíi- 
tar as eítancias , animando , e esforçando a 
todos , e dando alguns rebates falios , em 
que fempre os achou em feus lugares mui 
apparelhados , e apercebidos pêra refiílirem 
aos inimigos. 

Eíla noite , que foi a derradeira do mez 
de Outubro, porhuma parte parecia amais 
medonha , que fe podia imaginar 5 e por 
outra em certo modo muito cheia de ale- 
gria , pela muita que todos tinham na de- 
terminação com que eítavam ; e acabou de 
os alegrar Francifco de Siqueira oMalavar, 
que na entrada do quarto d'alva entrou pe- 
la barra dentro , porque depois que fe fez 
á vela com as cartas de António da Silvei- 
ra , (como atrás dilfemos no Cap. XII. do 
IV. Liv. ) foi tomar António da Silva na 
coita de Baçaim pêra atraveflar a Dio , e 
dando-lhe as cartas , o defpedio Jogo , metten- 
do-lhe dentro vinte homens , e o mandou 
com outra carta a António da Silveira , em 
que lhe dizia , como hia já atraveífando ; 
dando-lhe por regimento , que o efperaífe á 
vifta da Armada dos Turcos , pêra o avi- 

far 



Dec. V. Liv. V. Cap. III. 435- 

far do modo em que eílava. O Siqueira vol- 
tou tão depreíTa , que ao fegundo dia entrou 
por aquella barra , e mettido pela couraça , 
deo a carta ao Capitão, e lhe affirmou , que 
ao outro dia feria António da Silva naquel- 
Ja fortaleza , o que poz grande alvoroço em 
todos; e mettcndo-ihe a gente dentro, tor- 
nou logo a voltar, antes que amanheceíTe, 
e affaftado das galés fe deixou eílar, donde 
lhes enxergava os penões , cfperando por An- 
tónio da Silva. Vindo amanhã, que foi do 
dia de Todos os Santos , o mais alegre , e 
formoíb pêra todos , que nunca viram ; por- 
que já não ouviam eílrondos de bombardas , 
nem viam labaredas de pólvora, nem efca- 
das arvoradas pelo muro , nem aquelle ter- 
ror, e efpanto , que tantos dias havia que 
viam, e ouviam. Nem viam já os inimigos, 
porque eram embarcados , e as galés efta- 
rem recolhendo a artiíheria com muita pref- 
fa , e ferverem os Turcos na embarcação. 
Tudo iíto viam os noffos com os olhos , e 
não o criam de alvoroço. 

CogeÇofar, tanto que os Rumes fe em- 
barcaram , recolheo-fe com a fua gente pê- 
ra os primeiros alojamentos , em que fe dei- 
xou ficar aquelle dia , em quanto fe reco- 
lhia a artiíheria , que lhe ficava entregue 9 
<]ue com muita preíTa fez paflar da outra ban- 
da. O dia paílòu-fe todo em verem rcco- 
Ee ii lher 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

lher os inimigos ; e tanto que anoiteceo , 
defejou António da Silveira mandar fora al- 
guma gente pêra derribarem os baftiães , e 
trincheiras de junto da cava , e pêra darem 
hum toque nas eftancias de Coge Çofar , por- 
que entendia quão medro fo havia de eftar , 
fó pêra o quebrantar. Efta fahida lhe pedio 
muito de mercê António da Veiga , Feitor 
da fortaleza , que em todos os rebates , e pe- 
rigos defte cerco foi fempre dos primeiros , 
e deo de comer alua culta a muitos homens. 
O Capitão lha concedeo , dandõ-lhe vinte 
e finco foldados , dos que haviam sãos, em 
que entravam os que levou o Siqueira. E 
fazendo-fe preftes no quarto d ? alva , fe lan- 
çou na cava , e em muito íilencio foi de- 
mandar aseftancias dos inimigos; ecommet- 
tendo-as por huma parte com grande deter- 
minação , as entraram^ fazendo nos inimigos 
hum grande eftrago , porque os tomou bem 
defcuidados. O arraial foi todo poíto cm re- 
volta , porque cuidaram que era o poder 
maior , pondo- fe todos em desbarato. Antó- 
nio da Veiga , depois que fez aquelle nego- 
cio muito á fua vontade , e fem lhe cuítar 
coufa alguma , foi-fe recolhendo pêra abo- 
ca da cava, onde achou muitos fervidores, 
que o Capitão pêra aquillo deitou fora , e 
dando nas eftancias de íbbre a cava , em bre- 
ve tempo as defmanchou, e poz por terra. 

Em 



Dec. V. Liv. V. Cap. III. 437 

Em quanto fe iílo fazia , hum dos feus 
Toldados tomou o caminho da cava pêra a 
banda domar, e fubindo adlna , foi deman- 
dar hum baíliao , que os Turcos tinham na- 
quella parte, que achou defpejado , com fua 
bandeira ainda arvorada , que com a -preíía 
deixaram alli os Mouros ; e achou mais hum 
formoíiífimo leão de metal poílo em feu re- 
pairo ; e tomando a bandeira , tornou-fe pê- 
ra António da Veiga , a quem deo conta de 
tudo o que vio ; e como já tinha feito tu- 
do ao que fora , recolheo-fe pêra a fortale- 
za , e deo conta ao Capitão do que deixava 
feito , e da bombarda , que o foldado acha- 
ra no baíliao , pedindo-lhe licença pêra a ir 
recolher. O Capitão feefcufou, com lhe di- 
zer , que pois os Turcos alli a deixaram , de- 
via defer arrebentada, e que ella alli eftava 
fempre , e que a todo tempo fe recolheria ; 
que fe era pêra moftrar valor , e esforço , 
aíTás tinha já dado de íi baftantes provas ; que 
não houveffe por honra ir ganhar o que não 
era defendido de alguém. António da Vei- 
ga não iatisfeito daquellas razoes , o tornou 
a importunar de feição , que lhe concedeo 
a jornada. 

Depois de todos jantarem com grande 
regozijo , efcolheo António da Veiga vinte 
companheiros , e veftindo-fe muito galante 
de plumas , e medalha ? fahio pela cava , e 

foi 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

foi demandar o lugar , em que o leão e£- j 
tava , e chegando a ellc , vio que era arre- 
bentado ; e íem embargo diílo determinou 
de o recolher , fazendo-o arraftar pelos fer- j 
vidores até á borda da cava , pêra dar com 
elle em baixo. Mas como não ha fugir á mor- 
te , e ella o efperava naquelle lugar , pêra 
onde fe elle fez tão gentil-homem , quiz Deos 
(que he o que tudo move ) que chegaíle á- 
quelje tempo hum Mouro a hum alto , que I 
eftava dalli a mais de trezentos paíTos , pe- | 
ra ver o que os nofíbs faziam ; e vendo-os j 
eílar no trabalho do leão , defparou huma j 
efpingardada a montão , fem lhe parecer que j 
podia lá chegar , e endireitando o pelouro I 
com António da Veiga, que eftava nomeio I 
de todos os feus foldados , e fendo mais pe- 
queno de corpo , que todos elles , e toman- 
do-o pela cabeça , o derribou logo mono. 
Os feus foldados vendo tamanho defaftre , o j 
tomaram em os braços , e o recolheram pe- j 
ra a fortaleza , onde foi enterrado honrada- I 
mente com grande mágoa, e dor de todos. 
Efte cafo fentio muito o Capitão , aílim pela j 
perda daquelle homem , como porque foi j 
áquelle negocio contra fua vontade , e gof- j 
to. Deftes cafos aconteceram alguns na for- 
taleza pelo decurfo do cerco , que fe nota- i 
ram bem. Hum foldado mancebo muito luf- • 
trofo , c gentil-homem , eftando hum dia de j 

hum 



Dec. V. Liv. V. Cap. III. 439 

hum afíalto naquelle baluarte do fogo, pe- 
lejando muito bem , acaio íe lahio dalli , 
e fe foi pêra o pé da efcada , onde eftava o 
Capitão, (devia defer a lhe levar algum avi- 
fo , ) c eftando bem ao pé do baluarte , foi 
hum pelouro perdido apôs elle , e lá em bai- 
xo lhe deo pela cabeça , de que logo cahio 
morto , eícapando elle , em quanto efteve em 
lima, no meio daquellas efpefías nuvens de 
pelouros , e frechas , que íbbre o baluarte 
cahiam ; e tornando aos Turcos, foram re- 
colhendo fuás co ufas , c provendo-ie de agua , 
e mantimentos. E aqui os deixaremos por 
continuarmos com António da Silva. 

CAPITULO IV. 

De como António da Silva chegou d vifta 
da Armada do Turco : e de como o Baxd 
cuidando fer a Armada do Vifo-Rey , lhe 
foi fugindo : e de como a nojfa Armada 
entrou em Dio : e do que aconteceo ao 
Baxd na jornada. 

TAnto que António da Silva defpedio o 
Siqueira Malavar , ( como diífemos no 
Cap. III. do Liv. V. , ) foi logo atraveífan- 
do o Golfo , e aos finco dias do mez de No- 
vembro houve vifta da terra , e juntamen- 
te do Siqueira , que eftava á vifta das galés , 
e delle foube o eílado da fortaleza , e de 

co- 



440 ÁSIA de Diogo de Couto 

como oBaxá citava recolhido, e com a Ar- 
mada affnftada pêra de todo fe ir ; e por fer 
ifto fobre a tarde , foi-fe detendo pêra de noi- 
te commerter a barra. Alguns navios da Tua 
companhia , que fe adiantaram , foram ha- 
ver vifta da Armada , e tomando as velas , tor- 
náram-fe ao Capitão mor , o que não qui- 
zeram fazer D. Martinho de Soufa , e Dom 
Luiz de Taíde , que hiam com elles , antes 
deiviando-fe da Armada , tomando o remo 
cm punho , foram demandar a barra de Dio , 
por onde entraram á boca da noite. E fur- 
gindo á couraça , deram rebate aos da vi- 
gia , que logo deram recado ao Capitão , que 
acudio , e os recolheo por ella , fazendo-íhes 
grandes feitas. Delles foube como António 
da Silva ficada á viíta dos inimigos, com o 
que todos os da fortaleza parecia que refuf- 
citáram , e aílim pafíaram toda aquella noi- 
te em feitas, folias, e outros pafla tempos de 
alegria, fem quererem repoufar. António da 
Silva deixou-íe eítar fobre o remo , e tan- 
to que o Sol fe poz , fefoi chegando á vif- 
ta da Armada, de que logo foi viílo. E co- 
mo o dia fe hia efeurecendo, não divifáram 
os Turcos mais que Juima quantidade de 
navios, fem fe determinarem em o número, 
nem no porte. António da Silva , tanto que 
de todo efeureceo , mandou deíparar toda 
a artilheria da Armada muitas vezes, aílira 

pe- 



Dec. V. Liv. V. Cap. IV. 441 

pêra animar aos da fortaleza , como pêra 
roctter terror , eefpanto nos Turcos. Depois 
de os noíTos darem fuás falvas, ficaram fo- 
bre o remo , mandando fazer toda a noite 
muitos fuzis, e accender pela Armada mui- 
tos faroes. E como a noite era efcura , pa- 
recia que ornar íè desfazia em fogo; e ain- 
da pêra mór efpanto , fuccedeo na meíma 
conjunção hum Eclipfe da Lua , que fez pa- 
recer aquellas carrancas mais medonhas. E 
como o Baxá de feu natural era fraco , e me- 
drofo , ouvindo aquelle terror da artilheria , 
vendo a multidão dos fuzis , e fobre tudo 
o Eclipfe, que tomou, e notou por muito 
ruim agouro , tendo por certo , .que aquel- 
]a feria a Armada do Vifo-Rey , fez final 
a toda a Armada, que felevaíTe; o que fez* 
com tanta preíla , que deixaram em terra to- 
dos os doentes , e feridos , que feriam per- 
to de quatrocentos , de que viveram muitos, 
que ficaram a foldo d 5 E!Rey de Cambaya y 
que tanto que foube aquella deshumanidade 
do Baxá , os mandou bufcar a todos , e os 
curou com muito grande cuidado. 

E porque não fique hum louvor , que 
hum deites diíle dos Portuguezes , o conta- 
remos , por fer dito de boca eítranha , e de 
inimigo , o que contava muitas vezes Cara- 
cen. Eftando EIRey de Cambaya hum dia 
praticando com eítes Turcos , e perguntan- 
do- 



44* ÁSIA de Diogo de Couto 

do-lhes pelos íucceflbs da guerra , e fe os 
Portuguezes eram tão esforçados como fe 
dizia , refpondeo hum delles : Sabei , Se- 
nhor , que elles fó são dignos de trazerem 
barbas no rofto. 

E tornando ao Baxá , affaílado da terra , 
deo á vela , tirando cada galé três bombar- 
dadas > e com o terrenho foram paliando a 
ponta de Dio , e cofteando a cofta da outra 
banda. E parece que aquellas falvas , que 
o Baxá mandou dar com aartiiheria, devia 
de fer por entreter o Vifo Rey , que cui- 
dava queeílava alli , pêra com iíTo Ihemof- 
trar o alvoroço com que o efperava , pêra 
ter tempo de fe fazer á vela , e foi fegu in- 
do fua derrota , com que logo continuare- 
• mos. 

António da Silva deixou-fe eílar até o 
quarto cPalva , mandando vigiar as galés pe- 
lo Siqueira Malavar , que as vio fazer á ve- 
la. Coge Çofar tanto que ou vio as bombar- 
dadas no mar , e vio os fogos , folias , e 
feitas , que fe faziam por toda a fortaleza , 
parecendo-lhe que era a Armada do Vifo- 
Rey chegada, logo deo fogo a todo o ar- 
raial , e paffou-fe á outra banda com mui- 
ta preífa. António da Silva , tanto que co- 
meçou a efclarecer a manha , tomando o re- 
mo , entrou em Dio com toda a fua Arma- 
da formofamente embandeirada , falvando a 

for- 



Dec. V. Liv. V. Cap. IV. 443 

fortaleza com toda a artilheria , e com mui* 
tos inftmmentos , aílím de guerra , como de 
paz , e alegria. António da Silveira mandou 
embandeirar os baluartes , e defparar algu- 
mas peças de artilheria; e para receber An- 
tónio da Silva com maior apparato , man- 
dou abrir a porta da fortaleza , que eítava 
tapada de pedra , e cal , e nella o efperou 
com todos os que haviam sãos. 

António da Silva pojou no cais com to- 
da a fua Armada , e logo defembarcou com 
os Capitães , Fidalgos , e toda a mais gen- 
te da Armada, poílos em armas , mui galan- 
tes , e cuílofos. No cais o efperou o Capi- 
tão , onde fe abraçaram todos com grandes 
moítras de alegria , levando o Capitão An- 
tónio da Silva, e aos mais dos Fidalgos pê- 
ra fua cafa , e aos outros mandou apofentar 
pela fortaleza. Aquclle próprio dia efcrevê- 
ram ambos os Capitães ao Vifo-Rey tudo 
o que paliava , defpedindo logo o Siqueira 
Maiavar, como teílemunha de viíla , pêra o 
informar do que vira. 

Partido o Siqueira , ao outro dia foram 
os Capitães ver as eftancias dos inimigos , 
mandando recolher logo dentro toda a pe- 
dra , madeira , e cal , que acharam , e aos 
moradores da Cidade mandaram recado , que 
fe nãoboliíTem, eeftiveíTem feguros em fuás 
cafas, porque nenhum mal receberiam. Fi- 
ca* 



'444 ÁSIA de Diogo de Couto 

cáram eftes Capitães ambos correndo em a- 
mizade alguns dias , mas lygo fe perturba- 
ram , começando a ter diíFerenças fobre pon- 
tos bem pouco fubítanciaes ; porque Antó- 
nio da Silva dizia , que os Turcos tanto que 
viram a fua Armada , Jogo fe embarcaram , e 
fe foram fugindo. António da Silveira , que 
não havia tal, porque havia finco dias que 
eftavam embarcados pêra fe irem , desbarata- 
dos de fuás mãos , o que atiflavam homens 
amigos de defa venças. 

E deixando cftas coufas , que não para- 
ram mais que em arrufos , primeiro que tra- 
temos da jornada do Vifo-Rev , nos pare- 
ceo bem darmos razão da do Baxá , que hia 
feguindo fua derrota. Depois de coftear a 
coíla de Por , e Mangalor , atraveílbu da pon- 
ta de Jaquete , e aos vinte e fere do mez de 
Novembro foi tomar Acer , hum lugar d*El- 
Rey de Dofar na cofta de Arábia em dez- 
efeis gráos e meio do Norte , pouco mais 
de cem léguas antes de Adem. He efte lu- 
gar fecco , e efteril ; são os moradores daqui 
Ethiophagis, emantem-fe de peixe fecco ao 
Sol. O Rey de Dofar , tanto que foube ef- 
tar alli a Armada furta , mandou prender 
quarenta Portuguezes , que alli eftavam fa- 
zendo fuás mercadorias , e os mandou de 
prefente ao Baxá , com outros refrefeos da 
terra, por fe fanear com elle , ao menos 

por- 



Dec. V. Liv. V. Cap. IV. 44? 

porque lhe não fizefle mal, O Baxá os eíli- 
mou muito , e os mandou aíFerrolhar pelas 
galés. Aqui fe deteve três dias , em que lan- 
çou fama 5 que deixava a índia tomada , c 
os Portuguezes todos mortos ; e depois de 
tomar agua , e lenha , fe fez á vela , e aos 
dezefeis de Dezembro foi íurgir no porto de 
Adem, onde fe deixou eílar devagar, pro- 
vendo em muitas coufas , pondo alli por Ba- 
xá a Mir Moítafá , torto de hum olho , com 
quinhentos Turcos , guarnecendo a fortale- 
za de cem peças de artilheria, e de muitas 
munições , e mantimentos. 

Aqui mandou o Baxá cortar a cabeça a 
Cafarcan , porque não diffeíTe ao Grão Tur- 
co fuás covardias , e velhacarias. E quem ler 
efla jornada no roteiro daquelle Italiano , que 
já diflemos no Cap. VII. do Liv. II. , (que 
anda impreíTo , e junto ás varias viagens , 
que recopilou Mifler Baptifta Ramulio) acha- 
rá que diz , quç mandara neíle porto de 
Adem o Baxá chamar hum Turco , que já 
fora Chriftão , arrenegado , homem de gran- 
de conta 5 e Patrão de huma galé , e lhe man- 
dara cortar a cabeça , do que fe murmura- 
ra em toda a Armada , por fe recear de el- 
le o mexiricar com o Grão Turco. E diz 
mais , que efte arrenegado eftivera já a fol- 
do d'ElRey de Adem , e depois fe achara 
em Dio no tempo, emqueElRey deCam- 

baya 



44^ ÁSIA de Diogo de Couto 

baya foi morto pelos Portuguezes j e que a 
Rainha mulher do Rey morto períuadida 
delle , fe embarcara pêra Meca com grande 
quantidade de ouro , e que por força a le- 
vara ao Cairo , e dalli a Conítantinopla , e 
que o Turco pelo ver prático nas coufas de 
Dio , o mandara por Patrão de huma galé 
neíla jornada pêra confelheiro do Baxá. E 
como o Veneziano , que fez aquelle roteiro, 
lhe não hia confa alguma em averiguar a- 
quellas coufas , não fazia mais , que efcre- 
ver o feu roteiro , dia por dia , e as coufas 
que via , e ouvia. E pelo que temos conta- 
do da jornada de Cafarcan , e da Rainha , 
e de como o Turco o tornou a mandar com 
o Baxá , fica bem claro ler elle o que man- 
dou aqui matar. 

Oito dias eftcve a Armada em Adem , e 
deixando alli cinco fuílas pêra ferviço da for- 
taleza , deo o Baxá á vela , e embocando as 
portas do Eílreito , foi correndo a terra fir- 
me ; e entrando por antre cila , e a Ilha de 
Camarão, furgio da outra banda delia, em 
hum lugar chamado Cubit Sarif. Aqui man- 
dou o Baxá defembarcar algumas peças de 
artilheria de campo , e dous mil homens , e 
foi em peflba contra Coja Amede , Rey de 
Zebit , porque da outra vez não fora a feu 
chamado. E fendo a meio caminho , tendo 
avifo os de Zebit de fua ida , defampará- 

ram 



Dec. V. Liv. V- Cap. IV. 447 

ram o feu Rey, e a fua Cidade, e os mais 
delles fe pa (Taram ao Baxá. EIRey vendo- 
fe defamparado dos feus , tomou por melhor 
remédio (que lhe foi bem ruim) ir-fe apre- 
fentar ao Baxá , cuidando que achaííe neUe 
o que não tinha , que era alguma piedade. 
E aflim o foi efperar ao caminho , com hu- 
ma touca atada ao pefcoço , em final de cul- 
pado , e efcravo , e lançado a feus pés lhe 
3edio perdão , e mifericordia ; mas como el- 
^e não tinha alguma, lhe mandou logo alli 
cortar a cabeça. E chegando a Zebit , achou 
a Cidade defpejada , e mandou logo pregoar 
pelas aldeias , ieguro geral a todos , e que 
fbíTem receber foldo , que lho pagaria. Aif- 
to acudiram duzentos Abexins , que eram da 
guarda do Rey morto ; e chegados ao Ba- 
xá , logo alli os mandou fazer em pedaços 
pelos Janizaros. E deixando alli Moftafá Na- 
xar por Baxá , com quinhentos homens, fe 
tornou pêra a Armada. Chegado á praia de 
Cobit Sarif , mandou tirar nella todos os 
Chriílãos Portuguezcs , e da terra, que eram 
mais de cem peíToas , e a todos mandou cor- 
tar as cabeças , narizes , e orelhas , o que 
tudo fez falgar , e mandou de prefente ao 
Grão Turco diante pelo Cacaya , porque cui- 
daífem que deixava feitas grandes cruezas 
nos Portuguezes. Efla Cidade de Zebit he 
arrezoada 5 e todos feus Termos á roda sãp 

fer- 



44§ ÁSIA de Diogo de Couto 

fertiliffimos , e frefquillimos , de muitos , e 
bons jardins , e hortas , por caufa das mui- 
tas fontes de agua excellentiíTima , que por 
alii ha. E em toda efía parte de Arábia Fé- 
lix não ha coufa mais frefca , que eíta Ci- 
dade , e ade Sanáa , trinta íeguas ao fer- 
tão , de quem em outro lugar faltaremos , 
em que ha todas as frutas da Europa. O que 
mais paíFou a Armada do Turco não nos 
convém , e por iíTo a deixaremos. 

CAPITULO V. 

Do que fez o Vifo-Rey , tanto que lhe de- 
ram 77 ovas da fugida d s Turccs : e de 
como Marfim Ajfonfo de Soufa fe embar- 
cou pêra o Reyno : e do que fuccedeo na 
jornada a Nuno da Cunha , e faleceo no 
caminho : e de como LIRey o mandava 
levar das Ilhas prezo em ferros. 

PArtido Francifco de Siqueira o Mala- 
var pêra Goa , que levava as novas ao 
Vifo-Rey D.Garcia de Noronha , de como 
as galés eram recolhidas , em poucos dias 
chegou á barra de Goa , onde já. o achou 
com toda a Armada preftes , efperando re- 
cado certo de António da Silva. E indo de- 
mandar o galeão , em que o Vifo-Rey eftava y 
lhe deo as cartas que levava , e as novas do 
que paflava na fortaleza de Dio j era ifto 

no 



Dec. V. Liv. V. Cap. V. 449 

no quarto d'alva. O Vifo-Rey com aquelfe 
alvoroço mandou , que fe déffe rebate por 
toda a Armada , e logo dagavia do íeu ga- 
leão fe tocou hum clarão , que claramente 
dizia ponte de prata. E correndo logo as no- 
vas pela Armada , ficaram todos mui ma- 
knconizados , et rifles, porque defejavam de 
provar a mão com os Rumes , pêra o que 
eftavam tão alvoroçados , que fe desfaziam , 
e não fabiam qual havia de fer a hora , em 
que o Vifo-Rey os havia de ir bufcar. E 
fabendo agora que eram idos , começou a 
haver grandes pragas , e murmurações por 
toda a Armada contra o Vifo-Rey , porque 
os andava entretendo , e enganando , com 
lhes dizer cada dia que logo hia , e que el- 
le os metteria em meio dos inimigos ; e que 
lè elle não viera do Reyno , que Nuno da 
Cunha os houvera de ir bufcar , e que ne- 
nhuma galé houvera de tornar a Suez, com 
outras couías , que a foltura dos foldados dá 
índia lhes fazia dizer. Mas o bom velho, 
qual outro Quinto Fábio Máximo ., com fuás 
dilações, e artes fez alevantar o inimigo. 

Martim Affonfo de Soufa.-íè foi logo 
ao Vifo-Rey , e lhe pedio licença pêra ir 
com algumas galés, e navios de remo apôs 
os inimigos , que como hiam fugindo , eP» 
tava certo irem defordenados , e que efpe- 
rava em Deos fer de muito eífeito , e fazer 
Couto.Tom.ILP.I. Ff nel- 



4$o ÁSIA de Diogo de Couto 

nelles íiuma grande preza. O Vifo-Rey Jha 
uao concedeo, dizendo-lhe, que eraelcufa- 
do , porque quando elle chegaffe a Dio , já os 
Rumes haviam de fer na cofia da Arábia ? 
e que não faria mais que perder tempo. Ven- 
do Martim Affonfo de Soufa o que o Vi- 
íb-Rey lhe negava , lhe pedio licença pêra 
fe ir pêra oReyno, que lhe elle logo deo , 
por ficar aquelle lugar de Capitão mór do 
mar vaíio , pêra o dar a feu filho D. Ál- 
varo ; e defpedido do Viíb-Rey , fe embar- 
cou pêra Cochim em alguns navios ligeiros , 
e chegou em poucos dias , achando as náos 
de viagem de verga d'alto , e fe embarcou 
em huma delias cm companhia de Nuno da 
Cunha, com quem continuaremos agora. 

Partido de Cochim , foi feguindo Tua def- 
rota com bom tempo, e depois de ter do- 
brado o Cabo de Boa Eíperança , adoeceo 
de humas febres , e camarás , de que veio 
a falecer. Foi fua morte muito fentida de to- 
dos ; e abrindo- fe feu teftamento pêra verem 
o que mandava fazer de li , achou-fe nelle 
huma verba , em que mandava , que morren- 
do no mar , foífe feu corpo lançado a elle 
com algumas camarás de falcão , que man- 
dava fe pagafiem a EIRey , porque pela ho- 
ra em que eftava , que de nenhuma outra 
coufa lhe era em encargo, nem fatisfação, 
em todo o tempo que governou a índia , 

dei* 



Dec, V. Lxv* V. Cap. V. 45-1 

deixando declarado por feu teftamenteiro, no 
mar a João de Paiva Teu Veador , que era 
Capitão da fua náo , Cavalleiro honrado , e 
de grande fua obrigação ; e hum Vicente 
Paes (de que já falíamos no Cap. VIII. do 
I. Liv. , que hia na mefma náo , e era pa- 
gem de Nuno da Cunha) nos diííe > quefe 
achara á cabeceira da fua catna , quando fa- 
leceo , e que eftando em paííamento , fizera 
hum termo, que todos cuidaram fer o der- 
radeiro ; e tornando a abrir os olhos, repe- 
tira hum pouco entoado aquellas palavras 
do Romano: Ingrata pátria , ojjamea non 
pojfídebis , que tão efcandalizado hia do ruim 
galardão , que lhe deram de dez annos de 
ferviço de Governador da índia , e de fazer 
nella três fortalezas , Chalé , Baçaim , e Dio , 
e iíto fem elle ainda faber ; que tinha che- 
gado a coula a tanto , (e pela ventura , que 
foífe a caufa a inveja , ) que o mandavam ef- 
perar nas Ilhas Terceiras , com hum grilhão 
muito grande , pêra com elle o defembarca- 
rem pêra o Csítello de Lisboa , e dalli o 
I paflarem pêra a porta deManfos em Santa- 
rém , que EIRey tinha mandado preparar 
; pêra elle , que aquelles eram os triunfos , com 
que efperavam de o receber por tantas vi- 
torias , quantas alcançou em lodo o Orien- 
1 te. E aílim foi ; porque chegando a fua náo 
' ás Ilhas Terceiras P achou alli António Cor-» 

Ff ii rea 



4ÇZ ÁSIA de Diogo de CouTa 

rea de Barem , que andava por Capitão mor 
de huma Armada , efperando por elle , e 
entrando na náo pêra o prender , fabendo 
fer morto , lançou os grilhões , que pêra elle 
levava , no feu João de Paiva , e a todos os 
mais criados também prendeo , e repartio 
pelas náos. E chegando a Portugal , foram 
defembarcados , e levados ao limoeiro de 
Lisboa , onde eíliveram alguns mezes- A 
iílo acudiram os filhos , e parentes de Nuno 
da Cunha , e foram fazer luas queixas a El- 
Rey , levando-lhe a moftrar o teftamento , 
em que vio a claufuladelle , em que decla- 
rava , que lhe pagaflem as camarás de fal- 
cão com que o lançaram ao mar , porque 
de outra coufa lhe não era em obrigação. E 
como eraRey muito Chriftão, e temente a 
Deos, eque aquellas coufas tinha mandado 
fazer por algumas muito ruins informações , 
que alguns lhe deram delle , ( e pela ventu- 
ra por lhe tomarem o lugar,) mandou que 
fe fbltaffem todos os feus. Eíle he o officio 
da inveja , fazer da virtude peccado , e fin- 
gir vícios, onde os não ha , bufeando fem- 
pre o peior pêra reprehender, e vituperar, 
efeondendo o bem com huma diílimulaçao 
Farifaica , fó por fe fingirem melhores aos 
Reys , fundados em fuás puras pertenções. 
E aílim ficão eíles fendo como Cratero , hum 
daquelles dous amigos de Alexandre , que 

o 



Deg. V. Liv. V. Ca?. V. 4fTJ 

o não amava fenão como a Rey , fó pelas 
mercês que delle efperava ; mas o outro , que 
era Epheftion , não o amava fenão como Ale- 
xandre, porque he muito differente o amor 
da peflToa ao do officio ; e afllm efte lhe fal- 
lava verdades fem interefle, como amigo, e 
não o liíbngeava por Rey como Cratero. E 
pela ventura , que por faltarem Epheftiôes 
aos Reys , vem a faltar os galardões aos ho- 
mens , como a efte Governador, cujos fei- 
tos não luziram em feus filhos , porque he 
muito antigo , pagarem-fe grandes mereci- 
mentos com grandes ingratidões. Foi Nuno 
da Cunha caiado duas vezes : a primeira 
com a filha de Fernão Nunes da Silveira , 
fenhor de Terena , que era neto de Diogo 
de Azambuja , de que houve huma filha , 
que foi Condeça de Portalegre: a fegunda 
vez cafou com humá irmã do Conde de Sor- 
telha D. Luiz da Silveira , Guarda mor d'El- 
Rey , e irmão defte António da Silveira , 
que era Capitão da fortaleza de Dio , quan- 
do houve efte primeiro cerco , de quem hou- 
ve todos os mais filhos legítimos que teve* 



CA- 



4^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VI. 

Das coufas , que nejle tempo Juccedêram 
em Ceilão : e de como o madune t rnou 
a fazer guerra a feu irmão Rey da Co- 
ta : e da Armada que o Vifo-Rey D. Gar- 
cia de Noronha lhe mandou de fuccorro , 
e elle par tio pêra Dio. 

HE neceflario pêra inflarmos bem ahiP 
toria , tocarmos hum pouco Ceilão de 
paíTagem. Andava o Madune traçando em 
ília fantaíia novos modos pêra deftruir o ir- 
mão de todo , o que quiz fazer por guer- 
ra pêra o acabar deconíumir. E aflim , tan- 
to que Martim Affonfo deSoufa fe foi da- 
quella Ilha , tornou a folicitar o Çamorim 
pêra outra Armada , que lhe elle negociou , 
encarregando outra vez aquella jornada a Pa- 
chi Marca. EIRey da Cota foi logo avi- 
fado daquelles apercebimentos , e delpedio 
logo recado ao Govern3dor Nuno da Cu- 
nha , pedindo-lhe o ajudatTe, e favoreccííe, 
pois era vaffallo d 9 EIRey de Portugal , por- 
que eítava muito arrifeado a perder aquelle 
Reyno. Eíle recado deram ao Governador 
Nuno da Cunha em Junho paflado , pelo que 
logo defpedio Patamares (que são correios) 
por terra a S. Thomé , aonde vivia Miguel 
Ferreira 5 Cavalleiro muito honrado , e que 

fa- 



Dec. V. Liv. V. Cap. VI. 4<T? 

fabía das coufas de Ceilão melhor , que to- 
dos os que então havia na índia ; pedindo- 
lhe por cartas, que ajuntaíTe toda a gente, 
e navios que pudeííe , e que fofle foccorrer 
aquelle Rey , por ficar de lá mais á mão; 
e que todas as defpezas que fizefle , elle as 
pagaria muito bem. E que quando li não 
íiouvefíe gente , e navios pêra aquella jorna- 
da , que tanto que o verão entraíle , ie folie 
pêra Goa, que elle o aviaria. 

Eftas cartas foram dadas a Miguel Fer- 
reira , que armando alguns navios , tanto que 
o verão entrou , partio pêra Goa , porque em 
S. Thomé não havia cabedal pêra aquella 
jornada. E dando-fe preíla , chegou á Cida- 
de de Goa o dia que o Vifo-Rey teve as 
novas da fugida das galés; porque porto que 
hia com tenção de em Cochinv fazer mais 
navios , e gente , em chegando aquella Ci- 
dade , que achou novas da Armada do Tur- 
co eftar fobre Dio , lhe pareceo mais necefc 
fario acudir lá com aquelles navios que le- 
vava, que não ir a Ceilão, porque a todo 
tempo fe podia fazer aquelle negocio, 

O Vifo-Rej recebeo muito bem Miguel 
Ferreira , porque já delle tinha informação ; 
e vendo que era neceífario acudir a Dio, e 
que era forçado foccorrer também a Ceilão , 
€ eílava pêra fe partir ao outro dia, poz a- 
quellas coufas em confelho , e aíTentou-fe , 

que 



45*6 ÁSIA de Diogo de Couto 

que era muito jufto, e neceflario foccorrer 
áquelie Rey , porque fe não viefle a perder 
o commercio daquella Ilha ; c que fe dei- 
fern a Miguel Ferreira quatrocentos homens , 
e vafilhas pêra elles. Concluído ido , por- 
que Miguel Ferreira não podia partir pêra 
Ceilão, lenao em fim de Janeiro, o deixou 
em Goa negociando , paflando-lhe todas as 
Provisões que lhe pedio. 

Feito eííe negocio , fe fez o Vifo-Rcy 
á vela com toda a Armada , que era de vin- 
te e dous navios groiTòs , nove galés ., dez 
galeotas latinas , e outros muitos navios de 
remo , a fora fincoenta , que tinha mandado 
diante. Os Capitães que foram neíta jorna- 
da 5 são os feguintes. 

O Vifo-Rey no galeão S. Diniz , Dom 
Francifco de Lima no galeão S.João, Dom 
João Deça em S. Barthoíomeu , Balthazar da 
Silva no Camorim pequeno , D. João Lobo 
em S. Bernardo , D. Jorge Telio em Sant- 
iago ? Pêro de Taíde Inferno em S. Boa- 
ventura , António de Lemos nos Reys Ma- 
gos v Vafco da Cunha em outro galeão , 
Francifco Pereira de Berredo na náo Cifne , 
Gafpar Pereira em outra náo , Ruy Louren- 
ço de Távora na náo Santa Clara , Luiz Fal- 
cão na Garça , D. Garcia de Caílro na náo 
Fieis de Deos, D. Chriftpvão da Gama na 
náo Santo António 5 D. Paio de Noronha 

no 



Dec. V. Liv. V. Gap. VI. 457 

no galeão Bufara , D. Manoel de Menezes 
na náo S. Barthoiomeu , Chnftovão de Mel- 
Jo, Francifco de Bairros, Manoel de Mel* 
lo, Diogo de Soufa em çaravellas , D. Ál- 
varo filho do Vifo-Rey , João de Mendo- 
ça , D.João de Caltro , Diogo Lopes de Sou- 
fa , Manoel de Soufa , Fernão de Lima , Pê- 
ro de Lemos, D. João Manoel Alabaítro, 
e João de Soufa em galés. Os Capitães das 
galeotas latinas eram Bernaldim de Soufa a 
Diabo , D.João Mafcarenhas , Francifco Pe- 
reira , D. Triftão de Soto- Maior , D. Fran- 
cifco de Menezes , Martim Corrêa da Sil- 
va , D. Diogo de Almeida , filho do Con- 
tador mór, ( a que cá na índia puzeram o 
íobre alcunha de Alfenim , por fer muito af- 
fidalgado , e muito brando , ) Francifco de 
Sá de Menezes o dos Ocolos , Fernão de 
Soufa de Távora , e D. António de Noro- 
nha o Catarraz. Os Capitães de furtas, e bar- 
gantis , Francifco de Noronha , D. Diogo 
de Vafconcellos , Álvaro de Mendoça , Trif- 
tão de Taíde , Martim Vaz Pacheco , Duar- 
te Pereira , Fernão Rodrigues , Gafpar de 
Soufa , Fernão de Caílro , João Zuzarte Ti- 
ção , Luiz Xira Lobo , D. Pedro de Mene- 
zes , Francifco Freire , Jorge de Mello Soa- 
res , Jorge de Vafconcellos , João de Sepúl- 
veda , Manoel Rodrigues Coutinho , Leo- 
nel ds Lima , Francifco de Ilher , Gafpar 

Vaz, 



4?8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Vaz , Triftão Fogaça , Gafpar Rodrigues , 
Simão da Coita , Baítião de Faria , Miguei 
Vaz , Francifco Alvares , Filippe Rodrigues ; 
Jacome Triftão , e outros Fidalgos , e Ca- 
valleiros , a que não achámos os nomes. Da- 
da á vela com toda eíla Armada , foi cor- 
rendo a coita com terrenhos , e virações , e 
tanto avante como Dabul lhe deo huma tor- 
menta muito grande , a que chamam a Va- 
ra de Choromandel , com que toda a Ar- 
mada eíleve perdida, correndo os navios pe- 
quenos por onde melhor puderam , acolhen- 
do-fe ás enceadas , e rios que puderam al- 
cançar. Os navios groíTos , por não poderem 
correr, foi-lhes forçado furgirem. D. Álva- 
ro de Noronha na galé baftarda , que era 
velha , abrio-fe-lhe toda , e com muito tra- 
balho foi demandar a barra de Dabul , e en- 
trando por ella , achando os mares mui fo- 
berbos , encapelláram fobre ella , e a encof- 
táram fobre a coroa de arêa do banco , onde 
encalhou, ficando D. Álvaro , e os mais pe- 
gados ás poftiças ; e fempre fe perderam to- 
dos, fe D. Chriftovão da Gama, Capitão da 
náo Santo António , que eítava furto na bo- 
ca da barra , lhe não mandara acudir com 
o feu batel , contra vontade dos Officiaes , 
c por força, que os trouxe todos pêra afua 
Iiáo. E ao me imo tempo , indo João de Sou- 
fa Rates , Capitão da galé efpinheiro , já 

ala- 



Dec. V. Liv. V. Ca?- VI. 459 

alagado de todo , em prepaífando pelo men- 
ino D. Chriftovão , vendo elie o perigo em 
que agaléhia, mandou-lhe com muita pref- 
fa lançar alguns viradores groíTos , que per* 
mittio Deos que os da galé afferraífem , e 
dando-lhes volta ao mafto , atrepáram-íè por 
t elles á náo , onde fe baldeou toda a gente , 
ainda que com a preíTa fe perderam alguns 
homens , que cahíram ao mar. D. Chrifto- 
vão correonefte negocio como Fidalgo mui- 
to pontual, grande Chriftão , e muito ani- 
moíb , porque citando também em trabalho , 
acudio com tanta diligencia aos alheios , que 
por fua induftria falvou a gente deftas duas 
galas; e a efta de João de Soufa , porque fe 
não perdeíTe a artilheria , a teve fempre atra- 
cada á náo com muitos viradores , até que 
a tormenta ceifou, fuítentando-a com muito 
nico , e trabalho feu ; e aífím atracada a le- 
vou até Chaul , aonde fe concertou. A mais 
Armada eíleve perdida. D. Francifco de Li- 
ma no galeão S. João , perdeo o batel. O 
Vifo-Rey alijou todas as coufas de lima ao 
mar , e o mefmo fizeram todos os mais ga- 
leões , e náos. 

Pairada a tormenta , que durou vinte e 
quatro horas , foram-fe todos ajuntar com 
o Vifo-Rey aChaui, aonde tanto que che- 
gou , mandou logo tirar a artilheria da ga- 
lé de D. Álvaro , que toda fe falvou. O Vi* 



460 ÁSIA de Diogo de Couto 

fo-Rey deteve- fe pouco , e paliou a Baçaim , 
onde deixou Ruy Lourenço de Távora por 
Capitão , e a ília náo deo a D. Álvaro de 
Noronha. Dalli atraveflbu a Dio , onde foi 
muito bem recebido de António da Silveira, 
a quem elle fez muitas honras , e a todos os 
mais que com elle fe acharam no cerco. To- p 
dos ficaram admirados do eítado , em que 
aquella fortaleza eftava , que parecia náo des- 
troçada em tormenta , fem caftellos , nem 
obras mortas. E certo, que foi efpectaculo 
muito pêra efpantar , ver aquella deftruiçao , 
e a pouca , e maltratada gente , que defen- 
deo aquellas ruinas a tamanhos , e tão po- 
derofos exércitos , e tantas , e tão medonhas 
bombardas arruinadoras de tudo. 

Por onde fe vê bem , quão grande abu- 
são he cuidarem alguns , que eíta conquifta 
do Oriente foi com negros defpidos ,'e nus , 
com páos toftados , e arcos fracos , e leves , 
como os das índias Occidentaes , fem ordem 
de milícia alguma , ou com gentes brutas, 
e fem governo ; porque cá não contenderam 
jos Portuguezes , fenão com Imperadores po- 
tentiffimos , como foram os Soltões do Egy- 
pto , e com Turcos ferozes , que nunca fo- 
ram domados dos Imperadores da Europa, 
que não fe podem jadlar , que fuás Arma-» 
das alcançaílem nunca neftas partes vitorias 
dos noífos , como tem alcançadas neflas de 

lá 



Dec. V. Liv. V. Ca?. VI. 461 

lá de potentiífímas Armadas dos Reys , e Se- 
nhores Chriííaos. Não contendem os Portu- 
guezes com gentes defpidas , fracas , e fem 
ordem , mas com fortiílimas Nações , e mui 
exercitadas na milicia , politicas no viver y 
como são , Perfas , Coraçones , Mogores , 
Decanis , e Abexins , não defpidos , mas ar- 
mados de armas brancas , e em formoíbs ca- 
vallos cubertados ; não com páos toítedos , 
nem com arcos fracos , mas com Bafílifcos , 
Canhões , Leões horrendos , Quartáos , e 
Águias reaes , arcubuzaria melhor , e mais 
bem guarnecida de toda a da Europa. Em 
fim , contendem os Portuguezes com tão fe- 
ras y e indómitas Nações , que Trajano , Se- 
miramis , e Alexandre não acabaram de fu- 
jeitar tanto , como elles hoje o tem feito , 
fazendo paíTar por baixo do jugo Portuguez 
tantos Reys, e Senhores , quantos nunca os 
Romanos puderam domar, de que não da- 
mos mais teftemunhas , que eíla nofla hifto- 
ria , onde íimplesmente , e fem ornamento , 
nem artificio de palavras, contamos as gran- 
des , e raras vitorias , que neífos partes al- 
cançaram ; como íè verá neíla de huma tão 
potente, e tão foberba Armada de Rumes , 
e Janizaros , dos mais efcolhidos do Impé- 
rio do Grão Turco. 



CA* 



462 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VIL 

Das coufas , em que o Vifo-Rey D. Garcia 
de Noronha proveo em Dio : e de como 
fe trataram pazes antre elle , e EIRey 
de Cambaya : e dos Capítulos , com que fe 
concluíram. 

DEfembarcado o Vifo-Rey D, Garcia de 
Noronha em Dio , a primeira 'coufa em 
que proveo foi na fortificação da fortaleza , 
mandandç com muita prefla renovalla mui 
bem, e acabar a cifterna , fazer-lhe feus ter- 
rados pêra recolherem as aguas do inverno. 
E porque a mor parte dos mercadores , e 
moradores da Cidade eítavam da outra ban- 
da , mandou lançar pregões , e paliar fegu- 
ros Reaes , pêra que todos livremente fetor- 
naffern pêra fuás cafas , e reformaííem , e po- 
voaílêm fua Cidade, concedendo-lhes gran- 
des liberdades , e privilégios , com o que to- 
dos fe tornaram. O Viío-Rey defejando de 
fc.ber osdeíer.hos, e pertenções d'ElRey de 
Cambaya , defpedio hum Êflrangciro , cha- 
mado Baftião de Borgonha, e com elle hum 
Gentio por nome Ralú , pêra irem viíitar de 
fua parte a Alucan , e a Coge Çofar, por 
quem lhes mandou dizer , cue lhes pezava 
muito de os não achar naquella Ilha pêra os 
xer de mais perto , e que em eílremo fen- 

tia 



Dec. V. Liv. V. Cap. VIL 463 

tia a ida do Baxá , que elle vinha buícar pê- 
ra o hofpedar como merecia , inftruindo a 
eftes dous de muitas coufas , que haviam de 
faber, e fazer, pêra verem fe eflavaElRey 
em bordo de pedir pazes. Eíles homens ie 
foram a Madabá , e vifitáram aquelles Ca- 
pitães , que os receberam bem , communi- 
cando a Çofar muitas coufas com o Borgo- 
nha , porque era muito feu amigo. E antre 
as práticas que teve com aquelles Capitães , 
lhes falláram por figuras em pazes , ao que 
elle fe fez de novas ; mas a modo de con- 
felho lhes. diíle , que o bom feria mandar 
EIRey vifitar o Vifo-Rey, por fer chega- 
do de novo á índia , fe eílava já enfadado 
da guerra , e que nefta viíitação poderia fer 
que fe abriíTe caminho de fallar em pazes. 
.. Eíles Capitães deram a EIRey conta da- 
quelle negocio , e pareceo-Uie que aquilla 
leria bom meio pêra fe faber a vontade do 
Vifo-Rey. Com ifto defpedio logo a Xacoez 
por Embaixador ( por ter muito conheci- 
mento do coftume dos Portuguezes ) a dar 
os parabéns da vinda ao Vifo-Rey, e com 
muitas fatisfações , e defeulpas da guerra paf- 
fada : dando-lhe inftrucção , pêra que fe o 
Vifo-Rey lhe déífe algumas moftras de fa* 
zer pazes , as acceitaííe , e que os aponta- 
mentos delias concluiriam Rumecan , eCaif- 
can > que logo também defpedio pêra Nova- 

na* 



464 ÁSIA de Diogo de Couto 

nager , por eftarem mais perto de Dio , a 
quem deo poderes pêra tudo o que fizeífem. 
Xacoez foi a Dio , e da outra banda da Vii- 
la dos Rumes fc deixou eílar até o Vifo-Rey 
o mandar bufcar , e o recebeo com grande 
inageftade ; e depois de o ouvir, lhe man- 
dou, que fe apofentaííe na Cidade , e fc ti- 
veífe negócios os trata fie com o Secretario, 
e com Gafpar Pires de Matos feuEfcrivão, 
de quem o Xacoez era muito amigo. E ajun- 
tando-fe. todos , veio o Embaixador a fallar 
cm pazes por remoques tantas vezes , fem 
lhos quererem entender , até que fe declarou. • 
E dando-lhe o Secretario orelhas , pergun- 
tando-lhe o modo que niífo EIRey mandava 
ter, lhe refpondeo , que dle não tinha po- 
deres pêra coufa alguma, mas que devia o 
Vifo-Rey mandar alguma peíToa de confian- 
ça a tratar aquelle negocio com os Rege- 
dores do Reyno , que eftavam em Novana- 
ger. O Vifo-Rey avifado diíto refpondeo, 
que elle não commettia pazes , que quem as 
quizeffe astrataífe, que ai li cftava prcíles pê- 
ra lhe refponder. De tudo ifto feram avifa- 
dos os Regedores, e logo defpedíram feus 
Enviados a. vifitarem o Vifo-Rey de fua 
parte, mandando-lhe dizer, que eJIes eram 
alli vmdos pêra o fervirem , e que não ti- 
jiham .licença cTElRey pera-paífarem a Dio , 
que lhe pediam. lhes mandaílé hum homem 

de 



Dec. V. Liv. V- Cap. VIL 46? 

de confiança > pêra com elle tratarem cou- 
fas de muita importância. E tomando pare- 
cer fobre ifto-, aífentou-fe , que fe Iheman- 
dafíe > que niflb não entrava opinião. Pelo 
que defpedio logo Francifco Mendes de Vaf- 
concellos ,■ e Manoel de Vafconcellos , e com 
elles o Secretario , e Gafpar Pires de Ma- 
tos 5 e pêra lingua Coge Percorli. Chegados 
todos aNovanager, praticaram com os Re- 
gedores fobre o negocio de pazes , dando- 
iè huns aos outros apontamentos do que per- 
tendiam,_que fe mandaram aílim aElRey, 
como ao Vifo-Rey ; e viílos pelos Capitães 
do Confclho de ambos , concluíram as pa- 
zes pela maneira feguinte. 

» Que EIRey de Cambava mandaria fa« 
» zer huma parede antre a Cidade, e a for- 
» taleza , que cortaíTe de mar a mar , de do- 
» ze palmos de largura , e que as portas que 
» tiveíTe , eílariam todo o dia abertas pêra os 
3> Portuguezes poderem ir , e vir á Cidadq , e 
>) que de noite fe fechariam , e os Portugue- 
» zes fe recolheriam todos á fortaleza. E que 
>) nas portas eítariam continuamente guardas , 
» aílim Portuguezes , como Mouros ; mas 
» que as chaves delias eílariam nas mãos dos 
» Porteiros d'ElRey de Cambaya. 

» Que todos os rendimentos , que ren- 
» deííem as Alfandegas , e todas as mais ren- 
» das da Ilha , fe lançariam em hum cofre , 
Couto. Tom. II. P.L Gg » de 



466 ÁSIA de Diogo de Couto 

» de que no cabo do anno , tiradas as defpe- 
)) zas , e ordinárias dos Ofiiciaes , haveria 
» EIRey de Portugal a terça parte ; e que 
»na Alfandega poria outros tantos Officiaes 
» Portuguezes , quantos EIRey de Cambaya 
» tivefle ; e que teria cada hum lua chave 
» do cofre. E que na Cidade poderia o Vi- 
» fo-Rey pôr hum Ouvidor , Meirinho , e 
» Tanadar , como EIRey de Cambaya tinha , 
» pcra adminiftrarem juftiça aos feus, fican- 
> do porém o fenhorio da Cidade izento a 
y> EIRey de Cambaya. E que havendo dif- 
» ferenças antre os Portuguezes , Mouros , e 
» Gentios , affim Civel , como Crime , o Ca- 
5) tual d'El-Rey feria obrigado a levar os 
)) Portuguezes ao Ouvidor pêra delles fazer 
» juftiça ; e que elle também mandaria os na- 
» turaes ao Cadí d'ElRey de Cambaya pe- 
» ra a fazer delles. 

» Que os cavallos , que vieffem da cofia 
» de Arábia } de Caxem , e dos portos do 
» Eítreito de Meca , feriam forros de direitos , 
» e que lhes dariam cartazes a fuás náos pe- 
;» ra poderem navegar r moftrando Certidões 
» de como defpacháram primeiro as fazen- 
y> das nas Alfandegas. » 

Concluídos eíles apontamentos , tiraram* 
fe delles dous inílrumentos , hum em Parfeo 
pêra EIRey de Cambaya , e outro em Por* 
tuguez pêra o Vifo-Rey , que lhe foram 

man- 



Dec. V- Liv. V. Cap. VIL 467 

mandados pêra jurarem as pazes , indo o 
Xacoez a vellas jurar pelo Vifo-Rey , o que 
elle fez com grande folctfmidade ; elogo as 
mandou apregoar pela Cidade com muitos 
inítrumentos de alegria. O mefmo fez El- 
Rey em Amadabá , prefente o Secretario 
João da Coita, Gafpar Pires de Matos , e 
Coge Percorli , que a iíío foram , apregoan- 
do-íe também por todo o Reyno com gran- 
de alvoroço de todos , por eítarem já que- 
brados 5 e avorrecidos da guerra. 

Eftas pazes foram murmuradas de al- 
guns , porque haviam que foram feitas em 
grande defcredito do Eítado , principalmen- 
te na parede que fe lhes confentio , com 
que Os noflbs ficaram encurralados na forta- 
leza , que depois foi occafiao do fegundo 
cerco , que íe lhe poz em tempo do Gover-* 
nador D.João deCaítro, de que trataremos 
na fexta Década. Os naturaes acudiram de 
todas as partes a povoar outra vez a Cida^ 
de de Dio , que fe começou a engrandecer ; 
e antre eítes também foram alguns dos que 
alli deixou o Baxá doentes , e feridos , em 
que entravam hum Janizaro Grego , Capitão 
de hum galeão ; e hum Aíbanez /Capitão 
de outro ; e hum Jacome de Meílina ; e ou-? 
iro Jacome Grego, grande fundidor de ar- 
tilheria. Eíles fe foram ao Vifo-Rey , e fe 
lhe lançaram aos pés , dizendo-ihe , que eram 
Gg ii de 



468 ÁSIA de Díogo de Couto 

de càfta de Chriftãos , e que foram feitos 
Mouros , e tomados ás mãos nos berços ; 
que lhe pediam os mandaíTe fazer Chriftãos , 
porque queriam ficar no ferviço d 5 ElRey de 
Portugal. O Vifo-Rey os agazalhou bem , 
e lhes fez honras , mandando-os catechi- 
zar, edar-lhes todo oneceíTario. E em hum 
dia aprazado pêra iíTo os fez Chriftãos a to- 
dos com grandes folemnidades , c feitas , 
fendo o Vifo-Rey Padrinho do Grego 5 a 
que poz nome Garcia de Noronha , que de- 
pois foi grande fervidor d'ElRey de Portu- 
gal , como em outros lugares diremos. Dos 
outros foram padrinhos António da Silvei- 
ra , D. Álvaro de Noronha , e outros Fi- 
dalgos , que os veftíram mui bem , e lhes de- 
ram depois dinheiro, e ficaram fempre feus 
chegados muito contentes , e fatisfeitos dos 
gazalhados , que acharam em os Portugue- 
ses. 

O Vifo-Rey tanto que jurou as pazes, 
defpedio Manoel Rodrigues Coutinho com 
três navios ligeiros pêra ir ás portas doEf- 
treito a tomar falia das galés , e tornar com 
o recado antes do inverno, porque fe receou 
que foííem demandar Ormuz , mandando 
outro navio ligeiro a efta fortaleza com car- 
tas a Martim Aífonfo' de Mello Zuzarte , 
pêra que eftiveíTe íbbre avifo ; e deitas jor- 
nadas adiante daremos razão P porque que- 

re- 



Dec. V. Li v. V. Ca p. VIL 469 

remos concluir aqui com as coufas do Vi- 
fo-Rey. Foi-fe dando grande prelTa ás obras 
da fortaleza , e da cifterna , em que fe fez 
muito , e o Vifo-Rey proveo osOfficios da 
Cidade , e da Alfandega , conforme aos Ca- 
pítulos das pazes , e poz outras coufas em 
ordem. 

E porque D. Pedro de Caftello-branco 
fora por mandado do Governador Nuno da 
Cunha defapoíTado da fortaleza de Ormuz > 
como diíTemos no Cap. VIII. do II. Liv. , 
quiz o Vilb-Rey entrar em feus negócios 
pêra dalli o defpedir pêra lá , mandando tra- 
zer fuás culpas , que foram viítas pelo Ou- 
vidor Geral , e Provedor mor, (que entáo 
não havia mais Letrados , por não fer ainda 
a malícia tanta , ) e foi por elles fentencea- 
do , que foííe acabar defervir o tempo, que 
lhe faltava de fua fortaleza. O Vifo-Rey o 
defpachou logo , dando-lhe huma Armada ; 
e andando-fe negociando , chegaram náos de 
Ormuz , por quem teve o Vifo-Rey novas 
da náo de João de Sepúlveda , que faltava 
de fua coníerva , de como ficava em Or- 
muz , o que elíe feílejou muito , porque a 
tinha por perdida. Aílim também vieram no- 
vas como Xeque Hamed , Guazil de Ormuz , 
era morto , que fendo convidado de Mar- 
tim AfFonfo de Mello pêra hum banquete , 
que dava emTorumbaque a João deSepul- 

ve- 



47® ÁSIA de Diogo de Couto 

veda, indo pêra lá no caminho lhe atiraram 
á béíla , e o mataram , e fempre fe fufpeitou 
que o mandara fazer o mefmo D. Pedro de 
Callcllo-branco , porque tinha pêra íi , que 
elle mandara delle capitulos a Nuno da Cu- 
nha , porque o fufpendêram da fua fortale- 
za. E como eíle Fidalgo era forre de con- 
dição , (e tão mal íofFrido , que dizem, que 
poucas vezes perdoou coufa que lhe fizeíTcm , 
de que fe não vingaífe por todos os meios 
que pudeífe , ) tiveram todos pêra fi , que 
a morte do Guazil procedera delle. E por- 
que eram chegados Procuradores de Xeque 
Rabeá, filho do morto, e de Rcxnocorra- 
dim , Guazil de Julfar , a requererem aquel- 
Je cargo , teve efte tantas intelligencias , e 
foube-fe tão bem negociar pelo modo com 
que fe negocea , e acaba tudo, que levou o 
cargo , tendo o Xeque Rabeá bem differen- 
les merecimentos ; porque em todo o tem- 
po , e em todo o eftado , onde íe encontra- 
ram interefíe , e merecimento , fempre efte 
valeo menos. Defpachado D. Pedro de Caf- 
tello-branco pêra Ormuz já em Março, ou 
^entrada de Abril , deo á vela , e foi íeguin- 
do fua viagem. 

E porque era tempo do Vifo-Rey fe re- 
colher , metteo de poífe da fortaleza de Dio 
Diogo Lopes de Soufa , que delia era pro- 
vido por ElRey. Feito iílo , e outros negó- 
cios, 



Dec. V. Liv. V. Cap. VII. e VIII. 471 

cios , embarcou-fe pêra Goa , onde logo pro- 
veo nas coufas de Malaca , e Maluco , man- 
dando muitos provimentos pêra aquellas for- 
talezas. E aííim defpachou Fernão de Mo- 
raes pêra Pegú 5 dando-lhe hum galeão mui- 
to formoíò com mercadorias , e fazendas 
d 7 E!Rey ; porque neíte tempo com haver 
menos rendimentos , tinha EIRey dinheiro 
pêra as defpezas de tamanhas Armadas , e 
pêra íèus tratos , e commercios , de que de- 
pois fe levam mão , não fei porque refpei- 
tos. 

CAPITULO VIII. 

Do que aconteceo a Miguel Ferreira na jor- 
nada de Ceilão : e de como tomou toda a 
Armada do Çamorim : e dos tratos que 
teve com o Madune até matar Pa chi Mar- 
ca : e do que aconteceo a Manoel de Vaf- 
concellos na viagem do EJlreito. 

Miguel Ferreira , que fe ficou em Goa 
negociando pêra o foccorro de Cei- 
lão , como diílemos no Cap. VI. do V. Li- 
vro , deo tanta prefía á Armada que havia 
de levar , que na entrada de Fevereiro fe fez 
á vela, efoi feguindo fua jornada com bom 
tempo até paíTar o Cabo de Çamorim , e 
foi correndo aquella cofta até os baixos , que 
paliou á outra banda. Em Manar foube que 
eílava Pachi Marca com toda fua Armada 

no 



472 ÁSIA de Diogo de Couto 

no rio de Putulão , e os Mouros delia com 
tranqueiras feitas em terra ; e que o Pachi 
Marca era ido com parte de fua gente pê- 
ra Ceilão em favor doMadune contra o ir- 
mão. Miguel Ferreira teve iílo por boa ven- 
tura , e aíTentou com feus Capitães de dar 
nos parós , que eram dezefeis ; e indo de- 
mandar aquelle rio , chegaram a elle no quar- 
to d*alva , e poílos em armas , o entraram , 
e acharam os parós todos encadeados com 
as poppas em terra , c tranqueiras feitas ao 
longo do mar com a artilheria poíla nellas. 
Miguel Ferreira remetteo com os navios , e 
os entrou Jogo íem achar refiítencia , e fal- 
tando em terra todos os noíTos com gran- 
des eftrondos , commettêram as tranqueiras , 
em que eftavam perto de dous mil homens. 
E como os tomaram de fobrefalto , quando 
quizeram acudir ás armas , já eram entrados 
dos noíTos com grandes damnos , e mortes 
de muitos ; e todavia os que logo não fo- 
ram cortados , acudindo á defensão , tive- 
ram com os noíTos huma travada batalha > 
c no fim delia com perda de muitos , larga- 
ram as tranqueiras , que ficaram com toda a 
artilheria em poder dos noíTos, de que tam- 
bém ficaram alguns mortos , e feridos , ain- 
da que poucos. Miguel Ferreira mandou em- 
barcar a artilheria , e tomando os parós á 
toa , foi demandar Columbo , onde defem- 

bar- 



Dec. V. Liv. V. Cap. VIII. 473 

barcou com toda ília gente pofta em armas , 
e aífim fe foi marchando pêra a Cidade da 
Cota» EIRey ofahio a receber, porque era 
grande feu amigo , e lhe deo os parabéns 
da vitoria , recolhendo-o pêra a Cidade , on- 
de o apofentou bem , e lhe deo conta de 
tudo o que era paíTado com o irmão , di- 
zendo-lhe, como até então o tivera de cer- 
co, e que tanto que tivera novas do desba- 
rato da Armada de Pachi Marca , fe reco- 
lhera com elle pêra Ceitavaca. Miguel Fer- 
reira aífentou com EIRey de irem bufcar o 
Madune a Ceitavaca , e não fe fahir de fo- 
bre aquella Cidade fem a tomarem , e def- 
truirem de todo ao Madune , porque lhe não 
déífe mais trabalho a elle, nemopprefsao ao 
Eftado da índia , era tantos foccorros como 
lhe tinha mandados. 

E ajuntando EIRey toda a gente que 
pode , começou a marchar pêra Ceitavaca, 
indo Miguel Ferreira na dianteira com qui- 
nhentos Portuguezes , repartidos em finco 
bandeiras , e entrando pelas terras do Ma- 
dune, começaram a fazer grandes damnos, 
e cruezas. Miguel Ferreira defpedio hum 
Modeliar com recado ao Madune , fazen- 
do-lhe a faber de fua chegada , e que lhe 
afíirmava , que fe não havia de fahir daquel- 
la Ilha , fem de todo o deixar deílruido , e 
íeguro, e quieto EIRey da Cota ; que lhe 

' pe- 



474 AS IA de Diogo de Couto 

pedia lhe mandaííe logo Pachi Marca , e to- 
dos os Malavares que comelle eftavam, fe- 
não que jurava pela Nazareth , (juramento, 
que ellefempre fazia,) que lhe havia de to- 
mar todo o Reyno , e perfeguillo até o ha- 
ver ás mãos , e levar fua cabeça ao Vifo- 
Rey da índia. Efte recado foi dado ao Ma- 
dune , que eftava aífombrado do poder com 
que o irmão hia contra elle , e dos damnos 
que hiam fazendo por feus Reynos ; e re- 
ípondeo com muita humildade, que bem fa- 
bia elle que não era licito aos Reys entre- 
garem os homens , que eftavam em feu po- 
der , que toda a outra coufa eftava preftes 
pêra fazer ; e que todas as amizades que feu 
irmão quizefle , partidos , e concertos , que 
todos lhe concederia. Com efte homem def- 
pedio outro feu , por quem mandou pedir 
a EIRey feu irmão , que cefíaflem os da- 
mnos que hia fazendo , e caftigos que hia 
dando por fuás terras j que todas as fatisfa- 
çoes que quizeífe , elle eftava preftes pêra lhas 
dar. EIRey da Cota como era bom homem , 
e tinha boas entranhas , compadecendo-fe 
da humildade do irmão, quizera logo retra- 
her-fe , mas Miguel Ferreira lho não con- 
fentio , antes mandou dizer ao Madune ou- 
tra vez, que fe determinaíTe , porque felhe 
não entregava Pachi Marca com os Mala- 
vares todos , que foubeífe que havia de ir 

até 



Dec. V. Liv.V. Cap. VIII. 47? 

até dentro de Ceitavaca em hufca dclle. Ven- 
do o Madune tamanho defengano , pafma- 
do da determinação de Miguel Ferreira , 
mandou-ihe dizer , que fe não boliffe don- 
de eftava , que elle o fatisfaria de maneira y 
que não ficaíTe correndo infâmia. E chaman- 
do Pachi Marca, e Cunhalé Marca feu ir- 
mão , lhes diíTe , corpo Miguel Ferreira aper- 
tava com elle, que íhos entrega (Te , que lhe 
parecia bem fazerem-fe huma noite fugi- 
dos 5 pêra elle ter razão de fe defculpar. E 
aífím lhes aconfelhou , que fe paíTaíTem pê- 
ra huma aldeia do fcrtão , aonde citariam 
efcondidos até Miguel Ferreira fe tornar , 
o que elles fizeram logo , levando comflgo 
perto de fetenta Mouros de mais de fua 
obrigação. 

E caminhando aquella noite por antre os 
matos , onde por ordem do Madune cita- 
vam embrenhados muitos Pachás , (que sao 
huma caíta de Chingalás crueliííimos , que tan- 
to que derribam hum inimigo , logo lhe cor- 
tam narizes , e beiços , ) e ao paflar , deram 
fobre elles ás frechadas , e hum , e hum os 
derribaram a todos , e cortando-lhes as ca- 
beças , as levaram a Miguel Ferreira , com 
que elle fe quietou. EIRey da Cota fez com 
o irmão pazes , e recolhidos á Cidade da 
Cota, mandou EIRey fazer huma pagaaòs 
foldados da Armada , e a Miguel Ferreira, 

e 



47^ ASlNA de Diogo de Couto 

e a todos os Capitães deo peças, e brincos 
de ouro, e pedraria, e empreitou trinta mil 
cruzados pêra as defpezas daquella Armada* 
Miguel Ferreira vendo tudo acabado , deí- 
pedio a Armada toda com os navios dos 
Malavares pêra Goa , eícrevcndo huma bre- 
ve carta ao Vifo-Rey , cuja fubftancia era : 

» Que elle fizera naqueJla jornada tudo 
* o que lhe mandara , que deixava Ceilão 
» todo de paz , e que Pachi Marca com to- 
» da lua geração era acabado, como lá fa- 
» beria dos Capitães da Armada ; e que alli 
» lhe mandava todos os feus navios de pre- 
» fente. » 

Efta Armada chegou a Goa em fim de 
Abril s e o Vifo-Rey fez muitas fedas áquel- 
]a vitoria , e muitas honras , e mercês aos 
Capitães. E aílim foi efte hum dos grandes 
feitos deita qualidade , que fe na índia fize- 
ram , com que o Malavar ficou tão quebran- 
tado , que mandou logo o Çamorim pedir 
pazes ao Vifo-Rey , que lhas concedeo , co- 
mo adiante diremos. 

Miguel Ferreira, depois de defpedir a Ar- 
mada pêra Goa , elle fe fez á vela pêra fe 
ir pêra S. Thomé , aonde tinha fua cafa, le- 
vando alguns navios daquella coda em com- 
panhia , e voltou por fora da Ilha , por não 
ler já tempo pêra ir por dentro ; e como era 
tarde, e o inverno vinha ameaçando , def- 

ear- 



Dec. V. Liv. V. Cap. VIII. 477 

carregaram as primeiras trovoadas , (que he 
hum tempo, que alli chamam o burro, que 
venta do Suducfte,) com que todos cftive- 
ram perdidos, e efpalhando-fe , e correndo 
por onde cada hum pode , foram tomar di£- 
ferentes portos, hunsPegu, outros Tanaça- 
rim, eporaquella cofta. Como Miguel Fer- 
reira levava bom Piloto , e bom navio , paf- 
fando grandes riícos , e trabalhos , foi tomar 
a Cidade deS. Thomé. Era efte homem nef- 
te tempo de mais de fetenta annos , grande 
de corpo , fecco , enxuto , bem aflbmbrado , 
grande Cavalleiro , e ardilofo na guerra. 
Nunca foi cafado , teve alguns filhos natu- 
raes ; apofentou-fe naquella Cidade , onde 
fempre foi rico , e honrado , ç onde mor- 
reo. Dalli acudia com muita prefteza aofer- 
viço d^ElRey , e era chamado dos Gover- 
nadores pêra grandes neceílidades. 

E pêra concluirmos com as coufas defc 
te verão , o faremos com a jornada de Ma- 
noel Rodrigues Coutinho , que, como diíTe- 
mos no VIL Cap. do V.Liv. , tinha já par- 
tido de Dio aefpiar as galés. Seguindo fua 
derrota , foi haver vifta da cofta de Arábia ^ 
por onde foi tomando falia , e achou por no- 
vas ferem pafladas pêra dentro doEftreito, 
e na boca delle tomou huma gelva , onde 
foube ferem todas as galés recolhidas a Suez, 
E voltando pêra Goa > chegou a ella em 

fim 



478 ASIÀ de Diogo de Couto 

fim de Abril , e deo conta ao Vifo-Rey do 
que pairara , com o que ficou defalivado. 

CAPITULO IX. 

Do que aconteceo a Fernão de Mera es em 
Pegú : e de como o Brama entrou conquif- 
tando aquelle Reyno : e de como Fernão 
de Moraes por favorecer aquelle Rey foi 
morto em huma batalha : e do principio , 
e origem defles Reys de Pegú: e deferi- 
pfdo daquellas Provindas. 

PArtido Fernão de Moraes de Goa, co- 
mo atrás diffemos no fim doCap. VII. 
do Liv. V. , feguindo ília derrota pêra Pe- 
gú , foi já em Maio tomar aquelle porto , 
aonde achou Diogo Alvares Telles com ou- 
tro galeão , com que eftava já alli do verão 
paflado , fazendo reigate muito devagar por 
não acudirem fazendas por caufa das guer- 
ras , que o Rey do Brama andava fazendo 
por todo aquelle Reyno , por quem tinha 
entrado com groííos exércitos pêra o con- 
quiftar. O Rey de Pegú, que não citava po- 
derofo , como já fora , quiz-fe valer dos 
Portuguezes , e mandou pedir a Diogo Al- 
vares Telles o quizeffe ajudar naquellas guer- 
ras , do que fe elle efeufou , porque tinha 
aquelle galeão d'ElRey a feu cargo , e não 
tinha licença do Vifo-Rey da índia. Agora 

ia- 



Dec. V. Liv. V- Cap. IX. 479 

fabendo fcr chegado Fernão de Moraes , o 
mandou vilitar com grandes offerccimentos , 
e a pedir-lhe, que fe vifle com elle, o que 
elle fez contra o parecer de Diogo Alvares 
Telles. E indo-o vifuar muito bem acorri"- 
panhado , lhe pedio o quizeíle ajudar na- 
quellas guerras , fazendo-lhe tantas prome£ 
fas , que o rendeo. E aflim affentáram , que 
elle ficaíTe nos rios com toda a Armada , 
que era muita , porque também o Brama ti* 
nha mettido no mar a maior força , e pe- 
los rios abaixo tinha defcido com hum gran- 
de número de embarcações , a que chamam 
Chalavegões, e fe remão com duas ordens 
de remos , e são mui grandes , e capazes de 
muita gente- Fernão de Moraes armou hu- 
ma galeota , em que fe embarcou com íín- 
coenta homens , e começou a andar pelos 
rios com toda a Armada de Pegú , encon- 
trando-ie algumas vezes com embarcações 
do Brama , que deílruio , e afTolou. O Bra- 
ma tinha partido de feus Reynos por terra 
com grandes exércitos , com que hia mar- 
chando devagar , pelo que as fuás Arma- 
das chegaram primeiro , que eram tantas , 
que entulhavam os rios , que eram tão gran- 
des como o Ganges. EIRey foi defeendo 
como hum arrebatado torrente , alagando, 
affolando , queimando , e deftruindo todos 
os Reynos de Pegú até chegar aos confins 

def- 



480 ÁSIA de Diogo de Couto 

deita Cidade , em cujos campos EIRey e£ 
tava com fcus exércitos. E vendo o poder 
com que o Brama hia , não oufando ao ef- 
perar , fe foi recolhendo pêra a banda de 
Negraes , aonde andava Fernão de Moraes 
com toda a Armada. O Brama chegou á 
Cidade de Pegú 3 e a tomou , e foi logo 
leguindo o inimigo por terra 5 e por mar 
com fuás Armadas. E chegando ellas a hu- 
ma ponta , que fe chama Gina marreca , que 
Fernão de Moraes tinha tomado com íua 
Armada , por fer muito eftreito ; e encon- 
trando-fe aqui ambas as Armadas , trava- 
ram huma batalha temerofiílima , em que 
os Portuguezes moftráram bem o valor de 
fuás peíloas ; porque fendo defamparadcs 
da Armada de Pegú , fuflentou Fernão de 
Moraes com fó a fua galeota todo o pezo 
da batalha , fendo abordado por todas as 
partes daquelles Chalavagoes ; mas como o 
número era tão deíigual •, foram entrados 
os Portuguezes , e mortos todos, tendo pri- 
meiro feito nos inimigos tamanha deftrui- 
ção , que era coufa efpantofa de ver , dei- 
xando Fernão de Moraes tamanha memo- 
ria de íi , que ainda hoje dura , e durará 
antre os Bramas naquelle lugar de Gina 
marreca , por cuja morte he antre elles mais 
celebrado , que por feu próprio nome. 
Será eíte. lugar perto de três léguas pe- 
lo 



Dèc. V. Liv. V. Cap. BE. 481 

lo rio de Pegú aflima. He hum paíTo mui- 
to eítreito , como já diflemos , e da banda 
do Ponente tem huma ferra , que pende fo- 
bre a agua i afperifTima , e talhada ao pi* 
cão toda á roda , em que fe fe fizer huma 
fortaleza , pode defender a entrada do rio 
faciliííimamente a todo o poder do Mun- 
do ; porque toda a embarcação que fóbe 
pêra fima , chegando áquelle paíTo não vê 
o rio diante , porque faz volta , e leva o 
rofto fempre naquella ferra , por cujo pé 
ha de paífar. Tanto que efta Armada fe des- 
baratou, logo fe perdeo todo o Reyno de 
Pegú , de que o Brama ficou fenhor , e con- 
quiíiou outros Reys vizinhos , que ajuda- 
vam ao Rey de Pegú , que elie houve áf 
mãos , e lhes cortou as cabeças- Com ifto 
ficou o mor Senhor Gentio, que havia em 
todo o Oriente* E porque nos não lembra 
que lefTemos em alguma efcritura o princi- 
pio , e origem defte Reyno de Pegú , e de 
feus Reys 5 ao menos como o elles tem em 
fuás efcrituras > nos pareceo bem darmos 
aqui razão d ifto , o que não deve deferdef- 
aprazivel aos curiofos > e aífeiçoados a an- 
tiguidades. 

Pelo que fe ha de faher, que o Reyno 
de Pegú o feti verdadeiro nome he Pachou , 
por fe chamar aíTim a fua principal Cida- 
de , cujo nome quer dizer Engano , por 
Couto. Tom. IL P* I. Hh hum 



482 ÁSIA dé Diogo de Couto 

hum de que hum Príncipe alli ufou em hum 
defafio , como logo diremos. Dizem fuás 
efcrituras , que reinando em todas aquellas 
partes de Pegú , Tanaçarim , Rey, Marta- 
bão , e em outros Reynos ao Norte , hum 
Rey da caíla do Sol , (de que já dêmos ra- 
zão no Cap. X. do IL Liv. , ) fora ter á- 
quelle porto de Pegú huma muito grofía 
Armada , em que hia hum Rey , que defe- 
jando de conquiftar aquelle Reyno , fahíra 
em terra com hum groflb exercito , e en- 
trando por aquellas terras , as foi conquiftan- 
do , e deílruindo , tendo algumas batalhas 
com aquelle Rey , em que houve grandes 
damnos de ambas as partes* Canfados de 
tantas mortes , mandou o Rey Eftrangeiro 
defafiar o de Pegú , de peflba a peííoa , con- 
fiado em fer hum homem agigantado , e de 
monílruofas forças. A efte defafio lhe fa~ 
hio hum filho do Rey de Pegú , mancebo 
de vinte annos , muito valente homem , e 
mui exercitado nas armas , e creado no mon- 
te , onde tinha mortos á efpada muitos ti- 
gres , e leões. Entrados ambos em campo , 
( naquelle lugar , em que hoje he a Cidade 
de Pegú , que então era tudo campina , ) e 
andando em batalha , já depois de feridos 
ambos, e de muito grande efpaço, no ma- 
ior fervor, e braveza delia, bradou o Prín- 
cipe alto , dizendo : Ah falfo , que trazes 

gen- 



Dec. V- Liv. V. Cap. IX. 483 

gente comtigo pêra te favorecer : o outro 
virando o rofto , cuidando que vinha al- 
guém , o Príncipe como era muito ligeiro , 
entrou com elle , e lhe deo huma eftocada 
pela barriga , de que o virou morto , fican-* 
do o mancebo vitoriofoj e porque por alli 
fe acabou aquella guerra , e o Reyno ficou 
livre por induílria , e esforço do Príncipe, 
mandou EIRey em memoria daquella bata- 
lha fundar naquelle próprio lugar em que 
cila foi , huma muito formofa Cidade , a 
que poz nome Pachou , que em fua língua 
quer dizer Engano , pelo que o Príncipe 
uíòu no defafio. 

E porque , como já diffemos , fempre 
mifturam fabulas em todas fuás coufas pêra 
darem honrofos princípios a feus Reys , e 
Reynos , fingiram , fegundo contão fuás e£ 
crituras , que mais de mil annos antes difto 
eftava já profetizada a fundação defta Cida- 
de ; porque dizem , que andando por aquel- 
las partes aquelle Santo feu , a que chamam 
Budão , ( de que em outras partes já falía- 
mos) trazendo grandes companhias de dif- 
cipulos , que o feguiam , andando naquelle 
Reyno de Pegii eníinando a falvação aos ho- 
mens , eílando naquelles campos de Pega 
fobre hum tezo , pondo os olhos naquella 
parte , em que fe efta Cidade fundou , ( que 
então era huma grande alagôa , em cujo 
Hh ii meio 



484 AS1A de Diogo de Couro 

meio fe fazia hum Uheo , em que eftavam 
dous paíTaros grandes como patos , comcrif* 
tas como gallos , de que ha muitos em Pe- 
gú ,) e virando pêra os difcipulos , lhes dif» 
fe : Ainda em aquelle lugar fe ha de vir a 
fundar huma grande Cidade , em que eu 
hei de Jer venerado , e honrado ; e aílim o 
he , porque nella tem hoje formofiífimos 
templos, e varellas. E os patos que eftavam 
no Ilheo , tomaram os Reys > que depois fo- 
ram , por armas , como hoje os trazem os 
Reys de Pegú. Eftende-fe efte Reyno defde 
Tanaçariín ( que são os limites feus , e do 
Reyno de Sião ) até á boca do rio de Pe- 
gú , que são cem léguas por coita , e dalli 
virando ao Suduefte até á ponta de Negraes , 
e voltando ao Norte fenece em Negrama- 
le, (que são feus termos , e os do Reyno 
deArracão,) em que haverá outras cem lé- 
guas por cofta. Pêra o Norte 5 e Nordefte 
fe eílende até mais de quarenta grãos de al- 
tura , e parte com o Reyno do Cathayo , 
cujos eftremos he a Província dos Turcos, 
que o Pegii lhes tomou. Pela banda do Nor- 
te , e Noroefte parte com o Reyno de Avá , 
pelo Nafcente com Yão , pelo Sul com o 
mar Oceano , e pelo Ponente com o Rey- 
no de Arracão. Tem efte Reyno de Pegú 
duzentas e fete Cidades , a fora innumeraveis 
Villas , çuj^ cabeça de todas he a de Pa- 

çhou; 



Dec, V. Liv. V. Cap. IX. 48? 

chou ; e as mais principaes são Clomo , 
Chrepó , Sanchi , Chaltil , Sataug, Sobu- 
nabú , em que naícem diamantes , efmeral- 
das , ouro , prata , robiz , e em algumas , que 
eftam fobre o mar , fe pefcão aljofres. He 
Reyno muito abaftado de mantimentos , ga- 
do , manteigas , legumes , aves , caíTa. Da- 
qui vai o lacar pêra todo o Oriente , e hum 
fiado de cores , vermelho 3 preto , azul mui- 
to fino , com que fe fazem muitas roupas 
finas : e tem outras muitas coufas > que dei- 
xamos , por fugir prolixidade. 

Fim do Liv. V. da Década V. 




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DS Barros, João de 

4-U Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

B275 
1778 
v.5 
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